domingo, julho 12, 2009

a queda da máscara

António Chora foi a um almoço de homenagem a Manuel Pinho. Perguntado sobre o que achava da presença do seu camarada de partido no evento, Francisco Louçã disse que era uma coisa da vida pessoal do sindicalista. O extraordinário é que o conseguiu dizer sem que um traiçoeiro pequeno sorriso lhe aflorasse a cara.
Quem conhece, por muito pouco que seja, a história da extrema-esquerda sabe que esse luxo pequeno burguês de ter amizades com os inimigos de classe ou até vida privada não é tolerável.
Isto seria mais que suficiente para que António Chora tivesse o seu destino traçado, mas, para piorar as coisas, ainda teve a irresponsável ideia de pensar pela sua cabeça, assinar um acordo com a administração da Autoeuropa e elogiar a acção do ex-ministro.
Num toque de humor ou ingenuidade, o líder da comissão de trabalhadores da Autoeuropa ainda afirmou que no Bloco de Esquerda os militantes têm a máxima liberdade. Das duas, uma: ou está enganado no partido ou ainda não percebeu onde está metido. Mas de uma coisa pode estar certo: não tarda em perceber.
A sua sessão de autocrítica deve estar já agendada e o resultado terá a marca registada do Bloco: um afastamento suave e gradual mas definitivo.
Alguns dos seus camaradas farão umas críticas veladas sobre alguns aspectos da sua personalidade e das suas amizades; apesar da sua notoriedade não constará das listas de deputados a apresentar pelo Bloco de Esquerda - ou entrará num lugar que tornará impossível a sua eleição - com a desculpa de que não se pode distrair da sua acção sindical em tão importante momento; no próximo congresso desaparecerá da Mesa Nacional do partido.
Pouco importa que o operário da Autoeuropa seja a única figura sindical relevante ligada ao Bloco, que a sua acção responsável seja elogiada por todos, que muito pela sua actividade os trabalhadores desta empresa tenham das melhores condições laborais que se podem encontrar em Portugal. Nada disso tem importância para o Bloco de Esquerda. O importante é ser contra e não colaborar. Uma atitude construtiva é algo tão desprezível para esta agremiação como um pedaço de presunto para um muçulmano.
Mais do que ir ao jantar organizado em honra de alguém que aprecia, António Chora tem uma característica imperdoável: faz e aparentemente gosta de pessoas que façam.
Isto de fazer é muito perigoso: corre-se o risco de ser avaliado.
O Bloco de Esquerda receia o poder, não por o não querer mas porque não acredita na democracia liberal. O exercício do poder com as regras desta levariam à aceitação de um conjunto de princípios que o Bloco rejeita e que o transformariam num partido como os outros.
A semelhança com o Partido Comunista é evidente. Também este sabe o custo que acarretaria o exercício do poder: o fim ou a condenação à irrelevância.
Logo, a estratégia é óbvia: quanto pior, melhor. Quanto mais ingovernabilidade, mais instabilidade, mais perturbação, mais o sistema estará em causa e a revolução mais próxima. Nada de procurar soluções, nada de pactos, nada de colaborações com pessoas ou instituições do sistema democrático.
E é isso que certos sectores do Bloco não percebem ou fingem não perceber.
A verdade é que o combate entre os bloquistas que acreditam na democracia liberal e os outros foi apenas aparente. Aqueles foram uma espécie de idiotas úteis a quem foi dado o papel de construir uma imagem de respeitabilidade e modernidade.
Bem preparados e dominando o espaço mediático, cavalgaram as chamadas causas fracturantes através das quais seduziram o eleitorado jovem e urbano e, muito por força do seu trabalho, construíram a actual base eleitoral do partido.
Enquanto lhes eram tolerados devaneios como opiniões próprias e discordâncias pontuais, os verdadeiros ideólogos e donos da máquina partidária esperavam pelo momento em que se podiam ver livres destes traidores de classe.
O papel destes está cumprido. A revolução já não precisa deles. Uns - os afortunados - foram remetidos para a Europa e os outros serão oportunamente afastados.

Pedro Marques Lopes in DN, 12 Julho 09

obs: há melhor prova disto do que o afastamento de Joana Amaral Dias da actual direcção do Bloco?

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