sexta-feira, agosto 14, 2009

Ai, Portugal, Portugal...

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Jorge Palma

Que futuro pode realmente ter Portugal quando não se pensa o passado? É que infelizmente é se escravo do presente, ou quanto muito do futuro imediato, e não há nem houve hábito de examinar e avaliar os erros do passado.

A história enquanto ciência social é algo mais do que ler livros, papeis antigos e dizer um x número de lugares comuns. Pela história podemos analisar as tendências sociais, políticas e económicas que norteiam os tempos. Através dela vemos que há ciclos, e nem estamos obrigatoriamente a dar razão à visão marxista, simplesmente há ciclos como os há na própria vida humana e como nela convém compreende-los para melhor viver e avançar.

Como Eduardo Lourenço referiu uma vez um dos nossos maiores problemas é o excesso de auto-estima, e não como muitas vezes se apregoa o contrário. Vivemos constantemente de acordo com uma recordação nacionalista de que já fomos grandes e por isso acredita-se que só por si tudo voltará ao lugar. Mas não. Só por si não. E importa perceber que esse é um dos aspectos fundamentais do nosso atraso, a incapacidade para compreender o conceito de comunidade. Ou seja, há e sempre houve uma tendência para acusar os outros de não se mexerem e continuar descansado a ver crescer as ervas daninhas no seu quintal.

Ao mesmo tempo que há essa falta de apoio e ligação entre os portugueses para uma construção comum, que só existe ocasionalmente em grandes momentos desportivos ou quando o perigo externo é real, existe um outro problema que é igualmente resultado da falta de leitura histórica - a incapacidade de analisar friamente o presente. Como diz novamente E. Lourenço:"Vivemos hoje tempos melhores do que os que conhecemos no nosso passado recente, e só quem não passou por eles pode desvalorizar esta evolução. Não podemos ser tão pessimistas, talvez tenhamos de reconhecer que os intelectuais, e eu também, sofrem por vezes de um excesso de espírito sonhador, até com uma carga utópica. Depois desiludimo-nos porque a realidade não desaparece e está onde está para nos tirar as ilusões." Basicamente, isto significa que o pessimismo resultante da falta de análise imparcial obriga, muitas vezes, a tomada de posições demagógicas dos políticos ou de outras figuras importantes da sociedade. A demagogia por sua vez resulta em mentira, falsidade e outras acções que descredibilizam a confiança de cada um no outro.

Para o caldo ficar devidamente estragado convém que se tenha acrescentado ao excesso de auto-estima colectiva, à falta de análise histórica, outra característica tipicamente lusitana - a apetência pelo vago. Sempre houve, e nota-se sempre mais na classe política, um especial gosto pela não tomada de posição. Se não se definir claramente uma coisa ficamos livres da responsabilidade em caso de falha. Só assim se entende que os programas de governo sejam sempre chorrilhos de lugares-comuns, onde raramente se encontram ideias concretas. Do PC ao PP, passando por todos os outros claro, temos a garantia de menos impostos, maiores ordenados, melhores casas, mais produtividade, menor tempo de trabalho, mais trabalho para todos, mais filhos, melhores casamentos, liberdade religiosa, sexual, política, etc, de tudo um pouco. Mas sempre vago. Porque todos sabemos que é impossivel ter tudo ao mesmo tempo. Mas, isso não se diz. Perde-se votos. Mas, perde-se também credibilidade.

E significa isto tudo que temos que acabar com a democracia, com os partidos, com os governos? Não. Nunca! Pelo contrário. O problema não são os políticos mentirosos, criminosos ou incompetentes nas sim as pessoas que votam neles. Que criticam levianamente mas nada fazem para mudar. Na política e nas suas vidas. Que mandam papeis para o chão, que cospem, que não são competentes nem profissionais nos seus trabalhos, que se orgulham das vigarices e chico-espertices, que saem sempre cinco minutos mais cedo ou fazem ronha no trabalho porque todos os fazem. Porque ninguém esta isento de culpa. A culpa em sociedade é mesmo assim é repartida. A responsabilidade também. E os resultados idem.

E toda esta análise vem a próposito de quê? É simples... Ontem saiu uma noticia que indicava que o PIB subiu uns ligeiros 0,3%, o que é notoriamente pouco mas é quer se queira quer não positivo. Exceptos para os habituais profetas da desgraça, os mesmo que garantiram alguns dias antes que havia sinais de que a economia recuaria 0,6%. Ups! Erro! Não é grave, também nunca ninguém é confrontado com as suas declarações com mais de 30 minutos. Mas, infelizmente e como é hábito em tantas outras coisas há sempre uma noticia negativa a contrabalançar... a taxa de desemprego atingiu os 9,1%. O que é um valor significativo. Alarmante. Mas, também o que esperavam de um país que sempre viveu assim com pouca produtividade, com poucos empregos, e muito sol para fazer sorrir. Um país onde a lei do tabaco foi a melhor que aconteceu, pois só assim a pausa para o café e cigarrinho pode demorar um pouco mais e a manhã passa num pulinho e a tarde nem se fala.

Estas duas noticias opostas não são nem retrato de uma vitória nem de uma derrota política ou partidária são apenas o espelho das pessoas que as comentam alarvemente em vez de lerem todo o contexto. De pararem para ler os outros países, as outras economias, as outras histórias, as outras vidas. Estas notícias são os melhores presentes envenenados que alguns ressabiados podem receber...

1 comentário:

il _messaggero disse...

Infelizmente, revejo em algumas passagens deste (excelente) texto...

Quanto à questão da recuperação económica, há que ter em conta metade dos empregos destruídos pela mesma, nunca serão recuperados.

Quanto à falta de devido distanciamento histórico, creio que o problema não é meramente nacional.

Voltando ao meu primeiro parágrafo, mais que diagnosticar, urge agir e tomar posição...