domingo, agosto 23, 2009

mais PM e PR...

Estado de consternação

Quando Mário Soares era Presidente da República e eu era director do Público, tivemos uma conversa telefónica em que, a dada altura, se ouviram uns ruídos estranhos na linha. Dei--me conta da bizarra interferência, apesar da minha fraca audição, enquanto Soares confessava estar já habituado a ocorrências do género. Rimo-nos ambos e eu pedi-lhe que me deixasse mandar o hipotético escutador a um certo sítio pouco aprazível.

O episódio ficou por ali e não apareceu notícia nenhuma no jornal, ‘encomendada’ por Soares, sugerida por um assessor presidencial fantasma ou decidida por mim. E não apareceu porque não havia factos que sustentassem qualquer notícia digna desse nome, apenas uma suspeita que, entretanto, se foi tornando, com a passagem dos anos, cada vez mais trivial, como se em Portugal as centrais de escuta se tivessem disseminado a uma velocidade supersónica.

Na época em que essa conversa telefónica aconteceu, o primeiro-ministro era Cavaco Silva e as relações entre ele e Soares estavam, como ficou para a História, muito longe da amenidade política. Mas o Presidente de então, apesar das suas suspeitas, não se queixou publicamente ou, que eu saiba, utilizou algum dos seus assessores para intrigar junto da imprensa (pelo menos, certamente, junto do Público) sobre a eventualidade de estar a ser escutado por Cavaco (ou por alguém a mando dele).

Suspeitas, repito, não são factos, muito menos quando aparecem difundidas através de uma única fonte anónima, sem confirmação plausível. Por muito que a suspeição de sermos ouvidos por outrem em conversas privadas seja insuportável e envenene o clima que é suposto vigorar num Estado de Direito, pior ainda será que se especule gratuitamente acerca disso enquanto não se apurar um fundamento razoável para tais suspeitas.

O verdadeiro jornalismo é feito de factos apurados, não de meras presunções ou suspeições que, por outro lado, têm como base fontes que se refugiam no anonimato e na irresponsabilidade. Mas, nos dias que correm, não faltam jornalistas prontos a acolher avidamente todos os pretextos de intriga e bisbilhotice política, desde que isso lhes ofereça uma manchete para agitar o pântano da silly season e vender mais uns tantos exemplares, neste momento de crise aguda em que vive a imprensa.

Particularmente lamentável, porém, é quando alguns desses jornalistas se tornaram conhecidos por uma carreira marcada pela isenção profissional, como é o caso de São José Almeida, autora do texto que deu origem à manchete do Público da passada terça-feira. Se entre os melhores há já quem ceda à tentação de mandar a deontologia às urtigas, que podemos esperar dos outros – e a que jornalismo teremos direito?

Seguindo a rota da ‘notícia’, cujo objectivo seria criar um clima de afrontamento bélico decisivo entre Cavaco e Sócrates, verificamos que ela começa num jornal quase confidencial, o Semanário, o primeiro a relatar que assessores de Belém estariam a contribuir para o programa eleitoral do PSD. Logo a seguir, duas figuras de segundo plano do aparelho do PS, José Junqueiro e Vitalino Canas, que nunca perdem uma oportunidade para pôr-se em bicos de pés, aparecem a exigir que a Presidência esclareça se isso corresponde à verdade. É então que surge uma fonte anónima de Belém, na qual o Público exclusivamente se baseia para construir o destaque da edição de terça-feira, extraindo desse testemunho fantasma um enredo de comicidade aterrorizante: «O clima psicológico que se vive no Palácio de Belém é de consternação e a dúvida que se instalou foi a de saber se os serviços da Presidência da República estão sob escuta e se os assessores de Cavaco Silva estão a ser vigiados».

Entretanto, o mais curioso é que a fonte anónima não desmente expressamente a colaboração de assessores de Belém na campanha eleitoral do PSD. Pelo contrário, neste teatro de sombras e suspeitas cruzadas, o motivo aparente e inconfessado da «consternação» no palácio presidencial (imaginam-se os rostos contristados e o ambiente de cortar à faca) seria o de a espionagem telefónica ter detectado essa colaboração secreta entre os homens do Presidente e a equipa de Ferreira Leite.

Se o ridículo mata, a hipocrisia não é menos mortífera. Basta seguir os sinais emitidos pelas recentes intervenções do Presidente (os seus vetos sucessivos, as suas queixas oblíquas contra o Governo) para se confirmar o que toda a gente está farta de saber: Cavaco já terminou há muito a fictícia (e mutuamente hipócrita) lua-de-mel com Sócrates e a sua favorita eleitoral é a velha amiga e colaboradora dos tempos em que o actual PR reinava directamente sobre o partido laranja. Aliás, a imparcialidade presidencial é um dos mitos insustentáveis da nossa Constituição, pelo menos sempre que se verificam situações de coabitação política entre um Presidente e um Governo de origens partidárias diferentes.

O discípulo mais querido de Cavaco e, porventura, o artífice principal da campanha da sua eleição, Alexandre Relvas, não faz formalmente parte do staff de Belém, mas preside ao Instituto Sá Carneiro, o principal think tank do programa de Governo do PSD (é supostamente um formigueiro de ideias e propostas inovadoras que, segundo o próprio Relvas, deverá deslumbrar os portugueses). Ora, se o homem mais chegado a Cavaco é um dos estrategas fundamentais de Ferreira Leite, que impedirá outros consultores (formais ou informais) do Presidente de darem também os seus contributos?

Será precisa uma central de espionagem para revelar o mistério e criar um clima de ‘consternação’ no palácio presidencial? O mais apropriado seria falar, sim, do estado de consternação em que vive o país, ao sabor das ridículas guerras do alecrim e da manjerona entre Belém e São Bento, enquanto a imprensa se deixa manipular pelo anonimato, a irresponsabilidade e a hipocrisia política.

Vicente Jorge Silva in SOL, 21 Agosto 09

nota: sublinhados da minha autoria

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