sexta-feira, agosto 14, 2009

Por que é que o CDS/PP nos toma por parvos?

O CDS/PP já colocou na rua cartazes para as legislativas. Pelo menos é o que se presume serem os cartazes que o CDS/PP colocou nas ruas, já que as próximas eleições são legislativas. E que dizem, que propõem, que prometem os cartazes do CDS/PP? A bem dizer, os cartazes do CDS/PP interrogam. Por exemplo: "Por que é que os criminosos têm mais direitos que os polícias?". Ou "É justo dar o rendimento mínimo a quem não quer trabalhar?".

Com estas singelas perguntas, o CDS/PP diz-nos, aos passantes que lêem os seus cartazes, uma extraordinária série de coisas. Desde logo, que em Portugal os criminosos têm mais direitos que os polícias e que quem recebe o rendimento mínimo não quer trabalhar. Depois, que apesar de afirmar, insinuando-as, as duas enormidades anteriores, não tem coragem de dizer claramente ao que vem, ou seja, não se atreve a propor que "os criminosos" deixem de ter direitos - como, desde logo, o direito a não serem considerados criminosos excepto quando tal é provado nas instâncias próprias, ou seja, os tribunais; o direito a defesa, garantido constitucionalmente e fundamental distinção entre o Estado de Direito e a barbárie; o direito à vida (ou seja, a não serem executados a sangue frio à esquadrão da morte), e outras minudências do mesmo tipo - e que se acabe com o rendimento social de inserção, lançando na total miséria (com o que isso naturalmente implicaria em termos de criminalidade, mas isso agora não interessa nada ao CDS/PP) todos os que são por ele abrangidos por manifesta incapacidade de prover a uma sobrevivência digna.

Não: o CDS/PP toca e foge: quer ter um discurso de extrema-direita tentando não perder completamente a aparência de respeitabilidade e de ligação aos valores democrata-cristãos que gosta de propalar. O CDS/PP quer os votos dos que acham que "os criminosos" deviam ser abatidos a tiro sem contemplações e dos que acham que os pobres são pobres por sua exclusiva culpa e não merecem ajuda, mas quer poder não colocar nada disso no seu programa para, se se der o caso, fazer coligações e governar sem lhe virem cobrar essas "medidas". O CDS/PP sabe, aliás que foi governo de 2002 a 2004, que o seu presidente foi ministro de Estado nesse período e que teve um ministro da Solidariedade, Bagão Félix, que se limitou a alterar o nome do Rendimento Mínimo criado pelo Governo de Guterres para Rendimento Social de Inserção. O CDS/PP sabe que é, mais coisa menos coisa, o diploma assim alterado que está em vigor ainda hoje - o tal cujas regras o CDS/PP questiona nos seus lamentáveis cartazes e ao qual, significativamente, voltou a trocar o nome. O CDS/PP quer, afinal, vender a alma ao diabo sem ninguém reparar. E o mais extraordinário é que parece acreditar que isso é possível.

Fernanda Cãncio in DN, 14 Agosto 09

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