sábado, setembro 05, 2009

Asfixia democrática

Não demorou muito. É típico em Portugal, mas desta vez bateu, com toda a certeza, algum recorde olímpico. Assim que o último partido apresentou o programa eleitoral, terminou a discussão das ideias. Bem sabemos que há uma overdose de dez debates, mas o que ocupa verdadeiramente o espaço mediático é a "asfixia democrática", as denúncias que não chegam a ser concretizadas e a corrida que a Administração da Prisa deu em Manuela Moura Guedes.

O país inteiro terá pensado de imediato que o foi o PS que acabou com o "Jornal Nacional" de sexta- -feira, mas demorou pouco a mudar de opinião. Na lógica do "diz-me a quem interessa o crime, dir-te-ei quem é o criminoso", toda a gente percebeu que o PS é o partido mais prejudicado com esta decisão a três semanas das eleições e, portanto, não poderiam ter sido eles.

Vale o que vale. Há um historial de queixas de Sócrates em relação à TVI e isso por si só é uma forma de pressão. Dir-se-á que é legítima, porque Sócrates, pelo facto de ser primeiro-ministro, não está inibido de se defender e de criticar o que julga ser criticável. A verdade é que, mesmo tendo havido pressões, a maioria das pessoas tem agora a tendência para pensar que ninguém é tão estúpido para fazer uma coisa destas em período eleitoral.

Neste aspecto, a Esquerda (PCP e Bloco) foi bem mais eficaz que a Direita (PSD e CDS). A Esquerda não quis fazer juízos de intenção e limitou-se a recordar o historial de conflitos entre a TVI e o PS, enquanto que a Direita não hesitou em culpar directamente o PS pelo sucedido. Deixar que as pessoas julguem com base no que conhecem é sempre melhor que impor-lhes uma "verdade" assente, apenas, num sentimento. Mais ainda, a escolha dos protagonistas da Direita (Aguiar-Branco e Paulo Portas) deu um pretexto ao PS para se defender. Os dois eram ministros quando Marcelo foi obrigado a deixar a TVI.

Mas a vida não corre bem a José Sócrates e ao PS. A teoria da "asfixia democrática", assente muitas vezes em acusações não concretizadas, como foram as escutas em Belém ou a pressão sobre empresários/militantes do PSD, faz caminho. O modo, sempre muito susceptível, como a equipa de Sócrates lida com os media ajuda a que teoria colha apoios entre os jornalistas e leva a opinião pública a acreditar na possibilidade de existir um abuso de poder. O debate feito à volta destes temas cria, aliás, um pretexto emotivo para os eleitores castigarem o partido que está no governo.

Estamos em campanha, toda a opinião é avaliada pela direcção que toma, mas não pode deixar de se perguntar: O PSD no poder estaria disponível para aceitar, de bom grado, um jornal como aquele que era dirigido pela jornalista Manuela Moura Guedes?

Estamos em tempo de adivinhar a necessidade de um Bloco Central. O Poder deve dirigir a sua actividade em benefício do bem comum. Os partidos do arco do poder querem manter a roda livre em que vive o jornalismo justiceiro? Quer o povo informado ou controlado? Quer a actividade jornalística contra o poder ou a favor do contraditório?

Neste país em que vivemos é o negócio que impera. Políticos, agentes judiciais, banqueiros, empresários e sindicatos ou controlam a Comunicação Social ou são vitimas do mau jornalismo. Custa muito assumir que bom jornalismo é apenas uma pequena parte do todo, mas é preciso que se faça cumprir as regras.

Asfixia democrática é jornalismo sem regras. Já que andam todos com tanta coragem, alguém está disponível para impor responsabilidade? É que é muito bonito viver à pala do ataque gratuito ao poder para parecer jornalista isento, mas o povo não ganha nada com isso.

Paulo Baldaia in JN, 05 Set 09

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