domingo, setembro 27, 2009

carta aberta a Creil

21 Abril de 2002 - Talvez esta data não te diga nada mas a mim diz muito. Ela é o paradigma de uma lógica de pensar a política em que as escolhas são feitas por negação e não pela positiva. O voto anti-partidos terminam sempre penalizando todos e basta recordar a história recente da Europa para o perceber. Só não vê quem pretende ser cego para depois pedir justificações a tudo e todos pelo que não se mexeu.

No caso que me é mais querido – a esquerda – a história enche-se de exemplos onde a fragmentação ideológica e a dispersão política favoreceram sempre a direita. Atente-se a Espanha, Itália ou Portugal. Mas, sobretudo veja-se o exemplo francês onde esta pulverização deu aso a que Le Pen – o candidato de extrema-direita que é mais conhecido por negar o Holocausto e por promover o ódio aos emigrantes do que por proposta concretas para a evolução da França – chegasse à segunda volta das Presidenciais. Para mim isto todo este quadro é assustador embora só seja possível que um homem destes exista porque existe democracia. Se fosse ele a ditar as leis certamente não haveria Le Pens à esquerda.

Desculpa! Mas votar em qualquer partido melhor do que votar PS é uma frase abusivamente demagógica e hipócrita. Mais do que isso atesta uma falta de conhecimento e análise política. Podemos certamente realçar que as diferenças entre esquerda e direita se esbateram na contemporaneidade mas elas continuam a existir. A esquerda e a direita continuam a ter concepções divergentes em relação ao conceito do intervencionismo estatal e privatizações, saúde, educação, cultura, liberdade individual, defesa, Europa e muitas outras áreas em que ocasionalmente tivemos oportunidade na campanha de observar. Certamente que votar PCP não é o mesmo para ti do que votar CDS, nem Bloco ou PSD. E espero que PS não seja o mesmo que PNR porque senão esta afirmação falaria muito por si só em relação à tua concepção do mundo.

Votar PS e mesmo contando com todos os erros cometidos e mesmo com as suspeições que não foram provadas não é a mesmo coisa do que votar num partido que defende a Monarquia como o PPM, ou votar num em que a candidata especializada em economia confunde IRC com IRS além de assumir que nunca leu Saramago até ao fim como o PSD, e muito menos num partido que ataca violentamente os estrangeiros e a liberdade como o PNR. Quem já viveu no estrangeiro, mesmo que como nós tenha sido em condições de trabalho não-precário ou enquanto estudante sabe bem que há diferenças de tratamento entre estrangeiros e nacionais e se acreditamos que um outro mundo é possível isso tem que mudar.

O voto é secreto mas as declarações de intenção não o são. Eu assumo que voto PS, sem complexos mas com alguma mágoa por algumas falhas governativas. E custa-me ver que outras pessoas cinjam a sua argumentação à análise leviana de um programa de governo onde procuram imprecisões em áreas que desconheçam mas sobretudo defendam que um programa vago como o do PSD é o ideal. Ou seja custa-me ver que não digam em quem votam mas defendam um partido ou façam uma alusão à abstenção ou ao voto em branco como solução. Como solução ou como desculpa para depois passar quatro anos a dizer mal de tudo e de todos?

Voto PS mas acima de tudo pretendo que tal como parece estar a acontecer, 22% ao meio-dia, haja uma grande participação. Será a prova cabal de uma democracia pujante e real ao contrário da potencial asfixia democrática que tentaram colar a este governo, estado, país. Mas mais do que isso pretendo que se vote esquerda. Mesmo que seja em dois partidos que assumem que não farão concessões nem acordos com o PS, prefiro um Portugal à esquerda e com todas as suas divergências do que um Portugal retrógrado, conservador e ultra-liberal.

Uma última palavra para ti, Creil. Não te conheço e apesar do tom desta carta poder parecer muito agressivo não o é na realidade. Simplesmente vivo muito intensamente este país e como tal incomodou-me que uma pessoa que parece ter a capacidade de análise da sociedade do momento político em que nos encontramos tenha caído na armadilha de achar que votar contra alguém é o melhor. O melhor para todos é votar pela positiva. Como eu referia num post recentemente (link) um dos maiores defeitos da identidade portuguesa é a dificuldade em assumir posições de forma a fugir às responsabilidades inerentes. Eu quero, tal como tu certamente, que haja espaço para todos nós trabalharmos e vivermos em liberdade e igualdade de direitos e escolhas. Quero que haja mais desbobinadores em Portugal.

Um abraço,
João Tibério


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