domingo, setembro 27, 2009

Não vou falar sobre o assunto

Ontem devíamos reflectir, hoje devemos decidir, daí que a crónica não aborde o assunto. Qual assunto? O assunto. Então vou falar de coisas bem mais giras. No Grande Prémio de Singapura, Fórmula 1, um bólide da Renault faz--se à curva 17, guina para esquerda e desfaz-se no muro... Um colega, que me espreita o computador, previne: "Ei, não vais repetir o que toda a gente sabe." Sabe?, perguntei eu. E ele: "No ano passado, o Briatore, patrão da Renault, convidou o piloto Nelsinho Piquet a simular um acidente na curva 17, em Singapura... O Briatore até foi expulso, há dias, da Fórmula 1. Isso toda a gente já sabe." Enxotei o colega. Eu estava a contar o Grande Prémio de Singapura deste ano. O piloto Romain Grosjean, da Renault, chocou contra o muro na curva 17 no treino de anteontem. Pus-me a reflectir sobre coincidências.
O sueco Kim Christensen gosta de estar aconchegado. Como trabalha entre postes - é guarda-redes do IFK Gotemburgo, líder do campeonato - tem o hábito de aproximá--los. É, pode-se. As câmaras de TV apanharam Christensen a dar pontapés na base dos postes. Como alguns são amovíveis, e os toques são de fora para dentro, ganha-se uns centímetros. Christensen disse que faz isso há muito e que é prática comum em todo o mundo. Por cá, quando vemos o guarda-redes a fazer coisas esquisitas dentro da baliza antes do jogo, pensamos logo em vudu. Reflicto: as explicações simples são muitas vezes as mais maravilhosas.
Barack Obama foi ao programa televisivo Late Show, de David Letterman. Este perguntou se as críticas às sua políticas não eram devidas a racismo. Obama: "É importante darmo--nos conta de que eu já era negro quando fui eleito." Eu penso (como era ontem, reflicto) que se Obama fosse esmiuçado em Portugal e desse uma resposta destas eu era multado pela Comissão Nacional de Eleições: apelava ao voto nele, apesar das proibições.
O escocês Jerry Morris vai fazer cem anos, fez sempre a sua corridinha diária e mesmo hoje é ágil. Mas não foi à custa das suas pernas que o Financial Times lhe chamou "O homem que inventou o exercício". No final dos anos 40, Londres teve uma epidemia de mortes por ataque de coração. Cientista num hospital, Morris achou que valia a pena, perante números tão altos, estudar as estatísticas. E foram os trabalhadores de transportes que o encarreiraram para a paragem certa. Nos autocarros londrinos de dois andares, os motoristas passavam o tempo sedentariamente sentados. Já os pica-bilhetes faziam 500 a 750 degraus por dia. E aqueles tinham o dobro de ataques de coração destes. Eu diria que se o mundo fosse justo, Jerry Morris devia ter percentagem nos lucros dos ginásios de todo o mundo. Mas reflicto e não digo: aplaudir inteligência prática e incentivar o mérito pode indiciar o meu voto.

Ferreria Fernandes in DN, 27 Set 09

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