quarta-feira, setembro 02, 2009

O vício da literatura: em revistas e sem lucro

A ideia nasceu de "um grupo de amigos que gostava de ver jogar o Benfica e nos intervalos discutia literatura". É assim que Rui Alberto explica a criação da revista "Callema", dedicada à publicação de textos inéditos de quem já tem nome e de quem (ainda) não tem voz.

Tudo começou no primeiro ano da faculdade, no curso de Estudos Portugueses. Rui e quatro amigos, "o núcleo duro da 'Callema'", queriam produzir uma revista na qual pudessem publicar textos sem ninguém que os censurasse. O sonho só se concretizou no fim da faculdade, em Novembro de 2006.

Ver o produto do esforço e trabalho de cinco rapazes entre os 25 e os 28 anos, "foi fantástico mas ao mesmo tempo estranho": "Foi óptimo ver que não era só conversa, que realmente conseguíamos fazer alguma coisa e foi estranho porque para alguns foi a primeira publicação."

A revista não dá lucro, mas também não dá despesas: auto-sustenta-se. Cada um tem o seu trabalho e um deles nem vive em Portugal - depois do curso decidiu procurar trabalho lá fora - mas nem por isso desistem do sonho: "Enquanto houver romantismo, isto vai para a frente. Estamos sozinhos, não podemos depender de ninguém, mas vale a pena."

Apesar de uma modesta tiragem de cem exemplares, a "Callema" recebe vários pedidos de colaboração, contos, ensaios e poemas dos quais vive, a par de "convites que são feitos a algumas pessoas, para cada edição". No número dois da revista contaram com três poemas inéditos de Nuno Júdice, escritor, poeta, ensaísta e professor universitário, num exemplar que esgotou.

No entanto, e por muito louvável que a ideia seja, a pergunta obrigatória é: o que leva estes jovens, que nem 30 anos têm, a entregarem-se a um projecto que não dá lucro? A resposta, romântica, não demora. "A partir do momento em que viemos a público, adquirimos um dever cívico: temos o dever de fazer ler, pensar e escrever." E se acha que tem qualidade para aparecer nas páginas da "Callema", tem bom remédio: callema@cooperativaliteraria.net. Mas não se esqueça que esta malta só aceita textos inéditos... e bons.

O reino digital Chama-se "Orgia Literária" (orgialiteraria.com) e é uma revista digital de crítica literária, online há mais de três anos. Nasceu pelas mãos de Emanuel Amorim de 24 anos e Gonçalo Mira, de 23: "A ideia era escrever só sobre livros, sobre o que gostávamos e líamos, mas depois fomo-nos tornando mais atentos às obras que saíam e hoje temos entrevistas e artigos generalistas sobre literatura."

Gonçalo acabou o curso de literatura este ano e espera encontrar trabalho rapidamente, mas nem a perspectiva de passar a ter menos tempo para a manutenção do site o demove: "É verdade que dá trabalho mas havendo vontade dá sempre para conciliar. O importante é que não sejamos só nós, continuando com os 20 colaboradores que já temos é mais fácil."

Sem lucros e com algumas despesas inesperadas (como a compra de um servidor próprio para alojar o site), estes dois jovens mantêm a revista digital, por amor aos livros e fidelidade à literatura.

Longe vão os tempos em que os movimentos literários usavam as revistas como palcos de ensaio para a experimentação de novos estilos. Apesar disso e da irregular periodicidade das revistas de hoje, parece que afinal as gerações de "Orpheu", "Presença" ou "Sudoeste" (Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, José Régio, Almada Negreiros) ainda respiram.

Diana Garrido in jornal i , 02 Set 09

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