sexta-feira, outubro 30, 2009

dos assuntos...

É verdade que a vida de alguém que viveu há trezentos anos é assunto mais para ratos de biblioteca do que para quem queira viver no presente. Eu, porém, nesse fim de adolescência, que é a altura em que se deveriam descobrir as mais profundas sensações e conhecer os outros na sua parte mais emotiva, não me interessava pelos vivos, preferindo os mortos, com quem se convive no silêncio das salas de leitura, mesmo que alguém tenha dito que estas são os lugares eróticos por excelência.

Nuno Júdice in Os Passos da Cruz

quinta-feira, outubro 29, 2009

Skhizein


by Jérémy Clapin, 2008

nota: via Tiago

dos amigos

E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências…
A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.

Vinícius de Moraes

publicidade institucional


ciência mata mais uma ilusão

As manifestações são uma terapia com provas dadas: convencem-nos de que as nossas ideias (chamemos-lhes assim, às frases rimadas) estão certas porque arrastam multidões. Já é discutível uma ideia ser certa porque é de muitos, mas o que agora se põe em causa é isto: multidões? A convicção de que uma manifestação é enorme nasce porque há sempre alguém esganiçando-se ao microfone: "Se isto não é povo, onde é que está o povo?" E os jornais do dia seguinte confirmam: "Meio milhão nas ruas!" Era assim, é assim, mas há que rever essas orgias de números - porque, agora, há tecnologia que apanha mais depressa uma manifestação do que um coxo. As notícias chegam de Espanha, de uma manifestação (por acaso de direita, mas com a esquerda seria o mesmo) contra o aborto. Estimaram os organizadores: 2 milhões. A Comunidad de Madrid (do PP, próxima dos organizadores): 1,2 milhões. A polícia: 250 mil. Extraordinária diferença! Mas ainda não viram nada. A empresa Lynce, especialista do assunto, pôs um zepelim no ar, com quatro câmaras de alta resolução e dois vídeos de alta definição. E não estimaram, contaram: 55 316 cabeças! A ciência lá nos deu cabo de mais uma ilusão. Mas nada está perdido: se cada um passar a levar um balão, a manifestação, filmada de cima, dobra.

Ferreira Fernandes in DN, 29 X 09

história de amor VI

gosto da tua foto. passo hora a olhar para ela. juro, que só desvio o olhar para ver o relógio. nunca mais ligas.tinhas dito que ligavas logo quando chegasses e já vão uns dias. estranho. já liguei para a estação e o comboio chegou a horas. e tu não ligas. estranho.
tenho-me portado bem. como a horas, limpo a casa e deixo tudo arrumado como gostas. só falta mesmo ouvir o toque do telefone. já tenho saudades. acho que se pode dizer isso. saudades, como no fado. tenho pensado que foi tão estranha a tua partida.
tudo tão abrupto. saíste assim a correr para apanhar um comboio que tinha que ser aquele. o berro escadas abaixo que logo ligarias quando pudesses. sabes, às vezes pareço que ainda oiço os teus passos e as tuas palavras nas escadas. coisas de louca, sem dúvida. mas chego mesmo a abrir a porta para ver se és tu. também já liguei para os telefones e garantiram-me que a linha está boa. estranho. tu não ligas. e ligas sempre. vou esperar um pouco mais, aqui, no sofá comprado nos saldos que ainda tem o teu cheiro. vou esperar um pouco mais agarrada à tua foto. aquela foto que eu gosto tanto. daquelas férias lindas que dizes que passaste com umas amigas.gosto da tua foto.

quarta-feira, outubro 28, 2009

serviços mínimos

junto umas frases dele e outras dele e crio umas ideias desconexas. rodeio-me de tanta gente querida e perco o rumo à conversa. amanhã será outro dia e eu serei outras palavras. até já.

Escolho a clareira do corpo silencioso.

A folha é escrita como uma paisagem
ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a consagração da terra.


Escolho a clareira do corpo silencioso.


É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto desse corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.

António Ramos Rosa

Bernardino Soares, foste vingado

Dizem os psicólogos que o extremismo político é uma questão grupal: os racistas ficam ainda mais racistas na companhia de outros racistas


À primeira vista, não podia haver mais diferenças entre o político da extrema-direita francesa Jean-Marie Le Pen e a nova esperança do Partido Comunista português, a jovem deputada recém-eleita Rita Rato. Ainda assim, cuidado com as aparências. O homem da Frente Nacional afirma recorrentemente que o Holocausto foi apenas um "detalhe" na Segunda Guerra Mundial e já foi condenado várias vezes em tribunal por isso. Quanto à nossa deputada Rita Rato, com 26 anos e uma licenciatura em Ciência Política, em entrevista ao "Correio da Manhã" confessou que não sabe se há violações dos direitos humanos na China, nem tem informação sobre o que eram os campos de concentração da antiga União Soviética, que apesar de tudo "admite que podem ter existido".


A primeira reacção a que muitos de nós cedemos quando somos expostos a opiniões enviesadas e negacionistas como nestes dois casos, é achar que podemos travar um debate contra estas pessoas. Ilusão. Não podemos debater contra preconceitos. A segunda reacção é diferente; pode ser resumida nos seguintes termos: deixar que eles falem. O Holocausto e o Gulag não são matérias de discussão.
Não é preciso ter estudado a fundo os dois assuntos para perceber que aqueles que negam que tivessem existido, ou que recusam a sua condenação de maneira clara, estão a expor uma posição falsa e, pior que isso, baseada na mais ostensiva má-fé.


No entanto, se deixamos que falem é porque ainda acreditamos na velha metáfora que define a liberdade de expressão como um "mercado de ideias". Nesse mercado, para que a verdade prevaleça é preciso confrontá-la com uma falsidade qualquer: as opiniões verdadeiras tendem a expulsar as opiniões falsas. Para podermos recordar os atropelos dos direitos humanos na China, precisamos de uma Rita Rato para nos avisar que não tem a certeza se essas violações existem.


Tudo isto é muito certo e até explica porque criminalizar a negação do Holocausto e do Gulag são más estratégias do ponto de vista que mais nos interessa: assegurar que numa democracia as opiniões estúpidas e extremistas, existindo, nunca deixem de ser minoritárias. Ao mesmo tempo, existe aqui um problema que fica por resolver: há sempre alguém que acreditará no que diz Rita Rato, exactamente como Rita Rato começou por acreditar no que outros dentro do Partido Comunista lhe disseram, a ponto de o ter vindo reproduzir cá para fora com tamanha fidelidade. Dizem os psicólogos que o extremismo político é uma questão grupal: os racistas ficam ainda mais racistas na companhia de outros racistas, as feministas mais feministas e os negadores do Gulag mais negadores; são sempre as "companhias". Por outras palavras, se precisamos de Rita Rato para expressar o que sabemos ser falso, também não queremos a multiplicação de grupos de Ritas Ratos, para que a excepção não se transforme em regra. Graças a Rita Rato, conseguimos verbalizar o principal dilema da democracia. Confuso? Não fique.

Pedro Lomba, 23 X 09

nota: via Marta

segunda-feira, outubro 26, 2009

história de amor V

Apanhavam sempre o comboio das oito. Chegavam sempre à plataforma dois minutos antes o que dava para cada um ler a capa do jornal e a crónica da última página. Depois dobravam o jornal para entrar dentro do comboio e só voltavam a abrir duas estações mais tarde, depois de sair a maior parte das pessoas. Liam apressadamente as secções de economia e política internacional e paravam sempre na parte de cultura. Nunca os vi com um livro mas sei que gostariam de ler os livros que eram recomendados nos seus jornais. Não trocavam olhares, muito menos palavras mas sei que havia tanto que os unia. Saíam vinte e sete minutos depois de terem entrado no comboio. Ele para a esquerda, ela para a direita. Nem uma palavra. Nem um último olhar. E tinham tanto a dizer. Eu sei que sim. Pico bilhetes há anos. Sei ver a marca do amor no bilhete amachucado. Juro que amanhã arranjo forma de se conhecerem e poderem trocar de jornais até ao fim.

@ DocLisboa 09

Fortress – Filme de qualidade sobre um centro de acolhimento na Suiça. Alguns bons planos mas sobretudo com momentos de grande emoção. Importante para quem não imagina como ocorre um processo de pedido de asilo.

Thorn in the heart – A mais recente obra de Gondry é um interessante trabalho sobre a sua tia-avó. Mostra ainda um retrato muito pessoal da França profunda da segunda metade do século XX pelos olhos de uma antiga professora. Destaque para as passagens de comboio entre capítulos.

Saravah – Um belo passeio aos primeiros anos de alguns nomes de referência da música popular brasileira como Baden Powell ou Maria Bethania. Um verdadeiro “musical” no verdadeiro sentido do termo. Sinal menos para o som... que num filme sobre música até faz alguma diferença.

Shirin – Mais um filme de Kiarostami como exemplo do experimentalismo. Depois do “10” apresenta-nos mais um filme com o plano frontal. Choca. Incomoda ver alguém a ver. O texto da peça que acompanha o filme é genial. A ideia do filme também. Mas é realmente um filme duro. E fisicamente também o é... ver post sobre filme (link)

Paredes Meias – Documentário brilhante sobre arquitectura. Perdido do circuito comercial tive agora a possibilidade de reencontra-lo. Fabuloso o contributo de Siza Viera para o 25 de Abril através da arquitectura e impressionante a forma como se acompanha o nosso Portugal a estragar este projecto arquitectónica tal como fez ruir a palavra “sonho” do imaginário global... ver post sobre filme (link)

Other song – A ideia até podia ser muito boa. Mas, na realidade, eu fiquei muito longe dela. Foi apenas comprido e chato. AnOther doc, please...

Equilíbrio justo – Pequena curta portuguesa bastante curiosa. O branco rebentado na fotografia que me apaixonou compensou alguma falta de ideias. Uma ideia original mas sem dúvida que faltou o golpe de asa.

Capitalism: a love story – No novo filme de Moore more do mesmo. Pela positiva. Um conjunto de pormenores geniais tirados do youtube - cat flushing toilet (link) ou cleveland song (link). Provavelmente o melhor Moore... ver post sobre filme (link)

Garrincha, Alegria do Povo – Um clássico do cinema brasileiro sobre o que é para muitos realmente o melhor jogador brasileiro de sempre. Infelizmente o documentário parece-me que não conseguiu fintar este João aqui... Faltaram mais pormenores sobre o Garrincha. Soube a pouco. Faltou futebol...

domingo, outubro 25, 2009

cai no chão


cai no chão
e espalha o teu físico inerte
nas leis das ciências que ainda não estudaste.

cai no chão
e pensa no que sobra para lá dele.

cai no chão
e não tenhas medo que quando o chão chega
há muito que já cá não estamos para ver.

cai no chão.
e recorda com cuidado - hoje não estou aqui para pormenores.

A minha política é a familia e vice-versa

Jean Sarkozy queria presidir à EPAD, uma empresa pública francesa que gere a área de La Défense, vizinha de Paris e sede de grandes empresas. Jean Sarkozy tem um currículo curto que de louvável só revela alguma teimosia: vai no terceiro ano que frequenta o segundo ano de Direito. Juntando a grandeza de um facto (EPAD, negócio movimentando mil milhões de euros anuais) e a brevidade do outro (Jean, que acaba de fazer 23 anos), já houve quem falasse de nepotismo, embora o termo venha do latim nepos, que quer dizer sobrinho. Ora foi mesmo o pai de Jean, o Presidente francês Nicolas Sarkozy, que o favoreceu.


Mas, na verdade, o termo nepotismo abrange todos os favores feitos dentro da família. A sua origem é medieval e definia o hábito de alguns Papas. Sem poderem ter filhos, os Papas, quando tinham um, chamavam-lhe sobrinho e, em alguns casos, faziam-no eleger bispo para que pudesse suceder-lhes. O Papa Alexandre VI, que era sobrinho de Calisto III, fez de um irmão da sua amante cardeal, que se tornou Paulo III, que nomeou cardeais dois sobrinhos, de 14 e 16 anos, e assim por diante. Essa prática de "sobrinhismo" ganhou, então, o nome de nepotismo.


Hoje, na política, este é fenómeno que toca comunistas (ver a dinastia norte-coreana: Kim Jon-un, aguardando suceder ao pai Kim Jon-il, que sucedeu ao pai Kim Il-sung) e democratas (Indira Gandhi é filha de Pandita Nehru, ambos primeiros-ministros da Índia). Generaliza-se às outras relações familiares (o Presidente Raúl Castro sucedendo ao irmão Fidel, a Presidente argentina Cristina Kirchner sucedendo ao marido Néstor) e enquista famílias a tendências políticas (na Grécia, os Karamanlis são de Direita e os Papandreou, socialistas).


Por causa do escândalo, Jean Sarkozy já foi obrigado a recuar na sua pretensão à presidência da EPAD. Mas não foi por falta de elogios de Thierry Solère, vice--presidente do UMP (o partido de Nicolas Sarkozy): "Jean é filho de um génio político, não é de admirar que seja precoce. Quando alguém é filho de Zidane, não é de admirar que jogue bem ao futebol." Arriscada comparação, que denuncia bem quanto o nepotismo é um abuso.


Se o nepotismo funciona, não é por causa do ADN mas pela velha técnica do empurrãozito. A prova é que no futebol não há nepotismo. Nunca houve filhos ou sobrinhos de Pelé, Puskas ou Di Stéfano que singrassem com a bola nos pés. O génio Cruijff, que até foi treinador e formou futebolistas como Guardiola, não conseguiu fazer do seu filho Jordi senão um razoável atacante. O futebol, ao contrário da política da Santa Sé e da política política, desenrola-se perante o olhar dos milhões de especialistas que somos, capazes de distinguir o talentoso do simplesmente sobrinho do chefe.

Ferreira Fernandes in DN, 25 X 09

curtas de outono II

Ele tinha um talento escondido. Muita qualidade, criatividade e um ouvido ímpar. Pena os azares da vida. Falava-se que tinha chegado a tocar num coliseu qualquer e gravara mesmo umas músicas num estúdio. Não fosse o estúdio ter fechado por umas maroscas suspeitas do seu amigo e talvez... A vida dele era assim, feita de azares. Como quando teve um acidente antes da entrada da faculdade e nunca chegou a entrar. Azares. Ou quando os amigos se afastaram medrosos dos seus infortúnios. Hoje toca sozinho. De guitarra na mão à porta de uma igreja decrépita. Triste o retrato dele. O herói de liceu feito pedinte do beco imundo. Foi com todo o prazer que lhe paguei o almoço enquanto ouvia interessado as suas histórias reais. E recordei o quanto o admirava no liceu.

Capitalism: a love story. A love doc.

Michael Moore tem um registo. Tem um estilo próprio. É inegável. É incontornável. Pode-se gostar ou odiar mas é exactamente esse o seu objectivo. Mexer com o espectador. O seu mais recente filme pode não ter pormenores de génio mas demonstra que o “Sicko” já tinha mostrado: Moore está mais maduro.

O filme questiona o papel excessivo da ideologia capitalista nos EUA e na sua história. Pessoalmente, não acredito que o sistema esteja em crise ou que haja algo muito melhor. Não confundo, tal como Moore procura demagogicamente fazer, capitalismo e democracia. Não são conceitos que possam ser discutidos pelo mesmo padrão e regras. Um é um sistema económico outro é uma condição de um sistema politico e social. Mas, ao mesmo tempo é impossível não relembrar aquelas palmas no final do filme – mostram que tal como no Paredes Meias o 25 de Abril ainda é jovem nas nossas cabeças e corações. Mostra que para muitas pessoas o povo ainda é quem mais ordena, e que juntos podemos fazer um mundo melhor. Porque como se dizia no filme “um voto continua a ser um voto. E isso (eles) não conseguem mudar e têm medo.”

Confesso que fiquei tocado no filme. Que me arrepia. Que me toca ver as pessoas a ocuparem as suas casas, ver os festejos da vitória do Obama, ver os trabalhadores de uma fábrica questionarem a possibilidade de controlarem todo o processo. Isso foi tentado no PREC e é lindo. Inviável. Impraticável. Impossível. Mas é um sonho bonito. Saí feliz da sala. Por ser Europeu mas também porque uma nova América parece estar a surgir, porque um mundo melhor pode ser possível.

sábado, outubro 24, 2009

história de amor IV

Assinaram os papéis com poucos amigos presentes. Os seus sorrisos enchiam a sala, os berros comedidos e as palmas mudas faziam a festa. Saíram directamente para o primeiro táxi que encontraram à porta da conservatória. Chegaram à estação com algum tempo pela frente para umas últimas despedidas e uns agradecimentos aos amigos. Sinceros. Adeuses e promessas fugidas que a porta do comboio se fecha com estrondo. Pela frente uma longa viagem até ao outro lado da Europa. Tudo assim lento e simples. Como ele gostava. Oposto em tudo a todos. Ele pegou, logo, num livro que andava para ler há uns tempos. Olhou para ela, deu-lhe um beijo terno, que podia ser de amor, e desligou-se. Ela encostou a cabeça no vidro e enquanto via a cidade fugir sentia que ela também se ia neste pouca-terra pouca-terra embalador. Ia para uma viagem que nunca quis mas que o seu amor incondicional não questionou. Nunca. Paciência. Talvez houvesse praia numa das paragens. Uma praia deserta e divina como aquelas que as suas colegas de trabalho descreviam manhã fora. Paciência. Agora já não fazia diferença porque os seus olhos pesavam uma imensidão e encostava-se, quase sem forças, contra o seu punho encostado à janela, cerrado e vincado por uma tão bela aliança. Uma lágrima caía-lhe. Devia ser de felicidade.

na casa das histórias


Cascais 09

a morte da arte

Discutia com os conceitos manhã fora.
O conjunto de frases soltas crescia,
sem fim,
na folha amarrotada do bolso.
O sujeito e objecto haviam-se perdido,
há muito,
entre as palavras dele
e deles.
A arte feita moribunda
sob o esgar doloso
de um Hegel de bancada.
Os conceitos eram de todos e de toda a história.
e viviam enganados sobre a ideia de estar ela estar terminada.
Não a matem! - gritou alguém.
Agora é tarde. - dizia o velho da primeira fila
que se limitava a impedir que os abutres cheirassem a arte
putrefacta.
O pescoço partido às cruéis palavras de Hegel pedia misericórdia
e Duschamp procurava um último suspiro na velha defunta.
Mas agora é tarde.
O cheiro a podre empestava já a sala.
Os conceitos saiam felizes,
em fila,
porta fora.
Fiquei só. Na sala. Com a arte nos braços.
Uma Pietà abandonada.
Sussurrei, sem força alguma, que ainda havia imagem.
Havia símbolos, recordações e alusões.

Havia o silêncio que desta vez não perdoou.
Agora só me resta escrever o obituário final
da arte.

terra, céu, árvore. entre linhas.


Cascais 09

curtas de outono

Não a vou incomodar. Tenho que sair nesta paragem. Mas não a vou incomodar. Dorme descansada. Cansada de uma vida que não conheço. Não a vou incomodar. Só saio na paragem que ela sair. Mas não a vou incomodar.
Foi assim até à última paragem. Sem a incomodar. Eu bem longe da minha casa. Ela a dois passos. E eu assim bem perto da vida dela. Mas sem incomodar.

a um pai desconhecido

à minha morte. juntem-se em volta do meu corpo putrefacto. e contem histórias. recordem as minhas e as vossas histórias. descubram as mentiras e falsidades. os engodos e enganos. descubram-me a maldade. odeiem-me, cuspam-me e reneguem-me. que a minha vida foi boa demais e não quero ser herói de BD estrangeira.

a última chamada do tempo


entre as brincadeiras de uma aula.

história de amor III

Entre o silêncio prometido e as palavras sem fim, uma promessa quebrada. É sempre assim, dizem. Nem a palavra silêncio consegue fazer-se respeitar quanto mais eu que só cá estou de passagem. Para que saibas antes de todo o mundo. Quebrei a promessa. Não falar contigo obriga-me a falar sem fim a todo o resto do mundo. Obriga-me a esquecer a palavra silêncio. Talvez assim...

quinta-feira, outubro 22, 2009

viagem ao estrangeiro

Parece que no Sábado vou andar por outros lados. Com notas e sons à mistura tirados de uma xukebox bem catita (link)... apareçam!

adenda: Obrigado pelo convite, Mariana.

paredes meias


photo by José Paulo Andrade


filme genial. das linhas narrativas às arquitectónicas passando pela fotografia. o melhor do doc. um dos melhores que vi este ano.

Ricky Liminha Coimbra


via Susana

quarta-feira, outubro 21, 2009

cidadania confessional

«Euro-deputado exorta Saramago a renunciar à cidadania».
Mesmo que as declarações de Saramago sobre a Bíblia constituíssem uma blasfémia -- o que só espíritos sectários podem pretender --, ainda assim, o que é que isso tem a ver com a cidadania portuguesa? Existirá porventura uma regra secreta segunda a qual a crítica da Bíblia é incompatível com a nacionalidade portuguesa?
Nem Salazar ousou tal...


Vital Moreira in Causa Nossa

história de amor II

Jornal do dia. Página 14. Secção Vidas. Contava-se a história de uma mulher que apareceu morta numa praia. Uma praia que conheço bem. Onde vivi toda a minha infância. Uma praia a que regresso todos os anos com o miúdo, talvez na esperança de encontrar a minha mãe a um canto a ver o mar. Como gostava tanto de o fazer, nos verões que sempre pensei não terem fim.

“Apareceu morta ao fim da tarde de ontem uma jovem mulher - cerca de 30 anos, meia estatura, morena, de olhos verdes, nariz impecavelmente desenhado, com um enigmático sorriso rasgado na cara - numa das mais conhecidas praias da nossa cidade. Apresentava a roupa sem estragos e está desde já afastada a ideia de crime de violação ou roubo, segundo a polícia. Num bolso a seguinte carta à qual tivemos acesso Não te peço desculpa. Seria apenas mais uma coisa que me arrependeria. Pediste para não responder à tua última mensagem e apaga-la depois de a ler e acredita que respeito as tuas palavras mas custam-me mais os silêncios que não controlo. Sou poetisa amadora mas amante profissional. Como dizia um poeta persa – o amor aquece os homens e queima as mulheres – e eu estou tão escaldada. Tu sabes que as coisas não vão bem com ele. Há muito que somos apenas companheiros de copos sem palavras, mas ele ainda é parte de mim. E eu não podia amar-vos mais. Nem a mim. Eu era sujeito e predicado. Era o vosso amor e era a palavra amor. E, no entanto, algo faltava. Ou algo estava a mais. Eu. Era eu que estava a mais na relação a três. Um beijo aos dois. Mas hoje adormeço com um sorriso daqueles que vocês gostam.”

A notícia acabava assim. E o nó na minha garganta não desaparecia, não. Fechei o jornal. Inquieto. Custa-me ver o amor a acabar sempre mal. Devia ser tão simples amar. Mas há sempre uma virgula a mais.

do cinema

Não há um comboio na tua direcção. Não há medo. Há um confronto inesperado. Do teu olhar e dos delas. Porque “a peça principal do tabuleiro é o engano” e engano é pensar que se vê um filme sobre alguém que não nós próprios. Uma viagem a mundo onde não há culturas diferentes. Só há um amor. De Cinema.

a partir de Shirin de Kiarostami, 2008

história de amor I

Combinaram a meio de uma tarde de chuvosa para falar. Chegaram a horas. Ambos.
- Estou apaixonado.
- Eu também. Muito.
E esta foi a última vez que se falaram. Ali na esquina. Como quem vai para o metro.

terça-feira, outubro 20, 2009

e palavras minhas por aqui?

cousa pouca que o dia já vai longo. uma biblioteca quase vazia. umas palavras cortadas e coladas sob a forma de texto final. uma revisão. um primeiro andar. uma vitória académica. assim aos poucos e poucos, o sorriso. e mais palavras sairam ainda no meio da confusão das outras. soube bem. e agora só quero o descanso das palavras dos outros.

da minha Lisboa


Lisboa com suas casas



De várias cores,


Lisboa com suas casas  




De várias cores,


Lisboa com suas casas


De várias cores,


Lisboa com suas casas


De várias cores...


À força de diferente, isto é monótono.


Como à força de sentir, fico só a pensar.




Se, de noite, deitado mas desperto,


Na lucidez inútil de não poder dormir,


Quero imaginar qualquer coisa


E surge sempre outra (porque há sono,


E, porque há sono, um bocado de sonho),


Quero alongar a vista com que imagino


Por grandes palmares fantásticos.


Mas não vejo mais,


Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,


Que Lisboa com suas casas


De várias cores.




Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.


À força de monótono, é diferente.


E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.




Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,


Lisboa com suas casas


De várias cores.


Álvaro de Campos

Bonne pensée du matin

A quatre heures du matin, l'été,
Le sommeil d'amour dure encore.
Sous les bosquets l'aube évapore
L'odeur du soir fêté.


Mais là-bas dans l'immense chantier
Vers le soleil des Hespérides,
En bras de chemise, les charpentiers
Déjà s'agitent.


Dans leur désert de mousse, tranquilles,
Ils préparent les lambris précieux
Où la richesse de la ville
Rira sous de faux cieux.


Ah ! pour ces Ouvriers charmants
Sujets d'un roi de Babylone,
Vénus ! laisse un peu les Amants,
Dont l'âme est en couronne.


Ô Reine des Bergers !
Porte aux travailleurs l'eau-de-vie,
Pour que leurs forces soient en paix
En attendant le bain dans la mer, à midi

A. Rimbaud

domingo, outubro 18, 2009

petição contra as petições tolas do twitter

Por razões estranhas (tenho passado o meu tempo na jardinagem) não dei pela ascensão de Stephen Gately, da boy band irlandesa Boyzone. Agora, nesta época de pousio outonal (já só se semeiam favas, que não aprecio), pude dar-me conta da polémica à volta de Gately. Há dez anos, ele saiu do armário -precisando de desarmar as confissões de um guarda-costas que ia revelar tudo, o vocalista tomou a iniciativa de dizer ao tablóide Sun: "Sou gay e estou apaixonado." E, agora, Gately apareceu morto em Maiorca. "Causas naturais", disse a polícia. A polémica começa aí, comigo já atento.


A colunista do jornal Daily Mail Jan Moir escreveu, grosso modo: quais causas naturais, qual quê, ele morreu de ser gay! A tese - grosso modo, insisto - era que qualquer gay, mais cedo ou mais tarde, aparece morto em Maiorca. Há muitos anos, um dos melhores jornalistas portugueses que conheci, Manuel Beça Múrias, titulou no semanário O Jornal: "Morreu de ser português." Falava de Joaquim Agostinho, cuja morte estava bem espelhada naquele título agudíssimo: o ciclista caiu, bateu com a cabeça no empedrado, saiu-lhe sangue pelo ouvido e, em vez de o transportarem de imediato para um hospital, levaram-no para uma pensão... para descansar - enfim, morreu de ser português. Claro que era uma generalização - muitos portugueses, também vítimas de acidentes, eram bem tratados.


O texto de Jan Moir era também uma generalização, dizia: todos os gays têm uma vida sexual promíscua, estão metidos em droga e, portanto, aparecerem mortos está-lhes no sangue. Mas o texto de Moir era um intencionado insulto - enquanto o título de Múrias era uma amargura assumida. A inglesa era contra um grupo de pessoas naturalmente feridas, que mais não seja por haver colunistas homofóbicos à Jan Moir - enquanto o título de Múrias preocupava-se com os portugueses. Mas quero lembrar outra coisa que afasta o vicioso texto do Daily Mail do magnífico título de O Jornal: no tempo deste não existia o Twitter. Não fosse isso, poderiam ter um destino comum.


Existisse o Twitter em 1984 e um grupo de tresledores militantes era capaz de fazer uma campanha porque achava que o título de O Jornal insultava os portugueses; e era capaz de aterrorizar os anunciantes, obrigando-os a boicotar o jornal caso Múrias não fosse despedido. Em Inglaterra, o Twitter conseguiu já a retirada de publicidade ao Daily Mail e está a caminho de calar Jan Moir. Se querem que vos diga, neste caso, não se perdia grande coisa. Mas não é esse o ponto. O ponto é que essas campanhas são democracia de rebanho: marram. Como se explica que haja uma petição para que uma cidadã brasileira, por causa de umas piadolas, seja considerada pelo Parlamento persona non grata em Portugal (ontem havia mais de 3800 assinaturas)?

Ferreira Fernandes in DN, 18 Out 09

das conversas diárias


Les vacances de Hegel
by Magritte (1958)

das minhas dúvidas

the end of art.
the end of history.
the end of the end?

a minha mais recente dúvida para ser pensada nos próximos tempos prende-se com o hábito das ciências sociais de quererem matar conceitos. como se Hegel ao matar a arte ou Fukuyama ao matar a história - a título de exemplo - garantissem a ideia de ruptura com o pensamento de até então. a ruptura a existir surge com a aceitação e implementação posterior da tese defendida e não com a definição de fim de vida do conceito anterior. de qualquer forma espero com especial interesse a aula de Bragança de Miranda sobre o fim da arte e a posterior expansão da arte...

sábado, outubro 17, 2009

se calhar já chega desta conversa...


Para terminar de vez com esta discussão em relação a um vídeo com dois anos num programa humorístico brasileiro nada melhor que humor... agora a sério, o que me chateia mais nesta história toda é o provincianismo de alguns portugueses e o facto de a Maité ter namorado com Sousa Tavares. Isso sim me preocupa à brava...

domingo, outubro 11, 2009

se eu

se eu tivesse
mil escolhas
mil vidas
mil pessoas onde viver.

se eu fosse
uma cama nova cada manhã
uma cama enregelada,
de lençóis a um canto,
cheia dos restos de uma noite onde as palavras  se perderam bem antes da noite
começar.

se eu fosse um pequeno almoço de olhares
atentos e meias palavras com café.

se eu fosse um adeus furtivo.
a certeza de um telefonema que nunca será feito.

se eu fosse um fecho de porta. velho e cansado
de tanto me fechar. e nunca reabrir.
farto de nunca ter a chave duma casa
onde eu fosse eu. sem desculpas nem mentiras.

se eu fosse algo mais do que uma composição da primária.
eu seria eu.
por fim!

Sarabande - BWV 828



Glenn Gould plays Bach - BWV 828 - Sarabande

e agora, Obama?

Por motivos vários deixei passar o "timing" de comentário ao prémio Nobel... A minha opinião é simples - e foi discutida com todos os que me apanharam no entretanto. Claro que é um importante sinal para o Mundo, e talvez para os Americanos também, que um outro mundo é possível e que lideres como Obama e Lula podem ser os responsáveis por essa mudança. Mas... também é simples que ainda é cedo. Que ainda não conseguiu nada e que este prémio lhe pode retirar o poder negocial em momentos futuros. E isso é bem perigoso... Agora resta esperar...

a real doença da Democracia

Há uma ideia brutalmente enraizada no senso-comum que aponta as eleições autárquicas como aquelas onde a participação popular é maior e o voto/gesto maior poder encerra. Como estas eleições parecem estar a dar sinal não será o caso este ano.

Não consigo apontar a razão para tal facto. Nem quero. Poderia quanto muito apostar que a crer na opinião generalizada que apenas uma percentagem ínfima das presidências da câmara mudará de mãos é motivo suficiente para qualquer português aproveitar o calor na praia, o fresco do centro comercial ou o sinistro do candidato-assassino.

O que pretendo acima de tudo sublinhar é que as eleições autárquicas são provavelmente um dos factores mais empobrecedores da democracia. A posição é questionável, sem dúvida, mas posso apoia-la com diversos exemplos:
- os diferentes casos de corrupção de autarcas em que já julgados ou não continuam a ser uma referência para os votantes - Isaltino, Felgueiras, etc;
- os candidatos que representam inquestionavelmente uma força política e no entanto tomam posições claramente contrárias - Ana Cristina Ribeiro;
- os candidatos que o são mas já têm garantido um outro lugar "mais importante" em caso de derrota - Ana Gomes, Elisa Ferreira;
- os candidatos a Assembleias Municipais que só o são para dar legitimidade ao candidato camarário - Miguel Portas; Ângelo Correia;

E poderia ainda citar mais uns quantos exemplos... Mas acho que nem vale a pena dizer mais nada... E porque me surge esta ideia hoje? Fui votar pela terceira vez nas eleições autárquicas e pela terceira vez fui "obrigado" a votar em branco. Não senti que houvesse no espaço político onde costumo votar uma opção viável.

Claro que poderia dizer que são eles, os nossos autarcas, que estão mais próximo de nós. Que é graças a eles que vemos o Estado em toda a sua plenitude funcionar. Mas não concordo. Não acho que seja fazer duas rotundas, mudar umas lâmpadas nas ruas, arranjar uns passeios e tratar dos jardins de quatro em quatro anos que é estar próximo das pessoas. Pelo contrário são estes pequenos gestos apoiados na frase "por mim tinha eleições de seis em seis meses para arranjarem a cidade" que minam a Democracia. Não são as potenciais asfixiais democráticas mas sim o caciquismo do século XIX que se arrastou até aos nossos dias que destroem lentamente a confiança nas instituições.

Soluções? Não tenho. Mas aceito propostas...

quarta-feira, outubro 07, 2009

benvinda


Certo de estar perto da alegria, comunico finalmente
Que há lugar na poesia
Pode ser que você tenha um carinho para dar, ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar que é tempo ainda


Chico Buarque

domingo, outubro 04, 2009

juntos, ao abandono


presos ao chão.
com raizes cortadas pelo tempo.
a recordar os casamentos felizes de outros.
a ver os restos que ficaram.
juntos, ao abandono.
enquanto virámos costas à vossa vida.
sem remorsos. sem lembranças.

A Rainha Carlota Joaquina não faz o meu género

Além da multidão de indiferentes, em matéria de Brasil, há dois tipos de portugueses excessivos: à moda de Carlota Joaquina e à de D. Pedro IV. Ela quando viu as condições do paço do Vice-Rei, no Rio de Janeiro, exclamou: "Que horror. Antes Luanda!" Cinco mil dias depois, em 1821, quando pôde, enfim, voltar para Portugal, as suas primeiras impressões não tinham acalmado. Mal pôs os pés no tombadilho do navio de torna viagem, bateu um sapato no outro e disse: "Nem nos calçados quero terra do maldito Brasil."


Já o seu filho, Pedro de Alcântara, adoptou a terra onde chegou aos oito anos, a ponto de ter dado o grito de Ipiranga - protagonizando a bizarria de, sendo príncipe herdeiro do país colonizador, ter escolhido ser o libertador do país colonizado. Foi Imperador do Brasil durante nove anos e foi Rei de Portugal por sete dias. A sua preferência há de entender-se por uma frase, da época, que foi escrita por um jornalista também de coração balanceado, Hipólito José da Costa, redactor do Correio Braziliense, que em 1822, quando o Brasil se tornou independente, escreveu: "Em ser feliz é que consiste a verdadeira liberdade."


Anteontem, levantei dinheiro numa caixa multibanco junto ao meu jornal, demorei-me ainda a fazer uma transferência e quando recolhia o cartão percebi que uma rapariga esperava que eu lhe desse lugar. Pedi-lhe desculpa, e ela disse-me, feliz: "Imagina..." O meu jornal é em Portugal, de onde a felicidade da rapariga e a sua pronúncia manifestamente não eram. Mais tarde, vi o Presidente dela chorar como um perdido porque tinha encontrado a felicidade: o Rio de Janeiro vai sambar com as argolas olímpicas. Por isso, ando há dois dias derretido. Confesso, em assunto do Brasil, sou do tipo Imperador D. Pedro.


E tão excessivo que tenho uma proposta para o próximo Governo português. Não, não falo de caras, falo de pastas. Portugal precisa de um Ministério para os Assuntos do Brasil - totalmente dedicado a lembrar o óbvio. O Brasil é parte de nós, e nós não queremos muito, queremos muitíssimo: que isso não caia no esquecimento.


As modinhas pernambucanas começaram por ser açorianas, as fronteiras brasileiras do Norte foram garantidas pelo Marquês de Pombal, os azulejos de São Luís do Maranhão são azulejos, o café de São Paulo foi roubado à Guiana francesa por um contrabandista português e, com um ano, Maria do Carmo Miranda, do Marco de Canaveses e ainda não Carmen, foi viver para um sobrado na Rua da Misericórdia, no Rio, com traça igual aos casarões do Funchal. Ah, e embora incapaz de reproduzir a doçura daquele "imagina...", entendi-o.


Algum futuro comum havemos de encontrar com tanto passado. Afinal, os holandeses só estiveram 37 anos no Recife (e há que descontar o tempo dedicado destruindo Olinda) e ainda hoje se ouve esta exclamação: "Ah, o Brasil holandês!" Se me dão licença, volto a escrever a frase da minha crónica de ontem: "O Rio é a primeira cidade fundada por portugueses que é sede de uns JO." Por isso os pulos que eu dei anteontem não foi por outros, foi por mim.

Ferreira Fernandes in DN, 04 Out 09

gracias a la vida na hora da morte


Mercedes Sosa

sexta-feira, outubro 02, 2009

doutras palavras

aquelas que ficaram mesmo até ao fim
encerradas
na tua boca.
aquelas que sussurrastes
quando eu seguia já
ladeira fora.
aquelas que pensaste
a sós
quando eu te pedia a dois.
aquelas que me obrigaste a escrever
quando eu te repeti
que por ora um silêncio era tão mais especial.
se queres palavras... escreve silêncios até ao fim da página...

canto de Ossanha


Vinicius de Moraes

quinta-feira, outubro 01, 2009

algures por Lisboa...


o Buda comenta o discurso presidencial

Habituámo-nos mal.
Tivemos até agora Presidentes que sabiam estar. Porque um Presidente não tem de ser, nem de agir, tem sobretudo de estar. Não é dele que o sistema espera acção, dele espera-se estabilidade. E que se comporte como uma pessoa estável. Cavaco, mesmo depois de ter ganho (é Presidente), continua ressentido. Não perdoa. Não sabe – ou esqueceu-se – que numa campanha não valerá tudo, mas muito vale. Ele tem ou não razão nos assuntos que motivaram a estranhíssima conferência de ontem? Não é isso que importa. O que importa é que ele parece aquelas pessoas que, quando entram no processo de divórcio, não reconhecem uma única responsabilidade na erosão da relação. “Não, ela é que… Eu cá fui sempre excelente, imaculado.”


(Pensando bem, Cavaco nisto representa bem todos os Portugueses.)


E não perdoa. Os antigos e novos rivais continuam a incomodá-lo. Nem saber que ganhou a Mário Soares, e que ele é que o Presidente (e não o cidadão sénior Mário Soares) o parece sossegar. É triste. Dá pena ver. Devia dar alegria, a quem nunca votou nele, mas dá pena. Não é um sentimento agradável.


Mário Soares, Sampaio, Costa Gomes, até Eanes (o mais rígido dos quatro) aprenderam à sua custa que, se é muito bonito quebrar antes de torcer, em política há que saber torcer antes de quebrar. Um Presidente, sobretudo, tem de ser convivial como Mário Soares, bonacheirão como Mário Soares, civil como Sampaio, decente como Eanes, sensato como Costa Gomes.


O actual Presidente, ontem, lembrou aquele soldado das forças especiais no filme O Abismo, que é muito bom mas não aguenta a pressão e… pira.

Rui Zink in Rui Zink versos Livro