quarta-feira, outubro 21, 2009

história de amor II

Jornal do dia. Página 14. Secção Vidas. Contava-se a história de uma mulher que apareceu morta numa praia. Uma praia que conheço bem. Onde vivi toda a minha infância. Uma praia a que regresso todos os anos com o miúdo, talvez na esperança de encontrar a minha mãe a um canto a ver o mar. Como gostava tanto de o fazer, nos verões que sempre pensei não terem fim.

“Apareceu morta ao fim da tarde de ontem uma jovem mulher - cerca de 30 anos, meia estatura, morena, de olhos verdes, nariz impecavelmente desenhado, com um enigmático sorriso rasgado na cara - numa das mais conhecidas praias da nossa cidade. Apresentava a roupa sem estragos e está desde já afastada a ideia de crime de violação ou roubo, segundo a polícia. Num bolso a seguinte carta à qual tivemos acesso Não te peço desculpa. Seria apenas mais uma coisa que me arrependeria. Pediste para não responder à tua última mensagem e apaga-la depois de a ler e acredita que respeito as tuas palavras mas custam-me mais os silêncios que não controlo. Sou poetisa amadora mas amante profissional. Como dizia um poeta persa – o amor aquece os homens e queima as mulheres – e eu estou tão escaldada. Tu sabes que as coisas não vão bem com ele. Há muito que somos apenas companheiros de copos sem palavras, mas ele ainda é parte de mim. E eu não podia amar-vos mais. Nem a mim. Eu era sujeito e predicado. Era o vosso amor e era a palavra amor. E, no entanto, algo faltava. Ou algo estava a mais. Eu. Era eu que estava a mais na relação a três. Um beijo aos dois. Mas hoje adormeço com um sorriso daqueles que vocês gostam.”

A notícia acabava assim. E o nó na minha garganta não desaparecia, não. Fechei o jornal. Inquieto. Custa-me ver o amor a acabar sempre mal. Devia ser tão simples amar. Mas há sempre uma virgula a mais.

1 comentário:

Anónimo disse...

tão bonito