sábado, outubro 24, 2009

história de amor IV

Assinaram os papéis com poucos amigos presentes. Os seus sorrisos enchiam a sala, os berros comedidos e as palmas mudas faziam a festa. Saíram directamente para o primeiro táxi que encontraram à porta da conservatória. Chegaram à estação com algum tempo pela frente para umas últimas despedidas e uns agradecimentos aos amigos. Sinceros. Adeuses e promessas fugidas que a porta do comboio se fecha com estrondo. Pela frente uma longa viagem até ao outro lado da Europa. Tudo assim lento e simples. Como ele gostava. Oposto em tudo a todos. Ele pegou, logo, num livro que andava para ler há uns tempos. Olhou para ela, deu-lhe um beijo terno, que podia ser de amor, e desligou-se. Ela encostou a cabeça no vidro e enquanto via a cidade fugir sentia que ela também se ia neste pouca-terra pouca-terra embalador. Ia para uma viagem que nunca quis mas que o seu amor incondicional não questionou. Nunca. Paciência. Talvez houvesse praia numa das paragens. Uma praia deserta e divina como aquelas que as suas colegas de trabalho descreviam manhã fora. Paciência. Agora já não fazia diferença porque os seus olhos pesavam uma imensidão e encostava-se, quase sem forças, contra o seu punho encostado à janela, cerrado e vincado por uma tão bela aliança. Uma lágrima caía-lhe. Devia ser de felicidade.

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