domingo, outubro 25, 2009

A minha política é a familia e vice-versa

Jean Sarkozy queria presidir à EPAD, uma empresa pública francesa que gere a área de La Défense, vizinha de Paris e sede de grandes empresas. Jean Sarkozy tem um currículo curto que de louvável só revela alguma teimosia: vai no terceiro ano que frequenta o segundo ano de Direito. Juntando a grandeza de um facto (EPAD, negócio movimentando mil milhões de euros anuais) e a brevidade do outro (Jean, que acaba de fazer 23 anos), já houve quem falasse de nepotismo, embora o termo venha do latim nepos, que quer dizer sobrinho. Ora foi mesmo o pai de Jean, o Presidente francês Nicolas Sarkozy, que o favoreceu.


Mas, na verdade, o termo nepotismo abrange todos os favores feitos dentro da família. A sua origem é medieval e definia o hábito de alguns Papas. Sem poderem ter filhos, os Papas, quando tinham um, chamavam-lhe sobrinho e, em alguns casos, faziam-no eleger bispo para que pudesse suceder-lhes. O Papa Alexandre VI, que era sobrinho de Calisto III, fez de um irmão da sua amante cardeal, que se tornou Paulo III, que nomeou cardeais dois sobrinhos, de 14 e 16 anos, e assim por diante. Essa prática de "sobrinhismo" ganhou, então, o nome de nepotismo.


Hoje, na política, este é fenómeno que toca comunistas (ver a dinastia norte-coreana: Kim Jon-un, aguardando suceder ao pai Kim Jon-il, que sucedeu ao pai Kim Il-sung) e democratas (Indira Gandhi é filha de Pandita Nehru, ambos primeiros-ministros da Índia). Generaliza-se às outras relações familiares (o Presidente Raúl Castro sucedendo ao irmão Fidel, a Presidente argentina Cristina Kirchner sucedendo ao marido Néstor) e enquista famílias a tendências políticas (na Grécia, os Karamanlis são de Direita e os Papandreou, socialistas).


Por causa do escândalo, Jean Sarkozy já foi obrigado a recuar na sua pretensão à presidência da EPAD. Mas não foi por falta de elogios de Thierry Solère, vice--presidente do UMP (o partido de Nicolas Sarkozy): "Jean é filho de um génio político, não é de admirar que seja precoce. Quando alguém é filho de Zidane, não é de admirar que jogue bem ao futebol." Arriscada comparação, que denuncia bem quanto o nepotismo é um abuso.


Se o nepotismo funciona, não é por causa do ADN mas pela velha técnica do empurrãozito. A prova é que no futebol não há nepotismo. Nunca houve filhos ou sobrinhos de Pelé, Puskas ou Di Stéfano que singrassem com a bola nos pés. O génio Cruijff, que até foi treinador e formou futebolistas como Guardiola, não conseguiu fazer do seu filho Jordi senão um razoável atacante. O futebol, ao contrário da política da Santa Sé e da política política, desenrola-se perante o olhar dos milhões de especialistas que somos, capazes de distinguir o talentoso do simplesmente sobrinho do chefe.

Ferreira Fernandes in DN, 25 X 09

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