sábado, outubro 24, 2009

a morte da arte

Discutia com os conceitos manhã fora.
O conjunto de frases soltas crescia,
sem fim,
na folha amarrotada do bolso.
O sujeito e objecto haviam-se perdido,
há muito,
entre as palavras dele
e deles.
A arte feita moribunda
sob o esgar doloso
de um Hegel de bancada.
Os conceitos eram de todos e de toda a história.
e viviam enganados sobre a ideia de estar ela estar terminada.
Não a matem! - gritou alguém.
Agora é tarde. - dizia o velho da primeira fila
que se limitava a impedir que os abutres cheirassem a arte
putrefacta.
O pescoço partido às cruéis palavras de Hegel pedia misericórdia
e Duschamp procurava um último suspiro na velha defunta.
Mas agora é tarde.
O cheiro a podre empestava já a sala.
Os conceitos saiam felizes,
em fila,
porta fora.
Fiquei só. Na sala. Com a arte nos braços.
Uma Pietà abandonada.
Sussurrei, sem força alguma, que ainda havia imagem.
Havia símbolos, recordações e alusões.

Havia o silêncio que desta vez não perdoou.
Agora só me resta escrever o obituário final
da arte.

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