domingo, outubro 18, 2009

petição contra as petições tolas do twitter

Por razões estranhas (tenho passado o meu tempo na jardinagem) não dei pela ascensão de Stephen Gately, da boy band irlandesa Boyzone. Agora, nesta época de pousio outonal (já só se semeiam favas, que não aprecio), pude dar-me conta da polémica à volta de Gately. Há dez anos, ele saiu do armário -precisando de desarmar as confissões de um guarda-costas que ia revelar tudo, o vocalista tomou a iniciativa de dizer ao tablóide Sun: "Sou gay e estou apaixonado." E, agora, Gately apareceu morto em Maiorca. "Causas naturais", disse a polícia. A polémica começa aí, comigo já atento.


A colunista do jornal Daily Mail Jan Moir escreveu, grosso modo: quais causas naturais, qual quê, ele morreu de ser gay! A tese - grosso modo, insisto - era que qualquer gay, mais cedo ou mais tarde, aparece morto em Maiorca. Há muitos anos, um dos melhores jornalistas portugueses que conheci, Manuel Beça Múrias, titulou no semanário O Jornal: "Morreu de ser português." Falava de Joaquim Agostinho, cuja morte estava bem espelhada naquele título agudíssimo: o ciclista caiu, bateu com a cabeça no empedrado, saiu-lhe sangue pelo ouvido e, em vez de o transportarem de imediato para um hospital, levaram-no para uma pensão... para descansar - enfim, morreu de ser português. Claro que era uma generalização - muitos portugueses, também vítimas de acidentes, eram bem tratados.


O texto de Jan Moir era também uma generalização, dizia: todos os gays têm uma vida sexual promíscua, estão metidos em droga e, portanto, aparecerem mortos está-lhes no sangue. Mas o texto de Moir era um intencionado insulto - enquanto o título de Múrias era uma amargura assumida. A inglesa era contra um grupo de pessoas naturalmente feridas, que mais não seja por haver colunistas homofóbicos à Jan Moir - enquanto o título de Múrias preocupava-se com os portugueses. Mas quero lembrar outra coisa que afasta o vicioso texto do Daily Mail do magnífico título de O Jornal: no tempo deste não existia o Twitter. Não fosse isso, poderiam ter um destino comum.


Existisse o Twitter em 1984 e um grupo de tresledores militantes era capaz de fazer uma campanha porque achava que o título de O Jornal insultava os portugueses; e era capaz de aterrorizar os anunciantes, obrigando-os a boicotar o jornal caso Múrias não fosse despedido. Em Inglaterra, o Twitter conseguiu já a retirada de publicidade ao Daily Mail e está a caminho de calar Jan Moir. Se querem que vos diga, neste caso, não se perdia grande coisa. Mas não é esse o ponto. O ponto é que essas campanhas são democracia de rebanho: marram. Como se explica que haja uma petição para que uma cidadã brasileira, por causa de umas piadolas, seja considerada pelo Parlamento persona non grata em Portugal (ontem havia mais de 3800 assinaturas)?

Ferreira Fernandes in DN, 18 Out 09

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