domingo, outubro 04, 2009

A Rainha Carlota Joaquina não faz o meu género

Além da multidão de indiferentes, em matéria de Brasil, há dois tipos de portugueses excessivos: à moda de Carlota Joaquina e à de D. Pedro IV. Ela quando viu as condições do paço do Vice-Rei, no Rio de Janeiro, exclamou: "Que horror. Antes Luanda!" Cinco mil dias depois, em 1821, quando pôde, enfim, voltar para Portugal, as suas primeiras impressões não tinham acalmado. Mal pôs os pés no tombadilho do navio de torna viagem, bateu um sapato no outro e disse: "Nem nos calçados quero terra do maldito Brasil."


Já o seu filho, Pedro de Alcântara, adoptou a terra onde chegou aos oito anos, a ponto de ter dado o grito de Ipiranga - protagonizando a bizarria de, sendo príncipe herdeiro do país colonizador, ter escolhido ser o libertador do país colonizado. Foi Imperador do Brasil durante nove anos e foi Rei de Portugal por sete dias. A sua preferência há de entender-se por uma frase, da época, que foi escrita por um jornalista também de coração balanceado, Hipólito José da Costa, redactor do Correio Braziliense, que em 1822, quando o Brasil se tornou independente, escreveu: "Em ser feliz é que consiste a verdadeira liberdade."


Anteontem, levantei dinheiro numa caixa multibanco junto ao meu jornal, demorei-me ainda a fazer uma transferência e quando recolhia o cartão percebi que uma rapariga esperava que eu lhe desse lugar. Pedi-lhe desculpa, e ela disse-me, feliz: "Imagina..." O meu jornal é em Portugal, de onde a felicidade da rapariga e a sua pronúncia manifestamente não eram. Mais tarde, vi o Presidente dela chorar como um perdido porque tinha encontrado a felicidade: o Rio de Janeiro vai sambar com as argolas olímpicas. Por isso, ando há dois dias derretido. Confesso, em assunto do Brasil, sou do tipo Imperador D. Pedro.


E tão excessivo que tenho uma proposta para o próximo Governo português. Não, não falo de caras, falo de pastas. Portugal precisa de um Ministério para os Assuntos do Brasil - totalmente dedicado a lembrar o óbvio. O Brasil é parte de nós, e nós não queremos muito, queremos muitíssimo: que isso não caia no esquecimento.


As modinhas pernambucanas começaram por ser açorianas, as fronteiras brasileiras do Norte foram garantidas pelo Marquês de Pombal, os azulejos de São Luís do Maranhão são azulejos, o café de São Paulo foi roubado à Guiana francesa por um contrabandista português e, com um ano, Maria do Carmo Miranda, do Marco de Canaveses e ainda não Carmen, foi viver para um sobrado na Rua da Misericórdia, no Rio, com traça igual aos casarões do Funchal. Ah, e embora incapaz de reproduzir a doçura daquele "imagina...", entendi-o.


Algum futuro comum havemos de encontrar com tanto passado. Afinal, os holandeses só estiveram 37 anos no Recife (e há que descontar o tempo dedicado destruindo Olinda) e ainda hoje se ouve esta exclamação: "Ah, o Brasil holandês!" Se me dão licença, volto a escrever a frase da minha crónica de ontem: "O Rio é a primeira cidade fundada por portugueses que é sede de uns JO." Por isso os pulos que eu dei anteontem não foi por outros, foi por mim.

Ferreira Fernandes in DN, 04 Out 09

1 comentário:

Pedro Laurentino disse...

Sendo brasileiro, muitas vezes tenho orgulho de Portugal. Pisando em Lisboa, dei de cara com uma porta que volta aqui, à Bahia, por muitos caminhos. O Rio de Janeiro é a primeira capital do Reino de Portugal a sediar as Olimpíadas, há mesmo o que se comemorar!