quarta-feira, novembro 25, 2009

astrolábio

Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
— pediste uma água mineral, um café
e uma sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 04:55 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.

Diogo Vaz Pinto in criatura

mínima d'ontem

o que há de mais surrealista no movimento surrealista português, é que, no fim de contas, ele nunca existiu.

Alexandre O'Neill

segunda-feira, novembro 23, 2009

nome comum


nome comum (www.myspace.com/nomecomum) vai dar o seu primeiro concerto público já está 5ª feira, dia 26 de Novembro na simpática Livraria Trama, pelas 21h30. A entrada são uns modestos 3€.
Aqui fica um resumo dos nossos narizes e do nosso projecto:
O nome comum nasceu há 87 anos. Teve dois maridos, quatro filhos e onze netos. Sendo nós dois deles. Netos, claro. Irmão mais velho e irmã mais nova de outros quatro. Foi na garagem da avó que nos inventámos, ao lado do seu Lancia verde-garrafa, sentados em duas cadeiras de praia. Aí, juntámos os narizes e deles saiu uma voz de origem comum. nome comum é um projecto musical tocado e cantado em português, radicado num duo de irmãos. Ambos cantamos, ambos tocamos. Bernardo, a sua guitarra. Madalena, o instrumento justo para cada música.

by Madalena

domingo, novembro 22, 2009

palavras da música


La Cathédrale engloutie de Debussy

Creio que nunca perdoarei o que me fez esta música.
Eu nada sabia de poesia, de literatura, e o piano
era, para mim, sem distinção entre a Viúva Alegre e Mozart,
o grande futuro paralelo a tudo o que eu seria
para satisfação dos meus parentes todos. Mesmo a Música,
eles achavam-na demais, imprópria de um rapaz
que era pretendido igual a todos eles:
alto ou baixo funcionário público,
civil ou militar. Eu lia muito, é certo. Lera
o Ponson du Terrail, o Campos Júnior, o Verne e o Salgari,
e o Eça e o Pascoaes. E lera também
nuns caderninhos que me eram permitidos
porque aperfeiçoavam o francês,
e a Livraria Larousse editava para crianças mais novas
do que eu era,
a história da catedral de Ys submersa nas águas.


Um dia, no rádio Pilot da minha Avó, ouvi
uma série de acordes aquáticos, que os pedais faziam pensativos,
mas cujas dissonâncias eram a imagem tremulante
daquelas fendas ténues que na vida,
na minha e na dos outros, ou havia ou faltavam.


Foi como se as águas se me abrissem para ouvir os sinos,
os cânticos, e o eco das abóbadas, e ver as altas torres
sobre que as ondas glaucas se espumavam tranquilas.
Nas naves povoadas de limos e de anémonas, vi que perpassavam
almas penadas como as do Marão e que eu temia
em todos os estalidos e cantos escuros da casa.


Ante um caderno, tentei dizer tudo isso. Mas
só a música que comprei e estudei ao piano mo ensinou
mas sem palavras. Escrevi. Como o vaso da China,
pomposo e com dragões em relevo, que havia na sala,
e que uma criada ao espanejar partiu,
e dele saíram lixo e papéis velhos lá caídos,
as fissuras da vida abriram-se-me para sempre,
ainda que o sentido de muitas eu só entendesse mais tarde.


Submersa catedral inacessível! Como perdoarei
aquele momento em que do rádio vieste,
solene e vaga e grave, de sob as águas que
marinhas me seriam meu destino perdido?
É desta imprecisão que eu tenho ódio:
nunca mais pude ser eu mesmo - esse homem parvo
que, nascido do jovem tiranizado e triste,
viveria tranquilamente arreliado até à morte.
Passei a ser esta soma teimosa do que não existe:
exigência, anseio, dúvida e gosto
de impor aos outros a visão profunda,
não a visão que eles fingem,
mas a visão que recusam:
esse lixo do mundo e papéis velhos
que sai dum jarrão exótico que a criada partiu,
como a catedral se iria em acordes que ficam
na memória das coisas como um livro infantil
de lendas de outras terras que não são a minha.


Os acordes perpassam cristalinos sob um fundo surdo
que docemente ecoa. Música literata e fascinante,
nojenta do que por ela em mim se fez poesia,
esta desgraça impotente de actuar no mundo,
e que só sabe negar-se e constranger-me a ser
o que luta no vácuo de si mesmo e dos outros.


Ó catedral de sons e de água! Ó música
sombria e luminosa! Ó vácua solidão
tranquila! Ó agonia doce e calculada!


Ah como havia em ti, tão só prelúdio,
tamanho alvorecer, por sob ou sobre as águas,
de negros sóis e brancos céus nocturnos?
Eu hei-de perdoar-te? Eu hei-de ouvir-te ainda?
Mais uma vez eu te ouço, ou tu, perdão, me escutas?

Jorge de Sena

um livro é um livro? III

O velho livreiro do bairro e o chavalo novo que distribuia os livros há menos de um ano encontravam-se religiosamente no café de esquina. Era certo. Como certa era a discussão sobre futebol, política e livro. O puto só queria dar-lhe os livros de aeroporto, o velho só queria os grandes clássicos. Um queria a margem de lucro, outro os livros à margem. Ninguém imaginaria que naquele dia quente, de fim de Outono, o livro poderia ser uma arma de crime. Dizem que era Goethe.

resolvido o caso do microfone direccionado

Lembro o 5 de Novembro de 2009. Nesse dia, um pombal, perdão um jornal - isto de debicadores de milho desnorteia-me -, um jornal que não nomeio porque todos mergulharam como pombos para painço no empedrado do Rossio, escreveu em título: "Escutas: conversa gravada pela Polícia Judiciária de Aveiro, Vara ouvido em almoço com Godinho." Foi a 5 de Novembro de 2009. Hoje, sabe-se que no processo não consta gravação nenhuma. É esse caso que vou investigar.
Relembro o que se escreveu a 5 de Novembro. O banqueiro Armando Vara e o sucateiro Manuel Godinho, cautelosos, por telefone só marcavam encontros. Mas, quando almoçaram num restaurante da Ajuda, a 23 de Maio, um microfone daqueles de escutas direccionais, capazes de ouvir conversas a 40 metros, apanhou-os a contratarem uma corrupção de dez mil euros. Estes os factos. Enfim, os factos como os que habitualmente comemos depois de regurgitados pelos do pombal, perdão jornal. Então, com essas certezas, dedicámo-nos à veia satírica. Só dez mil euros, o Vara?!... Por um almoço, atenção; se o homem come duas refeições por dia, vezes cinco dias de trabalho, mama 100 mil euros por semanada... Enfim, assalto à Vara...
Não defendo Armando Vara, não sei dele o que me permita ter opinião positiva ou negativa. Estou aqui porque me defendo. Estou farto, mas farto até à náusea, que uns estucadores, atiradores de barro à parede, pagos por mim (são funcionários públicos) para investigar crimes, porque ignorantes (incapazes de direccionar um microfone direccional), quando apanhados de mão a abanar reajam de má-fé: fornecem factos fantásticos a jornalistas para que endrominem a opinião pública.
Os estucadores estendem as suas invenções na talocha e com a colher atiram argamassa, só um bocadinho de cada vez, a ver se pega. Há-de pegar, porque eles sabem do que a casa gasta. Dez mil euros, microfones direccionais, raio de acção de 40 metros... - os jornalistas adoram pormenores. Isca engolida, há que manter as doses: dia sim, dia não, mais uma colherada. Nesta fase, um processo é como na maionese, não se pode parar. Bem servidos, há sempre jornalistas que comem tudo. Um dia, no caso da Joana, aquela menina algarvia que desapareceu, uma jornalista contou as últimas palavras da menina, atirada contra a parede... Em tribunal, o desaparecimento ficou nebuloso, só houve condenações porque houve confissões logo desmentidas, nada se soube e sabe do que aconteceu. Mas as últimas palavras da Joana ficaram preto no branco...
Voltando ao meu processo. A 5 de Novembro, havia gravações de Vara a pedir dez mil euros. Hoje, sabe-se que nunca houve gravações. A minha sentença: há investigadores e/ou jornalistas mentirosos no Caso das Falsas Gravações de Vara dos Dez Mil Euros. São curtas as conclusões do meu processo, mas têm o mérito de se basearem em factos. 

Ferreira Fernandes in DN, 22 XI 09


obs: factos. também eu tenho pena que as pessoas se tenham esquecido que a verdade se faz disso. apenas e só disso. é nestes momentos que tenho vergonha de alguns portugueses. de mentirem para apresentarem trabalho ou para destruírem a carreira ou vida doutro.

sexta-feira, novembro 20, 2009

história de amor XI

Ela sempre fora assim dramática. De choro fácil e palavras sentidas. Nem sempre as melhores, verdade. "É muita pressão. Não sei se quero estar contigo daqui a cinco anos." Foram estas as últimas palavras dele. A escola chegava ao fim e um longo Verão se aproximava. Ele sabia que tudo iria mudar. Ela também sabia disso. E ela que sempre fora de choro fácil fazia agora os possíveis para se controlar. Pressão? Ela mudaria por ele. Ela, de choro fácil. Ela,  das lágrimas gordas sobre a roupa nova comprada com ele, no domingo passado, entre dois gelados e um hamburguer no centro comercial habitual. Daqui a cinco anos? Ela também não sabia. Mas estava disposta a sacrificar-se por ele. Fora sempre assim na sua família.

mil

1000. tem aspecto de número redondo mas há ali um 1 que estraga tudo. estraga? ou dá razão de ser?
1000. mil. 100 x 10. 200 x 5... são mil as combinações. talvez mais. e os visitantes que há pouco eram dez 1000. e crescem. e com eles a responsabilidade. de um blog que é cada vez mais deles. porque sabe bem escrever para quem gosta de ler.
os projectos agora são outros e o blog acompanhou-me nos últimos quase quatro anos. pós-graduação I, pós-graduação II. portugal, frança, portugal. call-center, trabalho, estágios, trabalhos. conto publicado, poema editado, fotografia exposta. amor e amizade. pessoas novas que tal como as antigas me fascinam sem fim. que me fazem acreditar, que me fazem mudar. para breve um projecto novo. não é mil mas anda perto.  o blog continua dentro de momentos. obrigado a todos. até jazz...

porque as crianças têm direitos...

Em 20 de Novembro de 1989, as Nações Unidas adoptaram por unanimidade a Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) - (link), documento que enuncia um amplo conjunto de direitos fundamentais – os direitos civis e políticos, e também os direitos económicos, sociais e culturais – de todas as crianças, bem como as respectivas disposições para que sejam aplicados.

A CDC não é apenas uma declaração de princípios gerais; quando ratificada, representa um vínculo juridíco para os Estados que a ela aderem, os quais devem adequar as normas de Direito interno às da Convenção, para a promoção e protecção eficaz dos direitos e Liberdades nela consagrados.

Este tratado internacional é um importante instrumento legal devido ao seu carácter universal e tembém pelo facto de ter sido ratificado pela quase totalidade dos Estados do mundo (192). Apenas dois países, os Estados Unidos da América e a Somália, ainda não ratificaram a Convenção sobre os Direitos da Criança.

Portugal ratificou a Convenção em 21 de Setembro de 1990.

A Convenção assenta em quatro pilares fundamentais que estão relacionados com todos os outros
direitos das crianças:

• a não discriminação, que significa que todas as crianças têm o direito de desenvolver todo o seu potencial – todas as crianças, em todas as circunstâncias, em qualquer momento, em qualquer parte do mundo.

• o interesse superior da criança deve ser uma consideração prioritária em todas as acções e decisões que
lhe digam respeito.

• a sobrevivência e desenvolvimento sublinha a importância vital da garantia de acesso a serviços básicos e
à igualdade de oportunidades para que as crianças possam desenvolver-se plenamente.

• a opinião da criança que significa que a voz das crianças deve ser ouvida e tida em conta em todos os assuntosque se relacionem com os seus direitos.

A Convenção contém 54 artigos, que podem ser divididos em quatro categorias de direitos:

• os direitos à sobrevivência (ex. o direito a cuidados adequados)
• os direitos relativos ao desenvolvimento (ex. o direito à educação)
• os direitos relativos à protecção (ex. o direito de ser protegida contra a exploração)
• os direitos de participação (ex. o direito de exprimir a sua própria opinião)

Para melhor realizar os objectivos da CDC, a Assembleia Geral da ONU adoptou a 25 de Maio de 2000 dois Protocolos Facultativos:

Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo à venda de crianças, prostituição e pornografia infantis (ratificado por Portugal a 16 de Maio de 2003);

Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos da Criança relativo ao envolvimento de crianças em conflitos armados (ratificado por Portugal a 19 de Agosto de 2003);

in UNICEF

Eu abaixo assinada, deploro

Qualquer profissional sabe os riscos que corre quando critica os membros da mesma profissão. Há sempre um conflito de interesses entre a sua consciência - ou seja, aquilo que acha que é verdade e que deve ser dito - e o interesse de não arranjar problemas com "a corporação". Quando em Abril de 2009, num painel de debate da TVI24, disse que considerava não haver jornalismo de investigação no caso Freeport, mas notícias plantadas sob a forma de "informações" alegadamente (sublinhe-se o alegadamente) extraídas de um processo em segredo de justiça, estava bem consciente desse conflito de interesses e do risco que as minhas declarações implicavam, apesar de outros opinadores - caso de Ferreira Fernandes, neste jornal, utilizando a feliz expressão "milho aos pombos" e sublinhando serem os pombos "animais estúpidos" - terem dito o mesmo antes e depois.


Na SIC, no Expresso e no Correio da Manhã, as minhas opiniões tiveram direito a peças noticiosas. O destaque das três, porém, não foi a existência de jornalistas que criticam o jornalismo que se faz; foi a minha identificação como "namorada de José Sócrates". Considerando intolerável quer a devassa da minha vida íntima quer a redução da minha pessoa a sucursal de outra, apresentei queixa dos autores das peças ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e à instituição que legalmente tem a função de fiscalizar a deontologia da profissão, a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas.


O CD (cujo parecer é de Julho de 2009 e, curiosamente, não foi noticiado) considerou "tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, pelo Correio da Manhã e pelo Expresso", relembrando que "a devassa da vida privada dos cidadãos por alguns meios de comunicação não é, por si, susceptível de transformar acontecimentos privados em públicos, nem a sua divulgação e conhecimento legitima que eles possam ser retomados por outros media". A Secção Disciplinar da CCPJ, porém, arquivou as queixas. Recorri para o plenário; o recurso foi indeferido. E porquê? Diz a CCPJ que era "de interesse público", identificar a relação, "que era pública" (a CCPJ não vê nisto contradição) por causa do "conflito de interesses" - a saber, o de ter "defendido publicamente" a pessoa de quem, segundo a CCPJ, sou "publicamente" namorada.


E que faz este órgão máximo e autorizado da deontologia jornalística para declarar "pública" uma relação cujos alegados membros nunca tornaram pública - ou seja, nunca declararam publicamente existir? Não se atrapalha: refere fotografias de paparazzi efectuadas à porta da minha casa como eventual "liberdade de informar", juntando-as aos autos (sim, juntando-as aos autos) e diz que a relação é "assumida" numa biografia de José Sócrates, inferindo ser o próprio biografado a assumir nela a tal da relação - o que é falso, mas a ser verdade não podia ter qualquer relevância na apreciação da queixa de outra pessoa e nas questões deontológicas a dirimir (até porque nenhuma das peças cita fontes no que ao alegado namoro respeita). Concluindo: aquilo que a CCPJ cita como provas da "publicidade da relação" ou é nulo ou é falso. O rigor continua na definição do "conflito de interesses". A CCPJ situa-o na "defesa do primeiro-ministro", sem mais. Esquece-se de explicitar por que carga de água dizer que não houve jornalismo de investigação no caso Freeport é "defender o primeiro-ministro". Acha a CCPJ que todos os opinadores que disseram o mesmo são namorados do primeiro-ministro? Ou só quem a CCPJ acha que não tem namoro com o PM pode criticar o jornalismo em Portugal? E, mais bizarro ainda: por que raio haveria conflito de interesse no facto de uma jornalista opinar sobre jornalismo, sejam quem forem as suas relações pessoais?


Colher esta visão de uma relação, real ou percepcionada, meramente pessoal (o que é diferente de uma relação hierárquica, económica, etc.) como ferrete de suspeição permanente não é só uma intromissão intolerável na esfera privada e uma menorização obscena da pessoa atingida, da sua capacidade de julgamento e da sua liberdade. É um absurdo que, arvorado em princípio, prescreveria - como aliás faz (sem, aparentemente, se dar conta de incorrer na atitude que no mesmo parecer considerara ilegítima, isto é, a de "retomar" a devassa efectuada por outros) o parecer citado do Conselho Deontológico do Sindicato - a publicação de "declarações de interesses", em actualização permanente, de quem opina (e de todos os jornalistas, por maioria de razão) ao lado das colunas e das notícias, em rodapé nas TV, com listagens de amigos, familiares e amantes (sobretudo, claro, os clandestinos), presentes, passados e futuros, para não falar de quem lhes paga almoços, de quem lhes oferece presentes e, já agora, quando forem jornalistas, de quem lhes passa as notícias. A não ser, claro, que toda esta preocupação só diga respeito à minha pessoa e a CCPJ e o CD queiram, em concorrência com a chamada imprensa "do coração", conhecer, a par e passo, as vicissitudes da minha vida amorosa, mascarando esse voyeurismo com preocupações deontológicas. O que não é só sonso, deplorável, antiético e persecutório: é uma espécie de ilustração perfeita do infeliz estado a que chegou o jornalismo português.

Fernanda Câncio in DN, 20 XI 09

o importante

Quando te procurei
Estaria por acaso a verdade à minha espera?
O amor ocorre num espaço flutuante
Num exíguo lugar-nenhum
E o sonho é matéria incerta
Mestre na arte da fuga.

Ana Hatherly

pedra, terra e restos


algures 09

dos ventos russos


Rachmaninoff's Prelude in Gm Op.23 No.5 by Sviatoslav Richter

curtas de outono V

é sempre a mesma coisa. sempre que convido os mitos para a mesa, eles insistem em se portar mal. "à mesa não se discute" - digo-lhes sempre. e eles sempre de cabeça no ar a chatear os mais novos. sempre com a porra dos clássicos. mas quem são eles para virem sempre com essa história para cima de nós. até parece que eles existem desde sempre.

o ataque nos media prossegue a leste...



Quem lá vive, faz a sondagem do coração: Berlim é a cidade da Europa para onde toda a gente quer ir. Por causa da noite, da cena artística, da história. Mas se Berlim é onde se quer ir, Berlim Leste é onde se vai parar.


Há um cliché que ainda se ouve em Berlim aos mal-humorados: se não gosta de trabalhar, só pode ser do Leste. É que o muro caiu, mas ainda há quem se agarre às pedras quando as diferenças saltam à vista. A cidade que anda a aprender a ser simpática com os turistas (não é exagero: fez-se campanha pela hospitalidade em Berlim antes dos mundiais de atletismo), não esqueceu o tempo em que rir não era remédio. Vinte anos depois, ainda faz as contas ao que ganhou e ao que perdeu com a queda do muro.
Ninguém nega que chorou. Que saiu de casa de pijama para ir ver a história a acontecer. Que tirou fotografias. Mas também ninguém nega que a manhã seguinte à reunificação da Alemanha trouxe boas e más notícias. Foi preciso tomar decisões. E já se sabe que quando um decide há sempre outro que fica insatisfeito.
"Eu já era médico em 89", diz Christophe Meineke, 49 anos. "E vi acontecer uma coisa curiosa através dos meus doentes: muitos dos que se tinham separado quando o muro caiu não se uniram depois.Muitos quiseram ficar no leste. A alguns atraiu-os o capitalismo, claro, mas muitos não quiseram sair . No fundo, as perspectivas de vida depois da queda do muro separaram tanto as pessoas como a sua construção."
As diferenças eram óbvias e não iam desaparecer com o muro: "Via-se nos locais de trabalho. Por exemplo, na minha área. Na Alemanha de Leste a medicina era muito estatal, enquanto a Alemanha ocidental estava mais aberta às medicinas alternativas e à homeopatia, por exemplo." Ainda hoje Christophe garante que consegue perceber perfeitamente se um colega médico se formou "do lado de lá", no Leste. "Sobretudo porque são menos alternativos e têm tendência a categorizar as coisas. É frequente definirem determinadas situações como normais ou anormais, verem tudo mais a preto ou branco do que a cinzento."
É também no trabalho que Elisa Bogalheiro, 31 anos, jornalista, mais percebe o que foi a reunificação de Berlim. "Já fiz muitas reportagens sobre o muro. Há pouco tempo fui entrevistar miúdos de 18, 20 anos. Uma geração que já nasceu depois da queda do muro, mas que ainda é, na educação, muito marcada por ele. Conclui que os miúdos que cresceram no lado Leste são bastante mais politizados que os miúdos do lado ocidental. Sabem bem o que aconteceu, como foi. Quando falei com jovens que cresceram do lado ocidental senti que encaravam o muro como uma coisa muito antiga, que já não lhes dizia respeito."
Elisa tem dificuldade em dizer que o muro caiu há vinte anos. "Há pessoas em Berlim que ainda não vão ao outro lado da cidade. É verdade que a cidade é muito grande [é muito mais um conjunto de oito ou dez aldeias do que uma cidade, apesar da sua exposta urbanidade], mas ainda podemos falar com pessoas que só foram ao outro lado da cidade uma vez na sua vida, por exemplo."
Nas entrevistas que foi fazendo, ouviu muitas vezes a resposta: "Não me interessa ir, não tenho nada para fazer lá." E, diz, "apesar de tudo não estamos a falar de ir de Lisboa ao Porto - acho que não é só uma questão de poderem fazer a sua vida só de um lado de Berlim". Há mais, então.
"Há uma ironia grande: a zona leste, que era supostamente a menos avançada, é hoje a mais multi-cultural, mais artística, mais desejada tanto para viver como para lazer. Mas mais pelas pessoas mais novas."
João Tomé, André Santos, Ana Queirós e Manuel Dórdio são as caras desta nova cidade que se passa mais no lado Leste que no lado ocidental. Chegaram a Berlim há poucos anos e já encontraram a cidade unida. Mas não hesitam: esta cidade continua partida em duas. "Sinto-me noutra cidade quando vou para o lado ocidental", diz André Santos, engenheiro na Active Space Technologies. Se no lado Este o principal transporte é a bicicleta, no lado Oeste é o carro alemão saído no mês passado das fábricas de Estugarda. No lado oeste o traje oficial é o fato e gravata, no lado este é a guitarra ao ombro. A língua do lado este é o turco, o inglês, o italiano, o espanhol. No lado Oeste é o alemão ou o inglês das excursões. No lado Oeste a cidade fecha com o fim do dia, no lado este há sempre bares e os estabelecimentos comerciais das famílias turcas, curdas, asiáticas estão abertos". Se Berlim vive bem com essas diferenças?
Há uma maneira de perceber se uma cidade faz das suas fraquezas forças. Faz dinheiro com o assunto? Berlim faz. Aproveita aquilo a que os berlinenses chamam "a nostalgia do Leste" e tem um hostal da DDR para quem quiser reviver o tempo do comunismo em Berlim. Os preços são os normais, o que é engraçado. Paga-se o que se paga normalmente por uma noite de hotel, mas ali a cama, a televisão, tudo é exactamente como era na zona Leste, naquele tempo.Nostalgia? Ou outra maneira de dizer capitalizar.


in Diário Económico, 09 XI 09

história de amor X

José está velho. Maria também. Cada um no seu canto. Em mais um lar de idosos abandonados. O amor de ambos é uma palavra esquecida. Ele estica-lhe a mão. Ela não chega. "Amo-te!". "Eu também". E assim regressam os seus olhos cansados à tv que não se desliga.

quarta-feira, novembro 18, 2009

untitled

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O'Neill

segunda-feira, novembro 16, 2009

Cine Qua Non, agora em papel


O lançamento é já no dia 17 de Novembro, pelas 18h30, na sala 2.13 da Faculdade de Letras. Colaborei neste primeiro número. E estarei lá amanhã  para dar todo o apoio às responsáveis deste projecto que foi aqui recomendado e reconhecido anteriormente. Teria, por isso, muito gosto em contar com todos.

momento zen de humor


Realmente o Bettencourt bem avisou os adeptos do Sporting que ainda terão saudades do Bento...

esta música na cabeça

parece que não há maneira desta música sair-me da cabeça hoje...

porque será?
e esta e esta? posso sempre variar e pensar nesta...

i

i, BEST EUROPEAN NATIONAL NEWSPAPER OF THE YEAR

A few minutes ago, the 11th European Newspaper Awards were announced and, i, the fantastic new paper from Lisbon is the big winner.
The European Newspaper Awards are organized by Norbert Küpper from Meerbusch (Germany) with the journalism magazines “Medium Magazin” from Frankfurt/Main, “Der Österreichische Journalist” from Salzburg (Austria) and “Schweizer Journalist” from Wilen/Wil (Switzerland).
A few weeks ago i was awarded as one the best designed newspaper of Portugal and Spain of the year.
Now i gets this European Newspaper Award.
This is not just a design contest.
The European Award includes “design and concept” and i is unique in both areas.
The Jury statement said;
“i” persuaded the jury through its special innovative approach. Newly established, the newspaper can start full of energy. It is precisely this that makes “informação” fascinating in all fields: Photography, page layout, alternative types of journalistic articles and innovative sections – completely focusing on the power of new ideas. All in all, a newspaper is evolved quintessentially, an all-round innovation. It almost goes without saying: The homepage www.ionline.pt has a similarly innovative appearance as the printed newspaper.”
INNOVATION’s Javier Errea has won right now more European Newspaper Awards than any other design consultant in the world.
Read here the INNOVATION MANIFESTO FOR i.
See here and here, a large selection of its best pages.
And here you can find a interview with its Art Director, Nick Mrozowski.
Yes, i is becoming the most innovative newspaper done by the INNOVATION team in the last 20 years.
A real revolution.
A needed revolution.
Launched just six months ago during the worst economic times…
A lesson for the newspaper industry.
And here are the real winners.
A young newsroom.
With energetic team of editors and managers.
And a brave company, Grupo Lena, investing in times of crisis.
in  European Newspaper, 16 XI 09


nota: esta bela noticia acabou por não ser grande surpresa por já ter tido acesso a ela por uma informadora especial. a ela e ao i os meus mais sinceros parabéns.

sábado, novembro 14, 2009

não encontro

aquela palavra que te diga tudo.
que te faça entender
que estou lá sempre. em todos os
momentos.
tanta palavra escrita em tanta
folha perdida.
palavras
gritadas,
sussurradas,
despidas de si mesmas.
não percebo como não conheço mais as palavras.
palavras. como me metem nojo. como só me apetece matar as palavras.
palavras. agora que não me confessam
que palavra é aquela
que te faz sorrir e acreditar.
que amanhã vai tudo ser mais bonito.
não encontro. nem ouço a tua voz do outro lado.
sou um triste mapa sem norte.

sexta-feira, novembro 13, 2009

O grande feito de António Guterres

Ninguém é profeta na sua terra, diz o ditado. A sabedoria popular portuguesa parece aplicar-se, por estes dias, a destacados membros da nossa classe política, que são mal amados na pátria enquanto recebem os mais rasgados elogios no estrangeiro.


A reflexão surge a propósito da distinção que a prestigiada revista norte-americana Forbes acaba de conceder ao ex-primeiro-ministro António Guterres. Reconhece-o como a 64.ª entre as cem personalidades mais influentes do mundo pela actividade que vem exercendo como alto-comissário para os Refugiados no âmbito das Nações Unidas.


É uma função que Guterres tem desempenhado da melhor maneira, como já foi reconhecido pelos mais exigentes analistas internacionais. Cansado do "pântano" da política portuguesa, o ex-primeiro ministro brilha hoje no estrangeiro, onde também merecem crédito o ex-primeiro-ministro Durão Barroso, que acaba de ser reconduzido como presidente da Comissão Europeia, ou o antigo presidente Jorge Sampaio, enviado especial do secretário-geral da ONU, entre outras tarefas, para a luta contra a tuberculose.


Três personalidades da vida nacional que ocupam cargos de poder e de prestígio nas mais altas instâncias internacionais, e que são elogiados lá fora e continuamente criticados cá dentro. Por um país que faz gala em depreciar os políticos, remetendo-os para os últimos patamares da consideração social.

Editorial DN, 13 XI 09

Portugal cresceu 0,9% e ninguém diz nada?dizem que são as linhas editoriais...

A economia nacional expandiu-se em 0,9% entre Julho e Setembro face ao trimestre anterior, anunciou o INE, que também reviu em alta o crescimento económico do segundo trimestre para 0,5%.
Em termos homólogos, o Produto Interno Bruto (PIB) português registou uma quebra de 2,4% no terceiro trimestre do ano, contra o recuo de 3,7% registado no segundo trimestre, indicam as estimativas rápidas do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgadas hoje.
A mesma fonte adiantou também que reviu em alta as suas estimativas de crescimento avançada inicialmente.
O INE explica que a quebra “menos intensa” da economia se ficou a dever principalmente à “redução menos acentuada do investimento”, sendo que tanto as Exportações como as Importações registaram quebras homólogas “menos intensas”.
O Governador do Banco de Portugal, Vítor Constâncio, indicou recentemente que Portugal deve registar uma contracção económica “ligeiramente inferior” a 3,0% este ano, uma evolução melhor do que a quebra de 3,5% anteriormente esperada.


in Diário Económico, 13 XI 09 

quinta-feira, novembro 12, 2009

"mas nós estamos só a experimentar"

A experimentar o criar ou o saborear?

Muito para lá do amor, ódio, guerra e paz, há na cozinha um reflexo do mundo que há muito se dividiu entre os que defendem a originalidade e singularidade como objectivo final e os para quem a perfeição reside na descoberta da tese/lei que garanta a previsibilidade do mesmo.

O confronto dos chefes  Gonçalo Waddington e Tiago Rodrigues aos olhos de um documentário sobre o grande restaurante Cópia é bem mais do que isso. É uma alheira feita questão. É um questionamento do mundo enrolado entre carnes de aves de caça ou de aviário. Ou não fosse a alheira mentirosa. Ou não fosse o mundo mentiroso.

O texto dos dois actores e de João Canijo é um interessante exemplo da herança de Gil Vicente. Rindo, e muito se ri nesta peça, se criticam costumes. Criticam-se e questionam-se concepções do mundo. Formas de pensar a cozinha, a arte, a criação no seu sentido mais lato.

A presença de verdadeiros cozinheiros na primeira parte,  as receitas disponibilizadas por importantes chefes portugueses e uma cenografia onde a câmara em directo retransmite o que se passa na cozinha, reacções de cozinheiros e a elaboração dos próprios pratos transformam esta peça numa das mais agradáveis surpresas do ano. Claramente uma das mais animadas.

Um último e importante destaque para a qualidade do desempenho dos dois autores. Excelente. Realista. Simples.

Texto Gonçalo Waddington, João Canijo Tiago Rodrigues Encenação e Interpretação Gonçalo Waddington Tiago Rodrigues Dramaturgia João Canijo Colaboração artística Thomas Walgrave Consultoria Diana Carvalho Frederico Ribeiro Produção Magda Bizarro
Assistência 
Mariana Sampaio Gonçalves Entrevistas e colaboração na pesquisa Carme Ruscalleda (Restaurante Sant Pau), Juan Mari Arzak(Restaurante Arzak), Martín Berasategui (Restaurante Martín Berasategui) e Santi Santamaria (Restaurante Can Fabes) Fotografia do cartaz Rita Carmo Residência de criação Espaço Alkantara

in Teatro S. Luiz, 5 a 22 Nov

quarta-feira, novembro 11, 2009

desta forma

aprendi esta nova forma
nos livros perdidos de st. germain,
nos cafés iluminados de marais,
nos hotéis velhos do mouffetard.

aprendi esta nova forma
nos cinemas de sala vazia,
nas peças revoltadas da cartoucherie,
na velha ópera de cadeiras que rangem.

aprendi esta nova forma
nas peças deles,
nos poemas de alguns,
nas prosas dos outros.

Paris, desta nova forma de expressar.

e depois da curva?


Pedrógrão 09

história de amor IX

agarro-lhe a mão. treme. tem um livro por abrir na outra mão. é um autor dos novos que já me falou mil vezes. não fixei o nome. calma. - digo-lhe. ela não gosta e fez-me ar de má. gosto disso. no altifalante o sr. comandante fala-nos de mil inutilidades que jamais servirão de algo em caso de acidente. sorrio sobre o assunto enquanto troco uma palavras com ela. encosta a sua cabeça no meu ombro e fala-me do medo de voar. fala-me de um ícaro qualquer que não voou mais. parvoíce. - digo-lhe. ela não gosta e faz-me novamente ar de má. eu gosto disso novamente. o avião acelera. dou-lhe um beijo repenicado. e agarro-a com mais força. sussurro-lhe ao ouvido: - agora vai ser diferente. temos todo um mundo só para nós. os dois.

terça-feira, novembro 10, 2009

os meus amigos são uma pandemia nos media

Diário de Marta G. Andrade, Chefe da missão em Cabo Verde

Pela primeira vez, a República de Cabo Verde depara-se com um surto de dengue que representa uma séria ameaça à saúde da população cabo-verdiana. Declarado pelas Autoridades Nacionais a 28 de Outubro de 2009, este surto tem sido acompanhado, desde o primeiro momento, pela missão da Assistência Médica Internacional (AMI) na Ilha do Fogo que vai, a partir da próxima quarta-feira, ser reforçada com uma equipa de um médico e dois enfermeiros que durante dois meses vai procurar dar resposta às necessidades de pessoal médico e de material solicitadas pelas autoridades cabo-verdianas. A nova equipa da AMI vai manter-se no terreno por dois meses, onde prestará assistência médica junto do Hospital de S. Filipe, estando também prevista a realização de campanhas de prevenção, contribuindo, assim, para a resposta conjunta e coordenada a este surto. A equipa da AMI irá diariamente juntar-se aos leitores do Correio da Manhã para contar-lhe as últimas actualizações vividas no terreno.

Marta Gomes de Andrade in Correio da Manhã, 10 XI 09


nota: Se eu podia viver sem os meus amigos brilharem nos mass media? Podia, mas se não fosse no CM não seria a mesma coisa...

há exactamente nove anos...


Branca de Neve (2000)

tanto tempo passou e contudo nada mudou... ainda hoje são tantos os que não percebem... talvez quando o filme for maior de idade...

segunda-feira, novembro 09, 2009

no efeito dominó


Quando hoje forem abaixo os dominós da história vai com eles muito mais história (link). Os jovens berlinenses de vinte anos são hoje filhos de uma Alemanha e Berlim diferente. O que é hoje uma referência da Europa e da juventude continua a ter marcas subconscientes do que se viveu ali. Os dominós marcavam um lugar-memória fundamental na história alemã e europeia. Eu tinha apenas sete anos mas lembro-me. Recordo plenamente aquelas imagens que não me faziam assim tanto sentido. Sentia alegria e felicidade em estado puro mas era apenas isso que conseguia ler nos olhares, gritos e toques de cada lado do muro. Hoje muito mais vejo ali. Berlim mostra que a história foi definitivamente assimilada pelos alemães. Fica a dúvida... terá mesmo a Europa aprendido a lição?

obs: photograhy by Pawel Kopczynski

my happy end


Trailer for My Happy End animation short film by Milen Vitanov

a reflectir brevemente

O fim da critica teatral enquanto analise de texto. A vitória do momento, do presente, do sentir. Quando e porquê desta ruptura de paradigma na crítica teatral?

ao abandono. de vez.


Pedrógrão 09

curtas de outono IV

Tenho pena destas pessoas por onde passo os meus olhos pesarosos. Tenho pena dos risos tresloucados de empregadas banhadas em lixívia, barradas a gordura de fritar, enfeitadas a dentes podres. Tenho pena dos velhos quebrados pelo peso da vida e pelas fatalidades da lei da gravidade. Tenho pena daqueles corpos suados de obrais imundos. Deseducados a ferros e madeiras, a mortes e álcool. Tenho pena das crianças fungosas, de unhas de terra e pegajosas doenças.
Tenho asco. De mim. De fazer uma viagem de olhos neles e não ver que me tornei em mais um. Uma metástase de mim mesmo. Um cancro podre desta linha suburbano. Um desvio de olhar a cheirar a casaco de armário.

num minuto

um minuto daqui
um minuto verde.
uma janela fechada.
tu aqui ao lado. um abraço quente.
a noite de ontem que não termina, no cheiro quente que se prolonga.
lá fora as folhas rebelam-se na chuva e eu sorrio. uma empatia revolucionária com a natureza.
o boémio apaixonado com cicatrizes em forma de coração é o narrador omnipresente de todas as minhas estórias.

sexta-feira, novembro 06, 2009

história de amor VIII

a janela está fechada. porque insiste em cair uma chuva de outono sobre os vidros que não foram limpos. ainda bem que não limpei antes. agora estaria ainda mais chateada. a comida arrefece no prato e tenho a certeza que não me vou levantar deste sofá quente para terminar uma comida insípida. o livro aberto na mesma página há horas. uma voz rouca que não se ouve. uma voz rouca dos berros da última discussão. a porta deve ter ficado aberta. bateste a porta com tanta força que não ouvi o trinco. deve estar aberta, a porta. não faz diferença. a janela está fechada e não há corrente de ar. a comida arrefece no prato, mas não muito. os meus olhos fecham-se. lembro-me da tua boca. era bem bonita. foram tão feias as últimas palavras. que pena acabar assim.

da simbologia dos símbolos

O crucifixo está de facto exposto nas salas de aula, mas não é de modo algum solicitado aos professores ou aos alunos que lhe enderecem o menor sinal de saudação, de reverência ou de simples reconhecimento (...). De facto, nem sequer lhes é solicitado que lhe prestem a menor atenção."

É um dos argumentos do Estado italiano em sede do processo que lhe foi instaurado no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Outro é de que o crucifixo não é um símbolo religioso mas cultural, parte do património "ético e humanista" do país, e assim a sua imposição nas salas de aula não feriria os princípios laicos de Itália.

O tribunal, é sabido, condenou o país estabelecendo que é obrigação dos Estados vinculados pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos "abster-se de impor, mesmo indirectamente, crenças, nos lugares em que as pessoas estão deles dependentes ou ainda naqueles em que as pessoas são particularmente vulneráveis", e que a presença do crucifixo não pode deixar de ser vista como "uma escolha preferencial manifestada pelo Estado em matéria religiosa". O Governo italiano e variados representantes eleitos reagiram irritadamente ao acórdão. E o Vaticano, pela voz do cardeal Bertone, veio lamentar o facto (?) de "a Europa do terceiro milénio" dar "as abóboras das festas celebradas no dia das bruxas e, ao mesmo tempo, retirar os símbolos mais queridos".

Não elaborando sobre a comparação do crucifixo com um legume/enfeite e de uma religião com uma festa pop (viesse de um ateu e seria motivo de escândalo), releve-se a profunda contradição dos argumentos sempre aduzidos, em países constitucionalmente laicos como Itália e Portugal, a favor da permanência dos crucifixos nas escolas públicas. Defender, ao mesmo tempo, que retirá-los é "um atentado à liberdade e à identidade" e que estes não merecem sequer um olhar é no mínimo muito pouco sério. E é-o tanto menos quanto quem defende a presença dos crucifixos nas escolas públicas não pode ignorar - e se ignora melhor será informar-se - que estes foram lá colocados com um objectivo muito claro, o de identificar o Estado com uma confissão. Em Itália, em 1861 (o da unificação do país), para assumir a religião católica como "a única religião do Estado". Em Portugal, por decisão de Salazar em decreto de 1936, explicitando: "Em todas as escolas públicas do ensino primário infantil e elementar existirá, por detrás e acima da cadeira do professor, um crucifixo, como símbolo da educação cristã determinada pela Constituição." A Constituição de Salazar, note-se. A da democracia estatui desde 1976 que o Estado não tem religião e que a escola pública é laica.

Os crucifixos estão nas escolas para doutrinar - fazer proselitismo. E é mesmo por esse motivo que os defensores dessa situação lá os querem: porque não confiam no poder de atracção da sua crença e querem impô-la aos outros. É compreensível, dir- -se-ia mesmo expectável. E muito simbólico, sim: do medo da liberdade. Como será simbólico que um Estado laico, e sobretudo um Governo socialista, se mantenha cúmplice desse medo.

Fernanda Câncio in DN, 06 XI 09

quinta-feira, novembro 05, 2009

em face dos últimos acontecimentos

Oh! sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
que o nosso avô português?

Oh! sejamos navegantes,
bandeirantes e guerreiros,
sejamos tudo o que quiserem,
sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
e as mulheres podem doer
como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
de tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
fosse a última resolução.
Não compreenderam, coitados,
que o melhor é ser pornográfico.

Propõe isso a teu vizinho,
ao condutor do teu bonde,
a todas as criaturas
que são inúteis e existem,
propõe ao homem de óculos
e à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
não quereis ser pornográficos?


Carlos Drummond de Andrade in Brejo das Almas

13 frases de Otto Lara de Resende


Escritor e jornalista, o mineiro de São João Del Rey, Otto Lara Resende (1922 - 1992) ficou conhecido pelo seu poder de síntese na criação de frases imortais. Nelson Rodrigues (1912 - 1980), frasista incomparável, chegou uma vez a sugerir que alguém seguisse Otto 24 horas por dia para anotar as frases que ele fosse deixando pelo caminho. O próprio Nelson se dizia disposto a realizar esta tarefa para depois abastecer uma "Loja de Frases". Na verdade, Otto passou a ser uma fixação para Nelson Rodrigues que o "homenageou" com o título "Bonitinha mas ordinária ou Otto Lara Resende".
Juntamente com os amigos Fernando Sabino, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos formou o grupo conhecido como os quatro mineiros do apocalipse que marcou a cultura e literatura nacional, inventando um jeito mineiro, mas também carioca de ser.
Bem, achei que seria uma boa ideia relembrar algumas dessas frases definitivas de um escritor que faz falta nos dias de hoje.


1. Há em mim um velho que não sou eu.
2. A Europa é uma burrice aparelhada de museus.
3. Tenho para mim que sei, como todos os brasileiros, os três primeiros minutos de qualquer assunto.
4. Sou um falante que ama o silêncio.
5. Deus é humorista.
6. Ultimamente, passaram-se muitos anos.
7. Sou um sobrevivente sob os escombros de valores mortos.
8. Texto de jornal é estação de trem depois que o trem passou. Deixou de ter interesse.
9. A morte é noturna. À noite, todos os doentes agonizam.
10. Leio muito à noite. Só não sou inteiramente uma besta porque sofro de insónia.
11.  Sou autor de muitos originais e de nenhuma originalidade.
12. A morte é, de tudo na vida, a única coisa absolutamente insubordinável.
13. Escrever é de amargar.

via Mundo de K

um livro é um livro? II

Fechava a porta com estrondo. Meia hora num trânsito infernal e mais um risco no carro. E a chuva? Fria. Molhada até aos ossos. Mal entrara porta adentro e logo a secretária, que hoje nem vinha com um daqueles decotes, lhe estendia seis livros, ou futuros livros para ler. Seis futuros Nobel, de certeza.
Começou preguiçoso a ler, na diagonal, os vários textos e como habitual entediava-se de morte com este trabalho. Aquelas coisas com palavras nem se venderiam numa livraria alternativa-intelectual. Até que ao sexto livro começaram a ouvir-se moedas e notas a tilintar a cada virar de página. Estava mal escrito, sem dúvida. E tinha dezenas de erros, claramente. A história era piegas, são sempre. Mas, com o trabalho do revisor, um puto novo que está a recibos verdes há um ano e até vende a mãe por um contrato, com um arranjo aqui e ali ficava um brinco.
Está feito! - gritou para a secretária. Temos as vendas de Natal garantidas, pensou enquanto googlava ansioso umas viagens para o Brasil.

Alto aí, nem tudo é relativo!

O vinho é bom - bebido com moderação previne os ataques cardíacos. O vinho é mau - bebido em excesso dá cabo do fígado. O exercício físico é bom - para os músculos, e o coração é um músculo. O exercício físico é mau - pode levar a ataques de coração (Jim Fixx, o pai do jogging, morreu de um). Os testes genéticos são bons - para quem fica prevenido para doenças que podem ser detectadas mais cedo. Os testes genéticos são maus - para quem fica angustiado com a maior probabilidade de herdar doenças (como o Alzheimer) para as quais não há cura. Beber leite era bom - há uma geração, por dar o cálcio necessário ao crescimento ósseo. Beber leite é mau - hoje, com a dieta mais rica pode levar à obstrução das artérias. Os raios X são bons - diagnosticam os ossos partidos. Os raios X são maus - expõe-nos às radiações... Na vida as contradições são giras (li o que está atrás num artigo, de ontem, do jornal inglês The Independent) mas nem sempre funcionam. Ouvir as tolices, os boatos e os achismos atacando a vacina contra da gripe A não vale o mesmo que ouvir o director-geral da Saúde, Francisco George, e o director da Escola Nacional de Saúde Pública, Constantino Sakellarides defendendo a vacinação. Ainda há uns que sabem e outros que não. Tudo é relativo, mas mesmo isso é relativo: às vezes, não é.

Ferreira Fernandes in DN, 04 XI 09

quarta-feira, novembro 04, 2009

um livro é um livro? I

Os cadernos juntavam-se já a um canto. Ocupavam já metade da sala. E pareciam não ter fim. Eram contos e poemas. Crónicas vividas e outras pensadas no fim do dia. Eram conjuntos de palavras que ele tencionava oferecer em cada fim-de-semana a um amigo que conhecia outro que tinha um amigo que trabalhava numa editora.
E, no entanto, eles ficavam sempre a um canto a ganhar pó. Tal e qual os novos livros oferecidos por amigos descuidados que não percebiam que cada vez mais odiava ler.
Ler os livros dos outros. Porque para ele os seus livros eram best-sellers há muito. Não precisava de lombadas brilhantes, nem capas com relevo, muito menos de títulos sexualmente sugestivos. Para ele para ser livro bastava transmitir uma mensagem a outro. Nem que fosse ao eu próprio que se arrependia de nunca entregar um livro aos outros.

amigos na berra

A Xukebox, o blog destacado esta semana pelo Cotonete, nasceu em Março de 2008 mas só começou a tocar em Outubro desse ano. Os fundadores são dois irmãos, Mariana e R2D2, que, «no meio de muita discussão, atritos e desventuras, apaziguam-se na paixão mútua pela música». Respondendo na terceira pessoa do plural, a dupla explica que «a música fez parte da educação de ambos e a diferença de idades (nove anos) permitiu uma diversificação ainda maior de influências».


Justamente como referências, apontam a música «desde os anos 60 que lhes vem dos pais, até ao punk rock dos anos 70, passando pelas incursões electrónicas dos 80 até ao grunge dos 90». Gostam «da interacção e da partilha de gostos» e, por isso, criaram a "Guest Box", uma rubrica «onde convidam outros bloggers para participarem» e contam ainda com «a participação de um autor convidado (Anónimo) com rubrica permanente». O objectivo último passa pela «divulgação de novos talentos, consagração dos clássicos preferidos e partilha de opiniões», explicam.


Outra das atracções da Xukebox é, além de «lançar uma música por dia» na "Song for Today", servir de «agenda, com críticas dos concertos a que nós próprios assistimos, na rubrica "been there done that"». Com uma média diária de 50 visitas, o blog leva cerca de uma hora por dia a ser actualizado. No entanto, «a investigação por trás é muita e constante»: «a proliferação de novas bandas é abundante, o que torna necessária uma selecção cuidada do que gostamos e queremos divulgar», acrescentam.


Com uma das metades da dupla a trabalhar na área da comunicação e a outra como empresário, a Xukebox tem, à semelhança de outros blogs, «um cunho pessoal e mais intimista do que qualquer revista ou jornal», baseando-se em «gostos e experiências pessoais». A margem de evolução «pode ser muito grande desde que o nível de qualidade seja sempre elevado».


Apoiada no blog e no «bom feedback» que vai recebendo, a dupla já promoveu duas festas num bar em Santos (Ko-Zee), onde foram os responsáveis pela selecção musical e pelo Djing. «A ideia surgiu exactamente por haver poucos espaços em Lisboa que passem a música que nós damos a conhecer no blog», contam. E concluem: «tivemos boa aceitação e pretendemos continuar a fazê-las com maior frequência para tentar instituir a noite "Xukebox Session" e, quem sabe, torná-la mítica». Para já, a Xukebox pode ser "ouvida" dia e noite neste link.

Hélder Gomes in Cotonete

terça-feira, novembro 03, 2009

anda, júlia

anda, júlia, vamos ver que raio tens tu aí debaixo da saia. salta o tapete, a ver se não o sujas com essas patorras de malandra. não é que eu goste do tapete, mas foi deixado aí pela minha mulher e um dia acho que o vai querer de volta. essas coisas a que as ex-mulheres dão muita importância. estás bem. hummm. não te assustes com isso, é só para fazer efeito de filme. para dar uma vertigem aos preliminares, que depois é a rebaldaria de sempre e já não importa nada

Valter Hugo Mãe in Casa de Osso

na morte do primeiro dos grandes centenários...

L'ethnologue Claude Lévi-Strauss est mort
L'ethnologue est mort dans la nuit de samedi à dimanche à l'âge de 100 ans, selon l'Ecole des hautes études en sciences sociales.
in Le Monde, 03 XI 09

Morreu Claude Lévi-Strauss

Lévi-Strauss foi um dos grandes intelectuais franceses do século XX e lançou as bases da Antropologia moderna. Foi o primeiro membro centenário da Academia Francesa, para onde entrou em 1973. E foi também um crítico do etnocentrismo e de algum modo um precursor intelectual do movimento ecologista.
Foi também o primeiro antropólogo na Academia Francesa, a cujas sessões se deslocava regularmente até há não muitos anos.
in Público, 03 XI 09


nota: Restam Oliveira e Niemeyer... é um dia bem triste para as Ciências Sociais na morte deste grande professor.  Para saber um pouco mais ler este texto (link) do le Monde aquando dos seus cem anos.

segunda-feira, novembro 02, 2009

curtas de outono III

Fazia quase trinta anos que ele morrera mas parecia que ainda via à sua frente todo aquele dia. Via a sua janela, a janela que o acompanhara toda a sua vida, via a janela aberta sobre o corpo desmembrado. Via a gota de sangue, ainda com vida, a descer lentamente pelo vidro enquanto os membros dilacerados daquele estranho se mexiam sem sentido contra a janela.

Não conhecia aquele estranho. Mas trinta anos depois ele era, sem qualquer dúvida, a sua mais íntima família. Acompanhara-o todos aqueles dias, todos aqueles anos. E ele em sinal de reconhecimento pela triste e macabra companhia visitava-o no cemitério todos os anos. E deixava flores. Sinais de vida em quem nunca conhecera com vida.

Agora as pernas prendiam-se. As costas vergadas ao peso dos anos puxavam-no violentamente para o chão. Hoje estava mais difícil fazer aquele longo trajecto até à terra onde fora a enterrar aquele estranho desconhecido que era agora o seu mais fiel companheiro. Hoje não iria. E um pouco de si morreu com aquelas flores que murchariam sozinhas, em cima da mesa, nos dias seguintes.

à sua morte...

Holy Land


The finest poetry
is written on stones
on sore knees
with :minds sharpened by mystery.
The finest poetry is written
before an empty altar
circled by agents
of divine madness.
Like this, criminal madman as you are,
you dictated verses to humanity,
lines of revolt
and biblical prophecies
and you're Jonah's brother.
But in the Promised Land
where golden apple trees grow
as does the Tree of Knowledge
God has never descended or cursed you.
But you cursed
your own song hour after hour
because you descended into limbo
where you breathe the absinthe
of a survival denied you.


Hush, sweet grass
emerging from the earth,
don't strum the tender harmony
of living things,
bite your measure
because my heart is sad
and won't harmonize.


Hush, green grass
don't rise out of ditches
with your song of light,
oh stay underground
naked inside your seed
as do I, not giving
bud to a word.

Alda Merini (1931-2009)
Translated from the Italian by Sharon Dolin

arte doutros...

A arte tem que ser elite. Não pode facilitar. Não mudes o texto, a cor, a nota.
Regressa às origens mesmo que ninguém as conheça. Raizes que não parecem nossas mas estão em todo o lado.
A arte não pode ser democrática. Tem que ser confinada a quem a merece. A quem abre o dicionário para a ler. Usa o dicionário e procura a palavra mais dificil para descrever a ideia mais simples. Agora reescreve o texto. Mete umas palavras em inglês e outras em francês e coroa com o teu epitáfio em latim. Se te acusarem de algo cita um grego. Clássico.
Trata a arte por tu. Diz que lês quadros, ouves poemas e escreves notas. Renega tudo isso e garante que o urinol de Duschamp já era arte antes. Agora é apenas mais um, mijado por fora e com bolas de naftalina incansáveis.
"A arte é arte é arte." - Escreve na frente duma t-shirt e nas costas garante que és o que não dizes. Faz-te a negação da verdade absoluta.
Termina conhecendo os melhores críticos, paga-lhes jantares e mordomias irrecusáveis, tudo para todos. Quando todos gostarem de ti, expõe o caso. Prova que só tu percebes que a arte não o é. Não é arte.
Que a palavra arte está mal escrita. Que tem letras a mais. Que a Arte há demasiado tempo que é só Ar.

domingo, novembro 01, 2009

obituário

O histórico radialista António Sérgio, o homem que foi a voz do "Lobo", morreu hoje de madrugada, aos 59 anos. A notícia foi confirmada ao PÚBLICO por Luís Montez, dono da rádio para a qual trabalhava actualmente, a Radar FM. Segundo Montez, António Sérgio terá morrido na sequência de um ataque cardíaco.

nota: hoje é um dia com menos voz para todas as rádios e todos os ouvintes...

nos erros de hoje, as falhas de amanhã

história de amor VII

Passou o dia de telemóvel na mão. Marcou o número dela dezenas de vezes. Nunca carregou no verde. Um medo invadia-o de cada vez que avançava o polegar nessa direcção. Sentava-se e levantava-se da cadeira como uma mola velha. Não encontrava uma desculpa para aquela chamada.
"Gosto de ti. Obrigado por seres quem és. Beijo simples". Uma mensagem curta de 53 caracteres foi tudo o que conseguiu escrever nesse fim de dia. Enquanto lá fora o céu virava negro um sorriso quente enchia-lhe a face.

Marcelo, não há peixeira que o conheça...

Se há coisa que me engalinha são as frases feitas repetidas à exaustão mesmo quando não têm ponta por onde se lhes pegue. Anda para aí uma que classifica Marcelo Rebelo de Sousa de elite do PSD. A ideia ajuda porque ele, sendo de Cascais, aparece contra um rapaz que é de Vila Real e, sendo professor doutor de Direito, aparece contra alguém que alinha mal a doutrina. Nada como a dicotomia - de um lado, uma coisa, do outro, a oposta - para nos ajudar a situar, é verdade. Mas convinha que as classificações batessem certo. Marcelo, elite; Passos Coelho, popular? É? Então, levem-nos a ambos ao mercado de Benfica, façam-nos entrar por portas opostas e ouçam de que lado vem o banzé.
Sem ponta por onde se lhes pegue, disse eu, mas não é verdade. Uma vez Marcelo foi da elite e arrependeu-se depressa. Foi o pai espiritual da revista Olá!, do jornal Semanário. A revista falava exclusivamente da marquesa do Lavradio e de Xaxão Pinto Basto, nem Belmiro de Azevedo, filho de carpinteiro e casado com farmacêutica, lá entrava. A Olá! acabou na semana passada e o DN explicou porquê, ontem: "A classe média [eventual leitora da revista] não quer agora saber quem ganhou o concurso de atrelagem em Santo Estêvão ou se a marquesa de Pombal teve mais um neto."
Mas isso, que a defunta Olá! compreendeu só agora, Marcelo percebeu logo. Cedo saltou, não do comboio do elitismo, mas do bote: em 1990, na campanha para Lisboa, mergulhou no Tejo. Não conheço gesto mais popular. Diria, até, popularucho. Já então Marcelo estava mais próximo dos jovens de O Independente, para quem o elitismo não passava dos tornozelos (faziam campanha contra as meias brancas).
Nessa campanha autárquica contra Jorge Sampaio, acompanhei o candidato Marcelo o suficiente para confirmar o político moderno, piscando o olho aos jornalistas. Literalmente. Num lar da Santa Casa, vi-o gabar a beleza de uma foto na mesinha de cabeceira de um velho acamado: "Bonita rapariga. É sua neta?" O velho: "É, mas não me visita." Marcelo: "Deixe lá. Há certos familiares que mais vale não ver." E piscou--nos o olho, aos políticos e jornalistas.
O homem vai ao Estoril Open, vai, mas não sejam parolos, ó propagandistas do elitismo, o ténis é, hoje, um desporto popular. E Marcelo leva a sua turma de Direito Administrativo ao Open, o que faz rebolar na tumba todos os lentes elitistas (os mortos e os vivos que ainda não sabem que estão mortos). Marcelo, elitista? Mas ele até tem um programa de televisão, coisa que é do mais vulgar que há (até o Rui Santos tem um).
Querem definir Marcelo? Muito inteligente, e daquela inteligência rápida. O chato é que, dizendo-se isso e com aquela técnica da dicotomia - de um lado, uma coisa, do outro, a oposta -, quem se lhe opuser fica com uma fama desgraçada.

Ferreira Fernandes in DN, 01 XI 09