segunda-feira, novembro 02, 2009

curtas de outono III

Fazia quase trinta anos que ele morrera mas parecia que ainda via à sua frente todo aquele dia. Via a sua janela, a janela que o acompanhara toda a sua vida, via a janela aberta sobre o corpo desmembrado. Via a gota de sangue, ainda com vida, a descer lentamente pelo vidro enquanto os membros dilacerados daquele estranho se mexiam sem sentido contra a janela.

Não conhecia aquele estranho. Mas trinta anos depois ele era, sem qualquer dúvida, a sua mais íntima família. Acompanhara-o todos aqueles dias, todos aqueles anos. E ele em sinal de reconhecimento pela triste e macabra companhia visitava-o no cemitério todos os anos. E deixava flores. Sinais de vida em quem nunca conhecera com vida.

Agora as pernas prendiam-se. As costas vergadas ao peso dos anos puxavam-no violentamente para o chão. Hoje estava mais difícil fazer aquele longo trajecto até à terra onde fora a enterrar aquele estranho desconhecido que era agora o seu mais fiel companheiro. Hoje não iria. E um pouco de si morreu com aquelas flores que murchariam sozinhas, em cima da mesa, nos dias seguintes.

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