domingo, novembro 01, 2009

Marcelo, não há peixeira que o conheça...

Se há coisa que me engalinha são as frases feitas repetidas à exaustão mesmo quando não têm ponta por onde se lhes pegue. Anda para aí uma que classifica Marcelo Rebelo de Sousa de elite do PSD. A ideia ajuda porque ele, sendo de Cascais, aparece contra um rapaz que é de Vila Real e, sendo professor doutor de Direito, aparece contra alguém que alinha mal a doutrina. Nada como a dicotomia - de um lado, uma coisa, do outro, a oposta - para nos ajudar a situar, é verdade. Mas convinha que as classificações batessem certo. Marcelo, elite; Passos Coelho, popular? É? Então, levem-nos a ambos ao mercado de Benfica, façam-nos entrar por portas opostas e ouçam de que lado vem o banzé.
Sem ponta por onde se lhes pegue, disse eu, mas não é verdade. Uma vez Marcelo foi da elite e arrependeu-se depressa. Foi o pai espiritual da revista Olá!, do jornal Semanário. A revista falava exclusivamente da marquesa do Lavradio e de Xaxão Pinto Basto, nem Belmiro de Azevedo, filho de carpinteiro e casado com farmacêutica, lá entrava. A Olá! acabou na semana passada e o DN explicou porquê, ontem: "A classe média [eventual leitora da revista] não quer agora saber quem ganhou o concurso de atrelagem em Santo Estêvão ou se a marquesa de Pombal teve mais um neto."
Mas isso, que a defunta Olá! compreendeu só agora, Marcelo percebeu logo. Cedo saltou, não do comboio do elitismo, mas do bote: em 1990, na campanha para Lisboa, mergulhou no Tejo. Não conheço gesto mais popular. Diria, até, popularucho. Já então Marcelo estava mais próximo dos jovens de O Independente, para quem o elitismo não passava dos tornozelos (faziam campanha contra as meias brancas).
Nessa campanha autárquica contra Jorge Sampaio, acompanhei o candidato Marcelo o suficiente para confirmar o político moderno, piscando o olho aos jornalistas. Literalmente. Num lar da Santa Casa, vi-o gabar a beleza de uma foto na mesinha de cabeceira de um velho acamado: "Bonita rapariga. É sua neta?" O velho: "É, mas não me visita." Marcelo: "Deixe lá. Há certos familiares que mais vale não ver." E piscou--nos o olho, aos políticos e jornalistas.
O homem vai ao Estoril Open, vai, mas não sejam parolos, ó propagandistas do elitismo, o ténis é, hoje, um desporto popular. E Marcelo leva a sua turma de Direito Administrativo ao Open, o que faz rebolar na tumba todos os lentes elitistas (os mortos e os vivos que ainda não sabem que estão mortos). Marcelo, elitista? Mas ele até tem um programa de televisão, coisa que é do mais vulgar que há (até o Rui Santos tem um).
Querem definir Marcelo? Muito inteligente, e daquela inteligência rápida. O chato é que, dizendo-se isso e com aquela técnica da dicotomia - de um lado, uma coisa, do outro, a oposta -, quem se lhe opuser fica com uma fama desgraçada.

Ferreira Fernandes in DN, 01 XI 09

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