sexta-feira, novembro 20, 2009

o ataque nos media prossegue a leste...



Quem lá vive, faz a sondagem do coração: Berlim é a cidade da Europa para onde toda a gente quer ir. Por causa da noite, da cena artística, da história. Mas se Berlim é onde se quer ir, Berlim Leste é onde se vai parar.


Há um cliché que ainda se ouve em Berlim aos mal-humorados: se não gosta de trabalhar, só pode ser do Leste. É que o muro caiu, mas ainda há quem se agarre às pedras quando as diferenças saltam à vista. A cidade que anda a aprender a ser simpática com os turistas (não é exagero: fez-se campanha pela hospitalidade em Berlim antes dos mundiais de atletismo), não esqueceu o tempo em que rir não era remédio. Vinte anos depois, ainda faz as contas ao que ganhou e ao que perdeu com a queda do muro.
Ninguém nega que chorou. Que saiu de casa de pijama para ir ver a história a acontecer. Que tirou fotografias. Mas também ninguém nega que a manhã seguinte à reunificação da Alemanha trouxe boas e más notícias. Foi preciso tomar decisões. E já se sabe que quando um decide há sempre outro que fica insatisfeito.
"Eu já era médico em 89", diz Christophe Meineke, 49 anos. "E vi acontecer uma coisa curiosa através dos meus doentes: muitos dos que se tinham separado quando o muro caiu não se uniram depois.Muitos quiseram ficar no leste. A alguns atraiu-os o capitalismo, claro, mas muitos não quiseram sair . No fundo, as perspectivas de vida depois da queda do muro separaram tanto as pessoas como a sua construção."
As diferenças eram óbvias e não iam desaparecer com o muro: "Via-se nos locais de trabalho. Por exemplo, na minha área. Na Alemanha de Leste a medicina era muito estatal, enquanto a Alemanha ocidental estava mais aberta às medicinas alternativas e à homeopatia, por exemplo." Ainda hoje Christophe garante que consegue perceber perfeitamente se um colega médico se formou "do lado de lá", no Leste. "Sobretudo porque são menos alternativos e têm tendência a categorizar as coisas. É frequente definirem determinadas situações como normais ou anormais, verem tudo mais a preto ou branco do que a cinzento."
É também no trabalho que Elisa Bogalheiro, 31 anos, jornalista, mais percebe o que foi a reunificação de Berlim. "Já fiz muitas reportagens sobre o muro. Há pouco tempo fui entrevistar miúdos de 18, 20 anos. Uma geração que já nasceu depois da queda do muro, mas que ainda é, na educação, muito marcada por ele. Conclui que os miúdos que cresceram no lado Leste são bastante mais politizados que os miúdos do lado ocidental. Sabem bem o que aconteceu, como foi. Quando falei com jovens que cresceram do lado ocidental senti que encaravam o muro como uma coisa muito antiga, que já não lhes dizia respeito."
Elisa tem dificuldade em dizer que o muro caiu há vinte anos. "Há pessoas em Berlim que ainda não vão ao outro lado da cidade. É verdade que a cidade é muito grande [é muito mais um conjunto de oito ou dez aldeias do que uma cidade, apesar da sua exposta urbanidade], mas ainda podemos falar com pessoas que só foram ao outro lado da cidade uma vez na sua vida, por exemplo."
Nas entrevistas que foi fazendo, ouviu muitas vezes a resposta: "Não me interessa ir, não tenho nada para fazer lá." E, diz, "apesar de tudo não estamos a falar de ir de Lisboa ao Porto - acho que não é só uma questão de poderem fazer a sua vida só de um lado de Berlim". Há mais, então.
"Há uma ironia grande: a zona leste, que era supostamente a menos avançada, é hoje a mais multi-cultural, mais artística, mais desejada tanto para viver como para lazer. Mas mais pelas pessoas mais novas."
João Tomé, André Santos, Ana Queirós e Manuel Dórdio são as caras desta nova cidade que se passa mais no lado Leste que no lado ocidental. Chegaram a Berlim há poucos anos e já encontraram a cidade unida. Mas não hesitam: esta cidade continua partida em duas. "Sinto-me noutra cidade quando vou para o lado ocidental", diz André Santos, engenheiro na Active Space Technologies. Se no lado Este o principal transporte é a bicicleta, no lado Oeste é o carro alemão saído no mês passado das fábricas de Estugarda. No lado oeste o traje oficial é o fato e gravata, no lado este é a guitarra ao ombro. A língua do lado este é o turco, o inglês, o italiano, o espanhol. No lado Oeste é o alemão ou o inglês das excursões. No lado Oeste a cidade fecha com o fim do dia, no lado este há sempre bares e os estabelecimentos comerciais das famílias turcas, curdas, asiáticas estão abertos". Se Berlim vive bem com essas diferenças?
Há uma maneira de perceber se uma cidade faz das suas fraquezas forças. Faz dinheiro com o assunto? Berlim faz. Aproveita aquilo a que os berlinenses chamam "a nostalgia do Leste" e tem um hostal da DDR para quem quiser reviver o tempo do comunismo em Berlim. Os preços são os normais, o que é engraçado. Paga-se o que se paga normalmente por uma noite de hotel, mas ali a cama, a televisão, tudo é exactamente como era na zona Leste, naquele tempo.Nostalgia? Ou outra maneira de dizer capitalizar.


in Diário Económico, 09 XI 09

1 comentário:

il _messaggero disse...

muito bom! fica um gajo sem vir à net uns dias e aparece isto...

material para os 15 minutos de fama do desbobina!