segunda-feira, dezembro 28, 2009

poemas da vida XXV

No teu poema

Existe um verso em branco e sem medida,
um corpo que respira, um céu aberto,
janela debruçada para a vida.
No teu poema existe a dor calada lá no fundo,
o passo da coragem em casa escura
e, aberta, uma varanda para o mundo.
Existe a noite,
o riso e a voz refeita à luz do dia,
a festa da Senhora da Agonia
e o cansaço
do corpo que adormece em cama fria.
Existe um rio,
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe o grito e o eco da metralha,
a dor que sei de cor mas não recito
e os sonhos inquietos de quem falha.
No teu poema
existe um cantochão alentejano,
a rua e o pregão de uma varina
e um barco assoprado a todo o pano.
Existe um rio
a sina de quem nasce fraco ou forte,
o risco, a raiva e a luta de quem cai
ou que resiste,
que vence ou adormece antes da morte.
No teu poema
existe a esperança acesa atrás do muro,
existe tudo o mais que ainda escapa
e um verso em branco à espera de futuro.


Ary dos Santos
nos olhos de Madalena Virtuoso (link)

sábado, dezembro 26, 2009

no surprises


Radiohead - No Surprises

"la querelle des Anciens et des Modernes"

Não canto coisas antigas.
Bem melhores são as modernas.
Agora reina Zeus, que é novo.
Outrora era Cronos o soberano.
Vai-te, Musa antiquada!

Timóteo (V-IV a.C.)

mínimas de fim de ano

As resoluções de ano novo são o prazer perverso dos que não gostam realmente de passar à acção.

laringite

Em medicina, laringite é a inflamação do laringe (onde estão as cordas vocais) e as áreas próximas. Ela pode ser sintoma de resfriado, bronquite, ou até mesmo pneumonia (dentre outras infecções respiratórias). Se não cuidada pode ocasionar problemas sérios como tumor maligno que atinge as cordas vocais ou a parte superior as cordas.

in wikipédia

quinta-feira, dezembro 24, 2009

oh oh oh bom natal


via redpass

poemas da vida XXIV

A morte ao meio dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça


Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul


que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol


No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente


E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol


Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?


Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento


O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia


A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

Ruy Bello
nos olhos de Ricardo Espirito Santo

speechless

1. Lacking the faculty of speech.
2. Temporarily unable to speak, as through astonishment.
3. Refraining from speech; silent.
4. Unexpressed or inexpressible in words: speechless admiration.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

poemas da vida XXIII

Em nome da terra

E assim que me sentei, começou-me a despir.
- Eu dispo-me.
- Doutorzinho rabugento.
E sem me dar atenção, continuou a despir-me. Querida. Era uma moça ainda nova e ela retirava-me peça a peça a minha idade adulta até ficar a criança que ela queria. Eu tomo o banho! berrei-lhe para ela acreditar na minha força de homem. E ela disse ora não querem lá ver este menino birrento. Estou nu e sem razão para ter vergonha de estar nu, que era o que apenas me podia agora vestir. E tinha o coto da perna a atestar isso, porque o meu corpo não estava inteiro para atestar a importância de si. Então a Antónia manobrou uma manivela e a cadeira subiu mais alto que a banheira e depois manobrou ao contrário para a cadeira mergulhar comigo na água. E imediatamente começou a lavar-me. Tão desprotegido Mónica. Tão desapossado do meu ser. Lavava-me a cabeça, o tronco, lavava-me as partes amorosamente.
(...)
– Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
– E agora vamo-nos limpar – diz-me a Antónia.
Trabalho difícil. Ajusta-me a cadeira de plástico sob o assento, dá à manivela para a cadeira subir comigo no varão de aço. Depois esfrega-me áspera na toalha felpuda. Depois veste-me com carinho, não me deixa a mim vestir-me. Exerce o prazer da protecção, que é um grande prazer dos fracos, Mónica, por haver mais fracos do que eles.

Vergílio Ferreira
nos olhos de Madalena Palmeirim

2009-10

...o ano está acabar. vamos a contas?... tive um conto publicado numa revista que adoro. tive um poema publicado numa antologia. tenho estágio na "minha" área. estou a tirar um novo mestrado que me está a dar um prazer imenso. mas o que me deu mais prazer este ano... é o que vem para o ano... um novo PROJECTO mesmo ao virar da esquina!

terça-feira, dezembro 22, 2009

Manifesto hiperdada

1
É noite, noite torturada, noite tortuosa, noite rigorosa. Boa noite, santa noite, noite de dia, noite fria, noite calada, noite anoitecida, noite conjugada, noite prevalecida. É noite e eu estou cansado.
É dia, dia convalescente, um dia igual aos outros, um dia diferente dos outros. Um dia encanecido, com pregas e demais gorduras, um dia amortecido, tropeçado, mal amanhado. É dia e ela está aborrecida.  
São horas. Horas estivais, horas em picotado, recortáveis e sensaboronas, horas que não mentem, quase nunca se atrasam, cumprem o horário à risca, horas que desovam a horas.  
São anos e depois prontos. Dá nisto  
2
O tempo sempre soube onde começou, mas nunca onde acabar. É tempo de isto mudar. É tempo de fazer outro tempo. Urge. Urge. A arte é o contrário do tempo: sabemos sempre onde acaba, mas nunca onde começa. É o mistério da génese.
Palavra do Senhor.  
3
A arte está tanto em toda a parte que já em parte alguma há arte. E isso é bom.  
4
Quem semeia ventos colhe tempestades, disseram eles. Pusemo-los em tribunal por publicidade enganosa.  
5
“Deus existe?” – é uma pergunta académica, aliás falseada. “A América existe?” – é uma questão filosófica, por detrás da qual estará (quiçá) a verdade a que temos direito.    
6
Não perguntes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti. Pergunta antes o que podes fazer pelos Felizes da Fé. 
7
Certo, mas há mais:
Não perguntes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti. Pergunta antes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti.  
8
A diferença entre uma vaca e um rebanho de vacas é que a vaca solitária, ao menos, sabe que não é uma ovelha.  
9
Em inglês “Dog” e “God” têm o mesmo número de letras. Dá para fazer jogos profanos fabulosos. Imagine-se então onde não chegariam os ingleses se “Dog” e “God”, além do mesmo número de letras, tivessem também as mesmas letras – só que invertidas.  
10
Em português não temos tanta sorte. Há o “crer é poder”, claro, mas pouco mais. Por exemplo, “tempo é dinheiro” dá poucos jogos. Podia ser “tempo é pinheiro”, ou “tempo é, dinheiro o põe”, mas pouco mais. É caso para perguntar: onde não chegaríamos nós, portugueses, se, na nossa língua, “Dog” e “God” também tivessem o mesmo número de letras.  
11
Se calhar, inventávamos o “Scrabble”.
12
Assim, não inventámos o “Scrabble”. 
13
E é pena.
 
RZ in Felizes da Fé

e agora?

O prédio da Praça da Alegria, em Lisboa, onde está instalado o Hot Clube de Portugal ardeu esta madrugada. Segundo o presidente da Junta de Freguesia de S. José, o edifício ficou sem condições para voltar a albergar aquele que se orgulha de ser um dos mais antigos clubes de jazz do mundo. O Hot Clube fez no ano passado 60 anos de existência.

in Público, 22 XII 09


nota: É urgente ceder um espaço municipal , estatal ou privado ao Hot. Portugal precisa da escola de jazz. Portugal precisa daqueles concertos. Portugal precisa do Hot. Não há volta a dar...

poemas da vida XXII

10

Vi roma arder, e neros vários
bronzeados à luz da califórnia
guardar em naftalina nos armários
timidamente, a lira babilónia;
as capitais da terra, uma a uma,
desfeitas em rumor e negra espuma,
atingidas de noite no seu centro;
mas nunca vi paris contigo dentro.
E falta-me esta imagem para ter
inteiro o álbum que me coube em sorte
como um cinema onde passava «a morte»;
solene imperador, abrindo o manto
onde ocultei a cólera e o pranto,
falta-me ver paris contigo dentro.


António Franco Alexandre
nos olhos de Rui Alberto Costa

Symphony No. 2


Gustav Mahler
(From the Mondavi Center on the UC Davis campus, the UC Davis Symphony Orchestra, University Chorus, and Alumni Chorus present Mahler: Symphony No. 2 ("Resurrection"), with Arianna Zukerman, soprano, and Zoila Muñoz, contralto. D. Kern Holoman, conducting. Series: Mondavi Center Presents [9/2005] [Arts and Music] [Show ID: 9439])

segunda-feira, dezembro 21, 2009

poemas da vida XXI

Marizibill

Dans la Haute-Rue à Cologne
Elle allait et venait le soir
Offerte à tous en tout mignonne
Puis buvait lasse des trottoirs
Très tard dans les brasseries borgnes


Elle se mettait sur la paille
Pour un maquereau roux et rose
C'était un juif il sentait l'ail
Et l'avait venant de Formose
Tirée d'un bordel de Changaï


Je connais des gens de toutes sortes
Ils n'égalent pas leurs destins
Indécis comme feuilles mortes
Leurs yeux sont des feux mal éteints
Leurs coeurs bougent comme leurs portes.

Guillaume Apollinaire
nos olhos de Christine Choffey (link)

domingo, dezembro 20, 2009

pérolas do passado


Frank Sinatra e Tom Jobim
via Susana

Mãe no Twitter: "O meu bebé afoga-se"

A americana Shellie Ross é uma popular blogger, assina o Blog4Mom e tem 5400 seguidores no Twitter, e é mulher de um sargento da Força Aérea. Os Ross, com quatro filhos, tinham-se mudado recentemente para um casa com piscina em Merrit Island, na Florida. Na segunda-feira, dia como todos os outros, os dedos de Shellie até ferviam: já tinha mandado 74 tweets. Todos sobre o mesmo assunto: ela falava de capoeiras.
O Twitter tem um slogan: "O que está a acontecer?" Com Shellie, os 5400 seguidores ficaram a saber o que acontecia à capoeira de Shellie. Mesmo considerando que as frases do Twitter são curtas - 140 toquezinhos no teclado, nunca mais -, com 74 tweets escreve-se um texto cinco vezes maior que esta crónica. Eu não saberia dizer tanto sobre um assunto mais vasto, as galinhas. Às 05.22 da tarde daquela segunda-feira, Shellie mandou o seu 74.º tweet sobre capoeiras. Sobre o tema, foi o último.
No minuto seguinte, às 05.23, o filho de 11 anos de Shellie telefonava para o 911 (o 112 americano) dizendo que o irmão de dois anos se tinha afogado na piscina. A ambulância chegou um quarto de hora depois - haja alguém atento em Merrit Island. Às 06.12, já Shellie voltava ao Twitter. Escreveu: "Por favor rezem como nunca, o meu bebé de 2 anos caiu na piscina."
Provavelmente perdeu alguns seguidores. O Presidente Gerald Ford quando mascava chiclete, parava: nunca fazia duas coisas ao mesmo tempo - isso de andar e mascar atrapalhava. Uma pessoa estava a tarde toda a ouvir a Shellie sobre as redes hexagonais de capoeira, as vantagens das com abertura de 20 mm sobre as de 25 mm e, de repente, passa-se para afogamento de bebé. São temas que, juntos, confundem. Acho eu. Mas o final de tarde trouxe mesmo mudança de interesses em Shellie. Não voltou ao tema das capoeiras e passou a postar tweets com fotos do seu bebé, de quem anunciou a morte.
O Twitter mente, portanto: não se fica a saber o que acontece a uma capoeira quando lá em casa morre um bebé. Dir-me-ão: mas qual a importância de uma capoeira quando morre um bebé. Alguma importância deve ter, a prova é que a mãe de um miúdo com dois anos, numa casa com piscina está a tuitar 74 vezes sobre o assunto, capoeiras. Mas adianto-me: esse é o debate que atravessa jornais e as redes sociais americanas.
No New York Times, que escreveu sobre isto no dia 17, há leitores que defendem que é natural 47 minutos depois de conhecer o acidente que matou o seu bebé, a mãe tenha voltado ao Twitter que lhe retirara a atenção que poderia ter salvo o filho. Dizem esses: o Twitter une as pessoas, e é natural que Shellie tenha recorrido a ele durante a sua tragédia pessoal.
No entanto, o mundo virtual ainda não domina completamente. Ontem, o Blog4Mom, de Shellie, afixava um cartaz: "Deixem-nos sozinhos." Mas suspeito que em breve teremos pais que contarão o luto aos seus seguidores. Em tempo real, claro.


Ferreira Fernandes in DN, 20 XII 09

poemas da vida XX

 Perdidamente

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Áquem e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dize-lo cantando a toda a gente! 


Florbela Espanca
nos olhos de Joana Durão (link)

sábado, dezembro 19, 2009

a desilusão (esperada?)

Acordo climático não vinculativo marca fim da cimeira de Copenhaga

Depois de 13 dias de negociações e uma maratona que atravessou a última noite, a cimeira de Copenhaga terminou com um acordo muito longe do que se ambicionava. Ao invés de um novo tratado contra o aquecimento global, legalmente vinculativo e adoptado por todos os países da ONU, tudo o que emergiu do encontro foi um acordo voluntário, para já subscrito por algumas nações.


Ao princípio da manhã, a conferência adoptou uma decisão pela qual “toma nota” do Acordo de Copenhaga, um texto que tinha sido negociado na sexta-feira por um grupo de países desenvolvidos e emergentes, contendo algumas bases para um novo passo na luta contra o aquecimento global.


Segundo o acordo, os países que o adoptarem prometem fazer mais esforços para combater as alterações climáticas, mas sem qualquer compromisso legal.


Um grupo representativo de 28 dos 119 líderes mundiais presentes na conferência tinha discutido até ao princípio da noite de sexta-feira os termos do acordo – que emergiu de um consenso entre os Estados Unidos, China, Índia, Brasil e África do Sul. Foi uma tentativa de última hora para salvar a cimeira de Copenhaga, até então bloqueada devido a diferendos entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.


Até ao último minuto, porém, vários países em desenvolvimento contestaram o processo que deu origem ao acordo, argumentando que se tratava de uma imposição de cima, contrariando o processo negocial das Nações Unidas.


No final, aceitaram aprovar uma decisão que apenas “toma nota” do acordo. “É uma forma de [os países] reconhecerem que algo existe, mas não a ponto de dizerem que se tornam parte [do acordo]”, explicou Yvo de Boer, secretário executivo da ONU para as alterações climáticas.


Na prática, os países que assim o desejarem podem associar-se ao Acordo de Copenhaga.


O texto fala do limite máximo de 2ºC para o aumento da temperatura média da Terra no futuro. Prevê a constituição, até Fevereiro do próximo ano, de uma lista de promessas dos países desenvolvidos e em desenvolvimento para reduzir as suas emissões de dióxido de carbono ou para conter o seu crescimento. E aponta um mecanismo para o reporte e verificação dos esforços dos países em desenvolvimento.


Cria ainda o Fundo Climático de Copenhaga, com 30 mil milhões de dólares (21 mil milhões de euros) para os países pobres nos próximos três anos. E promete mais 100 mil milhões de dólares (70 mil milhões de euros) anuais a partir de 2020.


O modo como o acordo foi submetido à aprovação foi criticado por vários países. Alguns, como o Sudão e o Tuvalu, argumentaram que se tratava de uma forma de “comprar” a adesão dos países mais vulneráveis, com a oferta de dinheiro a curto prazo.


O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse ontem estar consciente de que o Acordo de Copenhaga é “apenas um começo”, mas que “é um passo na direcção certa”.


“Temos de transformar este documento num acordo legalmente vinculativo”, afirmou Ban Ki-moon, numa conferência de imprensa. Ainda assim, o secretário-geral da ONU declarou: “Finalmente, selamos o acordo”.


Yvo de Boer também saudou como positivo o resultado da conferência, embora salientando que o acordo não foi tão longe quanto se desejava. De Boer reconheceu ainda que não era aquilo que se esperava quando, há dois anos, a comunidade internacional lançou, na conferência de Bali, as negociações para um novo tratado climático. “Em Bali, esperava que chegaríamos aqui com um acordo legalmente vinculativo”, disse de Boer. Há três meses, a ambição foi reduzida para um acordo politicamente vinculativo. Mas também isto não foi conseguido.


O resultado da conferência originou reacções mistas – entre um completo desastre e um primeiro passo positivo para um novo tratado que de facto comprometa todos os principais emissores mundiais de CO2.


As negociações para este eventual tratado prosseguirão agora, com uma nova ronda em Bona, Alemanha, em Junho, e a próxima conferência climática na Cidade do México, no final de 2010.

Ricardo Garcia in Público, 19 XII 09

poemas da vida XIX

(a carta da paixão)

Esta mão que escreve a ardente melancolia
da idade
é a mesma que se move entre as nascenças da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os seus recessos negros
onde se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se: O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, essa lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponto a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tao feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


Herberto Helder
nos olhos de Cláudia Raminhas

sexta-feira, dezembro 18, 2009

poemas da vida XVIII

Lolita

Lolita, light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo-lee-ta: the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth, Lo. Lee.Ta. She was Lo, plain Lo, in the morning, standing four feet ten in one sock. She was Lola in slacks. She was Dolly in school. She was Dolores on the dottedline. But in my arms she was always Lolita.

Vladimir Nabokov
nos olhos de Teenage Riot (link)

quinta-feira, dezembro 17, 2009

poemas da vida XVII

Hipócrita

Often reflect on what I know I am,
I try so hard to be the least I can.
Easy to admit,
Hard to change the way I am.
So far from my ideas of a perfect man.
So far what I have seen has not pleased me well.
So far what I have seen has not made me well.
So far what I have said, it was not said well.
So well have I survived, well...

I've been so sorry.
And I am so sorry.
And I'll be so sorry.

King hypocrite in my own life.

My biggest consolation is that you are far worse.
You do not even admit, you do not accept the curse
That it is to be a liar and a two-faced jerk
You do not speak for yourself
You do not speak your own words.

Como podes te entregar?
Sabendo que nem foste tu
o encapacitado de pensar, de criar
Uma nova doutrina para o resto idealizar.
Um conjunto de ideias curtas
para os do género memorizar.
Outro dogma, outra ideologia
que é fraca para criar,
procriar outro conjunto de iguais
para fazer como tu o fazes,
como te ensinaram a pensar e aceitar
sem tentar compreender,
sem ver que não e bem assim.
Que tu não podes viver bem assim.

Hipócrita.


Primitive Reason
nos olhos de Mário Pimenta

a web 2.0 não treme

nesta noite para além de ter sentido pela primeira vez um sismo, visto que por norma sou um insensível para com o mau feitio da mãe-natureza, senti o real poder da web 2.0. depois de já alguns anos de volta do blog, redes sociais e twitter este foi um dos momentos em que o poder/papel destes novos meios de comunicação mais ficou patente. mais do que o hambúrguer da alberta marques fernandes entre twitter e facebook chegaram notícias ao segundo. compararam-se histórias e deram-se conselhos em caso de réplicas. neste caso a web 2.0 ganhou a batalha, sobretudo se comparada com os outros meios de comunicação (que agora já quase podem ser chamados mais tradicionais) como os jornais online e rádios online. hoje senti o mundo a ser escrito por todos. hoje pensei como seria interessante aproveitar esta rede de contactos e poder em prol de Copenhaga e outras questões prioritárias da actualidade.

Darn That Dream


Ahmad Jamal Trio

quarta-feira, dezembro 16, 2009

poemas da vida XVI

Assim Falou Zaratrusta

Meus irmãos, não vos aconselho o amor ao próximo; aconselho-vos o amor pelo mais distante.

Friedrich Nietzsche
nos olhos de Alexandre São Miguel

Green Town


by Friedrich Hundertwasser (1928-2000)
descoberto via Christine

terça-feira, dezembro 15, 2009

poemas da vida XV

Schwarz zu Blau

Komm aus'm Club, war schön gewesen
Stinke nach Suff, bin kaputt, is'n schönes Leben
Steig über Schnapsleichen, die auf meinem Weg verwesen
Ich seh die Ratten sich satt fressen im
Schatten der Dönerläden
Stapf durch die Kotze am Kotti, Junks sind benebelt
Atzen rotzen in die Gegend, benehmen sich daneben
Szene-Schnösel auf verzweifelter Suche nach der Szene
Gepiercte Mädels, die wollen, dass ich "Strassenfeger" lese (Eh..)
Halb Sechs, meine Augen brenn,
Tret auf n' Typen der zwischen toten Tauben pennt
Hysterische Bräute keifen und haben Panik,
denn an der Ecke gibt es Stress zwischen Tarek und Sam:
Tarek sagt "Halt's Maul,
oder ich werd dir ins Gesicht schlagen!"
Sam hat die Hosen voll, aber kann auch nicht nichts sagen -
Die rote Suppe tropft auf den Asphalt
Mir wird schlecht, ich mach die Jacke zu, denn es ist kalt


Guten Morgen Berlin,
Du kannst so hässlich sein, so dreckig und grau,
du kannst so schön schrecklich sein,
Deine Nächte fressen mich auf
Es wird für mich wohl das Beste sein
Ich geh nach Hause und schlaf mich aus
Und während ich durch die Straßen laufe
wird langsam schwarz zu blau


Müde Gestalten im Neonlicht,
Mit tiefen Falten im Gesicht
Die Frühschicht schweigt, jeder bleibt für sich
Frust kommt auf, denn der Bus kommt nicht...
Und überall liegt Scheiße, man muss eigentlich schweben
Jeder hat n' Hund aber keinen zum Reden
Ich atme ständig durch den Mund das ist Teil meines Lebens,
Ich fühl mich ungesund, brauch was Reines dagegen
Ich hab n' dicken Kopf, ich muss n' Saft haben
Ich hab dringlichen Bock auf 'Bagdads Backwaren'!
Da ist es warm, da geb ich mich meinen Träumen hin
Bei Fatima, der süßen Backwarenverkäuferin
R'n'B-Balladen pumpen aus'm parkenden Benz
Feierabend für die Straßengangs
Ein Hooligan liegt 'ner Frau in den Armen und flennt
Diese Stadt ist eben doch gar nicht so hart wie du denkst.


Guten Morgen Berlin,
du kannst so hässlich sein, so dreckig und grau,
du kannst so schön schrecklich sein,
deine Nächte fressen mich auf
Es wird für mich wohl das Beste sein
ich geh nach Hause und schlaf mich aus
Und während Ich durch die Straßen laufe
wird langsam schwarz zu blau


Ich bin kaputt und reib mir aus meinen Augen deinen Staub
Du bist nicht schön und das weißt du auch,
dein Panorama versaut,
siehst nicht mal schön von weitem aus,
doch die Sonne geht gerade auf,
und ich weiß, ob ich will oder nicht,
dass ich dich zum Atmen brauch..

agora em inglês...

Come out of the club, it went well
Smell like booze, am broken, its a beautiful life
Climb over drunken bodies that lie in my way
I see the rats eat till they're full
in the shadows of the kebab shops
Stomp through the puke on "kotti" (kottbuser tor), junkies are dazed
corrosively rotting nearby, misbehaving
Snooty-nosed upstarts on the deperate search for the scene
Pierced girls want that I read "strassenfeger" (newspaper to help homeless)
5:30, my eyes are burning
Step on a guy who's sleeping between dead pigeons
Hysterical brides nag and are paniked, because
on the corner there is stress between Tarek and Sam
Tarek says "shut the fuck up,
or I'll punch you in the face"
Sam is scared, but he can't say anything
The red soup drips on the asphalt
I'm not feeling well, I close my jacket because it's too cold


Good morning Berlin,
You can be so ugly, so dirty and gray,
You can be so beautifully appalling ,
Your nights eat me up
it would be the best for me
To go home and sleeping in
and while I'm walking through the streets
it slowly turns from black to blue


Tired figures in neon light,
with deep wrinkles on their faces,
The morning shift remains silent, everyone for himself
Frustration comes, because the bus never comes...
and everywhere there is shit, you actually have to hover
Everyone has a dog but not one to talk to
I constantly breathe through my mouth, that's a part of my life
I feel unhealthy, need something pure against it
I have a headache, I need an antidote
I have an urgent want for Bagdad's bakeware
There it is warm, there is where I have my dreams
with Fatima, the cute bakware saleswoman
Rnb ballads pump out of the parked benz
The streetgangs are done
A hooligan lays in the arms of a woman and cries
This city is actually not as hardcore as you think


Good morning Berlin,
You can be so ugly, so dirty and gray,
You can be so beautifully appalling ,
Your nights eat me up
it would be the best for me
To go home and sleeping in
and while I'm walking through the streets
it slowly turns from black to blue


I am exhausted and rub your dirt out of my eyes
You aren't nice and you know that too
Your panorama is dirty,
It doesn't look pretty from afar
However the sun is rising,
and I don't know that if I want it or not,
I need you in order to breathe

Peter Fox
nos olhos de João Tomé

segunda-feira, dezembro 14, 2009

and now something completely different....

APRESENTAÇÃO DA OBRA A RESPONSABILIDADE DA SOCIEDADE TOTALMENTE DOMINANTE


A Autora, Ana Rita Gomes de Andrade, a Sociedade Rebelo de Sousa Advogados e as Edições Almedina têm o prazer de convidar Vª Ex.ª para a apresentação da obra A Responsabilidade da Sociedade Totalmente Dominante.


A apresentação realizar-se-á na terça-feira, dia 15 de Dezembro pelas 18h00, na Livraria Almedina, Atrium Saldanha, Loja 71, em Lisboa.
A obra será apresentada pelo Dr. Pedro Rebelo de Sousa.

Direito das Sociedades
Grupos de Sociedades
Domínio Total
Responsabilidade da sociedade-mãe pelas obrigações da sociedade-filha



O artigo 501.º do Código das Sociedades Comerciais estabelece para uma sociedade-mãe, que domine totalmente outra sociedade, a obrigação de avançar com o seu próprio património para cumprimento das obrigações da sua filha.
Esta responsabilidade é uma impressiva e interessante excepção ao princípio basilar da autonomia patrimonial das sociedades, regra estruturante do Direito das Sociedades e do Comércio actual.
A obra tem por objectivo estudar esta responsabilidade, acentuando as características únicas da sua regulação no Código das Sociedades Comerciais português.
Embora permaneça inalterada há muito, esta responsabilidade foi uma das regulações pioneiras no Mundo e, apesar de fortemente influenciada pela legislação alemã e pelo projecto da Nona Directiva Europeia, o legislador português plasmou no artigo 501.º do CSC uma responsabilidade verdadeiramente sem precedentes:
- objectiva e solidária no cumprimento das obrigações da sua subordinada perante os credores desta;
- alternativa à doutrina da desconsideração da personalidade colectiva;
- construída como o contra-dever de um poder de direcção amplíssimo da dominante sobre a dominada.


Este trabalho pretende relançar a discussão na doutrina e esclarecer os aspectos mais relevantes e alguns dos mais controversos desta responsabilidade no nosso país, nomeadamente em que termos e por que obrigações efectivamente responde a sociedade-mãe e que limites tem esta responsabilidade.

história de amor XV

Entraram de mãos dadas. Um sorriso imponente marcava-lhe a cara já vincada pela idade. Feliz e orgulhoso do mulherão que levava. Pediu o quarto mais caro ao rapaz da entrada enquanto virando-se para ela anunciava com pompa e circunstância: para ti, minha querida, apenas o melhor. Na resposta um olhar cúmplice.
Subiam elevador acima entre beijos quentes e mãos excitadas. A pele dela era doce. Sabia a uma mescla de mel e canela. Sentia um desejo intenso enquanto passava com a sua boca pelos seus ombros nus e pescoço fino. Os pequenos gemidos que ela soltava eram a certeza de uma paixão fogosa. Vivida, ali, no último andar de um dos melhores hotéis da cidade.
Abriram a porta aos empurrões. Enrolados como dois liceais inconscientes. O seu ténue vestido azul sentia há muito o seu peito de camisa aberta. Deliciava-se intensamente quando ela lhe tirava a gravata e abria a camisa roçando as suas mãos acetinas na sua pele cansada. Os beijos cortavam-se em dentadas malandras.
Ela elogiava-o constantemente. A sua boca fina e bem desenhada, os invulgares olhos de amêndoa, as mãos vigorosas que a excitavam muito quando ele a agarrava, e até a voz rouca, como a dos radialistas de antigamente, eram apaixonantes segredava-lhe ela entre um e outro beijo. E ele derretia-se sempre. Que nem um inocente. Virgem de realidade.
Naquele dia tudo igual. As roupas espalhadas por todo o quarto. Os lençóis ao fundo da cama. As janelas rasgadas sobre a cidade com uns discretos estores venezianos. Ela não gostava muito de fazer com luz. Ele consentia. Em tudo o que ela queria.
Tinham feito três vezes. Como era hábito, aliás. Já não era um puto. O seu desejo gastava-se à terceira. Ele nunca fora uma fera na cama. Não as deixava desconsoladas mas não era um D. Juan. Ele sabia-o. No entanto, com ela era diferente. Sentia-se mais vivo. E ela garantia-lhe que ele era um excelente amante. Talvez fosse. Talvez com ela.
Todo suado, nu, com o sexo murcho e a respiração ainda ofegante levantou-se à procura de um cigarro de vitória. Um dos últimos, que brevemente deixará de fumar a conselho do médico. Mirou-a de revés. Ela ainda deitada, com o seu corpo bem torneado por entre os lençóis que acabava de puxar para cima.
Abriu um pouco os estores. Viam-se outros quartos do hotel. De empresários cansados, turistas errantes, e talvez outros homens como ele. Apaixonados.
Num quarto ligeiramente abaixo, um pouco mais à direita, numa janela entreaberta, uma pessoa. Uma mulher. Nua. A fumar um cigarro daqueles longos. Não lhe via a cara por causa de uma sombra. Via apenas uns esvoaçantes cabelos longos, arruivados e ondulados. Uns seios pequenos e impecavelmente hirtos, com uns mamilos como gostava. As ancas bem desenhadas e um rabo redondo completavam o quadro que quase o excitava novamente.
Deveria ter sentido um baque forte ao ver aquela tela. Tal não aconteceu. Bom ou mau sinal? Não é todos os dias que se vê a nossa mulher cansada mas relaxada logo depoisde foder com outro homem. Normal. Ele nem era excepcional na cama. Não era um D. Juan.
Os olhos dela subiram. Encontraram os dele. Um olhar que poderia ser de vazio mostrava um amor terno. Até compreensivo. Naquele olhar, naquele dia, fechavam um compromisso, criavam um silêncio de mil palavras. E contudo, nem uma palavra sobre aquilo sairia enquanto comeriam como todos os domingos o cozido em casa dos moribundos sogros dele.

errar em Montmartre

Andrew Bird in Spare Oh

poemas da vida XIV

Paris at night

Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La second pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
Et l’obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras.

Jacques Prévert
nos olhos de Rita Soares

sondagens, mais sondagens e poesia

As sondagens realmente valem o que valem.
A  última sondagem promovida neste blog, sobre as eleições legislativas,  apresentou uns resultados que descontada a margem de erro e algumas falhas comuns  nestes exercícios se podem considerar positivos e perto do real. Assim o PS ganhou as eleições com 75% (12 votos), os brancos tiveram 13%(2votos), e PSD e Bloco 6% (1 voto cada). Pode-se mesmo dizer que de maneira geral é esta a composição actual da Assembleia da República.

Agora mais fora de brincadeiras, e depois deste interessantíssimo exercício de ciência política, proponho mais uma vez e como é hábito neste blog uma votação de qual foi o grande acontecimento do ano. Os candidatos são: Gripe A; Caso BPN e BPP; Morte de Michael Jackson; vitória do Tratado de Lisboa; o Benfica de Jesus; o Kindle em Portugal; Portugal no Mundial; os silêncios de Cavaco, e a conferência de Copenhaga.

Finalmente, e após os convites endereçados aos meus amigos leitores do nem vale a pena dizer mais nada  faço o convite aos leitores desconhecidos que me enviem o vosso poema, letra de música, excerto de obra , etc, que marque a vossa vida... até jazz...

obituário económico

Paul A. Samuelson, the first American Nobel laureate in economics and the foremost academic economist of the 20th century, died Sunday at his home in Belmont, Mass. He was 94.

His death was announced by the Massachusetts Institute of Technology, which Mr. Samuelson helped build into one of the world’s great centers of graduate education in economics.
In receiving the Nobel Prize in 1970, Mr. Samuelson was credited with transforming his discipline from one that ruminates about economic issues to one that solves problems, answering questions about cause and effect with mathematical rigor and clarity.
When economists “sit down with a piece of paper to calculate or analyze something, you would have to say that no one was more important in providing the tools they use and the ideas that they employ than Paul Samuelson,” said Robert M. Solow, a fellow Nobel laureate and colleague.of Mr. Samuelson’s at M.I.T.
Mr. Samuelson attracted a brilliant roster of economists to teach or study at the university, among them Mr. Solow as well as such other future Nobel laureates as George A. Akerlof, Robert F. Engle III, Lawrence R. Klein, Paul Krugman, Franco Modigliani, Robert C. Merton and Joseph E. Stiglitz.
Mr. Samuelson wrote one of the most widely used college textbooks in the history of American education. The book, “Economics,” first published in 1948, was the nation’s best-selling textbook for nearly 30 years. Translated into 20 languages, it was selling 50,000 copies a year a half century after it first appeared.
“I don’t care who writes a nation’s laws — or crafts its advanced treatises — if I can write its economics textbooks,” Mr. Samuelson said.
His textbook taught college students how to think about economics. His technical work — especially his discipline-shattering Ph.D. thesis, immodestly titled “The Foundations of Economic Analysis” — taught professional economists how to ply their trade. Between the two books, Mr. Samuelson redefined modern economics.
The textbook introduced generations of students to the revolutionary ideas of John Maynard Keynes, the British economist who in the 1930s developed the theory that modern market economies could become trapped in depression and would then need a strong push from government spending or tax cuts, in addition to lenient monetary policy, to restore them. No student would ever again rest comfortably with the 19th-century nostrum that private markets would cure unemployment without need of government intervention.
That lesson was reinforced in 2008, when the international economy slipped into the steepest downturn since the Great Depression, when Keynesian economics was born. When the Depression began, governments stood pat or made matters worse by trying to balance fiscal budgets and erecting trade barriers. But 80 years later, having absorbed the Keynesian preaching of Mr. Samuelson and his followers, most industrialized countries took corrective action, raising government spending, cutting taxes, keeping exports and imports flowing and driving short-term interest rates to near zero.

in NY Times, 13 XII 09

domingo, dezembro 13, 2009

editor, editóris

sou coração (...)
tenho uma palavra ilegível.
não a percebo.
[...] salto parágrafos sem fim.
até ao fim.
suprimir, acrescentar, mudar.
edito as minhas palavras.
procuro ser o publisher dos meus sentimentos.
nada feito.
hoje não há mais print para ninguém.

the in between place


Fábrica da Pólvora  05

história de amor XIV

cabisbaixo. de olhos no chão. ombros caídos. um mundo como peso nas costas. o olhar repleto de lágrimas pesquisava atento a rua suja. a esperança, de uma moeda que virasse tesouro. aquele fim de dia que nunca mais chegava à cama e virava amanhã.
a garganta presa. um verdadeiro nó por desapertar sem nunca saber onde se encontravam as pontas. onde estava o fio à meada que levara aquele dia a um fim tão chuvoso? e o frio, que até podia ser muito, não o cortava mais em finas tiras de vento. era assim, que o tempo passava por ele.
ténis a rasgarem-se nas pontas e uma sensação de vazio que se agarrava aos mais pequenos pormenores para esquecer as últimas ondas da praia.
chave na porta. lá dentro estaria o calor. para lá daquela chave outras pessoas. sorrisos e memórias que não interessavam nada mas que teriam que servir para encher os momentos que tinham agora mais minutos.
era branca, a parede, em frente. tal e qual como a camisa dela, poucos minutos antes. era um adeus. puro.

do Brasil...

Desejo a você...

Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não Ter que ouvir a palavra não
Nem nunca, nem jamais e adeus.
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.


Carlos Drummond de Andrade

nota: após uma boa crítica de uma amiga, muita vontade e interesse em vê-la mas uma desagradável indisponibilidade e quando já pensava que já não ia conseguir ir assistir a peça do Meridional eis que num dia de Tarde da Má Lingua, no S.Luiz, e concerto do Pernas, no Onda Jazz... o melhor do dia foi mesmo a peça Brasil. Muito boa. E o final... sublime. Este poema e uma guitarra. Simples. Como as melhores coisas.

poemas da vida XIII

Always Look on the Bright Side of Life (from Monty Python)


Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse.
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...

And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...

If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing.
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.

And...always look on the bright side of life...
Always look on the light side of life...

For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow.
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.

So always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath

Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke, it's true.
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you.

And always look on the bright side of life...
Always look on the right side of life...
(Come on guys, cheer up!)
Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...
(Worse things happen at sea, you know.)
Always look on the bright side of life...
(I mean - what have you got to lose?)
(You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing!)
Always look on the right side of life...


Eric Idle
nos olhos de Aires Gouveia (link)

sábado, dezembro 12, 2009

na terra dos idiofones


Madeira 09

poemas da vida XII

Trainspotting

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an mbarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself.
Choose your future.
Choose life.

John Hodge
nos olhos de André Paiva (link)

sexta-feira, dezembro 11, 2009

não me chames mais

não me chames mais Midas.
que não tenho o toque especial.
não quero a companhia de Sileno
e o Baco não me abre mais a porta.

não me chames mais Midas.
que não tenho mais tempo para venerar.
não quero ouvir Pã
e de Apolo quero apenas distância.

não me chames mais Midas
que não sei como reinar.
e se pudesse escolher a minha morte
ficaria no jardim das Hespérides para a eternidade.

não me chames mais Midas
que não sei mais quem sou.
sou um rei de pobres
rodeado do que não vê.

não me chames mais Midas.
chama-me apenas por tu.
e resta, aqui, a meu lado.

teatro para todos?


A peça era muito boa (link), mas eu já imaginava que poderia não ser entendida por todos. Um amigo viu-a uns dias depois e falou-me numa grande confusão dentro do teatro e depois à saída... o video mostra tudo. Mas, mais do que isso mostra uma inadaptação do público para certas experiências teatreais que nem são obrigatoriamente muito arrojadas. Parece que o teatro não pode mesmo ser para todos. Ou então tem que ser parte integrante de todo um processo de educação do público, como fazem as Comédias do Minho (link).

obs: obrigada pelo video, Mariana.

poemas da vida XI

Quero ser teu amigo


Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

Fernando Pessoa
nos olhos de Sara Virtuoso (link)

a melhor foto

...não é feita numa tarde de photoshop.são precisos anos de amizade.obrigado pelo jantar.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

poemas da vida X

La terre est bleu

La terre est bleue comme une orange
Jamais une erreur les mots ne mentent pas
Ils ne vous donnent plus à chanter
Au tour des baisers de s'entendre
Les fous et les amours
Elle sa bouche d'alliance
Tous les secrets tous les sourires
Et quels vêtements d'indulgence
À la croire toute nue.


Les guêpes fleurissent vert
L'aube se passe autour du cou
Un collier de fenêtres
Des ailes couvrent les feuilles
Tu as toutes les joies solaires
Tout le soleil sur la terre
Sur les chemins de ta beauté.


Oeil de sourd
Faites mon portait.
Il se modifiera pour remplir tous les vides.
Faites mon portrait sans bruit, seul le silence,
A moins que - s'il - sauf - excepté -
Je ne vous entends pas.


Il s'agit, il ne s'agit plus.
Je voudrais ressembler -
Fâcheuse coïncidence, entre autres grandes affaires.
Sans fatigue, têtes nouées
Aux mains de mon activité.

Paul Éluard
nos olhos de M. Tiago Paixão (link)

sons com sabor a um couscous muito especial


Beirut - Nantes

quarta-feira, dezembro 09, 2009

poemas da vida IX

Faz uma chave


Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.
Consente na doçura, tem dó
da matéria dos sonhos e das aves.
Invoca o fogo, a claridade, a música
dos flancos.
Não digas pedra, diz janela.
Não sejas como a sombra.
Diz homem, diz criança, diz estrela.
Repete as sílabas
onde a luz é feliz e se demora.
Volta a dizer: homem, mulher, criança.
Onde a beleza é mais nova.

Eugénio de Andrade
nos olhos de Luis Pimenta

apesar da chuva o projecto não espera


by João Fazenda (link)

terça-feira, dezembro 08, 2009

poemas da vida VIII

Les amandiers sont morts de leurs blessures


La Trouée de Rafah, village du nord-est du Sinaï, vient d'être détruite par les Israéliens, après que ses habitants arabes en on été chassés. Un de ces hommes écrit à son fils.


Mon fils,
Le jour s'est arrêté dans mes rides depuis que leur machine sanglante et grise est passée sur notre maison. Elle est formidable cette voiture immense qui ouvre sa gueule pour happer le peu de chose qui nous restait: un lopin de terre, un toit et trois amandiers. C'est une machine qui fait du bruit, brille au soleil et éclate en rire saccadé quand elle triomphe des petites fleurs sauvages et fragiles qui essaient de se relever. J'ai vu ses dents jaunies par le sang de la terre se briser sur un tas de sable. Un petit vent a emporté les racines de l'arbre. Le ciel s'est baissé et les a ramassée; je crois même qu'elles habitent un petit nuage têtu qui ne nous quitte plus depuis que nous sommes sans toit, sans patrie. Ton petit frère a couru pour sauver de la poussière lourde tes livres d'écolier. Nous avons eu peur. La machine a failli l'avaler.
Blessés dans notre terre, humiliés dans nos arbres, nous étions là tous les trois, figés et habités par une morte soudaine. Une partie de nous-mêmes, je crois la plus grand, était meurtrie, ils nous l'ont arrachée tout naturellement, à l'aube. Nous sommes restés tranquilles; ils ont ouvert nos plaies et nous avons bu notre morte. Elle a le goût de la sève; ta mère dit qu'elle a le parfum du jasmim. Le ciel s'est ouverte à l'appel de l'oiseau orphelin, et nous avons aperçu un corps de lumière couvert de sang neuf. Le soleil trébuchait ce jour-là, car l'injustice froide creusait son sillon dans notre terre, notre corps.
Notre mémoire percée d'étoiles n'avait plus de citadelle: elle devenait enceinte de nouvelles blessures. En 1948, tu n'étais pas encore né. La guerre a traversé notre champ. L'olivier était calciné. Notre destin était terni par la misère, mais il avait la rage de l'espoir. Certains sont partis avec une tente pour tout bagage, d'autres sont morts.
Aujourd'hui, mon fils, nous ne savons pas où tu es. Où que tu sois, sache que nous ne sommes pas tristes. On nous dit que nos maisons sont inutile et que nos amandiers sont ridicules. On nous dit que sur cette terre s'élèvera une ville, une ville moderne. Elle aura de belles avenues, des autobus et des chars. Elle ira jusqu'à la Méditerranée et s'appellera Yamit. Leurs machines perfectionnées avancent, avancent. Nos voisins ont reçu des cartes vertes. Ils peuvent rester chez eux quelques jours encore. Tu sais, le petit village d'Abou-Chanar, lui aussi va être détruit. La machine sanglante et grise avance, avance. On nous dit qu'il faut laisser la place à des hommes venus de loin, de très loin, des juifs venus de la Russie, mon fils.
Notre bagage est léger: un sac de farine et peu d'olives. La foudre peut descendre. Elle foulera les sables mêlés de pierres brisées et d'arbustes abattus. Elle tombera dans le vide, étranglée par les serpents de la haine. Tu te rends compte, mon fils ils demandent aux enfants de cette terre de venir la travailler pour le compte des "nouveaux propriétaires"! C'est la seule fois où j'ai pleuré. Je sais, tu n'aimes pas les larmes; excuse-moi si les miennes ont coulé. Mais la honte s'est amassée dans mon corps comme les pierres, comme le jours, comme les prières.
Notre terre battue par l'acier qui écrase les petits lézards, je la vois sur ton front comme une étoile, un rêve urgent qui nous rassemble. Tout change de nom. La mains métallique efface les écritures sur nos corps. Des racines d'arbres attestent. Nous n'avons pas besoin de stèle. Notre mémoire est un peu de sables suspendu à la lumière. Elle est haute entre tes doigts. Nous t'embrassons où que tu sois.

Tahar Ben Jelloun
nos olhos de Ana Virtuoso (link)

segunda-feira, dezembro 07, 2009

história de amor XIII

o telemóvel caiu ao chão. com ele aquelas últimas palavras ficavam de rastos. entre uma capa de telemóvel partida e um soalho com riscos. era um adeus com pouco de inesperado. era sempre assim. um finito prolongado a cortar o infinito breve. demasiado breve.
o telemóvel que fora companheiro de paixão era agora o inevitável mensageiro. e as forças eram já poucas para ainda tentar matar o mensageiro. era tarde. a chuva caía incerta. seria assim o resto do dias. como as lágrimas na sua face.

14 dias que vão definir a opinião da história sobre uma geração

Hoje, 56 jornais em 44 países dão o passo inédito de falar a uma só voz através de um editorial comum [sobre Copenhaga]. Fazemo-lo porque a Humanidade enfrenta uma terrível emergência.

Se não nos juntarmos para tomar uma acção decisiva, as alterações climáticas irão devastar o nosso planeta, e juntamente com ele a nossa prosperidade e a nossa segurança. Desde há uma geração que os perigos têm vindo a tornar-se evidentes. Agora, os factos já começaram a falar por si próprios: 11 dos últimos 14 anos foram os mais quentes desde que existem registos, a camada de gelo árctico está a derreter-se, e os elevados preços do petróleo e dos alimentos no ano passado permitiram-nos ter uma antevisão de futuras catástrofes.

Nas publicações científicas, a questão já não é se a culpa é dos seres humanos, mas sim quão pouco tempo ainda nos sobra para conseguirmos limitar os danos.

Mas, mesmo assim, até agora a resposta a nível mundial tem sido frouxa e sem grande convicção.

As alterações climáticas estão a ocorrer desde há séculos, têm consequências que durarão para sempre, e as nossas perspectivas de as limitarmos serão determinadas nas próximas duas semanas. Exortamos os representantes dos 192 países reunidos em Copenhaga a não hesitarem, a não caírem em disputas, a não se acusarem mutuamente, mas sim a resgatarem uma oportunidade do maior fracasso político das últimas décadas. Não deverá ser uma luta entre os países ricos e os países pobres, ou entre o Oriente e o Ocidente. O clima afecta-nos a todos, e deve ser solucionado por todos.

A ciência é complexa mas os factos são claros. O mundo precisa de dar passos em direcção a limitar o aumento de temperatura a apenas dois graus centígrados, um objectivo que exigirá que as emissões de gases a nível global alcancem o seu máximo e comecem a diminuir durante os próximos cinco a dez anos. Um aumento superior, na casa dos três ou quatro graus centígrados – a subida mais pequena que podemos realisticamente esperar se ficarmos pela inacção –, secaria os continentes, transformando terra arável em desertos. Metade de todas as espécies animais extinguir-se-ia, muitos milhões de pessoas ficariam desalojadas, nações inteiras afundar-se-iam no mar. A polémica sobre os e-mails de investigadores britânicos, sugerindo que eles terão tentado suprimir dados incómodos, tem agitado o ambiente mas não causou mossa na pilha de provas em que estas previsões se baseiam.

Poucos acreditam que Copenhaga ainda consiga produzir um acordo completamente definido – progressos efectivos em direcção a um tal acordo apenas se poderiam iniciar com a chegada do Presidente Barack Obama à Casa Branca e a inversão de anos de obstrução por parte dos Estados Unidos. Mesmo hoje, o mundo vê-se à mercê da política interna norte-americana, pois o Presidente não se pode comprometer com as acções necessárias até o Congresso fazer o mesmo.

Mas os políticos presentes em Copenhaga podem, e devem, chegar a um acordo sobre os elementos essenciais de uma solução justa e eficaz e, ainda mais importante, um calendário claro para a transformar num tratado. O encontro das Nações Unidas sobre alterações climáticas do próximo mês de Junho em Bona (Alemanha) deverá ser a data-limite. Segundo um dos negociadores: “Podemos ir a prolongamento, mas não nos podemos dar ao luxo de uma repetição do jogo.”

No centro do acordo deverá constar um arranjo entre os países ricos e os países em desenvolvimento, determinando como serão divididos os encargos da luta contra as alterações climáticas – e como iremos partilhar um recurso novo e precioso: os milhões de milhões de toneladas de gases de carbono que podemos emitir antes que o mercúrio dos termómetros alcance níveis perigosos.

As nações ricas gostam de fazer notar a verdade aritmética de que não poderá haver solução até que gigantes em desenvolvimento como a China tomem medidas mais radicais do que têm feito até agora. Mas os países ricos são responsáveis pela maioria dos gases de carbono acumulados na atmosfera – três quartos de todo o dióxido de carbono emitido desde 1850. São eles que agora devem dar o exemplo, e cada país desenvolvido deve comprometer-se com cortes maiores, que dentro de uma década reduzirão as suas emissões para substancialmente menos que o seu nível de 1990.

Os países em desenvolvimento podem argumentar que não foram eles que criaram a maior parte do problema, e também que as regiões mais pobres do globo serão as mais duramente atingidas. Mas vão cada vez mais contribuir para o aquecimento, e por isso devem comprometer-se com as suas próprias medidas significativas e quantificáveis. Apesar de ambos não terem chegado tão longe quanto alguns esperavam, os recentes compromissos de objectivos de emissões de gases dos maiores poluidores do mundo – os Estados Unidos e a China – constituíram passos importantes na direcção certa.

A justiça social exige que os países industrializados ponham a mão mais fundo nos seus bolsos e garantam verbas para ajudar os países mais pobres a adaptarem-se às mudanças climáticas, e tecnologias limpas que lhes permitam crescer a nível económico sem com isso aumentarem as suas emissões. A arquitectura de um futuro tratado deve também ser definida – com um rigoroso acompanhamento multilateral, compensações justas pela protecção de florestas, e uma aceitável taxa de “emissões exportadas”, de modo que o peso possa ser partilhado mais equitativamente entre os que produzem produtos poluentes e os que os consomem. E a equidade requer também que a carga colocada sobre determinados países desenvolvidos tenha em conta a sua capacidade para a suportar: por exemplo, novos membros da União Europeia, muitas vezes mais pobres do que a “Velha Europa”, não devem sofrer mais do que os seus parceiros mais ricos.

A transformação será dispendiosa, mas muito menos do que a conta que se pagou para salvar o sistema financeiro internacional – e ainda muito mais barata do que as consequências de não fazer nada.

Muitos de nós, particularmente nos países desenvolvidos, teremos que alterar os nossos estilos de vida. A época dos voos de avião que custam menos do que a viagem de táxi para o aeroporto está a chegar ao fim. Teremos que comprar, comer e viajar de forma mais inteligente. Teremos que pagar mais pela nossa energia, e usar menos dessa mesma energia.

Mas a mudança para uma sociedade com reduzidas emissões de gases de carbono alberga a perspectiva de mais oportunidades do que sacrifícios. Alguns países já reconheceram que aceitar as transformações pode trazer crescimento, empregos e melhor qualidade de vida. Os fluxos de capitais contam a sua própria história: em 2008, pela primeira vez foi investido mais dinheiro em formas de energia renováveis do que para produzir electricidade de combustíveis fósseis.

Abandonar o nosso “vício de carbono” dentro de poucas décadas irá exigir um feito de engenharia e inovação que iguale qualquer outro da nossa História. Mas se a viagem de um homem à Lua ou a cisão do átomo nasceram do conflito e da competição, a “corrida do carbono” que se aproxima deverá ser norteada por um esforço de colaboração, de forma a alcançarmos a salvação colectiva.

Superar as mudanças climáticas exigirá o triunfo do optimismo sobre o pessimismo, da visão a longo prazo sobre as vistas curtas, daquilo a que Abraham Lincoln chamou “os melhores anjos da nossa natureza”.

É dentro desse espírito que 56 jornais de todo o mundo se uniram sob este editorial. Se nós, com tão diferentes perspectivas nacionais e políticas, conseguimos concordar sobre o que deve ser feito, então certamente os nossos líderes também o conseguirão.

Os políticos em Copenhaga têm o poder de moldar a opinião da História sobre esta geração: uma geração que encontrou um desafio e esteve à altura dele, ou uma geração tão estúpida que viu a calamidade a chegar, mas não fez nada para a evitar. Imploramos-lhes que façam a escolha certa.

O PÚBLICO foi desafiado pelo jornal diário britânico The Guardian a participar neste projecto global. A ideia original de um editorial comum foi sugerida por várias pessoas envolvidas nas questões climáticas e tornada um projecto real por The Guardian. Foi com agrado que, ao longo dos dias, vimos o número de participantes crescer para 56 jornais de 44 países de todos os continentes. Aderimos por acreditarmos na urgência desta mensagem.

LISTA DE JORNAIS: “Süddeutsche Zeitung” - Alemanha,“Gazeta Wyborcza” – Polónia,“Der Standard” - Áustria,“Delo” - Eslovénia,“Vecer” – Eslovénia,“Dagbladet Information” - Dinamarca,“Politiken” - Dinamarca,“Dagbladet” - Noruega,“The Guardian” – Reino Unido,“Le Monde” - França,“Liberation” - França,“La Reppublica” - Itália,“El Pais” - Espanha,“De Volkskrant” – Holanda,“Kathimerini” - Grécia,“Público” - Portugal,“Hurriyet” - Turquia,“Novaya Gazeta” - Rússia,“Irish Times” - Irlanda,“Le Temps” - Suíça, “Economic Observer” - China,“Southern Metropolitan” - China,“CommonWealth Magazine” - Taiwan,“Joongang Ilbo” - Coreia do Sul,“Tuoitre” - Vietname,“Brunei Times” - Brunei,“Jakarta Globe” - Indonésia,“Cambodia Daily” – Camboja,“The Hindu” - Índia,“The Daily Star” - Bangladesh,“The News” - Paquistão,“The Daily Times” - Paquistão,“Gulf News” - Dubai,“An Nahar” – Líbano,“Gulf Times” - Qatar,“Maariv” - Israel,“The Star” – Quénia,“Daily Monitor” - Uganda,“The New Vision” - Uganda,“Zimbabwe Independent” – Zimbabwe,“The New Times” - Ruanda,“The Citizen” - Tanzânia,“Al Shorouk” - Egipto,“Botswana Guardian” – Botswana,“Mail & Guardian” - África do Sul, “Business Day” - África do Sul, “Cape Argus” - África do Sul,“Toronto Star” - Canadá,“Miami Herald” – Estados Unidos,“El Nuevo Herald” – Estados Unidos, “Jamaica Observer” – Jamaica, “La Brujula Semanal” - Nicarágua,“El Universal” - México, “Zero Hora” - Brasil, “Diário Catarinense” - Brasil, “Diario Clarin” - Argentina

in Público, 07 XII 09

obs: é impossivel mudar tudo em 14 dias. são anos de hábitos e erros acumulados. não estamos sequer em condições de aceitar que as pequenas vitórias que se conseguir nesta conferência são grandes vitórias para a humanidade. serão importantes mas sempre pequenas. estamos nesta situação de, provavelmente, se ir fazer mais do que em qualquer outro momento da história e mesmo assim não ser suficiente. é com esta sensação paradoxal que espero ver as resoluções finais...

poemas da vida VII

As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade
nos olhos de Ana Pola

domingo, dezembro 06, 2009

“A lei d mnor sforç e 1 mtor essncial d evlção d lngua”

?A lngua n e 1 qstao fexad. Ms tms d tr norms?, 
?A língua não é uma questão fechada, mas temos de ter normas?
“A sferografik Bic foi trokd pl tekld”,
“A esferográfica Bic foi trocada pelo teclado”
“N tard mt a ser prcis dar auls d kligrfia aos adolscnts”, 
“Não tarda muito a ser preciso dar aulas de caligrafia aos adolescentes”

Dinis Manuel Alves, responsável pela licenciatura em Comunicação Social do Instituto Miguel Torga, de Coimbra
Chamaram-lhe Tecla 3? Tem toda a razão para ficar chateado. Ninguém gosta de ser tratado de atrasado mental. Se está com a sensação de que lhe está a escapar qualquer coisa, dê uma espreitadela ao seu telemóvel, que não serve apenas para receber e fazer chamadas. DEF, as iniciais de deficiente, são as letras da tecla 3.
A nossa língua está a mudar a uma velocidade vertiginosa e o novo acordo ortográfico está inocente. O culpado é o telemóvel, mais concretamente as SMS, palavra hermafrodita – a maior parte das pessoas atribui-lhe o sexo feminino (que vai buscar a mensagem), mas o masculino seria o mais correcto, pois é a abreviatura de Serviço de Mensagens Escritas.
“A lei do menor esforço é um motor essencial da evolução da língua”, reconhece Dinis Manuel Alves, filho de um guindasteiro do porto do Lobito, onde nasceu há 51 anos, e que agora é o responsável pela licenciatura em Comunicação Social do Instituto Miguel Torga, de Coimbra.
A bem dizer, não é o responsável pela licenciatura, porque as SMS e o MSN não são os únicos agentes de mudança da língua. O “correctês” dá uma ajuda: o 1º ciclo é a antiga licenciatura minguada por Bolonha, o 2º ciclo respondia por mestrado e as cadeiras dão agora pelo nome de “unidades disciplinares”.
A ideia de traduzir Torga para linguagem SMS tem origem num inocente desabafo numa aula, produzido por Dinis, que é senhor de um curriculum tão trepidante e ziguezagueante como se antevê tenham de ser todos neste frenético e perigoso séc. XXI: fez Direito, foi deputado eleito pelo PS, licenciou-se em Jornalismo e vagabundeou pela rádio (TSF), televisão (TVI) e jornais (Grande Reportagem, Jornal de Coimbra, Expresso e Tal & Qual), até deitar âncora na Universidade, doutorando-se em Comunicação Social e fixando-se como professor e investigador.
“A língua nunca é uma questão fechada. Mas temos de ter normas para nos entendermos”, diz Dinis, em jeito de preâmbulo ao desabafo de quem, como ele, não acha graça ao desleixo em curso na escrita que não é propriedade privada dos alunos - a confusão entre o s e o ç levou Vara a escrever “suspenção” e um jovem professor a dirigir-se, por escrito, ao “Concelho Científico”.
O baralhanço entre o verbo estar e ter – “eu tive em Londres” - foi a mãe do desabafo: “Quem dá assim erros devia, de castigo, traduzir para linguagem SMS um diário inteiro do Torga!”.
Duas alunas engraçaram com a ideia, puseram o dedo no ar e iniciaram a empreitada de tradução de 27.882 palavras (114.796 caracteres) do Diário XII de Torga (diarioxii.blogspot.com), que viria a ser completada por duas miúdas do 10º ano, uma das quais é a Mariana, a querida que quer ser bailarina e adaptou isto a msg de tlm (ver tradução na página ...)
Intragável, a palavra que Dinis arranjou para caracterizar o resultado final deste trabalho, não se adequa, de maneira nenhuma ao magnífico entrecosto que deitamos abaixo num restaurante que estava cheio como um ovo - sábado é dia das famílias irem almoçar fora.
O Diário XII ficou intragável em linguagem SMS por que foi escrito num tempo em que os ponteiros do relógio andavam mais devagar e as professoras não eram tratadas por stôras. Também seria intragável a visão de um Cavaco de brinco na orelha, calções à guna abaixo dos joelhos, All Stars roxas e com o nome Maria, em caracteres chineses (arranjados pelo Fernando Lima), tatuados no antebraço.
Mas, como nos avisou o Dylan, os tempos estão a mudar. 1 500 SMS por semana sabem a pouco a uma maioria de adolescentes que preferem mandar mensagens aos amigos do que estar a falar com eles de viva voz. Impregnada de oralidade, simplificada, enriquecida com smileys que sinalizam o estado de espírito, a linguagem usada no Twitter e SMS veio para ficar. O operador inglês dot.mobile traduziu para linguagem SMS as principais obras da literatura britânica.
“A esferográfica Bic foi trocada pelo teclado. Não tarda muito a serem precisas aulas para ensinar caligrafia aos adolescentes”, concluiu Dinis, que ficou triste :( quando soube que, no final de um lauto almoço, tinha de empurrar o meu carro que ficara sem bateria. Só ficou feliz quando me viu pelas costas ;-).

Dinis Manuel Alves, rsponsvel pl licnciatr em Kmunikçao Scial d Institt Miguel Torga, d Cbr
xmaram-lh Tecla 3? Tem td a rzao p fkar xtead. Ninguem gst d ser trtado d atrsdo mntal. S ta c a snsçao d q lh ta a xkpar qlqr coisa, de, pf, 1 xpreitdl ao seu tel, q n serv apns p recbr e fzr xmads. DEF, as iniciais d deficnt, sao as letrs d tecla 3.
A nx lngua ta a mdar a 1 vlcidd vrtiginosa e o nv akrdo ortgrafk ta incnte. O klpdo dst rvolçao e o tel, + knkrtmnt as SMS, plavr hrmfrodt – a maior part ds pssoas atribui lh o sex fem (q vai bxcar a msg), ms o masc sria o + krect pq e a abrvtur d Srviç d Msgs Xcrits.
“A lei d - sforç e 1 mtor essncial d evlçao d lngua”, reknhec Dinis Manuel Alves, flh d 1 guindsteir d port d Lobito, ond nsceu ha 51 ans, e q agr e rspnsvel pl licnciatr em Kmunikçao Scial d Institt Miguel Torga, d Cbr.
A bem dzr, n e o rspnsvel pl licnciatr, pq as SMS e o Msn n são os unks agnts d mdanç d lngua. O “correctês” tb dá 1 ajda ao intrdzir nvs xpressoes: o 1º ciclo e a antig licnciatr mnguad pr Bolonha, o 2º ciclo rspondia pr mstrad e as kdeiras dao agr pl nom d “unidds krriklars” – dsignçao bem + xtensa e pmposa, a dmnstrar q os pdrinhs d plitikmnt krrect n acrtram a hora pl tmp d simplifikçao .
A ideia d trdzir Torga p lnguagm SMS tem n origem um incnte desbaf, prdzid numa aula pr Dinis, q e sr d 1 curriculum tao trepidnt e zigzagnte km se antevê tnham d ser tds nst frnétik e prigos séc XXI: fz Direit, foi dputad eleit pl PS, licnciou-s em Jrnalism e vagbndeou pl rádio (TSF), tv (TVI) e jrnais (Grande Reportagem, Tal & Qual, Jornal de Coimbra e Expresso), até deitr âncora n Univrsidd, doutrndo-s em Kmunikçao Social e fixnd-s km prof e invstigdor.
“A lngua nunk e 1 qstão fexad. Ms tems d ter norms p nos entendrms”, diz Dinis, em jeit d preâmbulo ao desbfo d quem, km el, n ax graç ao dsleixo em curs n xcrit q n é propriedd privd ds alns - a cnfusão entr o s e o ç lvou Vara a xcrever “suspenção” e um jvem prof a dirigir-s, por xcrito, ao “Cncelh Científico”.
O baralhanço entr o verbo estar e ter – “eu tiv em Lndrs” - foi a mãe do desabafo: “Quem dá assim errs evia, d cstigo, tradzir p lnguagem SMS um diário inteiro d Torga!”.
2 alunas engrçaram k a ideia, puseram o dd n ar e iniciaram a empritda d tradção d 27.882 palavras (114.796 caracteres) d Diário XII de Torga, q viria a sr completd por 2 miúdas d 10º ano, 1 ds quais e a Mariana, a querida q qr sr bailarina e adaptou ist a msg de tlm.
Intrgvel, a plvra q Dinis arrnjou p carctrizar o resltdo final dest trablh, n s adequa, d mneira nnhuma ao mgnífico ntrecost, akmpnhdo por 1 arrzinho de fjão mlandro, q deitámos abaixo num rstaurante q estava cheio como um ovo - sáb e dia ds famílias irem almoçar fora.
O Diário XII fikou intragável em lnguagem SMS por q foi escrit num tmp em k’os pnteiros d relógio andavam + devagar e as professoras n eram tratadas por stôras. Tb seria intragável a visão d um Cavaco d brinco na orelha, calções à guna abaixo ds joelhos, All Stars roxas e k o nome Maria, em caracteres chineses (arranjados pelo Fernando Lima), tatuados n antbraç.
Mas, km ns avisou o Dylan, os tmps tao a mudar. 1 500 SMS pr semana sabem a pouco a 1 maioria d adlscntes qpreferem mandar mgs aos amigos d q tar a falar c eles d viva voz. Impregnada d oralidade, simplificada, enriquecida com smileys que snalizm o estd d spírit, a lnguagm usd n Twitter e SMS veio p ficar. O oprdor ing dot.mobile tradziu p lnguagm SMS as principais obras d litratur britnica.
“A sferografik Bic foi trokd pl tekld.N tard mt a ser prcis dar auls d kligrfia aos adolscnts” knkluiu Dinis, q fiko trist :( rsignd qnd soub q, n finl d 1 laut almç, tnh d emprrar o meu carro q fikra s btria. So fiko fliz :) qnd m viu pls kstas ;)

in DN, 06 Dez 09