segunda-feira, dezembro 14, 2009

história de amor XV

Entraram de mãos dadas. Um sorriso imponente marcava-lhe a cara já vincada pela idade. Feliz e orgulhoso do mulherão que levava. Pediu o quarto mais caro ao rapaz da entrada enquanto virando-se para ela anunciava com pompa e circunstância: para ti, minha querida, apenas o melhor. Na resposta um olhar cúmplice.
Subiam elevador acima entre beijos quentes e mãos excitadas. A pele dela era doce. Sabia a uma mescla de mel e canela. Sentia um desejo intenso enquanto passava com a sua boca pelos seus ombros nus e pescoço fino. Os pequenos gemidos que ela soltava eram a certeza de uma paixão fogosa. Vivida, ali, no último andar de um dos melhores hotéis da cidade.
Abriram a porta aos empurrões. Enrolados como dois liceais inconscientes. O seu ténue vestido azul sentia há muito o seu peito de camisa aberta. Deliciava-se intensamente quando ela lhe tirava a gravata e abria a camisa roçando as suas mãos acetinas na sua pele cansada. Os beijos cortavam-se em dentadas malandras.
Ela elogiava-o constantemente. A sua boca fina e bem desenhada, os invulgares olhos de amêndoa, as mãos vigorosas que a excitavam muito quando ele a agarrava, e até a voz rouca, como a dos radialistas de antigamente, eram apaixonantes segredava-lhe ela entre um e outro beijo. E ele derretia-se sempre. Que nem um inocente. Virgem de realidade.
Naquele dia tudo igual. As roupas espalhadas por todo o quarto. Os lençóis ao fundo da cama. As janelas rasgadas sobre a cidade com uns discretos estores venezianos. Ela não gostava muito de fazer com luz. Ele consentia. Em tudo o que ela queria.
Tinham feito três vezes. Como era hábito, aliás. Já não era um puto. O seu desejo gastava-se à terceira. Ele nunca fora uma fera na cama. Não as deixava desconsoladas mas não era um D. Juan. Ele sabia-o. No entanto, com ela era diferente. Sentia-se mais vivo. E ela garantia-lhe que ele era um excelente amante. Talvez fosse. Talvez com ela.
Todo suado, nu, com o sexo murcho e a respiração ainda ofegante levantou-se à procura de um cigarro de vitória. Um dos últimos, que brevemente deixará de fumar a conselho do médico. Mirou-a de revés. Ela ainda deitada, com o seu corpo bem torneado por entre os lençóis que acabava de puxar para cima.
Abriu um pouco os estores. Viam-se outros quartos do hotel. De empresários cansados, turistas errantes, e talvez outros homens como ele. Apaixonados.
Num quarto ligeiramente abaixo, um pouco mais à direita, numa janela entreaberta, uma pessoa. Uma mulher. Nua. A fumar um cigarro daqueles longos. Não lhe via a cara por causa de uma sombra. Via apenas uns esvoaçantes cabelos longos, arruivados e ondulados. Uns seios pequenos e impecavelmente hirtos, com uns mamilos como gostava. As ancas bem desenhadas e um rabo redondo completavam o quadro que quase o excitava novamente.
Deveria ter sentido um baque forte ao ver aquela tela. Tal não aconteceu. Bom ou mau sinal? Não é todos os dias que se vê a nossa mulher cansada mas relaxada logo depoisde foder com outro homem. Normal. Ele nem era excepcional na cama. Não era um D. Juan.
Os olhos dela subiram. Encontraram os dele. Um olhar que poderia ser de vazio mostrava um amor terno. Até compreensivo. Naquele olhar, naquele dia, fechavam um compromisso, criavam um silêncio de mil palavras. E contudo, nem uma palavra sobre aquilo sairia enquanto comeriam como todos os domingos o cozido em casa dos moribundos sogros dele.

2 comentários:

Anónimo disse...

que pornografia atroz!!

Anónimo disse...

não me parece pornografia, mas sim uma boa explicação do envolvimento e erotismo bem explorado e sentido...