terça-feira, dezembro 22, 2009

Manifesto hiperdada

1
É noite, noite torturada, noite tortuosa, noite rigorosa. Boa noite, santa noite, noite de dia, noite fria, noite calada, noite anoitecida, noite conjugada, noite prevalecida. É noite e eu estou cansado.
É dia, dia convalescente, um dia igual aos outros, um dia diferente dos outros. Um dia encanecido, com pregas e demais gorduras, um dia amortecido, tropeçado, mal amanhado. É dia e ela está aborrecida.  
São horas. Horas estivais, horas em picotado, recortáveis e sensaboronas, horas que não mentem, quase nunca se atrasam, cumprem o horário à risca, horas que desovam a horas.  
São anos e depois prontos. Dá nisto  
2
O tempo sempre soube onde começou, mas nunca onde acabar. É tempo de isto mudar. É tempo de fazer outro tempo. Urge. Urge. A arte é o contrário do tempo: sabemos sempre onde acaba, mas nunca onde começa. É o mistério da génese.
Palavra do Senhor.  
3
A arte está tanto em toda a parte que já em parte alguma há arte. E isso é bom.  
4
Quem semeia ventos colhe tempestades, disseram eles. Pusemo-los em tribunal por publicidade enganosa.  
5
“Deus existe?” – é uma pergunta académica, aliás falseada. “A América existe?” – é uma questão filosófica, por detrás da qual estará (quiçá) a verdade a que temos direito.    
6
Não perguntes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti. Pergunta antes o que podes fazer pelos Felizes da Fé. 
7
Certo, mas há mais:
Não perguntes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti. Pergunta antes o que os Felizes da Fé podem fazer por ti.  
8
A diferença entre uma vaca e um rebanho de vacas é que a vaca solitária, ao menos, sabe que não é uma ovelha.  
9
Em inglês “Dog” e “God” têm o mesmo número de letras. Dá para fazer jogos profanos fabulosos. Imagine-se então onde não chegariam os ingleses se “Dog” e “God”, além do mesmo número de letras, tivessem também as mesmas letras – só que invertidas.  
10
Em português não temos tanta sorte. Há o “crer é poder”, claro, mas pouco mais. Por exemplo, “tempo é dinheiro” dá poucos jogos. Podia ser “tempo é pinheiro”, ou “tempo é, dinheiro o põe”, mas pouco mais. É caso para perguntar: onde não chegaríamos nós, portugueses, se, na nossa língua, “Dog” e “God” também tivessem o mesmo número de letras.  
11
Se calhar, inventávamos o “Scrabble”.
12
Assim, não inventámos o “Scrabble”. 
13
E é pena.
 
RZ in Felizes da Fé

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