quarta-feira, dezembro 23, 2009

poemas da vida XXIII

Em nome da terra

E assim que me sentei, começou-me a despir.
- Eu dispo-me.
- Doutorzinho rabugento.
E sem me dar atenção, continuou a despir-me. Querida. Era uma moça ainda nova e ela retirava-me peça a peça a minha idade adulta até ficar a criança que ela queria. Eu tomo o banho! berrei-lhe para ela acreditar na minha força de homem. E ela disse ora não querem lá ver este menino birrento. Estou nu e sem razão para ter vergonha de estar nu, que era o que apenas me podia agora vestir. E tinha o coto da perna a atestar isso, porque o meu corpo não estava inteiro para atestar a importância de si. Então a Antónia manobrou uma manivela e a cadeira subiu mais alto que a banheira e depois manobrou ao contrário para a cadeira mergulhar comigo na água. E imediatamente começou a lavar-me. Tão desprotegido Mónica. Tão desapossado do meu ser. Lavava-me a cabeça, o tronco, lavava-me as partes amorosamente.
(...)
– Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.
– E agora vamo-nos limpar – diz-me a Antónia.
Trabalho difícil. Ajusta-me a cadeira de plástico sob o assento, dá à manivela para a cadeira subir comigo no varão de aço. Depois esfrega-me áspera na toalha felpuda. Depois veste-me com carinho, não me deixa a mim vestir-me. Exerce o prazer da protecção, que é um grande prazer dos fracos, Mónica, por haver mais fracos do que eles.

Vergílio Ferreira
nos olhos de Madalena Palmeirim

Sem comentários: