quinta-feira, dezembro 30, 2010

o dez de dois mil e dez

1. EDITAR. das palavras às fotografias. das minhas palavras às dos outros. do meu olhar à fotografia. e depois editar a minha vida. cortar a direito, sublinhar, recuar, pensar e questionar cada palavra, cada gesto, cada momento, cada história.

2. HISTÓRIA. ser parte dela. ser ela. da minha própria história ou escrevendo a história dos outros. investigador e tutor. ser criador ou ser apenas uma história com final feliz.

3. IGNITE. e ser feliz ao ultrapassar medos, inseguranças, receios. falar com micro, como gente grande, e olhar olhos nos olhos, os olhos que nos olham. e apresentar a todo o mundo, o meu mundo, o meu projecto10.

4. PROJECTO10. " o projecto10 é apenas isso, um projecto para 2010." e, contudo, mudou para sempre a minha vida. obrigado a todos que passaram por aqui. que tornaram real este sonho. que fizeram comigo esta viagem.

5. VIAJAR. alemanha, turquia, portugal. o meu país de norte a sul, do interior ao litoral. de fora para dentro e de dentro para fora. uma viajem que foi sobretudo por mim mesmo, via amigos.

6. AMIGOS. sempre lá. sempre cá. ignorando os "lugares comuns" e as "frases feitas". ontem como hoje. foram cenários sem fim: noites de "vai tu", santos populares, benfica campeão, casas abandonadas no porto, quartos apertados em lisboa, montes escaldantes e ruas cruzadas de cerveja na mão. foram cenários sem fim. até nos carros de sempre.

7. CONDUZIR. e pegar no carro, no bólide, na viatura e no automóvel. cuidado que transpiro. olha a velocidade que cresce. olha o medo que vira desconforto e olha o conforto e a habituação a chegarem, assim de mansinho, como uma quinta na autoestrada. sem ter mais medo de morrer.

8. MORTE. hoje mais presente do que ontem. do que nunca. certamente menos que amanhã. um ano inteiro repleto de negro, que é por vezes menos escuro, apenas sombrio. não nos ensinam a viver isto. como se pode viver a morte? não ensinam isto na primária, liceu ou universidade. aprende-se sim na conversa de amigos pela noite fora ou nas palavras guardadas em pequenos tesouros prontos a desembrulhar numa insónia. aprende-se com o tempo. com o aproximar da morte. quando se percebe que temos que guardar o que os que foram nos deixam: o melhor da vida é mesmo isso, viver.

9. VIDA. e não falo dos nascimentos que não vi. falo apenas da vida que está em tudo o que disse atrás, do editar à história, do ignite à viagem, dos amigos à condução, do transformar a morte em vida. e é tão simples, e é tão fácil como pegar num cliché e dizer que no fundo tudo se resume ao...

10. AMOR. eu que em dois mil e dez conheci o "r" e o "a" como nunca. vi o fim de algo que é suposto não ter limites. eu que vi o principio do amanhã já hoje. vi a ruptura e o apaixonar. o fim e o inicio como um ciclo. de vida. da minha vida, que é tal e qual como a história de uma qualquer outra vida por escrever. venha o papel e a caneta...

Confession

Waiting for death
like a cat
that will jump on the
bed


I am so very sorry for
my wife


she will see this
stiff
white
body


shake it once, then
maybe
again:


“Hank!”


Hank won’t
answer.


it’s not my death that
worries me, it’s my wife
left with this
pile of
nothing.


I want to
let her know
though
that all the nights
sleeping
beside her


even the useless
arguments
were things
ever splendid


and the hard
words
I ever feared to
say
can now be
said:


I love
you. 

Charles Bukowski

"it's the economy, stupid"

via Bandeira ao vento

As mulheres de Cavaco

No debate com Defensor Moura - em que o actual presidente, sem estar protegido por discursos escritos, demonstrou até onde pode ir a sua arrogância -, coube a Cavaco Silva o minuto final. Dedicou-o às mulheres, que nesta quadra festiva estão em destaque. Não fosse a virgem Maria modelo para todas as senhoras sérias e a família o centro das suas vidas.

Ao falar às mulheres, Cavaco fez-lhes um elogio. Pela sua participação cívica na vida em comunidade ? Não. Pelo papel crescente que vão tendo nas empresas, na Academia, na cultura, na política? Menos ainda. O elogio foi para as mães, esposas e donas de casa. Por cuidarem das crianças e fazerem milagres com o apertado orçamento familiar.

Quando Cavaco Silva fala o tempo anda para trás. Revela-se o líder paternal, que trata, com a serenidade dos homens ponderados, das coisas do Estado. Vigilante, protege-nos dos excessos. Nunca debate, porque o debate poderia dar a ideia de que ele navega nas águas sujas da polémica democrática. Ele é o consenso. Apesar de tudo o que sabemos, representa a honestidade no seu estado mais virginal. E para ser mais honesto do que ele qualquer um teria de nascer duas vezes e, supõe-se, duas vezes escolher Dias Loureiro como seu principal conselheiro político. A cada acusação responde sem resposta, porque ele está acima da crítica. A crítica a Cavaco é, ela própria, uma afronta à Pátria.

Mas o tempo volta para trás não apenas no olhar que tem de si próprio, mas no olhar que tem do País. Nesse País está, no centro de tudo, a família. E no centro da família está a mulher. Não a mulher que tem uma vida profissional relevante e é uma cidadã activa e empenhada. Mas a esposa e a mãe. É ela - quem mais? - que cuida dos filhos e gere as finanças domésticas.

Cavaco Silva não se engana. Esse país modesto e obediente - onde o chefe de família confia no líder que trata das finanças da Nação e na mulher ponderada que trata das finanças da casa - ainda existe. Ao lado de um outro, feito por uma geração que nasceu numa democracia cosmopolita. Onde os cidadãos têm sentido crítico e as mulheres têm vida fora do lar. Onde os homens também cumprem o seu papel nas coisas comezinhas da educação dos filhos e a gestão da economia doméstica também é obrigação sua. Onde os cidadãos não pocuram homens providenciais que os protejam do Mundo. O problema de Cavaco não é viver divorciado do País real. É haver uma parte desse país que lhe escapa.

Cavaco Silva recorda o que fomos: provincianos, medrosos, conservadores, ordeiros. E nós, como todos os povos, carregamos no que somos um pouco do nosso passado. O cavaquismo representa um Portugal que demora a dar-se por vencido. É o último estertor do nosso atraso. E o seu último minuto teve aquele cheiro insuportável a nefetalina. Aos mais velhos, que o reconhecem, dá segurança. Aos mais novos, a quem diz tão pouco, parece tão inofensivo como um avô que vem de outro tempo.

Há quem ache que Cavaco não é de direita. Engana-se. Cavaco é a única direita que realmente existe em Portugal: conservadora, tacanha, provinciana, caridosa e estatista. A outra, liberal, cosmopolita e tão pouco latina, se não se adaptar terá de esperar muito tempo pela sua vez. Passos Coelho, que representa tudo o que Cavaco despreza, irá descobri-lo muito mais cedo do que julga.

Daniel Oliveira, publicado no Expresso Online, via Arrastão

nota: não podia deixar passar este post por nada na vida. ele é brutalmente verdadeiro e infelizmente realista!

you are a lover

«It's not a shame nor a glory, just a romantic tale.»


Tracey Thorn

"black swan" ou um cisne das penas muito brancas

Pode a análise de um filme falar sobretudo de outros filmes? Pode um filme elogiado transversalmente - das listas populares e "popularuchas" aos críticos afamados -, deixar-me com um sentimento de desilusão? Pode um cisne preto ser mais branco que outra coisa?
Primeiro aspecto a realçar, Black Swan está já e vai ganhar ainda inúmeros prémios. Óscares incluído. É uma película evidentemente acessível para o grande público, tem uma envolvente banda sonora, alguns bons planos. Tem tudo para ser um dos filmes do ano. Contudo...

Sexto Sentido, Clube de Combate, A Mosca, ou O Exorcista pareceram-me estar ali como referência, e isso não é obrigatoriamente bom. "Ah, afinal era tudo falso." ou "Era tudo na cabeça dela, quem diria?" é um volte-face fascinante, mas previsível desde o Clube de Combate ou do Perdidos. Depois, confesso que aqueles efeitos especiais pareceram-me quase sempre muito "manhosos". OK, era a loucura da menina mas mesmo assim... Mesmo assim aqueles trinta segundos em que saem penas das costas da Nina parecem apenas A Mosca dos tempos modernos, e pouco depois a torção total da tíbia é tão verossímil e importante para todo o enredo como o virar de cabeça e vomitar no Exorcista.

Mas, há sobretudo um filme que esteve nas "entrelinhas" o tempo todo, A Pianista de M. Haneke. Antes de mais, ambos têm como personagens principais artistas solitárias. Pianista e Bailarina. A busca da perfeição é o único objectivo de ambas e, todavia, como é dito logo no início deste filme "Perfection is not just about control, it's also about letting go." Os dois filmes apresentam também duas mães, cada uma à sua maneira. Obsessivas, controladoras e amargas, elas são apesar de tudo o pé na terra das duas artistas "sonhadoras". Dois homens, esses sim bastante diferentes, marcam ainda o enredo. E neste caso confesso que tenho que assumir que tanto o papel como o actor (Vicent Cassel) são muito mais importantes para a trama e, sobretudo, para o desenlace. O terceiro personagem em comum entre os dois filmes é o "sexo" ou a tensão sexual. Ele será até, muito provavelmente, um catalisador tão importante na história como a procura de perfeição de bailarina e artista.

Confesso que fiz esta análise demasiado a quente. Não deixei respirar, nem pousar o filme. Mal pensei as cenas, as interpretações, a outra vida do filme. E, após ter explicado este pormenor, termino com algumas considerações: a música de Schubert é mais envolvente e quase demente do que Tchaikovsky; Portman é bem mais bonita do que Hubert, mas ainda é menos actriz; Haneke mostrou uma loucura mais psicológica, doentia até, do que a demência demasiado visual e visível de Aronofsky, e tal como Hitchcock dizia: o mais assustador é o que não se vê. Em conclusão, sinto em Black Swan um sabor a quase. Quase um grande filme. Quase uma interpretação memorável. Quase... Diria mesmo que a este Cisne falta evidentemente um golpe de asa.

terça-feira, dezembro 28, 2010

um apontamento (a dois tempos) sobre o reconhecimento

E quando o reconhecimento chega cedo? Hoje ao almoço (nem tarde, nem cedo) falava-se do caso de um autor que está em vida, ainda mais atendendo ao facto de em anos de autor (porque deve existir uma tabela semelhante à dos cães), a ter sucesso, reconhecimento, e prémios, bem cedo. Explicações? Falou-se numa das principais característica  definidoras da modernidade, que é esta rede onde todos vivem e partilham. Tudo. Além disso é também possível uma maior divulgação da(s) obra(s) dos artistas. Apontou-se o facto de alguns autores terem "redes de simpatia" já montadas. Talvez seja tudo isso...

Mais tarde, mas ainda cedo, e enquanto lia outras coisas e pensava noutras ainda, veio-me uma potencial resposta. O reconhecimento chega hoje mais cedo porque há um crivo maior. Paradoxo? Talvez. Mas a verdade é que há hoje mais leitores bons e maus - e não estou aqui para discutir a história da galinha e do ovo e de não haver bons ou maus leitores -, mas há também mais críticos. E mais editores. E os editores lêem mais hoje. Melhor e pior, certamente, mas lêem mais. Nem por acaso no bibliotecário de babel foi colocada hoje à tarde uma citação de Samuel Johnson, que reza assim: «The greatest part of a writer’s time is spent reading. In order to write, a man will turn over half a library to make one book.» Pois com o editor não é muito diferente. ou seja tem que ler muito. Gasta (ou ganha) muito tempo. E onde quero chegar com isto? O crivo é hoje mais apertado, mas é também mais fidedigno, excepção feita aos críticos que se deixam levar por modas ou interesses como Sílvia Chicó refere no seu artigo. Creio que podemos olhar para os críticos e editores como sendo a materialização física do tempo. São relógios, ou calendários, ambulantes. E não estou de todo a ser depreciativo. Um bom editor ganhou tempo em vida, como que chegou mais cedo às certezas do crivo do tempo. Mas claro que isto é só uma tese...

domingo, dezembro 26, 2010

Identidade


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço


Mia Couto in Raiz de Orvalho e Outros Poemas

PROJECTO10 - #10 Reconhecimento



Imagens do cemitério de La Recoleta em Buenos Aires, Argentina.

Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

25.XII.10

chega assim ao fim um dia daqueles que não devia ter fim. comes e bebes, sorrisos e risos, presentes e oferendas. foi ser e estar por um dia.
por fim a noite. fechada, como não podia deixar de ser, no bairro (do amor e da amizade).
e agora que me deito só penso neste dia que se aproxima do fim. ele é um projecto, ele é um ano. este dia é como um mundo inteiro num ano só. um ano que no fundo foram dez. o ano dez. o ano do projecto dez. amanhã o número dez. amanhã mais um fim. e desta vez com um sorriso sem fim.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

sexta-feira, dezembro 17, 2010

as outras palavras

eu sei que a geometria das emoções e dos sentimentos segue regras desconhecidas e surpreendentemente variáveis.eu sei que ela é a incógnita na matemática elevada ao expoente do bater do coração. mas confesso que não sei porque insisto usar régua e esquadro no amor.


eu poderia dizer que és o meu círculo de vida, embora não encontre nunca os cantos à casa do amor.eu poderia dizer que sou um quadrado amassado pelas angústias, as reais e as imaginárias. eu poderia mesmo dizer que vivo constantemente dentro de um triângulo, que nem precisa de ser amoroso para ser complicado e enigmático.

por vezes sinto que recrio e mesclo o Inferno de Dante com o Estrangeiro de Camus. e vejo as últimas noites na tua cama, onde já fui tão feliz, como viagens ao(s) Inferno(s). foram trajectos com vários níveis de dor, de tristeza, de emoções. sabes, talvez sejam mesmo nove os momentos que definem o nosso distanciamento. nove como a palavra Separação lida letra a letra. nove como se Disjunção fosse agora a rima-mãe do nosso amor.

palavras com silêncio dentro

gosto tanto de palavras, mas,
se calhar não peso nunca o valor que elas têm na vida dos outros.
minto. muito.
vivo vidas criadas mesmo ao jeito de sonhar.
só não minto no que sinto.
e sinto muito, mesmo o que não consigo dar palavras.
e se assim chego aqui. ao nada. vazio. ao silêncio pleno.
aqui à derrota num campo de batalha sempre imprevisto.
não ganhei nada. perdi tudo.
e agora?

quinta-feira, dezembro 16, 2010

Guta Naki


no Toca e Foge

nota: Os Guta Naki apresentam hoje o seu primeiro álbum às 21h30 no Nimas.

um adeus com um sorriso


"Culturismo" por Herman José in Herman Enciclopédia

terça-feira, dezembro 14, 2010

momento Kit-Kat

by Quino

As tarefas

(Redacção de uma rapariga de nome Maria Adélia nascida no Carvalhal e educada num asilo religioso em Beja)

Há muitas espécies de tarefas e cada pessoa tem que cumprir a sua tarefa. As tarefas dividem-se em duas espécies: as tarefas do homem e as tarefas da mulher. As tarefas do homem são aquelas da coragem, da força e do mando. Quer dizer: serem presidentes, generais, serem padres, soldados, caçadores, serem toureiros, serem futebolistas e juízes, etc., etc. Ao homem deu Deus nosso Senhor a tarefa de velar e mandar, que até Jesus Cristo foi homem e Deus escolheu ter filho e não filha para morrer neste mundo em desconto dos nossos pecados que são muitos e na hora da morte disse «Pai perdoa-lhes que eles não sabem o que fazem». Deste modo são os homens que organizam as guerras para tirarem o mundo da perdição e do pecado (por exemplo: as cruzadas), combatendo para salvar a Pátria e defender assim as mulheres, as crianças e os velhos.

Depois há as tarefas das mulheres, que acima de todas está a de ter filhos, guardá-los e tratá-los nas doenças, dar-lhes a educação em casa e o carinho; é também tarefa da mulher ser professora e mais coisas, tal como costureira, cabeleireira, criada, enfermeira. Há também mulheres médicas, engenheiras, advogadas, etc., mas o meu pai diz que é melhor a gente não se fiar nelas que as mulheres foram feitas para a vida da casa, que é uma tarefa muito bonita e dá muito gosto ter tudo limpo e arrumado para quando chegar o nosso marido ele poder descansar do trabalho do dia que foi tanto, a fim de arranjar dinheiro para nos sustentar e aos filhos.

Como a vida está muito cara e ninguém pode com ela, diz a minha mãe que a mulher tem de trabalhar para ajudar o marido, mas eu cá não gostava nada de ter de ajudar o meu marido e só hei-de casar com um homem rico que me possa dar vestidos e automóvel, ir ao cinema, ter duas criadas e a minha mãe diz-me, filha fazes tu muito bem pensar assim, não cases com um pelintra como o teu pai, que o ordenado que ele ganha não dá para as faltas: desterrou-se a gente para estas terras porque ele é mesmo apalermado, mas é teu pai tens que lhe guardar respeito. Desterrou-se a gente e aqui só se comermos as pedras que o chão dá e eu estou neste asilo. Na terra da minha mãe sempre havia o meu avô que ajudava e lá a terra bota mais coisas das suas entranhas para matar a fome. Mas o meu pai resolveu-se a vir para estas bandas, de pedreiro, e como uma das tarefas da mulher é obedecer ao homem, assim fez minha mãe, que o que nos vale é ela ir a dias a casa da fidalga, parente de outra fidalga que teve uma filha aqui no convento, que uma das tarefas das mulheres, dantes, era ir para o convento e ainda hoje será, mas agora nem sempre vai obrigada. Diz o senhor prior que é uma vocação mas eu não sei o que isso quer dizer e ponho tarefa que é mais bonito. Ainda outro dia a fidalga me perguntou se eu não queria ir para freira (na família dela têm a mania de irem para freiras) e eu respondi muito obrigada e fiquei calada a olhar para o chão como a minha mãe me ensinou, ela disse que engraçadinha e fez-me uma festa na cabeça e eu vi os anéis que ela trazia nos dedos, a brilharem. Anéis com pedras lindas e pensei que fidalga deveria ser uma tarefa para as mulheres: então eu queria ser fidalga e beijei a mão da fidalga assim de repente, só para sentir na boca os anéis e ela julgou que fosse por mor dela e disse coitadinha e deu-me cinco escudos, mas quando eu queria ir à tenda comprar rebuçados a minha mãe tirou-me o dinheiro enquanto gritava não sejas gastadeira rapariga, que isso sempre dá para trazer um pouco de arroz e batatas, e eu lhos dei porque os filhos igualmente têm as suas tarefas e uma delas é obedecer aos pais, mas pensei que nunca mais lhe contava nada da minha vida nem lhe mostrava nada que me dessem: cada um governa-se e a gente nesta vida tem de ter a tarefa de ser esperta, e uma das tarefas da mulher é disfarçar, que bem vejo a minha mãe com o meu pai. Uma vez até me disse: filha, olha que a mulher tem de usar muita manha para conseguir o que quer, pois como somos mais fracas, o homem faz da gente gato-sapato e esse é o que é dado. Mas a gente tem de se defender. Outra das tarefas da mulher, então, será ter manha.

É preciso não se cair em tentação, diz o Senhor Prior, eu cá não percebo nada dessas coisas e só sei que quando for grande nunca hei-de ser uma desgraçada tal a minha mãe, sempre a limpar as porcarias que o meu pai e a fidalga fazem. Pelo menos a fidalga sempre nos vai dando uns fatozitos velhos e uns restos de comida em vez de os deitar no caixote. Que também há as tarefas dos pobres e as tarefas dos ricos. Uma das tarefas dos ricos será serem caridosos e a dos pobres pedir e aceitar o que lhes dão mostrando-se muito agradecidos.

O mundo sempre foi assim, prega o Senhor Prior, uns com tudo outros sem nada, é essa a vontade de Deus; concerteza porque ele nunca teve fome como nós, mas o Senhor Prior respondeu que para se ir para o céu depois de morto é preciso ser-se pobre e os ricos não vão para o céu, e contou uma história de um camelo que entrava pelo fundo de uma agulha e eu por achar graça, deitei a rir de tal maneira que ele me pôs logo de castigo. Que uma das tarefas das crianças é estarem de castigo, tal como uma das tarefas das pessoas grandes é castigarem as crianças por via de que elas aprendam a gostar de castigar pessoas; que castigar é uma tarefa bastante usada e precisa para a vida.

Ainda a semana passada o patrão do meu pai o castigou por ele estar a dizer aos que trabalhavam com ele, que deviam pedir mais dinheiro que aquele não era nenhum para demanda da comida e a casa que se tem de pagar. E o patrão do meu pai deixou o meu pai sem trabalho uma semana em que só eu comi, por assim dizer, por via de estar no asilo que só lá não durmo.

E a minha mãe fartou-se de moer o meu pai com palavras e choros, homem não te metas nestas coisas, olha o resultado que dá, a gente aqui a morrer de fome e os outros de barriga cheia, que o patrão não os castigou mas só a ti que eras o das ideias.

Que uma das tarefas dos patrões é a de castigar os empregados, e a tarefa dos empregados é a de trabalhar para os patrões a fim de estes ficarem mais ricos e mais patrões. Talvez eu um dia case com um patrão.

A verdade é que isso não quer dizer nada, pois quando o meu pai vem bêbedo e bate na minha mãe, grita: aqui eu é que sou o patrão. E ela cala-se e põe-se a chorar baixinho.

E pronto, vou acabar, pois não podia dizer todas as tarefas que há no mundo, se não estava a vida inteira a escrever. Só gostava de falar de mais uma tarefa que é a da mulher de má vida. E eu ainda não percebi o que seja isso da má vida, pois má vida tem a minha mãe e todas as mulheres como ela.

Prega o Senhor Prior ser tal coisa grande pecado e qualquer mulher que tenha essa tarefa vai para o inferno...

Diz o Senhor Prior que uma das tarefas da mulher é ser virtuosa, e eu embora também não perceba o que seja ser virtuosa, imagino que não deve dar nenhum arranjo.

Gosto muito das tarefas.

Maria Adélia

20/6/71

Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa in NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, Dom Quixote, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

segunda-feira, dezembro 06, 2010

é oficial...

desde que apanhei a minha última overdose de Gonçalo M. Tavares que não consigo escrever uma frase. simplesmente perdi a vontade de "competir" neste campeonato. sinto-me a ir a jogo tal e qual o sporting com a sua intransponível distância para o primeiro classificado.

11 aforismos de Marcello Duarte Mathias

Enaltecem-lhe o silêncio e esquecem-se de que ele é mudo…

***

É próprio da filosofia dos cobardes julgar que todos têm medo.

***

A diagonal é a linha recta dos Portugueses.

***

Ler – criação passiva.

***

Gasta-se uma vida inteira a corrigir um erro de trajectória.

***

Ser excessivo é a minha maneira de ser sincero.

***

Da frustração nasce a vingança, que é outra frustração.

***

Para o verdadeiro aristocrata, a nobreza não estará na guilhotina?

***

Já não há profetas. Há futurólogos que se enganam.

***

Morreu amnésico. Cego no meio da escuridão.

***

A aprendizagem da morte é uma convalescença ao contrário.

[in Brevíssimo Inventário, D. Quixote, 2010]

via Bibliotecário de Babel, e com algum atraso...

i like birds...


Pigeon: mission Impossible

terça-feira, novembro 30, 2010

Fernando Pessoa (13/06/1888 - 30/11/1935)

L. do D.

Enrolar o mundo à volta dos nossos dedos, como um fio ou uma fita com que brinque uma mulher que sonha à janela.
Resume-se tudo enfim em procurar sentir o tédio de modo que ele não doa.
Seria interessante poder ser dois reis ao mesmo tempo (: ser não a uma alma de eles dois, mas as duas almas).

Livro do Desassossego por Bernardo Soares
 
 
excerto via Arquivo Pessoa

neste dia

Neste dia cinzento
procuro um verso
e não encontro
não tem importância.

Adília Lopes in Apanhar Ar

sexta-feira, novembro 26, 2010

josé e pilar


ou como fazer um belo retrato em movimento do amor e da literatura. uma pérola a não perder...

Além do documentário exibido originalmente no DocLisboa, e já em circuito comercial, recomenda-se também a leitura da entrevista ao realizado Miguel Gonçalves Mendes no suplemento Ipsilon.

"José e Pilar": uma história de amor entre um português melancólico e uma intempestiva andaluza. Mas é também, diz-nos o realizador Miguel Gonçalves Mendes, um espelho que nos confronta, espectadores, portugueses"

Há um momento, e não é longe do início de "Pilar e José", em que o filme parece logo coisa ganha: quando a angústia do escritor Saramago perante a página em branco - cliché na nossa cabeça - se transforma numa batalha lúdica do jogador Saramago com a paciência - o jogo da... O que Miguel Gonçalves Mendes, 32 anos, revela aí é a determinação de construir uma cena como numa ficção. Isso vai tendo oportunidade de se mostrar ao longo do documentário, através da ironia, da cumplicidade e da admiração perante as personagens José e Pilar. E também esculpindo na montagem um espelho que nos confronta, espectadores, portugueses.

Um dos primeiros planos do filme é hoje estranho: José Saramago diz "Pilar, encontramo-nos num outro sítio". Parece um plano do "lado de lá". Em que momento da rodagem esse plano aconteceu? E tem um sentimento diferente hoje, quando sabemos que Saramago morreu?

Acho que o sentimento da altura e o de hoje é o mesmo. A temática da morte interessa-me muito. É uma obsessão que tenho de resolver. Claro que no caso do José a contagem descrescente estava lá, era um problema efectivo.

O que lhe propus foi a coisa mais idiota: "José, imagine que acontece um cataclismo, o que é que dizia à Pilar como última mensagem?" E ele disse aquilo...

quarta-feira, novembro 24, 2010

pouco depois da meia-noite

seria pouco depois da meia-noite.
lembro-me instintivamente do frio que me gelava
os dedos.
sei que rodavas em torno de ti mesma
e das folhas que sobravam entre roupas nuas
e sapatos sem mais caminhadas por fazer.
faltava uma lua
por entre os cortinados da tua mãe
e eu só pedia um candeeiro a óleo.
esperava ansiosamente por um incêndio
bonito
que tornasse infernal
esta noite de sonho.
era tão cedo, sabes.
não estou ainda habituado a enrolar os dias
em tão pequena manta de momentos.

terça-feira, novembro 23, 2010

os laços

in Kalandraka

amitié amoureuse

Os Franceses chamam amitié amoureuse a um sentimento diferente da amizade comum, mais profundo, mais íntimo, mais delicado. Por vezes transforma-se em amor; outras não. Era isso que eu esperava construir. Não te pedia amor. Nunca o faria; o amor nasce ou não. A felicidade que gera é tamanha que intimida, traz consigo uma sensação de pequenez. A obsessão conduz ao amor, mas nem sempre.


Miguel Urbano Rodrigues, Alva

# 9 - ANOS 90 - já online


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate


A revista folheada é a edição de Setembro de 1991 da Revista K.

esperança

by Banksy

Tão fiel que te fui a vida inteira,

E deixas-me na hora da verdade!
Eras a minha própria liberdade,
O meu anjo-da-guarda vigilante.
E quando, confiante,
A namorar o mundo na paisagem
E a ver em cada verso a tua imagem
Sorridente,
Eu porfiava em alcançar a meta
Do longo e penitente
Caminho de poeta
A que fui condenado,
Sinto-me de repente
Abandonado.
Sem a razão
De ter inspiração,
Traído,
Desmentido
E desesperado.

Miguel Torga

segunda-feira, novembro 22, 2010

O que vou aprendendo

1. Usa adversativas apenas em caso de extrema necessidade.

2. As cacofonias só se apanham lendo em voz alta ou no dia seguinte.

3. Os advérbios de modo estão para a literatura com o pré-fabricado para a arquitectura. Em todo o caso, nunca escrevas "basicamente" e pensa que "essencialmente" implica um requerimento.

4. Os tripletos (adjectivos) de Conrad eram de Conrad.

5. O "E" depois do ponto final acelera o texto; convém deixá-lo próximo do fim do parágrafo.

6. Ninguém ainda inventou a mancha gráfica ideal para o diálogo, mas é improvável que sejas tu a fazê-lo.

7. Revê todas as concordâncias como se Manuela Ferreira Leite te tivesse sussurrado o texto ao ouvido.

8. Nunca escrevas uma palavra que acabaste de aprender, mas podes fazê-lo se entretanto vires alguém a usá-la.

9. Não tenhas remorsos por usar um dicionário de sinónimos, se a mesa estava mesmo assim tão manca.

10. A gramática nunca deve impedir-te de escrever, só de dar a ler.

11 [com AF]. Faz por te salvares, se tens a sensação de que há uma forte probabilidade de estares refém dos seguintes verbos: "fazer", "ter", "haver" e "estar".

12. A principal dificuldade de uma frase longa não é a pontuação, nem sequer a lógica das orações subordinadas, mas como evitar usar mais de um "que" entre dois pontos finais.

13. Polvilhar [ver comentário] o texto com o léxico das corporações obedece às regras da boa culinária; em regra, o do Direito salga e o da Medicina é adstringente.

14. Evita periodicamente os correctores ortográficos, pois não há melhor forma de aprender que passar vergonhas em público.

15. Assume sempre a inteira responsabilidade pelos erros ortográficos e nunca os equipares a gralhas.

16. Aponta num caderninho todas as palavras que desconheces.

17. Não percas o caderninho.

18. Evita fórmulas, como a piada da regra que se refere à regra anterior.

19. Deixa os tempos verbais para o fim, mas não te esqueças de os corrigir, pois o mais provável é estarem errados.

20. Resiste à insegurança de escrever os teus próprios neologismos em itálico.

21. Inventa um numerus clausus para os textos que tens a meio.

22. Evita psiquiatras e parceiros com ambições literárias.

23. Tudo o que se altera num ápice com um "find" e "replace" nunca definirá um estilo.

24. Não contornes as limitações gramaticais com expressões seguras mas que sabes não serem as ideais.

25. [com MV] As orações subordinadas tendem a insubordinar o leitor.

26. Não uses os parênteses e os travessões indiscriminadamente. Inventa um critério qualquer. Eu uso os parênteses para adicionar factos e os travessões para fazer um comentário, mas deves inventar o teu sistema. O que conta é a coerência, mesmo que decidas usar o travessão para tudo, excepto referências a um amor passado, que ficariam sempre entre parênteses, a lembrar um casulo.

27. Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, as enumerações devem ser absolutamente sinceras. A honestidade não fica assegurada com o recurso a processos de escrita automática.

28. Um curso de solfejo e a prática de um instrumento são muito mais úteis do que um curso de escrita criativa. A Literatura é uma eterna adolescente rebelde, misteriosa e possivelmente estúpida, enquanto a Música é a sua irmã bem comportada, sem ponta de mistério, que vai de certeza entrar para Medicina. É esta chata que vale a pena estudar; a sua mana não dá uma boa sebenta, serve apenas para o convívio. Isto porque a Música simplificou muito melhor do que a Literatura as dimensões horizontal (melodia e ritmo) e vertical (harmonia), vivendo bem com a redução da sua transcendência a uma partitura e regras claras.

29. Nunca mintas a um revisor, por maior que seja o teu desejo de lhe dizer que ele não é apenas peça de uma complexa engrenagem assente no princípio da redundância.

30. A principal dificuldade da crónica não é o remate sonante, mas a sua justificação prévia.

31. A musa não deve ser mais do que uma lebre


via Ouriquense

sexta-feira, novembro 19, 2010

PROJECTO10 # 9 - anos 90

ou como o tempo volta para trás...

Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

quarta-feira, novembro 17, 2010

radiohead - japan tour - 2008


01:28:04 de radiohead num concerto muito bom...

Resguardo

Quero-te num poema.
Viva e transfigurada,
Sentada
No banco dum jardim
De versos outonais,
A ver nos horizontes irreais
Sumir-se o tempo, o burlador
Do amor,
Que diz que volta, mas não volta mais.


Miguel Torga, in Diários, 12 Setembro 1983

so sorry


Feist

terça-feira, novembro 16, 2010

Viático

Levarei um poema.

Não quero outra bagagem.
E com ele pagarei
A passagem
Na barca de Caronte.
Um poema que conte,
Sem contar,
O derradeiro olhar
Que der ao mundo.
Um soluço de luz, paralisado
No fundo
Da retina.
Um relance de pânico, cantado
Por quem já desde a infância o imagina.
 
Miguel Torga in Diários, Dom Quixote

segunda-feira, novembro 15, 2010

poison


Your Kid Sister
via Ostranie

bonito

coisas bonitas - uma faca apontada ao coração, a carne a rasgar-se e as entranhas revirando-se, o cheiro, antes do sabor, do vómito subindo pelo teu corpo, o coito interrompido, o jacto adiado, a faca a atingir o coração, borrado de merda por todos os poros, tão forte o choque em todo o corpo, tão forte a imagem que te esqueces, uma vez mais - coisas bonitas, pediam-te, coisas bonitas, pois. 

luís filipe cristóvão

i want to be forever young

via Gerry Canavan

about today



Today you were far away
and I didn't ask you why
What could I say
I was far away
You just walked away
and I just watched you
What could I say

How close am I to losing you

Tonight you just close your eyes
and I just watch you
slip away

How close am I to losing you

Hey, are you awake
Yeah I'm right here
Well can I ask you about today

How close am I to losing you
How close am I to losing

The National

domingo, novembro 14, 2010

[era assim o amor]

Era assim o amor de Neary por Miss Dwyer, que amava um tal de tenente-aviador Elliman, que amava uma tal Miss Farren de Ringsakiddy, que admirava apaixonadamente, e de longe, um tal Padre Fitt de Ballinclashet, que não podia, sem mentir, ocultar uma certa inclinação por uma tal Miss West de Passage, que amava Neary.
- O amor correspondido - continuou Neary - é um curto-circuito.
- Embora seja hediondo, não deixa de ter forma - disse Murphy.
- O amor que ergue os olhos - disse Neary - , martirizado; que implora a uma ponta de dedo mínimo, embebida em verniz da China, que venha refrescar-lhe a língua; você não sabe o que é um amor assim, Murphy, suponho eu.
- Para mi, é grego - disse Murphy.
- Por outras palavras - disse Neary, por outras palavras -, a mácula única e indivisível, brilhante, orgânica e compacta, que trespassa a noite tumultuosa da estimulação heterogénea.
- A mácula sem Cordeiro - respondeu Murphy.

Samuel Beckett in Murphy

sábado, novembro 13, 2010

Se estão mesmo interessados nisto, então a primeira coisa que devem querer saber é onde nasci, e como foi a porcaria da minha infância, o que faziam os meus pais e tudo antes de eu ter nascido, e toda essa treta estilo David Copperfield, mas não estou para aí virado, para dizer a verdade.

J. D. Salinger in À Espera no Centeio

agenda cultural

sexta-feira, novembro 12, 2010

cresci numa frase

só.
cresci numa frase, só.
eu que deixei as minhas raízes vingar nas páginas
dos livros de outros.
eu que alimentei o sol com as rimas de poetas
e
embebedei as palavras com as lágrimas dos infelizes.
e se não encontro a nossa resposta na tua biblioteca
é porque
não sei da frase original.
não sei mais da frase-pecado-original.
e só
me resta ler uma frase só. como eu.
só.

Aquiles

sempre te disse que era ténue a linha
entre o fracasso e a glória.

sempre te perguntei porque se lembram realmente dele?
pelos louros, pelo calcanhar,
ou apenas por ser o maior e mais belo guerreiro?

soube sempre que não sabias a resposta.
tu que nunca leste Homero, nunca viste Rubens, nunca ouviste Gluck, disseste sempre que não sabias a resposta.
sempre te compreendi.

hoje acabou o sempre. e, por isso, te sussurro uma breve coisa. escuta-a, pois, com atenção:
se hoje sou um refém do destino. se hoje sucumbo a Páris. se hoje revivo o pecado acidental de Tétis.
é porque hoje fico sem amanhã.

quinta-feira, novembro 11, 2010

janela

volto à janela as vezes que forem precisas. abro e fecho. escancaro-me sem receio.
volto à janela as vezes que forem precisas. espreito e não vejo. não vejo, não. onde está o relógio de cuco que te trará a mim.
volto à janela as vezes que forem precisas. até se tornar apenas mecânico este gesto de viver sem ti.
volto à janela as vezes que forem precisas. até me tornar a janela em si. sem amor. sem ti.

hoje sinto-me assim...


via Bookshelf Porn

terça-feira, novembro 09, 2010

do presente

«O homem só pode estar certo do momento presente. Mas será bem verdade? O presente, poderá ele verdadeiramente conhecê-lo? Será capaz de o julgar? Claro que não. Porque, como poderia conhecer o sentido do presente quem não conhece o futuro? Se não sabemos em direcção a que futuro o presente nos leva, como poderemos dizer que este presente é bom ou mau, que merece a nossa adesão, a nossa desconfiança ou o nosso ódio?»

Milan Kundera in Ignorância

segunda-feira, novembro 08, 2010

histórias de amor XXV

este é um dia cheio de armadilhas. o sol não se decide a ficar por aqui e a chuva não me molha a alma. nem sei mais se a tenho. se acredito nela. se ela não me traz nada e eu fico assim não sendo nada. nem sol, nem chuva. sou apenas um frio intenso.


este é um dia cheio de armadilhas. dia em que vejo e revejo as horas cheias de minutos vazios. onde as memórias do amanhã não estão na biblioteca comprada há uns anos no ikea. onde o teu perfume não escorre mais pelo teu pescoço sem fim.

onde estás? onde ficaste, afinal? em que paragem saíste tu? porque não houve mais uma manhã com o teu sorriso a beijar-me? lembro-me como se fosse amanhã do teu último beijo, e assim fecho os olhos e ponho a música mais alta. por favor, silencia-me a memória curva ao som de um mi sustenido de liszt.

este é mais um dia cheio de armadilhas. onde vejo o teu corpo caído no asfalto, tal e qual como no dia em que o teu corpo estendido naquela estrada me meteu por um atalho onde nunca quis virar. morte.

untitled


Keith Jarrett

um dia como os outros

hoje é apenas um dia como os outros. pelo que toda e qualquer semelhança com um dia diferente, não passa disso. uma semelhança. um dia como os outros. mas, então, porque insiste ele em parecer tão longo?

domingo, novembro 07, 2010

The Fosse


Wim Mertens

da pergunta que nunca encontrou uma resposta

onde está o adn do amor?, perguntava ele todas as manhãs. todas as manhãs. de todos os dias. dias.
e, contudo, não achava uma resposta. não achava a resposta. e por isso ele perguntava. e perguntava.

mas ele não desistia nunca e, entre um café, uma carcaça e um jornal, repetia a sua pergunta ao expoente da loucura.

o sr. carlos, do café, gracejava sobre o assunto com a sua mulher.
a dona luísa da padaria nem lhe respondia, preocupada que estava com as dores de costas da dona elisa.
o sr. francisco do quiosque mantinha-se em silêncio. sempre fora assim, não fazia sentido mudar agora.

até que um dia, entre a pressa de entrar para o comboio apressado e o chega para lá da manhã confusa, sentiu um olhar cruzar-se com o seu. foram apenas breves segundos, mas acompanharam-no todo o resto da viagem. um coração tinha agora cara. um sorriso forma. sabia agora que o adn do amor iria chegar no comboio das 8h20.

sábado, novembro 06, 2010

a sunny night... dressed in yellow for you

Rashin Kheirieh

A solidão é como uma chuva

A solidão é como uma chuva.

Ergue-se do mar ao encontro das noites;
de planícies distantes e remotas
sobe ao céu, que sempre a guarda.
E do céu tomba sobre a cidade.

Cai como chuva nas horas ambíguas,
quando todas as vielas se voltam para a manhã
e quando os corpos, que nada encontraram,
desiludidos e tristes se separam;
e quando aqueles que se odeiam
têm de dormir juntos na mesma cama:

então, a solidão vai com os rios...


Rainer Maria Rilke

As mulheres quando querem conseguem tudo

Disse ela: As mulheres quando querem conseguem tudo. Tudo.
Assentiu ele: Sim…
Disse ela: As mulheres são uma força, uma energia.
Admitiu ele: Sim…
Disse ela: As mulheres, quando se convencem disso, são capazes. Capazes.
E ele: Sim…
Prosseguiu ela: Capazes de tudo. Não há nada que não consigam.
E ele: Sim…
E ela: São fantásticas, as mulheres. Diz-me, tu que tens a mania de pôr defeitos em tudo, haverá alguma coisa que uma mulher não consiga?
E ele, muito baixinho: Fazer um homem feliz?…

Rui Zink

sexta-feira, novembro 05, 2010

sonhos

- Que significa tal sonho? - E eu lembro-me da cabeça de cão em pedra negra, inclinada sobre as águas que fazem e desfazem nós brancos durante dias e dias. É uma cabeça que parece perscrutar o movimento das águas escuras, a sua inútil força interior. Ei-la mergulhada na sua atenção de pedra, com aquele ar hieraticamente profundo das coisas sem alma. Como parece estar na posse de um interesse e de um pensamento! - Que significamos nós para os sonhos?

Herberto Helder

fiesta


The Pogues

Curso de Livro Infantil - 9 Novembro - Lisboa

Objectivos:

Este curso não é uma oficina de escrita nem está vocacionado para a formação do leitor e para as acções pedagógicas associadas à leitura. Pretende-se, sim, explorar o universo do livro infantil tomando-o como objecto total, privilegiando a componente literária, mas sem negligenciar outros campos, como a ilustração, a edição ou a sua evolução histórica. Será dado ênfase ao livro para crianças e não para adolescentes, que consideramos integrado numa lógica de funcionamento própria. Serão mostrados e trazidos à discussão dezenas de títulos, sejam portugueses, traduções ou originais noutras línguas. Estas escolhas reflectem o gosto pessoal e as idiossincrasias da formadora e não têm qualquer pretensão de exaustividade nem de doutrinação.

Público-alvo:

Estudantes de literatura, edição e educação; professores, bibliotecários e educadores; pais e outros mediadores da leitura junto das crianças; ilustradores; livreiros. Todos os que gostam de ler livros para crianças.

Formadora:

Carla Maia de Almeida é jornalista freelance, escritora e tradutora. Colaboradora regular da Notícias Magazine, entre outros meios, é actualmente responsável pela crítica e divulgação de livros para crianças na revista LER. Licenciada e pós-graduada em Comunicação Social pela Universidade Nova de Lisboa, tem uma pós-graduação em Livro Infantil pela Universidade Católica Portuguesa. Na Caminho, publicou O gato e a Rainha Só (ilustrações de Júlio Vanzeler, 2005), Não Quero Usar Óculos (ilustrações de André Letria, 2008) e Ainda Falta Muito? (ilustrações de Alex Gozblau, 2009). Em Outubro de 2010, será a primeira autora de livros para crianças a realizar uma residência artística no estrangeiro com o apoio da DGLB. Escreve sobre livros e não só no blogue O Jardim Assombrado.

(ver o resto)

via Blogtailors.

quarta-feira, novembro 03, 2010

"Nada, só vim ver beber."

Alguma coisa não bate certo
Ontem, fui ver ver o jogo do Benfica. Não fui ao estádio da Luz, pagando entre 12 e 75 euros por um lugar, nem me refastelei no sofá vendo a RTP-1. Em vez dessas soluções fáceis (e até baratas: na RTP-1, era de borla), decidi-me por um momento cultural, de metalinguagem, de linguagem que fala de linguagem. Então, sintonizei o Canal Benfica. O meu televisor mostrou-me dois tipos a relatar o jogo, atentos, eles, a um televisor que eu não via mas que lhes mostrava, a eles, o jogo. "Ao vivo e a cores", disse, do espectáculo, um deles. O que eu via no meu televisor era um cenário cinzento e parado, com duas caras olhando-me, mas se me garantiam felicidade feérica, como não acreditar? Os dois, a meio corpo, e o da minha esquerda com olhos alucinados - o que é inevitável em quem passa hora e meia a seguir e a narrar alto as peripécias rápidas de um jogo de futebol visto num televisor. O da direita só comentava, podia permitir-se um sorriso irónico. O Benfica ganhou 4-3, depois de ter estado a ganhar 4-0, o que levou o relator a dizer: "Isto é, diria eu, inacreditável." Inacreditável, a palavra foi dita. No fim do jogo, desci ao bar da esquina. "O que toma?", perguntou-me o empregado. Respondi: "Nada, só vim ver beber." Amanhã vou propor ao Benfica o Canal Benfica 2. Basicamente será eu, filmado a meio corpo e de frente, no meu sofá, a dizer que estou a ver o Canal Benfica. 

Ferreira Fernandes in DN

domingo, outubro 31, 2010

[se...]

espero há demasiado tempo por uma mensagem tua. e não pode continuar assim este jogo, em que eu faço que não te vejo na rua, em que tu não ouves os meus passos nas escadas, em que nós que vivemos outras vidas. se disseres que não tens mais saldo no telefone, eu salto da cama e carrego o teu coração de beijos. se garantires que não vês futuro, eu pego no chapéu da mary poppins e limpo as nuvens do nosso caminho. se prometeres pensar nisso, eu pinto o meu chão da cor dos morangos que comes no verão. se tudo for um sonho, eu morro um pouco mais por dentro. se... se eu soubesse escrever, nem que fosse uma fala do teu guião, diria: afinal és tu o meu amor!

para onde me levas?

faro '10

para onde me levas, tu?
se sigo a linha que não é mais direita
e pergunto
ao rio que me transborda:
par' aonde me levas, tu?

peço a palavra
mas falas tu.
peço uma ideia
e vives tu.

que farei amanhã?
se só me lembro de ontem.
se és parte dum passado
que segue direito pelo rio,
e se pergunto onde fica a foz
falas-me da enxurrada que vivemos.

é sempre assim o nosso mundo.
de um lado o sol, do outro a lua
e não há forma, não
de chegarmos ao pôr da lua.

e, por isso, hoje vou abanar as correntes com força,
fazer transbordar as águas mortas,
matar a ausência de quem não vive.
que se não quero mais ver a tua felicidade estampada num edital
também não sou mais o herdeiro do teu sorriso em curva.

Slow Night, So Long


Eddie Vedder & Kings Of Leon

das ideias sem sentido

rumo e arrumo as roupas no armário.
guardo e dispo as palavras que tiro dos livros velhos.
dizem que é para dar aos pobrezinhos,
mas eu nem sei mais onde os possa encontrar,
desde que o padre saiu à pressa da igreja
para ler a sina na senhora da rua de baixo.
oiço os conselhos amigos dos desconhecidos,
que me brindam com copos e verdades cheias
entre um remate ao poste e uma antena desregulada.
e não sei, não.
se ainda estou por aqui amanhã,
porque
assim que encontrar o fundo do baú,
assim que souber onde está a chave do diário da minha irmã,
assim que o bolo sair do forno,
só paro junto ao teu coração.

sexta-feira, outubro 29, 2010

a verdadeira saudade

A verdadeira saudade, a mais profunda, não tem a ver com o passado, mas sim com o futuro. Sinto com frequência a saudade do futuro, quer dizer, saudade daqueles dias de festa, quando tudo vagueava pela frente e o futuro ainda estava no sítio.

Luís Garcia Montero

quinta-feira, outubro 28, 2010

procrastination


by Lev Yilmaz
via Alexandre Pólvora

Era uma aguardente e uma sexta-feira

«Era uma aguardente e uma sexta-feira.» E terá que ser sexta-feira, mesmo que não seja. Será sempre assim porque os patrões não gostam de ser contrariados.E os patrões são tudo, eles são a voz da razão e a garantia de estabilidade em tempos difíceis. Era assim em Menina Júlia de Strindberg, de 1888, e é assim n’O Senhor Puntilla e o Seu Criado Matti de Brecht, peça finalizada em 1948.


Há, muito provavelmente, mais aspectos semelhantes do que opostos nestas duas peças, pois em ambas surge uma (in)evitável relação dos criados com as filhas, com promessas de amor e fugas. Temos deslumbramento em ambas, e uma dura queda no gélido chão da realidade. Porque eles são apenas criados e elas mulheres com futuro, e não há futuro para um mundo feito de dois mundos.

Contudo, duas diferenças substanciais sobressaem: em Brecht há cumplicidade e proximidade entre patrão e criado, em Strindberg não. Com o dramaturgo e encenador alemão o coro, e como é hábito na sua dramaturgia, tem um papel de destaque, sendo, por isso, fundamental na impreterível tomada de posição do espectador. Se até ao intervalo esse papel resume-se unicamente aos músicos e vocalistas em palco, a seguir à interrupção as três mulheres do campo, que já anteriormente tinham cantado, assumem de forma inequivoca o papel do coro opinativo, provocando parte do efeito de estranhamento. Este mesmo efeito encontra-se também presente com a câmara em palco e o ecrã que retransmite a realidade. A dos personagens e a do público. O fim da terceira parede.

Sinal menos para alguns cantores/actores, mas, sobretudo, para o seu playback manhoso. Paralelamente, a música contribui bastante para o drama narrativo, sendo, por isso, de elogiar as composições de Mazgani. A máquina de cena é surpreendente, funcional e mostra-se fundamental para as mudanças de cenário, sobretudo para a cena final. Um último destaque para Miguel Guilherme. Sim, porque ele existe enquanto actor bem para lá do cómico, mas sempre com humor. Muito.

A peça encontra-se em cena até domingo no Teatro Aberto, e recomenda-se vivamente.

(publicado ao mesmo tempo no blogprojecto10)

quarta-feira, outubro 27, 2010

Prémio

 O Prémio Fundação Mário Soares é atribuído anualmente a autores de dissertações académicas ou de outros trabalhos de investigação realizados no âmbito da História de Portugal do Século XX.


O Prémio Fundação Mário Soares é constituído por uma quantia em dinheiro, de 5.000,00 euros.Os trabalhos concorrentes deverão ser apresentados em quatro exemplares (um original e três cópias) e entregues na Fundação, ou remetidos por correio, até 22 de Dezembro de 2010.

terça-feira, outubro 26, 2010

Where is my Mind (cover)


Noiserv

Estrela da Tarde


Carlos do Carmo interpreta "Estrela Da Tarde" no Festival RTP 1976, com a participação de Ary dos Santos.

Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia


Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia


Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza


Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram


Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram


Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto


Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos

O amor é português

Depois bate fundo o mar
ali onde as pedras encostam
e há anos sobravam as pedras
pedras redondas ao sol.


Hugo Milhanas Machado

uma pequena história

enrolaaaar os seus dedos
nos cabelosss dela.

esticar os caracóis
como se estendessssssssssse a noite por um pouco mais.

beijar-lhe o pescoço,
prooo-lon-ga-da-men-te,
como se as suas costas fossem a continuação duma história antiga.

olha-la 
nos olhos
e sorrir.
ele tinha a CERTEZA que ela estava ali
com ele.
só para ele. 
naquele, 
como em todos os outros instantes futuros.
ele e ela.

o rio haveria de encher er er er er er er er er
mas ele não tinha + medo
porque agora ela estava no mesmo barco que ele.

e agora ele podia adormecer descansado.

os cinco cavacos

Sem contar com a sua breve passagem pela pasta das Finanças, conhecemos cinco cavacos. Mas todos os cavacos vão dar ao mesmo.
O primeiro Cavaco foi primeiro-ministro. Esbanjou dinheiro como se não houvesse amanhã. Desperdiçou uma das maiores oportunidades de deste País no século passado. Escolheu e determinou um modelo de desenvolvimento que deixou obra mas não preparou a nossa economia para a produção e a exportação. O Cavaco dos patos bravos e do dinheiro fácil. Dos fundos europeus a desaparecerem e dos cursos de formação fantasmas. O Cavaco do Dias Loureiro e do Oliveira e Costa num governo da Nação. Era também o Cavaco que perante qualquer pergunta complicada escolhia o silêncio do bolo rei. Qualquer debate difícil não estava presente, fosse na televisão, em campanhas, fosse no Parlamento, a governar. Era o Cavaco que perante a contestação de estudantes, trabalhadores, polícias ou utentes da ponte sobre o Tejo respondia com o cassetete. O primeiro Cavaco foi autoritário.
O segundo Cavaco alimentou um tabu: não se sabia se ficava, se partia ou se queria ir para Belém. E não hesitou em deixar o seu partido soçobrar ao seu tabu pessoal. Até só haver Fernando Nogueira para concorrer à sua sucessão e ser humilhado nas urnas. A agenda de Cavaco sempre foi apenas Cavaco. Foi a votos nas presidenciais porque estava plenamente convencido que elas estavam no papo. Perdeu. O País ainda se lembrava bem dos últimos e deprimentes anos do seu governo, recheados de escândalos de corrupção. É que este ambiente de suspeita que vivemos com Sócrates é apenas um remake de um filme que conhecemos. O segundo Cavaco foi egoísta.
O terceiro Cavaco regressou vindo do silêncio. Concorreu de novo às presidenciais. Quase não falou na campanha. Passeou-se sempre protegido dos imprevistos. Porque Cavaco sabe que Cavaco é um bluff. Não tem pensamento político, tem apenas um repertório de frases feitas muito consensuais. Esse Cavaco paira sobre a política, como se a política não fosse o seu ofício de quase sempre. Porque tem nojo da política. Não do pior que ela tem: os amigos nos negócios, as redes de interesses, da demagogia vazia, os truques palacianos. Mas do mais nobre que ela representa: o confronto de ideias, a exposição à critica impiedosa, a coragem de correr riscos, a generosidade de pôr o cargo que ocupa acima dele próprio. Venceu, porque todos estes cavacos representam o nosso atraso. Cavaco é a metáfora viva da periferia cultural, económica e politica que somos na Europa. O terceiro Cavaco é vazio.
O quarto Cavaco foi Presidente. Teve três momentos que escolheu como fundamentais para se dirigir ao País: esse assunto que aquecia tanto a Nação, que era o Estatuto dos Açores; umas escutas que nunca existiram a não ser na sua cabeça sempre cheia de paranóicas perseguições; e a crítica à lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo que, apesar de desfazer por palavras, não teve a coragem de vetar. O quarto Cavaco tem a mesma falta de coragem e a mesma ausência de capacidade de distinguir o que é prioritário de todos os outros.
Apesar de gostar de pensar em si próprio como um não político, todo ele é cálculo e todo o cálculo tem ele próprio como centro de interesse. Este foi o Cavaco que tentou passar para a imprensa a acusação de que andaria a ser vigiado pelo governo, coisa que numa democracia normal só poderia acabar numa investigação criminal ou numa acção política exemplar. Era falso, todos sabemos. Mas Cavaco fechou o assunto com uma comunicação ao País surrealista, onde tudo ficou baralhado para nada se perceber. Este foi o Cavaco que achou que não devia estar nas cerimónias fúnebres do único prémio Nobel da literatura porque tinha um velho diferendo com ele. Porque Cavaco nunca percebeu que os cargos que ocupa estão acima dele próprio e não são um assunto privado. Este foi o Cavaco que protegeu, até ao limite do imaginável, o seu velho amigo Dias Loureiro, chegando quase a transformar-se em seu porta-voz. Mais uma vez e como sempre, ele próprio acima da instituição que representa. O quarto Cavaco não é um estadista.
E agora cá está o quinto Cavaco. Quando chegou a crise começou a sua campanha. Como sempre, nunca assumida. Até o anúncio da sua candidatura foi feito por interposta pessoa. Em campanha disfarçada, dá conselhos económicos ao País. Por coincidência, quase todos contrários aos que praticou quando foi o primeiro Cavaco. Finge que modera enquanto se dedica a minar o caminho do líder que o seu próprio partido, crime dos crimes, elegeu à sua revelia. Sobre a crise e as ruínas de um governo no qual ninguém acredita, espera garantir a sua reeleição. Mas o quinto Cavaco, ganhe ou perca, já não se livra de uma coisa: foi o Presidente da República que chegou ao fim do seu primeiro mandato com um dos baixos índices de popularidade da nossa democracia e pode ser um dos que será reeleito com menor margem. O quinto Cavaco não tem chama.
Quando Cavaco chegou ao primeiro governo em que participou eu tinha 11 anos. Quando chegou a primeiro-ministro eu tinha 16. Quando saiu eu já tinha 26. Quando foi eleito Presidente eu tinha 36. Se for reeleito, terei 46 quando ele finalmente abandonar a vida política. Que este homem, que foi o politico profissional com mais tempo no activo para a minha geração, continue a fingir que nada tem a ver com o estado em que estamos e se continue a apresentar com alguém que está acima da politica é coisa que não deixa de me espantar. Ele é a política em tudo que ela falhou. É o símbolo mais evidente de tantos anos perdidos.
 
Daniel Oliveira in Expresso

segunda-feira, outubro 25, 2010

pra dizer adeus


Edu Lobo e Torquato Neto-Raphael Cortezi

sábado, outubro 23, 2010

norberto lobo (de novo)

por Vera Marmelo

as tuas notas sempre sempre assim.
como um toque especial,
como uma luz diferente,
como uma folha a rasgar lentamente
as minhas tristezas mais escondidas.

hoje oiço-te aqui,
neste quarto, onde já fui outro
e agora volto a ser
eu.
como uma música simples,
sempre reinventada.
sempre por tocar.



Norberto Lobo @ Yokohama

[Digam que foi mentira]

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum.



Ruy Belo
(para o Hugo)

dead combo



Toca e Foge - ep.4 - Canal Q - 21.10.10


"Toca E Foge" passa todas as Quartas às 22:40, com repetições às Quintas e Sextas, estando ainda disponível na opção vídeo on demand do Q. E é bom para catano! Ah, pois é!

hoje

estou assim a atirar para o vazio.
estou a modos que a zeros.
estou uma nulidade feita de ausências.

porque hoje não vai mesmo dar.
deixa-me apenas ficar com o silêncio
e leva daqui para fora as tuas músicas preferidas.

só isso.
só hoje.

sexta-feira, outubro 22, 2010

as junções

e nem vale a pena dizer mais nada...

a cidade de cada um

Pasolini e La Forma Della Citá 
de Pier Paolo Pasolini e Paolo Brunatto
15' Itália 1974

O filme de Pasolini, realizado para a televisão, é um poderoso ensaio sobre a forma da cidade, sobre a representação do espaço público e acerca do progresso e da transformação urbanística, tendo por base a antiga cidade italiana de Orso. 

Helsinki Forever
de Peter von Bagh
75' Finlândia 2008

O filme de Peter von Bagh é uma montagem de elementos fílmicos relativos à cidade de Helsínquia – tal como é representada no cinema, na pintura, literatura, na música, num ensaio sobre a cidade, as suas imagens e a complexa relação com a História. 


A cidade, e não apenas no seu confronto com o campo, sempre foi tema de filmes. Da inigualável Metropolis de Fritz Lang à mais recente Paris de Cédric Klapisch, passando pelas Wings of Desire de Wim Wenders, a cidade como personagem principal ou elemento fundamental na acção narrativa.

Douro, Fauna Fluvial, de Manoel de Oliveira ou Lisbon Story de Wim Wenders são talvez os exemplos que nos são mais  próximos, pelo que ficam as questões: Como se filma a cidade de cada um de nós? Qual o melhor filme sobre uma cidade? É realmente possível filmar uma cidade ou como dizia Pasolini há algo numa cidade que lhe transmite uma identidade e personalidade própria que não pode ser capturado?

nota: publicado simultaneamente no blog do PROJECTO10

quinta-feira, outubro 21, 2010

a Trama

vai ter uma loja mais pequenina
vai ter menos secções
vai tentar ser melhor nas secções que decidiu ter
vai ter livros novos e usados
vai ter livros importados
e livros que importam
também vai ter filmes
vai ter estantes altas
e por isso vai ter um escadote
vai ter uma sala que vai servir de escritório para mim e onde vou poder finalmente ser a secretária que nasci para ser
vai ter candeeiros pequeninos
vai ter um quadrado de chão um bocadinho mais alto que o resto
vai ter um balcão novo
vai ter um horário diferente
...
e quando penso nisto tudo que a Trama vai ter posso ir dormir sossegada, sossegada.

via Trama
nota: e eu também fico sossegado porque sei que a Trama continuará em boas mãos.

quarta-feira, outubro 20, 2010

terça-feira, outubro 19, 2010

histórias de amor XXIV

Terá todo este silêncio alguma razão de ser? – perguntava-se. Talvez nunca encontrasse a resposta. Ou talvez insistisse na pergunta errada. Ou talvez… Talvez um dia aqueles jantares silenciosos o magoassem menos. Talvez.

Sleep All Summer

Weary sun, sleep tonight, go crashing into the ocean
Cut the line that ties the tide and moon, ancient and blue
We take our empty hearts and fill them up with broken things
To hang on humming wire like cheap lamps down a dead end street
Close your weary eyes until the wintertime
And every time we turn away it hits me like a tidal wave
I would change for you but, babe, that doesn't mean I'm gonna be a better man
Give the ocean what I took from you so one day you could find it in the sand
And hold it in your hands again

Cold ways kill cool lovers

Strange ways we used each other
Why won't you fall back in love with me?
There ain't no way we're gonna find another
The way we sleep all summer
So why won't you fall back in love with me?

Combing over Broken Cross I held on you

Haunted by the ghost of something new

Curtains fall, fashions fade, an endless summer over

Another tide to launch an autumn moon over the dunes
There must be a better way to pull a whole apart
To keep a world from caving in
Another way to while away from you, frozen and blue
Close your weary eyes until the wintertime
But everytime we turn away it surges like a tidal wave
I would change but, babe, that doesn't mean I'm gonna be a better man
Give the ocean what I took from you so one day you could find it in the sand
And hold it in your hands again

Cold ways kill cool lovers

Strange way we use each other
Why won't you fall back in love with me?
There ain't no way we're gonna find another
The way we sleep all summer
Why won't you fall back in love with me?

Why won't you fall back in love with me?


National and St. Vicent

segunda-feira, outubro 18, 2010

Críticas falsas são refresco


O genérico do episódio dos Simpsons que os americanos viram no passado dia 10 foi, contra o que é habitual, encomendado a um artista de fora. Calhou a Banksy, um célebre graffiter londrino. E o que os telespectadores viram foi violento: os desenhos dos Simpsons feitos por crianças asiáticas, em ambiente sujo e soturno, os bonecos de merchandising enchidos com ratos triturados e até o buraco central dos CD feito por um triste e explorado unicórnio. O episódio apareceu quando há esta notícia real: a Fox, a empresa que produz os Simpsons, subcontrata trabalho na Coreia do Sul... Então, e a Fox permitiu o desaforo de Banksy? Ontem, numa tribuna de opinião no El País, uma professora de Literatura lamentou-se: os artistas estariam a ser desapossados da sua arma crítica, os capitalistas não lhes ligavam e, supremo desprezo, não os censuravam. Ora, no fundo, a Fox segue aquele artista (Berlioz), que dizia: com as pedras que me atiram faço o meu pedestal. A Fox faz o seu pé-de-meia, os Simpsons nunca foram tão comentados (o que terá efeitos nas vendas). Berlioz não gostaria da pedra que partisse o piano, impedindo a sua Sinfonia Fantástica; já com as outras pedras... A Fox não gostaria de uma crítica certeira, já com o exagero de Banksy ela pode bem: não trabalham nem crianças nem unicórnios na tal empresa sul-coreana. A questão é: quem deita a pedra deve saber fazê-lo.

Ferreira Fernandes in DN

domingo, outubro 17, 2010

Berlin, Without Return


Voxtrot

PEUR DU FACTEUR

Vous les prisonniers en tout lieu
envoyez-moi tout ce que vous avez
de terreur, de hurlement et d´ennui

Vous les pêcheurs sur toutes les côtes
envoyez-moi tout ce que vous avez
de filets vides et de mal de mer

Vous les payasans en toute terre
envoyez-moi tout ce que vous avez
de vieilles fleurs et nippes
de seins déchirés
ventres ouverts
ongles arrachés
à mon adresse... dans n´importe quel café
n´importe quelle rue du monde
Je prépare un "énorme dossier"
sur la souffrance humaine
pour le soumettre à Dieu
dès qu´il sera signé par les lèvres des affamés
et les cils de ceux qui attendent
Mais, ô malheureux en tout lieu
ce que je crains par-dessus tout
c´est que Dieu soit analphabète.

Muhammad al-Maghut

PROJECTO10 # 8 - já online


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

Filmado no bairro La Boca em Buenos Aires, Argentina.
A música é uma pequena versão de Piano Sonata No. 14 in C♯ minor "Quasi una fantasia", op. 27, No. 2 (Moonlight Sonata) de Ludwig van Beethoven.

sábado

porque era sábado outra vez e continuavas ausente do mapa dos desejos, deixei de inventar sensações, fechei-me dentro do espaço ínfimo da manta mais quente da casa. porque era sábado outra vez, os pés descalços sobre o chão bem frio, eu a querer fazer inverno, tu ainda a sonhares verão, e o mapa sempre ausente das palavras que nos dedicamos. soubeste aparecer na hora marcada ou vamos então repetir ao infinito o desencontro das lições, conseguir dizer frases inteiras, conseguir encenar abraços e depois, depois sim, deixar que seja o vazio, o desencanto, sábado outra vez, quantas vezes, na vida. 

luís filipe cristóvão

consultório médico

sou um enamorado crónico. que medicamentos posso eu tomar, sr. doutor?

quinta-feira, outubro 14, 2010

terça-feira, outubro 12, 2010

# 8 REPÚBLICA | apresentação


Sexta-feira, 15 de Outubro, 2010 · 20:00 - 21:00

Botequim Largo da Graça - Largo da Graça, 79

# 8 REPÚBLICA


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

Feito a partir de fotografias de Joshua Benoliel para a revista Ilustração Portugueza. Fonte: revistaantigaportuguesa.blogspot.com/​

A música é uma versão de Air, Suite No. 3 in D major, BWV 1068 (Air on the G String) de Johann Sebastian Bach.

Babel e LeYa entram no negócio dos livros electrónicos

«Enquanto a LeYa lançou a loja on-line para vender e-books, a Babel abriu um espaço tecnológico na livraria.» Ler no Diário Económico

via Blogtailors

domingo, outubro 10, 2010

sempre pela palavra

«A minha preocupação constante, quando escrevo, é não ferir ninguém pelo silêncio; tenho, e sei como e porquê, ferido muita gente, e espero ainda ferir mais alguma: sempre, porém, pela palavra.»

Jorge de Sena

do ser incompleto

falta-me uma peça do puzzle.
uma foto na exposição.
uma página no livro.
um dia na vida.
e agora?