segunda-feira, janeiro 25, 2010

PROJECTO10.....luzes, câmera, acção.....


 
Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Ilustração: Gonçalo Martins
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

sexta-feira, janeiro 22, 2010

num cartão perdido

como procuro imaginar como serão todos os cartões que se amontam cidade fora.
e tu, ali.
sem forças para montar o brinquedo desfeito.
sem passos para dar entre escombros malditos.

o vento passa quente entre folhas perdidas.
um corpo aqui e ali.
cheira à morte sempre anunciada.
tu, sabes bem que era apenas uma questão de tempo até ruírem
todas as folhas de papel
que davam aspecto de país
a um espaço esquecido de todos.

eu procuro imaginar.
mas não consigo mais.
sei que os olhos se cerram
do fumo.
se cravam de imagens negras.
sei que os tapas com o doce sabor
de um gelado de verão.

e lá fora os berros continuam
o seu percurso normal.
porque é apenas mais um dia.

o que sobra quando nada mais sobra


Haiti 2010
photo by Marta Gomes de Andrade

quinta-feira, janeiro 21, 2010

lava-me a alma


Orwell 60 anos depois

WAR IS PEACE
FREEDOM IS SLAVERY
IGNORANCE IS STRENGTH

George Orwell hoje não teria uma conta no Facebook ou no Twitter. Lutaria contra a cada vez menor privacidade das nossas vidas, enfraquecida por pequenas coisas como a informação que damos para subscrever um seriço de internet ou por outras maiores, como a arquitectura das casas transparentes. Teria corado de vergonha com a atribuição do Nobel da Paz a Barack Obama. Se tivesse carro (pouco provável) tremeria antes de comprar o chip electrónico para a matrícula (mas evitaria a multa, porque nunca foi muito abonado). Escreveria artigos ferozes contra o domínio cada vez maior do politicamente correcto, que apaga palavras da linguagem que usamos. Seria um feroz crítico da mansidão dos jornais perante a força das agências de informação do governo. Arrasaria a linguagem hermética e plena de advérbios de modo que domina os relatórios e discursos políticos. Não veria televisão (muito menos o "Big Brother"). Seria contra um pensamento económico único - seria, aliás, contra qualquer pensamento único e socialmente inuqestionável.


Orwell poderia também não gostar deste texto - afinal, foi ele quem escreveu que "todos os santos devem ser julgados culpados até prova em contrário". Mas, 60 anos depois da sua morte, é difícil resistir à tentação de lembrar porque é que ler o escritor inglês que baptizou o Big Brother continua a ser importante. E a razão principal é esta: Orwell era um espírito crítico livre e ensina a sê-lo.


"Li-o ['1984'] pela primeira vez quando tinha 20 ou 21 anos, em 1984, ano em que foi muito falado em Portugal", conta o historiador Rui Ramos. Orwell teve grande impacto num país saído há pouco tempo do PREC, quando não era líquido que a União Soviética deixasse de existir, diz Rui Ramos. "Orwell era crítico em relação a todas as formas de condicionamento, direccionamento ou inibição do pensamento individual, que não são aspectos apenas das ditaduras - também podem fazer-se sentir nos regimes democráticos", explica o historiador.


O escritor que na verdade se chamava Eric Arthur Blair (Orwell era o nome do rio que passava em Suffolk, onde morava) conquistou o espírito crítico lidando com as contradições da vida. Orwell nunca esteve totalmente inserido nos meios que ocupou: no elitista colégio de Eaton foi troçado pelo aspecto (era pouco atlético, muito alto e de ar alheado) e pela falta de "nome sonante"; ao serviço da polícia imperial na Birmânia não teve estômago para a realidade menos romântica do colonialismo; nas ruas de Paris e Londres, onde vagabundeou por opção, nunca foi um "deles"; no meio da esquerda intelectual, do qual não deixou de fazer parte, viu os seus livros censurados por serem demasiado críticos (da própria esquerda). Mas sobrou sempre o indivíduo Orwell, em defesa das suas ideias - em defesa de todos poderem defender as suas ideias.


"Mais do que a divisão entre esquerda e direita ele compreendeu que o problema da opressão nas sociedades modernas é geral: para Orwell a liberdade não é garantida, mas algo que se deve conquistar todos os dias", aponta Miguel Morgado, professor na Universidade Católica, em Lisboa. É impossível dissociar Orwell da era em que escreveu - anos 30 e 40, marcados pelo avanço de Hitler, Estaline ou Mussolini - mas a mensagem é intemporal. "Não é com a morte de Estaline ou de Hitler que desaparece a tentação do poder político, a mobilização de máquinas de guerra, tudo num contexto actual de uma sociedade tecnológica, que torna mais fácil o controlo", acrescenta Morgado, que destaca o livro "1984". "Todos os anos, dedico meia aula no curso de ciências da comunicação ao livro, sobretudo por causa da 'novilíngua'", conta ao i. "O impacto que tem nos estudantes é incrível."


Esta influência terá sobretudo a ver com a cultura de contrapoder que Orwell assume nos seus livros. No ensaio "Política e a Língua Inglesa", publicado em 1946 (no qual fixa as regras de boa escrita que são hoje base do livro de estilo da revista The Economist), o escritor desconstrói a linguagem cada vez mais complexa usada pelos políticos para "defender o indefensável". "Hoje como no tempo dele, a linguagem política é feita para mentir ou ocultar a verdade - ainda por cima nesta altura de assesores e spin doctors", afirma Henrique Raposo, investigador na área de Ciência Política e História, que leu 1984 e a Quinta dos Animais. "O politicamente correcto é outra máquina de ocultar a verdade, de nem sequer olhar para certos factos porque são incómodos - Orwell reagiria hoje a isso certamente", junta. Para os fanáticos do escritor - e há muitos - os primeiros livros são aqueles onde estará o verdadeiro Orwell, pioneiro no jornalismo de imersão: quando experimenta as condições de vida dos mineiros ('O Caminho para Wigan Pier') ou quando escreve sobre como é ser pobre ('Na Penúria e na Miséria em Paris e Londres'). Aqui está o Orwell que a esquerda gosta de citar. Quando escreveu 1984 e A Quinta dos Animais, os seus livros mais conhecidos, Orwell já tinha conhecido o lado negro do regime russo na guerra civil de Espanha - e este é o Orwell que a direita gosta de mencionar. Apropriável por todos, o homem que incrivelmente gostava da cozinha inglesa nunca perdeu a independência.

Bruno Faria Lopes in jornal i, 21 jan 10

do sol


faz calor lá fora.
tu fechas a janela com cuidado.
o vento quente que entra matreiro
há muito que secou a sala velha.
a madeira range debaixo dos teus pés.
gostas desse som.
lembra-te a tua casa de pequena.
eu sorrio.
sei que é fácil fazer-te feliz.

ajeitas os girassóis
comprados esta manhã na praça da vila.
estão frescos e luminosos.
convém não apanharem sol. directo.
pegas numa jarra amarela, que acho que é da tua mãe, e espetas as flores com apenas um pouco de água.
isto chega, garantes.
eu aceito.
encostas à parede e dizes-lhes uma palavra querida antes de virar costas.
é justo.

lá fora o dia continua quente.
como os infernais finais de tarde naquelas ilhas perdidas.
e
eu
perco-me no sol de girassol.

p.s: Parabéns!

quarta-feira, janeiro 20, 2010

luzes, câmera, acção... PROJECTO10



Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Ilustração: Gonçalo Martins
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

está tudo bem

A partir de amanhã o presidente não eleito de Angola, no poder há 31 anos, tem a certeza de que nunca terá de ir a votos. A revisão da Constituição garante que bastará encabeçar a lista de deputados do seu partido para ter o lugar. “Suponho que o regime angolano compreendeu que já nem sequer necessita de fazer de conta que é uma democracia. Enquanto a economia for crescendo, por pouco que seja e com todas as distorções que toda a gente conhece, continuará a ter o apoio do Ocidente”, disse José Eduardo Agualusa. O MPLA percebeu que quando o Ocidente fala de democracia não está realmente a falar de democracia. Está a falar da democracia que se exige a Hugo Chavez e a Evo Morales, presidentes eleitos, e de que se dispensa a China e Angola, com chefes de Estado que nunca foram a votos. Desde que o dinheiro continue o a rolar e a vontade do povo não se meta no caminho estamos todos muito satisfeitos.


Daniel Oliveira in Arrastão

a desgraça ensina-nos muito

País que doou mais dinheiro ao Haiti? Os EUA. Normal, é gratidão - já explico. Segundo país? Itália. Itália, o segundo país do mundo a dar mais dinheiro ao Haiti? Bem, não foi bem dar, perdoou a dívida (55 milhões de dólares). O pobre do Haiti tem um terramoto devastador e o generoso do credor perdoa-lhe a dívida, é? Os haitianos vão comer o perdão? Não brinquem, as dívidas marcaram o Haiti - também já explico. Então, vamos lá às duas explicações. A primeira, sobre a gratidão dos EUA. O Haiti ficou independente, em 1804, depois de os antigos escravos terem corrido com a expedição militar francesa. Daí saíram duas boas consequências para a América. Os colonos brancos fugiram para Nova Orleães e introduziram uma das culturas, a do algodão, que construiu a sociedade americana. Por outro lado, derrotado no Haiti, Napoleão decidiu abandonar o Novo Mundo: vendeu ao desbarato o território da Louisiana aos EUA. Nesse dia, os EUA dobraram a superfície (diz-se que foi o melhor negócio da História). Fica explicada a gratidão. Em 1825, a França obriga o Haiti a pagar a independência, conseguida 20 anos antes: 150 milhões de francos-ouro (5 anos do orçamento da ilha). Pagar a dívida destruiu a economia do Haiti para sempre. Fica explicada a dívida. Os terramotos às vezes mostram-nos os caboucos do mundo.

Ferreira Fernandes in DN, 20 jan 10

terça-feira, janeiro 19, 2010

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


Herberto Hélder

A normalização global

A recente explosão dos jogos nas redes sociais, sobretudo no Facebook (não apenas porque é a mais numerosa rede mas sobretudo porque é a que melhor se adapta a esse tipo de experiência) veio enfatizar as épocas especiais do calendário e, consequentemente, o modo como nos relacionamos com os outros nesses referidos momentos.


A maioria destes jogos, e em especial os da Zynga (Mafia Wars, Farmville, Yoville, Café World, etc.) abordaram a época do Natal e do Ano Novo introduzindo uma panóplia de novos conteúdos dos quais listo apenas alguns a título de exemplo: uma árvore de Natal onde se guarda as prendas enviadas pelos amigos (o que pode repetir-se uma vez por dia) e que se abrem no dia 25 de Dezembro; suplementos ("boosts") para combates que são garrafas de campanhe; fogo de artifício que se pode lançar na última noite do ano. Tudo isto acompanhado por manobras de marketing e de vendas de bens virtuais que em tudo imita a realidade - só assim se justifica tamanho investimento dos promotores destes jogos nestas ocasiões especiais. Não é preciso ser cínico para aceitar que estas datas são hoje um imenso fenómeno comercial, alimentado por máquinas (capitalistas) de propaganda que pouco mantêm do valor simbólico com que em tempos foram celebradas.


É óbvio que já antes o Facebook tornou possível enviar deliciosos ícones aos amados no dia 14 de Fevereiro ou parabenizar os aniversários dos amigos. Melhor: agora é quase impossível esquecer as datas desses aniversários, basta estar ligado ao computador, tudo pode ser automatizado. Neste caso há dois efeitos imediatos da Rede: não só alargamos um certo tipo de comportamento que antes estaria reservado a amigos mais próximos, como dependemos (é uma opção, não uma condição) desses sistemas técnicos para gerir uma boa parte das nossas vidas sociais.


Mas o fenómeno mais marcante parece-me ser a definitiva instalação do calendário Ocidental e cristão a nível global. Na verdade a parte maior da população mundial não começou um novo ano a 1 de Janeiro (nem sequer vivem no ano 2010) nem celebram o nascimento de Cristo, ou melhor, Cristo não pertence à sua mitologia religiosa. Têm-nos aturado estas particularidades porque o Ocidente ainda é o motor da economia e porque, sendo óbvio que tem de existir um norma-padrão para conseguirmos entender -nos uns aos outros, porque não a dos tipos que inventaram os computadores e os sistemas operativos? (os relógios mais importantes nos dias de hoje).


Verdade é que vi vários amigos que vivem noutros calendários e professam outras crenças a aderir alegremente a estas pequenas diversões de Natal e Ano Novo. O efeito do Facebook, e outras redes sociais, pode vir a demonstrar-se mais avassalador que os muitos missionários que daqui partiram durante séculos. É a normalização global, total.

Dr. Bakali in JL, 18 jan 10

duma sala de espera

na angústia da espera
há o vibrar dos passos de outros.
há os silêncios contrafeitos
que coagidos por palavras às bandeiras despregadas
não passam de vinganças inúteis
de quem não sabe mais que mirar com desdém.
há candeiras que se restam
presas a um chão que tanto me sentiu
e não encontra mais espaço para quem
se deixou ficar
à conversa do mexerico e da vida por viver.
não há acordo, não há férias, não há dinheiro, não há apoio do sr. dr., não há café.
só há frases cruas de quem é apenas um ponto de cruzamento
de todos nós.
parece que sou uma doce angústia de sentir,
garante-me o riso perene
da velha mulher
que me revolta os cabelos.

uma outra Gaivota



Lula Pena

mudanças

não encontro o momento onde me tornei mais pedra. mas sei que ele existe.
e os meus risos de criança são menos risos. mais sorrisos.
e assim sei que o tempo passa. e segue o seu caminho.
envelhecido.

domingo, janeiro 17, 2010

memories


CAKE - I Will Survive live at the Great American Music Hall in San Francisco, 2004.

coincidências?

1. Santana tem assinaturas para congresso extraordinário (link);
2. Cavaco condecora Santana (link);
3. Alegre é candidato (link);
...não há coincidências... acontecer tudo no mesmo dia não é coincidência... é política.

ruptura

QUE RUPTURA É ESTA
QUE SE DESLOCA ENTRE GESTOS
INOCENTES
E IDEIAS VAGAS?
SÃO CORTES ABRUPTOS
DE CONVERSAS DE CAFÉ POR TER.


NÃO SE LIMPAM ARMAS,
ELOGIAM AS NAVALHAS QUE SAEM DO BOLSO,
E DIZ-SE ENTREDENTES
QUE A BATALHA VAI COMEÇAR,
E FICA-SE EM CASA FRENTE À TV
DESLIGADA.


TOMA UM LADO.
ESCOLHE.
QUE A HORA É DE TOMAR UM PARTIDO.


É RUPTURA. A QUE SE APROXIMA, SOB A FORMA DE UMA HORA.
QUE A INDEFERENÇA TEM LUGAR À MESA.
E, CONTUNDO, NÃO PERCEBO MAIS
DE QUEM É VERDADEIRAMENTE A CULPA
DESTA RUPTURA.
MINHA OU TUA?


SEI APENAS QUE NINGUÉM GANHA COM ESTE AFASTAMENTO.
COM ESTA RUPTURA.

impressões

Estou neste momento no campo humanitário improvisado na fronteira entre a República Dominicana e o Haiti. Chegámos ontem no corredor humanitário que se estabeleceu de Santo Domingo aqui e não nos deixaram avançar por ser de noite.

A confusão era visível. Era preciso passar a noite aqui e perceber o que se vai fazer depois. Ouve-se a noticia que mataram dois cooperantes no caminho de Port-au-Prince até à fronteira e atacaram mais dois com catanas. As noticias são confusas. Mesmo nestes cenários vão-se acrescentando pontos à história. Afinal foi ontem. Ontem morreram 4 dominicanos que não vinham escoltados e hoje dois cooperantes foram baleados.

Há sempre pessoas que morrem. É difícil aceitar porque é que acontece, mesmo quando sabemos que se está a fazer o possível para garantir a segurança de todos. No entanto, olhando a nossa volta, tudo fica tão relativo, até estas situações onde a ajuda é um alvo.

O cenário é sempre exagerado, e o que passa para quem está longe é o que uma câmara ou um fotografo (que são às centenas!) captam mas a verdade é que a partida ficou planeada para hoje às 8h da manhã, com a supervisão da MINUSTAH até à capital, por motivos de segurança. Tudo o resto é desaconselhado - não há heróis e a irresponsabilidade de andar sozinho por zonas que não se conhecem, pode originar fatalidades, como foi o caso. Priorizaram as equipas de resgate e as outras irão, como nós, por volta das 14h30 daqui. Chegaremos a tempo de receber a equipa que espera autorização para aterrar no aeroporto e começar, já e finalmente, a montar o campo de deslocados com assistência médica.

A zona zero da capital é onde estão os capacetes azuis e que garantem a protecção dos campos humanitários. A questão que se põe não é a violência que se vive - é preciso ter em conta que o Haiti era um país instável antes do terramoto -, mas o que o desespero está a causar: não há água e com todos estes atrasos a ajuda chega a conta gotas. O aeroporto está lotado, as estradas têm os seus horários e tudo isso leva a que a população não consiga ser atendida com a celeridade que é necessária.

Mas pode-se trabalhar a todos os níveis, ninguém está parado. Sinal disso é que estou na minha tenda, no meio de um descampado de terra batida com wifi. Muitos podem perguntar qual a necessidade de ter pessoas que, à primeira vista, não são técnicos de saúde, ou de água ou de refugio. A resposta, para mim, é clara. Porque para que esses possam apenas dedicar-se ao que vieram, é necessário coordenar tudo entre as centenas de actores que se encontram aqui e essa é uma das grandes dificuldades: estabelecer uma ordem no caos. Trabalhar por conta própria leva a mal entendidos, a situações de duplicação de esforços e leva, acima de tudo, a desconhecimento da situação.

O hospital não tem mãos a medir. Muitos dos feridos estão a ser transferidos para os hospitais dominicanos e é impressionante ver lutar contra o tempo nestas situações.

Nem vale a pena pensar no "e depois da catástrofe?", porque, neste momento, estamos ainda a tentar estabilizar e garantir uma resposta eficiente e coordenada. Mas muitos sabemos que depois de um mês, aí sim se poderá perceber quem veio para ficar. 


por Marta Gomes de Andrade
via bobina e desbobina

sábado, janeiro 16, 2010

"agora é deus que manda no haiti"

Sem polícia e com as poucas tropas no terreno ocupadas nas missões de resgate e ajuda humanitária, gangues armados com catanas e armas de fogo percorriam as ruas, roubando e lançando o pânico entre os indefesos e miseráveis desalojados. O desabamento da prisão local deixou à solta mais de quatro mil condenados.
A população concentrada em parques, campos de futebol e nas principais artérias começava a organizar grupos de vigilantes para se proteger dos bandidos. Com a terra ainda a tremer – ontem sentiu-se uma réplica com uma intensidade de 4,5 na escala de Richter – os habitantes de Port au Prince recusam viver dentro de qualquer edifício. Em todo o caso, não há muitos lugares que possam ser ocupados: a ONU estima que mais de 50 por cento das construções tenha sofrido danos consideráveis e que dez por cento tenha ficado destruída.


in Público, 16 Jan 10

nota: deus? ou o diabo? ou já nem sequer existe ordem que explique o que se vive? quando ao contrário dos cenários "normais" de guerra já nem se respeita os comboios humanitários e se mata, como acabou de acontecer, de forma violenta dois colaboradores nesta missão, não há lógica que explique o que se está a viver naquela ilha que até há uma semana se encontrava esquecida pelo mundo.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

solo concert


Keith Jarrett

AMI envia missão exploratória para o Haiti

A equipa é composta por Tânia Barbosa, directora do departamento internacional, e Marta Andrade, coordenadora de projectos, que viajarão via Madrid e Miami, e deverão chegar à capital, Port au Prince, pela hora de almoço de sexta-feira.
As representantes da ONG portuguesa levam consigo 20 mil dólares, valor máximo com que podem entrar no país. O dinheiro poderá ser usado na compra de água e primeiros medicamentos e desinfectantes. “Vão com os meios possíveis para já”, disse Fernando Nobre.
“É uma missão exploratória e de primeiros socorros com os meios possíveis e vão procurar articular-se com os parceiros locais”, afirmou o presidente da organização, que admite o envio posterior de uma missão de “maior envergadura”.
Em Setembro, uma equipa da AMI chefiada por Fernando Nobre esteve no território, numa missão centrada na prevenção de catástrofes naturais.

in Público, 13 jan 10

obs: Tal como havia previsto aqui, a AMI enviará uma equipa neste momento dramático para o Haiti. Tal como previ enviará a melhor equipa. Boa sorte, Marta.

a condição humana

a condição humana será algo que nunca perceberei na totalidade. hoje encontro mais uma prova. se posso compreender o que leva um homem após um sismo, um tsunami, um bombardeamento ou situações semelhantes a roubar para comer, beber ou mesmo para conseguir dinheiro jamais compreenderei porque se há de pegar fogo a casas ou a destruir o que o rodeia sem motivo. creio que nunca terei resposta. é também isso ser humano. nunca encontrar uma resposta.

do Haiti

A powerful earthquake of 7.0 magnitude rocked Haiti just before 5 p.m. Eastern time, 10 miles southwest from the highly populated capital of Port-au-Prince, according to the United States Geological Survey, leveling a hospital and causing widespread damage and panic in the impoverished Caribbean country.
There were six aftershocks — the worst two were 5.9 and 5.2 magnitude — that followed in the last hour, and more were expected, according to David Wald, a seismologist with the survey.
“The main issue here will probably be shaking,” Mr. Wald said, “and this is an area that is particularly vulnerable in terms of construction practice, and with a high population density. There could be a high number of casualties.”
The city has about 2 million people, according to National Geographic.



"É uma enorme catástrofe”, disse por sua vez à AFP o embaixador do Haiti nos EUA. Raymond Joseph revelou ter falado com um responsável governamental que lhe contou que as estradas foram ocupadas pelos destroços de edifícios colapsados.
O Presidente norte-americano, Barack Obama, já ofereceu ajuda de emergência.A Reuters dava conta de relatos de pessoas soterradas sob os escombros de edifícios em ruínas em Port au-Prince, e muitos gritos na cidade. O sismo foi sentido até em Guantánamo, na ilha de Cuba.

Público, 13 Jan 10

nota: Este foi o maior sismo jamais sentido naquela zona,  ultrapassando o anterior máximo de  6,7  em 1984. Este valor é tão mais perturbador e assustador quando se pensa que a qualidade da habituação naquele país é no mínimo duvidosa. Um país pobre, dos mais pobres do mundo, prepara-se para enfrentar uma grave crise humanitária e toda a ajuda será pouca. Portugal através da AMI (link) dificilmente falhará no apoio a esta situação de emergência, e eu sei que serão enviadas as melhores pessoas para esse trabalho.

terça-feira, janeiro 12, 2010

para agendar

Poesia em Vinyl. É um verso e a conta, se faz favor

Diabéticos, celíacos, crudíveros, ovolactovegetarianos e vampiros. Ter um amigo com uma dieta rígida condiciona a escolha de um restaurante. Felizmente, ainda não são conhecidas reacções alérgicas à poesia. A partir de quinta-feira o restaurante Vinyl, em Lisboa, acrescenta os versos do poeta valter hugo mãe, lidos por Fernando Alves, aos ingredientes do jantar. "Poesia em Vinyl" é uma iniciativa de promoção da poesia nacional que sugere versos a ser servidos como digestivos - e um concerto em cima disso tudo.


"O objectivo é mostrar às pessoas que a poesia e os poetas não são coisas complicadas, que podem vir ouvir a aprender num ambiente descontraído, de calças de ganga", garante Raquel Marinho, uma das duas pessoas à frente do projecto. Luís Filipe Cristóvão, poeta e livreiro é a outra metade da equipa e o maior responsável pela selecção dos poetas. "As escolhas baseiam-se sobretudo no meu gosto pessoal e na influência que esse nome já tenha no mundo literário", esclareceu o autor.


Há três condições essenciais (e até existenciais) para se ir àquele restaurante ler poesia: ter nascido na década de 70, em primeiro lugar; estar vivo, em segundo, e ser um autor publicado, em terceiro. "Arranjámos uma data que pudesse validar o que é isso de jovem poesia portuguesa e a partir daí escolher nomes de autores que já tivessem mais público e outros que precisassem de mais espaço", conclui Cristóvão. As escolhas de poetas vão ser contrabalançadas com as dos músicos, nomes escolhidos pela organização em parceria com a rádio Radar. "Procura-se assim um equilíbrio entre nomes mais conhecidos com outros a descobrir", aponta Raquel Marinho.


"Poesia em Vinyl" vai receber valter hugo mãe, nos versos, e JP Simões, nas canções, no arranque do projecto, quinta-feira. A obra de Pedro Mexia (lida por Ricardo Araújo Pereira), é a proposta para o mês de Fevereiro, seguido de música de Samuel Úria. Nos meses seguintes há autores consagrados como José Luís Peixoto e nomes a descobrir: Catarina Nunes de Almeida e Filipa Leal são "vozes femininas à partida difíceis de encontrar e que merecem ser lidas", justifica Luís Cristóvão.


Poetas e músicos não recebem nada por subir ao palco do Vinyl, restaurante no edifício da Orquestra Metropolitana, junto à antiga FIL, onde às segundas-feiras à noite se podem ouvir as jam sessions dos alunos da escola de jazz do Hot Clube de Lisboa. A iniciativa tem lugar uma vez por mês durante 12 meses, às 21h30, quando já está suficientemente escuro para ovolactovegetarianos e vampiros saírem de casa.

Luís Leal Miranda in jornal i, 12 jan 10

segunda-feira, janeiro 11, 2010

mais um olhar que se perde


Conte d'été(trailer), Éric Rohmer (1920-2010)

sábado, janeiro 09, 2010

das sensações

parece que estou a dois momentos de distância do futuro.
e só me pergunto porque não consigo deixar este passado. e só me pergunto porque estou preso neste estado-passado.
parece que estou preso às palavras escritas ontem. não sei das novas.
desconfio que estão guardadas naquele novo dicionário que temo folhear. cheira a novo.
e encolho-me a um canto. com receio.
vou-me deitar. tenho calor. talvez seja febre. não sei. sei que estou desconfortável neste corpo. estranho. a mim mesmo.
vou-me deitar. e parece que o futuro vai mesmo ficar para amanhã.

Ah, ganda Manela. Onde é que os arranjas?


Não escrevemos nada no Arrastão quando Carlos Peixoto, deputado do PSD eleito pelo distrito da Guarda, se tornou conhecido ao declarar que, “se estamos a admitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, então também podemos admitir, pelo mesmo princípio, casamentos entre pais e filhos, entre primos direitos e irmãos”.
O mesmo aconteceu quando, na quarta-feira, Carlos Peixoto disse na comissão parlamentar que verificava a admissibilidade da petição a propor um referendo que, ao não especificar que o casamento de pessoas do mesmo sexo era entre duas pessoas, a questão proposta era ambígua porque podia ficar a impressão de que se está a permitir o casamento de 4, 5 ou 6 homossexuais(!).
A razão para esta omissão é simples. Ninguém conhecia este senhor, um deputado de quinta fila cujas posições estão longe de vincular o seu partido. Dá-se um desconto. Constato, assim, o meu espanto ao verificar que as inacreditáveis declarações de Pacheco Pereira, aka ideólogo de Manuela Ferreira Leite, não andam assim tão distantes, nem são muito mais elaboradas intelectualmente do que as do seu patusco colega Carlos Peixoto.
Pedro Sales in Arrastão

sexta-feira, janeiro 08, 2010

05 x fev =10


a mãe de Camus enfim resgatada

Em O Estrangeiro, Albert Camus tem duas frases que são das mais perturbadoras que já abriram um livro: "Hoje, a minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem." Camus morreu faz, hoje, 50 anos. Ou talvez tenha feito há três dias, não sei bem. Sei é que três anos antes dele morrer, deu uma conferência de Imprensa em Estocolmo. Acabava de ganhar o Nobel de Literatura. A sua pátria, a Argélia, estava a ferro e fogo e fugia-lhe entre os dedos. O estudante do liceu Bugeaud, o guarda-redes do Racing de Argel, o mediterrânico da margem Sul, estava dilacerado pela separação das duas comunidades da sua pátria. Para quase todos a solução simples convinha: ou francesa ou árabe. Mas ele gostava daquele "e" copulativo que, na política, tantas vezes traz a solidão. A direita francesa chamava-o traidor. A esquerda e os nacionalistas da FLN diziam-no dúbio. Naquela conferência de Imprensa, um jovem argelino interpelou-o. Camus lembrou a sua mãe, que nunca vira a França e vivia num bairro pobre de pieds-noirs (brancos) de Argel. E disse: "Eu creio na justiça, mas defenderei a minha mãe antes da justiça." Correu, então, que Camus se bandeara para os reaccionários. Agora, o Presidente argelino Bouteflika disse: "Qualquer um de nós daria essa resposta. O que prova que Camus é dos nossos." O tempo reconhece as mães e aponta os justos.

Ferreira Fernandes in DN, 07 Jan 10

APROVADO

quinta-feira, janeiro 07, 2010

a gente vai continuar



Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem á batota
Chega a onde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo


Jorge Palma

nota: já tinha colocado anteriormente esta letra. hoje faz outro sentido...

terça-feira, janeiro 05, 2010

falta um mês...


O que vocês querem sei eu, pá

O pessoal que passa a vida a dizer que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo é um assunto irrelevante que afasta o país do combate à crise, apresenta hoje as assinaturas para tentar forçar um referendo e uma campanha de 15 dias sobre o tema que dizem ser insignificante.

Pedro Sales in Arrastão

pensamentos mindinhos

Não existe bondade.
Existe peso na consciência.

histórias das cidades sem vida

 Entre  as 10.00 e as 22.00 de domingo  foram encontrados mortos nove idosos, sete homens e duas mulheres, que viviam sós.

"Janeiro e Fevereiro levam e o velho e o cordeiro", diz o adágio popular a admitir que aqueles meses são os mais ameaçadores para a vida dos idosos. Mas as nove mortes, sete homens e duas mulheres, que a PSP registou entre as 10.00 e as 22.00 de domingo apresentam características que violam a ordem natural da existência humana. Uns morreram abandonados, outros em situação de solidão, outros provavelmente às mãos de gente criminosa, e outros porque os desespero ditou o fim da linha.
"Não, não é normal. São muitas mortes em poucas horas", disse ao DN a sub-comissária Carla Sofia, do gabinete de relações públicas do comando de Lisboa da PSP. A situação chamou a atenção dos agentes, sendo que nunca antes a carrinha de transportes de cadáveres da corporação tinha sido tão requisitada para levar tantos idosos ao Instituto de Medicina Legal de Lisboa.
A situação mais estranha talvez seja a que se registou em Benfica, junto ao Centro Comercial Colombo, n o domingo à noite. Um casal, ele com 76 anos e ela com 75, apareceram mortos no apartamento. Não se trata de uma situação de indigência. A qualidade do prédio indicia que se trata de pessoas com algum poder económico. Só não se sabe porque morreram. A hipótese de ter havido ali uma mão criminosa não está descartada. Mas, de acordo com fonte policial, só a autópsia poderá revelar algumas pistas.
Albertina morreu em Alfama. O alerta foi dado às 11.00 de domingo. Não pode ser considerada uma pessoa idosa. Afinal, tinha apenas 53 anos. Vivia há um ano e meio num quarto de um apartamento arrendado pela Santa Casa da Misericórdia, e que serve para acolher quem não tem um lar, ou uma estrutura familiar de apoio. Mas Albertina era doente, contou-nos Maria do Carmo (na foto), residente naquele mesmo espaço juntamente com mais duas outras mulheres. Já por várias vezes a falecida estivera internada no hospital Pulido Valente com problemas nos pulmões. E acabado o internamento regressava sempre àquela casa que não era a sua, e onde também ninguém existia que fosse seu. "Tinha várias filhas e acho que a mais nova a visitava", contou-nos Fernanda, proprietária do restaurante situado na rua ao lado e onde às sextas e sábados canta o fado.
Foi Fernanda quem chamou o INEM. " A D. Carmo chegou aqui, aflita, e disse: 'Acho que a Albertina morreu. Está tão fria'...".
Albertina, ao que parece, era reformada devido à doença. Maria do Carmo não soube explicar porque foi ela ali parar. Também sobre o seu próprio fado poucas explicações tem. Existe há 59 anos. Garante que tem família e a passagem por várias empregos. Um dos últimos foi no Jardim Zoológico, como tratadora de animais. "Não me renovaram o contrato", justificou assim a sua nova condição de indigente a viver numa casa arrendada pela Misericórdia de Lisboa. No bairro, as quatro residentes são conhecidas como "as senhoras da Santa Casa". Por Albertina não se jorrou nem uma lágrima. "Vivem juntas sem se escolherem e morrem sem se chorarem". Nem as filhas irão chorar, quem sabe. "Nem as mais nova a visitava. Ninguém a visitava", garantiu. Aquele quarto vai ser ocupado por alguém que se encontra em lista de espera.
Meia hora antes do alerta para Albertina, a PSP tinha ido à Praça D. João da Câmara ver o que se passava com um homem de 49 anos, alcoólico. Estava na rua e tombou para o lado, morto. "Foi morte súbita", segundo fonte policial.
Por volta das 13.00, a PSP de Massamã foi alertada para a morte de um homem de 61 anos. Vivia sozinho. As causas da morte serão reveladas com a autópsia, mas até lá fica ficam no ar as questões das solidões urbanas em expansão.
À mesma hora, na Avenida Estados Unidos da América, em Lisboa, morria um outro homem de 66 anos. Vivia com um amigo. As circunstâncias da morte estão ainda por apurar, mas trata-se de uma situação em que faltam os apoios e a família.
Durante a tarde de domingo a PSP foi ainda chamada para transportar o cadáver de um idoso encontrado numa área geográfica da competência da GNR. Não foi possível ontem apurar em tempo útil pormenores sobre este caso.
O dia acabaria, por volta das 22.00, de forma ainda mais trágica. Um idoso, cuja idade não foi possível apurar, escolheu o momento para o seu fim. Com uma corda.
Os idosos de Lisboa são sobretudo mulheres, vivem em casas da autarquia, numa situação de isolamento e com baixos níveis de escolaridade e rendimento, de acordo com o Plano Gerontológico Municipal, a que o DN teve acesso.
Este Plano, do pelouro da Acção Social, faz um diagnóstico inédito sobre a população idosa da capital e propõe medidas a concretizar entre 2009 e 2013.
Entre a população inquirida, 60 por cento são mulheres e 40 por cento homens, sendo o escalão etário mais representado o que compreende as idades entre 65 e 79 anos.
As mulheres estão em esmagadora maioria (69 por cento) entre os idosos com idades iguais ou superiores a 80 anos, o que é explicado pela sua maior esperança de vida. A maioria dos idosos vive em casas municipais (44 por cento), seguindo-se a habitação em casa arrendada (23 por cento), casa própria (21 por cento) e lares ou residências (11 por cento).
O acesso às habitações apresenta degraus em 73 por cento dos casos, sendo também expressiva a existência de barreiras arquitectónicas dentro das casas. Por isso, poucas vezes saem à rua.

in DN, 05 I 09

...et de mourrir sans révolte.

Et lui aussi, plus qu'elle peut-être, puisque né sur une terre sans aïeux et sans mémoire, où l'anéantissement de ceux qui l'avaient précedé avait été plus total encore et où la vieillesse ne trouvait aucun des secours de la mélancolie qu'elle reçoit dans les pays de civilization [ ], lui comme une lame solitaire et toujours vibrante destinée à être brisée d'un coup et à jamais, une pure passion de vivre affrontée à une mort totale, sentait aujourd'hui la vie, la jeunesse, les êtres lui échapper, sans pouvoir les sauver en rien, et abandonné seulement à l'espoir aveugle que cette force obscure qui pendant tant d'années l'avait soulevé au-dessus des jours, nourri sans mesure, égale aux plus dures des circonstances, lui fournirait aussi, et de la même générosité inlassable qu'elle lui avait donné ses raisons de vivre, des raisons de viellir et de mourrir sans révolte.

Albert Camus (1913-1960) in Le Premier Homme

segunda-feira, janeiro 04, 2010

domingo, janeiro 03, 2010

cortes e recortes do espaço


Madeira 09

Portugal será agora na Europa o que conseguir ser fora dela

Para o Brasil, para Angola, para os Estados Unidos - um novo "triangulo virtuoso" por onde tem de passar o futuro económico e político de Portugal. Luís Amado reflecte também sobre outras prioridades da política externa portuguesa - do Afeganistão à cimeira da NATO. Mas adverte para que "a prioridade das prioridades" está no reforço da competitividade da economia portuguesa.


Terminamos uma década que não foi das melhores. Começou com o 11 de Setembro. Terminou numa crise global. Levou-nos a outro mundo, com a ascensão de novas potências emergentes e com perda de influência do Ocidente. Como é que entende que Portugal se deve posicionar neste novo quadro internacional?


Como sublinhou, a década foi marcada pelo 11 de Setembro, com a queda das Torres Gémeas, e terminou, ainda mais significativamente, com a queda do Lehman Brothers e a crise que varreu o sistema financeiro e a economia mundial nos últimos dois anos. Esta não é uma crise cíclica do capitalismo, não é uma crise como foram outras ainda recentes. É uma crise de mudança de estrutura na ordem económica e na ordem política mundiais. As mudanças profundas que estão a ocorrer exigem a nossa preparação para esse enquadramento novo. Os principais desafios que se nos colocam prendem-se com a capacidade do país para interpretar estas mudanças e agir, do ponto de vista da acção política interna e externa, no sentido de garantir um lugar favorável no novo sistema em gestação.


No seu primeiro mandato, teve a preocupação, para além das questões europeias, de desenvolver as relações com o Magrebe e também com os mercados dos quais importamos energia. Hoje, estamos confrontados com a emergência da China, da Índia, do Brasil. Quais são as novas prioridades?


Portugal tem, em primeiro lugar, um problema económico sério, e esse é um problema que também diz respeito à política externa. Sem ser capaz de resolver o problema da competitividade da economia portuguesa, todo o esforço para manter o país com uma identidade política forte no sistema das nações será inconsequente. Isso significa que, no contexto de uma economia global, a acção política externa deve contribuir para o reforço da internacionalização da economia do país. Promover os nossos produtos, apoiar as empresas exportadoras, captar investimento externo, gerar fluxos turísticos, deve ser a prioridade das prioridades da acção política e diplomática. Por isso, a acção que desenvolvemos tem sido orientada por essa preocupação.


Depois, o país tem de perceber que há um ciclo da sua história contemporânea que se está a encerrar. Tivemos um ciclo em que a política externa foi dominada, no anterior regime, pela preservação do império contra a comunidade internacional. Abrimos outro, com o 25 de Abril, orientando o país para a integração europeia, com objectivos bem definidos e assumidos por todos os governos. Este ciclo, podemos agora encerrá-lo simbolicamente com a adopção do Tratado de Lisboa. Mas hoje, se o país quiser valorizar a sua participação no processo europeu, tem de ser capaz de usar todo o potencial acumulado no relacionamento com essas novas regiões e nações que estão a desenhar o novo sistema internacional que está a emergir.


Isso quer dizer o quê, em termos da nossa política externa?


Que temos de aceitar que, na próxima década, o país se tem de empenhar num esforço de internacionalização para fora da Europa, restabelecendo relações com regiões a que nos ligaram laços históricos, mas também com outras que estão a emergir na nova economia global e onde se concentra enorme potencial de recursos financeiros e económicos. Podemos valorizar significativamente a nossa posição no contexto europeu se formos capazes de dar expressão e densidade à relação privilegiada que temos com o Brasil e a América Latina, com a África de expressão portuguesa e as regiões em que se insere, designadamente a África Austral e Ocidental. Mas temos também de fazer um esforço grande para desenvolver as nossas relações com o continente asiático. Estão aí dois terços da população mundial, o centro de gravidade da economia mundial e, apesar dos laços históricos que nos ligam à região, temos relações muito frágeis.


Mas o nosso destino também dependerá do destino europeu. Tivemos agora a experiência directa de como funciona esse mundo novo de que fala, quando a Europa quase desapareceu na cimeira de Copenhaga. O Tratado pode ajudar a melhorar as coisas?


As mudanças institucionais que o Tratado prevê vão ter um impacto muito significativo na acção externa da UE. Não tenho a mínima dúvida. Vai demorar tempo, não será para amanhã, mas a consolidação de uma prática institucional totalmente nova em torno da figura do novo presidente do Conselho Europeu e da nova alta-representante vai criar uma dinâmica inovadora do ponto de vista da afirmação da UE na sua relação com o mundo.


Os resultados de Copenhaga não me surpreenderam. Sempre achei a posição europeia um tanto ingénua, na sua vontade de liderar num domínio em que internamente conseguiu um consenso relativamente pacífico, mas sem ter entendido os limites dos principais parceiros internacionais com quem tem de negociar.


No fundo, a UE tendo vivido durante décadas na dependência estratégica dos Estados Unidos, vive ainda nessa dependência, e encontrou na questão climática uma oportunidade de afirmação que manifestamente fracassou. O que aconteceu é revelador das limitações que a UE tem enquanto actor global, decorrentes também da sua própria matriz política totalmente singular.


Mas confia que o novo Tratado vai levar as lideranças europeias - refiro-me sobretudo às dos grandes países europeus - a reconhecer que a Europa tem de ser mais do que Sarkozy, Merkel e Brown?


Repare que a existência de um presidente do Conselho Europeu a full-time, concentrado na agenda europeia e designadamente na agenda que a pode projectar externamente, é em si mesma uma profunda alteração relativamente ao que era o exercício de uma presidência por um primeiro-ministro rotativo, sobretudo preocupado com a situação do seu país, com a sua opinião pública interna. A sua existência na liderança do Conselho a cinco anos será completamente diferente.


Como é que Portugal vai jogar neste novo quadro institucional, que é bastante mais exigente?


O Tratado não introduz apenas mudanças significativas na adaptação da política externa dos Estados à política externa da UE. A mudança dos processos de decisão, bem como a redistribuição dos poderes pelas instituições, com o reforço do Parlamento Europeu e o alargamento do processo de co-decisão, só por si geram uma dinâmica política diferente.


O que estamos a fazer é identificar sector a sector, ministério a ministério, as implicações que a entrada em vigor do Tratado vai ter em toda a vida do país, acautelando as adaptações de política interna que são exigidas pelo no novo quadro político.


E há ainda a questão do novo serviço diplomático europeu...


Na área externa, teremos essa inovação política que é o Serviço Europeu de Acção Externa (SEAE), que vai integrar o Conselho, a Comissão e os Estados membros. Teremos de ter em consideração a sua complementaridade em relação aos interesses de política externa do Estado português. Esse exercício está a ser feito aqui, nos serviços do ministério. Antes de o relatório da senhora Ashton [a nova chefe da diplomacia europeia] ser apresentado em Abril aos governos, teremos oportunidade de identificar a nossas opções e os nossos critérios e prioridades relativamente ao serviço, seja em Bruxelas, seja nas missões externas.


Não vemos o serviço europeu como uma diminuição da acção dos Estados nacionais, mas como um complemento que pode reforçar essa acção. Para um país com as dimensões de Portugal é possível encontrar formas de expressão dos seus interesses através dele em muitas regiões do mundo. É certo que os Estados de grande dimensão terão sempre uma maior relevância na projecção dos seus interesses, mas essa é a realidade.

Luis Amado in Público, 03 I 10

nota: mais uma grande entrevista daquele que será provavelmente o melhor ministro dos negócios estrangeiros dos últimos anos.

sexta-feira, janeiro 01, 2010

sinais do tempo

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