domingo, fevereiro 14, 2010

Sou português, tenho 28 anos, curso e mestrado

Um jovem de 28 anos que terminou o seu curso, fez um mestrado, tem uma boa preparação, sabe falar línguas, domina as novas tecnologias, não tem hoje emprego. Na melhor das hipóteses, encontra um lugar numa agência imobiliária, onde ganha à comissão ou, em alternativa, espera-o uma fritadeira ou o balcão de um qualquer fast-food num centro comercial. Vive em casa dos pais porque não consegue sustentar-se sozinho, convive com amigos que estão na mesma situação, desiste de si próprio, dos outros, da comunidade, do País.
Este jovem engrossa hoje em dia as fileiras dos desesperançados da vida, dos frustrados, dos que perguntam a si próprios porque é que durante anos e anos se esforçaram, se levantaram cedo para ir para a escola, para o liceu, para a universidade. Dos que perguntam a si próprios por que motivo tantos Bons, Muito Bons, Excelentes, notas que foram tão difíceis de obter, afinal deram em nada, em zero, em Não Satisfaz. E dos que perguntam a si próprios porque é que outros, sem as mesmas qualificações, conseguem obter o que a eles lhes está vedado. A sua insatisfação é uma doença que alastra, que mina o País, que não permite construir uma sociedade saudável, pronta a encarar o futuro com energia e vontade de vencer. Ter uma boa formação ainda não é uma vantagem. É, pelo contrário, um desespero. Muitos deles, os mais corajosos, partem. São os próprios pais que os incentivam a fazê-lo, que lhes dizem que é preferível assim, pode ser que um dia isto melhore, que possas voltar, que tenhas aqui o reconhecimento que mereces. Longe do País, com uma ocupação, uma outra vida, acreditam que Portugal fará um dia parte do seu destino, não sabem quando, nem como, mas acreditam. Uma das características que os une é a da projecção de uma realidade nacional que gostariam que existisse. Portugal, na boca destes rapazes e raparigas que vivem fora, por exemplo, em Madrid, é a terra das oportunidades, da qualidade de vida, do sol, do mar, dos poetas, da boa comida, dos sonhos. Qualquer estrangeiro que os oiça, que partilhe com eles trabalho ou lazer, sabe que tem de visitar este país magnífico, de gente boa, tolerante, que se abre ao mundo, que tem muito para dar. Os que partem, infelizmente, são os que melhor constroem a imagem de um país que não lhes soube dar a oportunidade de mostrarem o que valem na sua própria casa. São os que têm a percepção de que as bases existem, mas que os alicerces estão podres. São os que se recusam a aceitar o uso de expressões tão tipicamente portuguesas como o "vamos andando" ou o "somos assim" e o "isto já faz parte de nós". São a esperança que tem de regressar.

Maria de Lourdes Vale in DN, 14 fev 10

nota: O meu cenário não é tão negro... ainda não tenho 28, estagio no que foi a minha área de formação, quando terminar o estágio sigo para uma tutoria numa universidade, estou a meio de um mestrado com alguma saída, criei um projecto de raiz com amigos que não trará dinheiro mas reconhecimento e prazer, e contudo percebo muito bem este drama. Eu já trabalhei num call center durante meses, imobiliária durante horas e estive à experiência em experiências bem duvidosas. O que aprendi com isto?

Que não faz assim tanto sentido falar das potenciais escutas socráticas ou das burrices ferreiristas, quando temos coisas mais importantes a fazer em nossa casa. Que não faz assim tanto sentido falar-se em situações de compromisso para o país dos principais partidos quando é tudo fachada. Que não faz sentido criticar-se os políticos e não mudar nada no nosso jardim. Porque ele não é nosso. É o quintal de todos. Pode cheirar a lugar-comum... mas é a maior das verdades. Separados, todos separados, vai ser muito mais difícil...

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