quarta-feira, março 31, 2010

uma certeza

há quem diga que até as cores são subjectivas. há quem diga que tudo é apenas uma opinião. como se não houvessem certezas universais, acreditas? há parvos para tudo, acredito. objectivo ou subjectivo? uma cor é essa cor. não há forma de lhe dar a volta. podes ter aprendido outra coisa, mas ela será sempre essa mesma cor. verde é verde. azul é azul. e no meio só pode estar o verde-azul. ou o azul-verde? já estou a ficar confuso. e se não houver mesmo verdades indiscutíveis? "era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto". tu com a tua opinião, eu com a minha. assim ficava tão fácil. eu e tu à volta de um almoço bem regado a vinho, da casa de preferência. perguntarias se era um bom ou um mau vinho e eu teria que responder: um vinho é um vinho. apenas isso. como o povo diz - e o povo diz coisas muito acertadas, acredita - "nem tudo o que parece é". o que trocado por miúdos significa que podemos estar a falar de vinho, de cores, de perguntas ou de almoços e no fundo estamos apenas a falar de uma coisa: hoje não vamos falar de coisas tristes e complicadas. vamos sorrir e deixar-nos levar para longe das certezas. e amanhã estaremos cá todos para te abraçar.

apoio académico

é uma situação nova, confesso, mas é um pequeno/grande gesto que pode realmente ajudar... não o mundo mas uma pessoa/desconhecida/mestranda/leitora/algo-mais-que-não-sei-bem-definir-e-se-calhar-não-interessa-muito.
chegou-me um mail hoje da Filipa Cardoso pedindo ajuda aos autores e provavelmente leitores de blogs para um inquérito para a sua tese de mestrado. eu já preenchi e agora meto à disposição dos meus leitores... é um pequeno gesto mas pode salvar muitas... teses.

O tema da tese é "Blog Marketing - O impacto dos blogues no processo de decisão de compra" e tem como objectivo tentar perceber até que ponto esta nova ferramenta de comunicação consegue influenciar os consumidores. O público alvo deste estudo são jovens adultos entre os 18 e os 45 anos, daí achar que me podes dar uma ajuda

O questionário está disponível no seguinte link:

https://spreadsheets.google.com/viewform?formkey=dGxvMkZVUGRwZUV6ZTJkV3pfbWlJYkE6MA

Preciso muito que me respondas a este questionário (as respostas são directas e não vão ocupar muito do teu tempo) até dia 4 de Abril! POR FAVOR!!!

terça-feira, março 30, 2010

acorda, acorda, acorda


ALARM- HD720 by MESAI
via Mariana Vilela

túmulo

para uma compreensão
mineral do poema
permanecer sempre
no mesmo sítio


Miguel-Manso

segunda-feira, março 29, 2010

num imenso tédio

"A construção do mosteiro só se terá iniciado bastantes anos mais tarde, vivendo os frades, entretanto, numa casa acanhada, desabrigada e escura."
"Aos 18 de Fevereiro de 1544, Baltazar de Faria informava el-rei de que o Papa concordava com a transferência do mosteiro de Ceiça para Carnide."
"2. Esta irmandade reconhece expressamente e compromete-se a acatar e observar tudo quanto as leis canónicas dispõem a respeito das associações congéneres, mesmo nos actos de administração temporal."

blá blá blá...
um imenso tédio... neste dia de chuva...

sexta-feira, março 26, 2010

no rio

tenho um barco à minha frente. é sempre assim. é pôr os os pés na água fria e ter um barco à frente. é sempre assim. depois surgem as algas que passam frias nos meus pés. hoje tirei os ténis. não o devia ter feito. ou se calhar devia.é um barco novo. o seu casco está impecável. 
às vezes penso como seria estar do outro lado. pôr os pés de fora do barco. em terra. talvez tirasse os ténis. talvez não. não haveria algas, não. e então veria apenas terra-nova à minha frente. talvez, então, desse para sorrir.

quinta-feira, março 25, 2010

caramba, e eu que tinha apostado todas as fichas no santana lopes


Pedro Vieira in Arrastão

crónica mundana

Em 1969, eu fui rico e vivia em Paris. Rico, apesar de "sem papéis", como eu já me habituava a dizer porque sem documentos. Eu tinha um ritual, cada dia, que se repetia por três vezes: entrar numa loja de produtos finos e escolher uma iguaria. A loja chamava-se boulangerie e a escolha era uma baguette. As lojas eram distantes, para eu passear a sorte de viver Paris. E o ritual era espaçado, para eu gastar lentamente a minha fortuna. Não sei o preço do metro de ontem, sei que, há 40 anos, pagava 0,55 cêntimos de franco pela baguette. O francês coloquial ensinou-me que baguette se diz de qualquer varinha, como em baguette magique, mas para mim mágica era aquela baguette que me era estendida depois de a padeira me cantar um "bonjour, messieurs-dames!", mesmo quando eu entrava sozinho na loja. Saía com os meus 65 centímetros de felicidade que tinham uma côdea que merecia a magnífica palavra de "croustillante". Eu tinha a noção exacta da jóia que eu possuía, por três vezes, cada dia, na bela cidade. Nunca fui tão rico. Continuando esta crónica mundana, lembro que, esta semana, Djibril Bodian, de 33 anos, foi eleito o maior ourives do mundo: faz as melhores baguettes de Paris. "Tão francês como o meu pão", diz agora, Djibril tinha seis anos quando chegou do Senegal. 

Ferreira Fernandes in DN, 25 mar 10

quarta-feira, março 24, 2010

tanta coisa na caneta e um modo ausente de estar

mails em atraso. críticas antigas para fazer. textos para escrever. alunos para corrigir. livros para ler. pessoas para falar. e não encontro um momento para reescrever a agenda.

à volta de 5ª feira...

Rui Zink podia ser artista mas resolveu ser escritor. Gosta de cantar no chuveiro e com amigos, mas não é por isso que vai gravar um disco "e impingi-lo aos outros".

Aos 48 anos o escritor, professor e má língua inveterado, vai lançar um novo livro: "Anibaleitor" que "põe um braço à volta do leitor e diz 'anda daí, vamos conversar um bocado de forma divertida'". Chegou ao local da entrevista com 40 minutos de atraso, ar culpado e vários pedidos de desculpa sentidos. Entre três cafés e um folhado de maçã, contou o seu segredo para um casamento duradouro, disse mal do país e confessou ter "uma certa tendência para o ressabiamento".

Gosta mais de dar aulas ou de chumbar alunos?

Não dou aulas, alugo. Alugo o meu corpo. Chumbar é um exercício de poder, ensinar é um exercício cívico. Qual é que acha que tem mais graça?

Exercício de poder?

Exactamente. Na faculdade há aquele paradoxo que é: quando somos assistentes podemos dar tudo e quando somos mais sábios já só podemos dar algumas coisas. À medida que vamos progredindo nos atributos sociais, acumulando "Dr.", etc, aos nossos títulos, vamos perdendo qualidades, até à estupidificação final.

Caminha a passos largos para isso?

Sim, é o meu sonho. Um amigo contou-me a história do pepino do mar, que é um serzinho pequenino cujo único objectivo é agarrar-se a uma rocha. Pode atravessar oceanos inteiros em busca dessa rocha, e quando a encontra agarra-se a ela e o cérebro autodestrói-se. E ao que parece, nos EUA, é o que acontece aos professores quando encontram um bom posto. Aqui em Portugal, é aos presidentes da República. Segundo consta.

Dá aulas na faculdade mas foi professor do ensino secundário. Como foram esses tempos?

Foi muito divertido e eu tinha jeito. Só que para um professor ser competente tem de ter dedicação total, tem de ser um santo e eu queria ter algum espaço para fazer os meus próprios livros. Não há espaço mental para as duas coisas.

E mantinha a disciplina?

Usava um instrumento que hoje já não se tem e que é a autoridade. Nas primeiras aulas os professores deviam poder correr com os alunos da sala, mesmo sem razão. Não compreendo como é que isso foi esquecido. Estabelecia, para bem de todos, que a aula era minha, embora estivesse lá para os servir. Eles, um a um, são maravilhosos, mas todos juntos podem ser leões. Deve abusar-se do poder nas primeiras aulas, desde que não se dê cabo dos miúdos.

Expulsou muitos alunos?

Nos primeiros dias era uma alegria, mas passadas essas primeiras aulas, raramente acontecia. Conquistada a aula, o professor depois tem de saber ler o jogo. Não podemos tornar-nos chatos. O meu pai explicou-me, e foi o melhor metodólogo que tive, que a aula eram 40 minutos de brincadeira e dez de matéria.

Na "Noite da Má Língua", nunca andaram ao estalo?

Houve atrito antes de eu entrar. Pensando na Má Língua como nos Beatles, senti que com a minha entrada tudo ficou pacificado. Fui uma espécie de Ringo daquele grupo.

Mantiveram contacto?

Eu, o Miguel e o Manel almoçamos de vez em quando. Com a Júlia e a Rita é mais difícil porque elas têm uma carreira, ao contrario de nós, que estamos mais ou menos desempregados. Há três anos encontrámo-nos todos para uma Noite no Casino da Figueira e foi uma noite muito comovente, muito divertida. Tivemos um almoço de cinco horas, quando fomos fazer o espectáculo já estávamos ressacados.

Acha que hoje fazia sentido uma Noite da Má Língua?

Um programa onde as pessoas não tenham medo de se queimar e em directo, faz sentido. O mais parecido é o "Eixo do Mal" e é num canal privado. Depois há "O Corredor do Poder", que acho obsceno: pessoas com vínculos partidários a omitir opiniões. Nós éramos vozes estúpidas, mas éramos independentes. Não tínhamos peneiras nem papas na língua e o desrespeito era o mesmo por toda a gente. Uma pessoa que tem medo de parecer mal perde a força.

Em Portugal as pessoas têm medo?

Têm medo de parecer mal e de sofrer as consequências. O medo de podermos pagar as consequências da nossa opinião livre tem a ver com as nossas memórias obscuras de denúncias anónimas, do mundo em que convém ser amigo de uma pessoa para se conseguir ganhar um lugar, manter um posto ou ser promovido.

Vamos à actualidade. Casamento gay?

Completamente a favor. Há pessoas que conheço para quem isso é importante, logo, para mim é importante. A pessoa que pode achincalhar, maltratar, tirar o valor ao meu casamento, sou eu. Casamento é uma união sagrada, ou seja, poética, entre duas pessoas. E elas é que sabem de que forma é que podem de facto tirar valor e afecto ao seu casamento.

E o casamento é isso?

Houve um tempo em que o casamento tinha a ver com "vamos casar para ver se a velha nos dá o frigorífico", mas hoje em dia, cada vez mais, não é isso. E sou completamente a favor.

É casado há quase 20 anos. Como?

Sou muito a favor do 'olhos que não vêem, coração que não sente'. O amor para durar tem que ter muita pachorra. O meu segredo é que não tinha grandes expectativas em relação à minha mulher quando casei. Portanto não me desapontei, nunca esperei grande coisa dali.

E este novo romance?

Metade é roubado ao "Moby Dick", metade é roubado ao "King Kong" e a outra metade são as memórias da biblioteca do meu avô. É a história de um rapaz cujos pais estão em processo de divórcio, que se perde numa viagem em busca de um ser misterioso. Acho que é o meu mais bom livro, mais amigo do leitor.

Como assim?

O escritor que gosto de ser e os que gosto de ler são os que colocam o leitor desconfortável. Para agradar temos os ilusionistas e os políticos, que têm de dar beijinhos aos eleitores. Um escritor não devia ter de passar a vida a dar beijinhos aos leitores e hoje em dia pede-se muito isso. Há muito a ideia de que o livro serve para reconfortar. Mas este é um livro que põe um braço à volta do leitor e diz 'anda daí, vamos conversar um bocado de forma divertida'.

Há muita gente em Portugal com a mania que sabe escrever?

É escrever, fotografar e cantar. Eu canto, gosto de cantar, mas não confundo o karaoke que faço no chuveiro, ou com os amigos, com o ir gravar um disco e impingi-lo aos outros. E o que há neste momento é fulanos que dizem "não gosto de ler mas gosto de escrever". As editoras pelam-se por publicar gente que nunca pensou escrever mas que pode render. Há uma espécie de terra de ninguém e as pessoas pensam "se o Mário do Big Brother escreveu um livro, eu também posso". Há uma ditadura da estupidez que começa pelas editoras, continua nas livrarias e termina nas prateleiras dos leitores.

Continua a gostar de BD?

Durante muitos anos atravessei Lisboa para encontrar um Homem-Aranha que não tivesse lido. É o primeiro super-herói com problemas pessoais, com a lógica da fotonovela para raparigas, só que para rapazes. Hoje, gosto muito do Garth Ennis e Alan Moore. São grandes escritores que usam aquele meio por excelência e que não usariam outro. A arte atinge o nível superior quando diz o que só pode ser dito por aquele meio. Mas há muita banda desenhada desinteressante, como em todas as artes.

E na literatura?

Há muitas obras que são só a repetição de fórmulas antigas. O problema do Miguel Sousa Tavares, cujo sucesso é merecido porque o livro dele está a milhas do José Rodrigues dos Santos, por exemplo, é que escreve como se não houvesse cem anos de literatura. Escreveu o "Equador", que é um belo romance do século XIX. Não está mal, mas qual é o interesse? Houve muito bons escritores no século XIX que escreveram sobre o século XIX.

Qual é, para si, o seu melhor livro?

Ainda acho que é "O Suplente". Porque é o livro mais duro e dói-me muito, porque já foi publicado há 10 anos e passou completamente despercebido, dói-me um bocado. Felizmente foi traduzido e as traduções servem para uma pessoa sentir-se bem tratada. Acho que... o país não me merece. Não merece nenhum de nós. 

Diana Garrido e Rui Zink in jornal i, 24 mar 10

terça-feira, março 23, 2010

CONVITE

é do zink, é na ler devagar, é uma boa hora, é bem apresentado. acho que nem vale a pena dizer mais nada...

segunda-feira, março 22, 2010

Manuel João Vieira sem filtro

Responde sem hesitações. Aqui e ali há pequenas incongruências (uma vez diz-se que Elvis Ramalho é o irmão mais novo dos irmãos Catita, outra que é Lello Minsk). E responde como seria suposto que respondesse o músico (“O papá catita era alguém muito severo”); ou o artista (“A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial, e irradiante”).
A entrevista foi feita à tarde, depois de Manuel João dormir a sesta. Estado: absolutamente sóbrio. Com queixas de uma ressaca da véspera. A casa é a casa de um artista. 
Bem vindo ao admirável mundo de Manuel João Vieira! 

… O que interessa realmente nas entrevistas é, por um lado, identificarmo-nos com aquele que é entrevistado; saber por exemplo que é uma pessoa normal como nós. Muitas entrevistas tendem a ser como aquelas que se fazem aos ciclistas quando chegam à meta, ou aos futebolistas, esperanças para o futuro. Existe uma organização implícita numa entrevista.

Um enunciado?
Sim. As respostas também fazem parte de um pacto, e as coisas funcionam segundo esse código, e se funcionarem assim são entrevistas sérias. 

Sérias porque ninguém fica defraudado?
Sérias porque é aquilo que é suposto fazer-se. Tudo corre como num filme de Hollywood: há um princípio, um meio e um fim, que é feliz.

Quem é que vamos começar por entrevistar para furar o enunciado? 
Tenho comigo o Orgasmo Carlos, um génio da arte contemporânea, segundo ele próprio. Tenho o Candidato Vieira, que neste momento está a fazer uma travessia no deserto. Tenho dois cantores, um que canta nos Ena Pá 2000 e noutras bandas, o Lello Minsk; e tenho um cantor da canção portuguesa, que é o Elvis Ramalho. Podemos começar por um qualquer, é-me indiferente.

Vamos começar pelo autor da frase: “Se há coisa que me faz mal é a água mineral”.
Isso foi uma tradução que fiz para uma canção que se cantava nos Irmãos Catita. Posso falar imediatamente como Elvis Ramalho… No fundo sou um amante da canção latina como as que havia antigamente. Em Portugal tivemos aquele acidente que foi o Salazarismo, mas havia muita canção latina, lembro-me disso. E também era muito latino o facto de nos agarrarmos às canções anglo-saxónicas. E os Conchas, o Concerto Académico, todos esses, pegavam em músicas, tanto italianas como inglesas. (O Elvis Ramalho é um personagem super desinteressante) A única coisa que me distingue do meu irmão, Lello Minsk, é o facto de me interessar por canções ainda mais foleiras do que ele. Ele é um artista rock e eu sou mais da canção. 

Os irmãos disputam-se?
Já não o vejo há uns anos. Para mim o que é importante é o sentimento, e vivo numa espécie de museu do lixo sentimental, rodeado das minhas próprias fotografias.

Narcisista, portanto.
Sim. Tenho fotografias minhas dos anos 70, em que ainda não pintava o cabelo, com um bigodinho. A minha vida, ao contrário da do Lello Minsk, tem sido uma bebedeira mais de martinis. Ele prefere o bagaço e o whisky, bebidas mais duras. Somos pessoas bastante transparentes. Como irmão dele, acho que é uma pessoa sem qualquer tipo de substância. É volátil como espuma do mar. É diferente de mim. Sou uma pessoa com mais carácter, um bocado mais de consistência.

Você, Elvis Ramalho?
Sem dúvida. Pelo menos foi o que me disseram. Estou a escrever as minhas memórias, mas não me lembro de nada. Quando começar a lembrar-me de qualquer coisa vou escrever. E tenho outro problema: não sei se estou vivo ou se estou morto, e se estou a sonhar ou se estou acordado. 

Tiveram pai e mãe? 
O Lello lembra-se disso. Sou o irmão mais novo, não me lembro. Vivíamos numa família, no Algarve, a família Catita. Somos familiares dos tipos do atum. O Atum Catita era uma parte da família que se dedicava à indústria conserveira; fez algum dinheiro, mas nunca deu um chavo à parte pobre da família, que éramos nós. Emigrámos muito cedo para Lourenço Marques para fazer fortuna, e conseguimos ter um lugar modesto dentro do meio vagamente analfabeto e mundano de Lourenço Marques. Depois voltámos para cá como artistas coloniais, mas nunca chegámos a ter qualquer sucesso.

Quando é que nasceram? 
Quem é que se lembra de quando nasceu?

Há os álbuns do bebé, que ajudam a situar. Nos livros de História também percebemos de onde vimos. 
O papá Catita era alguém muito severo. Quando éramos muito novos, quatro anos de idade, dividíamos uma sardinha de uma lata entre 10 irmãos, e quando alguém tirava um bocado a outro, espetávamos um garfo na mão! É preciso dizer que houve fome em Portugal – há muita gente que não se lembra disso. Cresci e nasci para a música. Para mim, o mundo da canção e da música é mais importante que a realidade. Na realidade vivo quando estou em palco (isto também se diz neste tipo de entrevista). O sentimento de entrega aos meus fãs seria o sentimento que normalmente um casal, que vive num filme de publicidade, tem um pelo outro. Imagine-se uma família num filme de publicidade, um pai, uma mãe, os filhos…

Um pai sem barriga, uma mãe com as pernas bem torneadas…
A característica em comum é a de serem todos lindíssimos, e estão todos numa casa que parece um catálogo da Moviflor. Para isso prefiro a vida de palco, e gosto de imaginar que vivemos num mundo maravilhoso. Ontem vi um filme da Agnès Varda, um documentário dos anos 60 sobre aquela região de Cannes e Nice; o meu mundo é assim: vivo nos anos 60, quando as cores da moda eram o azul e o amarelo. 

Ficou aí cristalizado, no sol e no mar.
Sem dúvida, fiquei. E tenho muita sorte de não ter ficado cristalizado na Idade Média, como muita gente que anda por aí. Nesse aspecto considero-me mais avançado. Tenho o problema de achar que os móveis me ameaçam, que são antropomórficos, agressivos e cruéis, e vivo rodeado de móveis… Metem-me um bocado de medo. De resto, sou uma pessoa normal. 

Porque é que essa pessoa só existe no palco, ou só se sente bem no palco?
Existo também fora do palco, em fotografias, sobretudo dos concertos. Se for a minha casa, ela está habitada por imensas fotografias, referências, os meus discos de ouro, o meu toucador, as perucas, os bigodes falsos… Só eu é que não estou lá. Mas o que é uma pessoa senão os vestígios que deixa neste mundo?

Pergunta profunda. Qual é a resposta?
Quem sou eu para responder. Sou fundamentalmente uma pessoa muito modesta, de origens muito humildes, e apenas quero entreter as pessoas.

Lorpa: é acusado disso?
Há quem me diga que sou simples. Nunca me interessei pela complexidade. Gosto de coisas singelas.

Nunca se interessou ou nunca conseguiu entender-se com a complexidade?
Não me parece que seja necessário uma pessoa entender-se com a complexidade. Há pessoas que têm pendor para a complexidade, outras para a simplicidade; eu incluo-me entre as segundas. Acho o mundo um sítio maravilhoso, as crianças são maravilhosas, as mulheres são maravilhosas, Portugal é um sítio maravilhoso. Tenho a sorte e o privilégio de viver num dos sítios mais bonitos do mundo. E permita-me que lhe diga que a menina é muito bonita.

Um palavrãozito, nas suas canções, existe? 
Sabe o que é? Tenho pessoas que me escrevem as letras, e às vezes sou obrigado a cantar aquilo. Não quer dizer que simpatize com esse tipo de utilização da língua portuguesa, embora entenda e respeite que exista essa tradição, desde a poesia medieval galaico-portuguesa, passando pelo Barbosa du Bocage. 

Quem é que escreve as letras?
As letras são do meu irmão, Lello Minsk. Eu sou só um cantor romântico. Já lhe disse que a menina é muito bonita? O Lello Mickey, acho-o repugnante!, é uma pessoa sem sentido moral, um bêbedo convulsivo. Tudo o que de mau aconteceu ao mundo, a partir de Maio de 1978, é de certa maneira encarnado nesse… Chama-lhe pessoa; não sei se é uma pessoa.

Antes de falarmos do Lello Minsk…
Ele é Minsk, mas às vezes gosta que lhe chamem Lello Mickey.

A idade mental dele não é a do Rato Mickey, ou é?
Não sei se o Rato Mickey tem uma idade mental. A idade mental do Rato Mickey é a idade mental de quem lê o Rato Mickey. E preferia não falar do meu irmão, se não se importa.

Têm uma relação assim tão atribulada? Temos aqui um Caim e um Abel?
Vivo num mundo maravilhoso e não me interessam as pessoas que vivem fora desse mundo. Pus uma cruz em cima delas. Ou as pessoas são maravilhosas e está tudo bem, ou se não são maravilhosas, com licença, tenho mais que fazer. Já tenho uma certa idade, já tive os meus sarilhos quando era jovem e neste momento gosto de cantar em bailes de debutantes e coisas assim. 

Bailes de debutantes. Nunca fica com vontade de espreitar por baixo das saias das meninas?
Com certeza que também já fui jovem, e para dizer a verdade a beleza da mulher portuguesa é uma coisa que não pára de me confundir. Acho que existe uma mudança na mulher portuguesa desde o século passado, que é o XIX, até hoje, 1962. A mulher preocupa-se com problemas que interessam à nação, como por exemplo, dar esmola aos pobres, contribuírem para a felicidade dos nossos combatentes no Ultramar.

Em 1958, o Elvis votou no Humberto Delgado ou era a mais pura encarnação do Salazarismo?
É difícil dizer. O meu avô, que era presidente do clube de futebol local, organizou uma volta à vila de bicicleta, em homenagem ao Humberto Delgado, na primeira vez que ele lá foi. Acredito que as pessoas de bem devem entender-se e acredito que o povo português é um povo essencialmente de gente trabalhadora e honesta.

E uma trafulhice, nunca lhe passou pela cabeça?
Essas pessoas que pensam em trafulhices deviam emigrar para outros países.

Não reagiu quando, já por duas vezes o provoquei, querendo saber se estes dois irmãos tiveram uma contenda séria. Se se odeiam como Abel e Caim, se a inveja grassa entre esta amostra da população.
É um exemplo bíblico muito limitado, mas é um símbolo daquilo que existe de pior no ser humano, que é a luta fratricida. Quase todas as lutas são fratricidas, menos aquelas que não o são. Nunca entrei pela via da guerra. Sou diplomático a resolver as questões. O meu irmão: não falo com ele nem hei-de lutar com ele; quando muito contrato um tipo para lhe dar uma tareia.

Assim não suja as mãos.
Não, lavo as mãos, mesmo, como Pôncio. Ele é mais novo. Quando éramos novos talvez eu lhe tenha dado carolos a mais e arrependo-me de o ter feito. Mas agora é um pouco tarde. Ele nunca ultrapassou o facto de a mamã gostar mais de mim. Sempre foi um rebelde e eu sempre fui o atinado.

E você nunca ultrapassou o facto de ele se divertir mais.
Não sei se ele se diverte mais. Para começar acho que ele se droga e devia fazer uma desintoxicação.

Que tipo de substâncias tóxicas é que ele ingere?
Sei lá!, droga.

Mas drogas há muitas. Até as mães tomam drogas em forma de comprimidos para dormir e calmantes. 
Parece que sim, ouvi dizer. Sou uma pessoa muito distante de tudo isso. Tínhamos na nossa família uma senhora que tomava comprimidos, mas eram receitados pelo médico.

Cante-me uma música que seja a preferida do Elvis Ramalho.
Uma original? ”Portugal, terra maravilhosa” [canta], “Portugal, terra maravilhosa, terra do bagaço e da sardinha, de Guimarães, de Vila Viçosa, do Patilhas e do Ventoinha. Portugal, terra de cães vadios, terra de meus pais e meus avós, courela de primos e de tios, de marrecos e de Bijagós”.

É um bocado palerma, desculpe-me o insulto. 
É, mas sabe que a palermice é muito saudável e põe as pessoas mais alegres. O grande defeito do mundo contemporâneo é que as pessoas são demasiado sérias, demasiado negras. Essa negritude, não no sentido africanista do termo, é como a anedota do sonho que tem um pontinho vermelho do lado esquerdo. Conhece?

Qual é a canção mais odiosa do seu irmão, Lello Minsk?
São todas más. Oh, meu Deus, prefiro nem cantar. Há uma que detesto que se chama “Canção conjugal”.

Como é que é?
Já não me lembro. E há outra: “Ó cona, a quanto obrigas”, que acho lamentável. Manifesta uma revolta da parte dele, talvez tenha tido falta de carinho. Ele nunca foi um bebé muito bonito, sabe? Ao contrário da minha pessoa. Não é para me gabar, mas ganhei o concurso de Bebé Nestlé, em 1952. 

A canção.
“Ó cona, a quanto obrigas, fazes sangue às raparigas” – veja lá. E depois tem um refrão: “Cona, tu és a nossa mãe, cona, de ti a vida vem, estrela peregrina, perfumada e purpurina, amas analfabeto e doutor, patrão, tropa ou ardina, tu és a nossa sina, ó fértil divindade do amor”. Um disparate total, um tarado. É isso que considero que está mal neste país. Mas ele também não teve grande sucesso. Ainda bem.

A dita, nunca o obrigou a nada? Como é que lhe chama?
Nunca a trato pelo nome. Acredito que a mulher portuguesa, aquilo que trás de mais secreto e mais belo em si, não é susceptível de ser expresso com uma palavra. Essa palavra é de ouro e morre na boca de quem a pronuncia. 

Você andou na escola, e teve boas notas a português.
Estive num orfanato.

Num orfanato? O que é que aconteceu aos seus pais?
Ai não lhe disse? Morreram muito novos. A minha mãe morreu com 15 anos.

E teve-o com 13?
Começou a ter filhos com 11. Desconfio que alguns dos meus irmãos são meios-irmãos, senão não era possível haver tantos. Olhe, não sei, prefiro não pensar nisso. Quando começo a ver que as coisas são um bocado complicadas, prefiro não pensar

Quem é que está a pedalar na bosta há 26 anos?
O meu irmão. Ele é que fez um concerto com esse nome. Devido ao tipo de vida que leva também não vai demorar muito tempo a bater a bota. Aquilo dá-lhe cabo da saúde. Ele tem menos dez anos que eu e parece dez anos mais velho.

Para acabarmos, você tem um bocadinho de inveja do seu irmão, não?
Nada, nada, zero, tenho pena.

Imagine que isto era uma daquelas peças de teatro muito foleiras, em que estamos a falar de uma pessoa e ela bate à porta, e depois aparece… Essa pessoa é o Lello Minsk.
O foleiro não existe, só existe o bonito. Posso ir à casa de banho e chamo-o, ele está ali na sala de espera. (De qualquer maneira tenho mesmo de ir à casa de banho). Não se importa?

[Levanta-se e sai]

O Lello faz-se acompanhar habitualmente da stripper Nelita Bate-me Uma, da Domadora de Sardinhas Menstruadas, da Barracuda Transmontana. Disseram-me isto. É verdade?
Não sei onde é que foi buscar essa informação, mas há aí uma confusão qualquer, é tudo completamente falso. Como diz Bibi, não deve ser a minha pessoa. 

Quem é Bibi?
Bibi é um homem que está preso no escândalo da Casa Pia. A primeira coisa que ouvi o homem dizer na televisão foi isso; gostei dessa frase. Toco com os Ena Pá 2000. Sim, temos de vez em quando algumas raparigas, dançarinas exóticas, que se envolvem no nosso número. Temos um número bastante interessante, sexo, drogas e rock and roll.

Vamos lá a hierarquizar: do que é que gosta mais?
Nem só de drogas vive o homem! Há também o sexo e o rock and roll. É indiferente, é conforme. Também gosto de comer, tipo feijoada e chili com carne, e grandes costeletas de vaca, costeletas em que nos possamos sentar e comer a costeleta ao mesmo tempo. Como os vermes. Os vermes, numa costeleta, estão a alimentar-se da costeleta. É esquisito uma pessoa comer a sua própria casa. É como a casa de chocolate do conto dos irmãos Grimm. É interessante especular sobre o que são as casas, o que são os cofres, as caixas, as caixinhas de fósforos.

Abrimos esta caixa?
Qual caixa? Não vivo dentro de caixas.

Lello Minsk, também chamado de Lello Marmelo. Marmelo é por causa da marmelada?
Eu, Lello, gosto de dar a mim próprio vários nomes, porquê? Porque me chateia ter só um. É só isso, mais nada. Marmelo é apenas porque rima com Lello. 

Pensei que fosse o gosto pela marmelada.
Não gosto especialmente de marmelada, também gosto de geleia.

Não estou a falar dessa, claro.
Sou muito estúpido. Minsk era o grito do amor em Campo de Ourique, em 1977 ou 1979. Era o grito que se dava quando se via uma tipa muita boa. E é difícil. O Minsk tem de ser gritado a 50 oitavas acima do Ré de porco, que é bastante grave como sabe. 
[exemplifica] É um grito mais de leitão. Porque é que não me faz perguntas simples?

Do que é que quer falar?
Sinto-me muito bem com a minha vida, gosto muito daquilo que faço. De resto não tenho assim grande coisa a dizer. Aliás, acho que sou uma pessoa bastante vazia. 

As pessoas pensam que é um malcriadão, um bebedolas que diz palavrões.
Sou um malcriadão, e tenho orgulho nisso. Sou apenas um personagem grosseiro, obsceno, algo aviltante. Tenho orgulho em ser um bruto “cervejudo”. Bebo cerveja, bebo tudo. Há aqueles bagaços que se fazem nos bares… Os estudantes conhecem isso: vai tudo para um copo e bebe-se. Mas pronto. Criámos os Ena Pá 2000 – já disse isto mas posso voltar a dizer – de uma maneira muito esquisita. A Virgem Maria apareceu a todos os membros, não me lembro quando, a dizer que tínhamos de formar um grupo de rock. Acordámos ao mesmo tempo, como se tivéssemos estado num transe hipnótico profundo, e dirigimo-nos para a frente da Igreja do Santo Condestável, aqui em Campo de Ourique, com as guitarras, e começámos a fazer música. 

De adoração à Nossa Senhora, de agradecimento pelo chamamento?
De adoração, não. Esta não é a principal profissão de Nossa Senhora. Ela tem a profissão de ser Nossa Senhora. Mas além disso também é uma pessoa que gosta de música, e como tal “interviu”.

“Interviu”? Você dá mostras de ler Camilo Pessanha e diz “interviu”?
“Interview” é uma revista muito boa, de que eu gosto. Não sei se ainda existe. Intervir, “interviu”?

Interveio.
Interveio-se. Interveio-se, pronto, é isso mesmo. 

Nossa Senhora interveio.
Interveio-se. “Interviu-se”.

Os católicos, nunca lhe cospem em cima, nunca lhe atiram pedras por dizer essas coisas sobre Nossa Senhora?
Sim e não. Falo sempre da Nossa Senhora com algum respeito. O que os surfistas chamam “respect”. Os católicos são normalmente as pessoas mais obscenas e que mais simpatizam com este tipo de linguagem.

Mas isso é às escondidas.
Sim, às escondidas ou quando bebem um copo. Existem dois tipos de pessoas: as que existem de dia e as que existem à noite. As que existem à noite são o contrário das que existem de dia. Vamos lá ver se explico isto. Há um filme do Chaplin em que há um bêbedo milionário que ajuda o Charlot; bebem copos e divertem-se à grande, mas no outro dia de manhã, quando está sóbrio, não o reconhece. As pessoas são assim. E também não se reconhecem a si próprias quando estão bêbedas. Inclusivamente há conflitos interiores dentro das pessoas. Nós estamos a tentar espremer isso tudo como se fosse uma almôndega. A nossa sociedade precisa de nós.

“Nós”, Ena Pá 2000?
Sim, sim, falo em nome do grupo, até porque os outros estão fechados num armário e normalmente só se abre esse armário quando há um concerto. 

Estão fechados na caixa?
Sim, uma caixa muito grande em forma de armário. Mas é um armário com televisão, com várias coisas interessantes lá dentro.

É o maestro desse grupo?
Tento organizar aquilo, mas nem sempre consigo. 

Você é sempre quem manda?
Não sei. Lá por organizar não quer dizer que mande. Por exemplo, temos um Primeiro-ministro, não é? Ele tenta organizar, mas será que é ele que manda? 

Quem é que manda?
Segundo o Jerónimo de Sousa, é o poder económico. Se perguntarmos a outros políticos, dirão outra coisa qualquer. 

O João Pereira Coutinho, o colunista, também diz que manda quem tiver o livro de cheques.
É a mesma coisa, nisso estão todos de acordo.

Sendo que o João Pereira Coutinho é de direita, e o camarada Jerónimo…
É de direita também. São todos de direita. Ou são todos republicanos, ainda não percebi. 

Eu ainda não percebi se os Irmãos Catita se dão bem com os Ena Pá 2000.
Nós já mandámos esses todos para o hospital. Quem está nos Irmãos Catita é o Elvis. Eu estou nos Ena Pá. Tenho agora também um grupo chamado 4444, de rock sinfónico.

Já convidaram o José Cid e o Tozé Brito para o grupo?
Não, foleirada não queremos, obrigado. Somos um grupo dos anos 70, mas não somos foleiros. O José Cid fez umas coisas boas quando fez rock sinfónico, mas depois começou a fazer música comercial, e o Tozé Brito também. Nós somos contra a música comercial.

O José Cid é melhor do que o Elton John.
Ai é, porquê?

Porque o José Cid o disse. E porque eu acho que toda a gente é melhor do que o Elton John. 
Se você o diz, quem sou eu? Não me meto nisso. Preferia não falar de colegas, embora colegas sejam as putas. Somos todos umas putas, a verdade é essa.

Quando precisa, vai às putas? Tem uma mulher, várias mulheres? Como é que resolve essa parte?
Todos nós, portugueses, vamos às putas de vez em quando. Por alguma razão elas existem. É mais uma daquelas coisas que tentamos pôr debaixo da cama mas que aparecem, sobretudo com uns copitos. E é uma maneira fácil de resolver os problemas conjugais. É mais barato, moralmente, arranjar uma prostituta do que uma amante. Uma amante precisa de ser sustentada, moralmente também. 

É carente.
Exacto, é uma pessoa que quer, que tem direitos. Ao passo que uma profissional…

Dá menos trabalho, custa menos dinheiro? 
De maneira que as profissionais existem para alguma coisa e infelizmente não são dignificadas como deviam ser. E até acho outra coisa, mas não vou dizer… Acho que também devia haver Mães profissionais, assim como há prostitutas. Há uma agência na Alemanha que tem Mães, pessoas que fazem de conta que são Mães para homens de negócios que se sentem deprimidos. Vi isso no jornal. Prostitutas sentimentais, não sexuais. Alugam esses sentimentos. São amas-de-leite, no fundo.

Só que em vez de dar leite, dão sentimentos.
Também podem dar leite, mas é mais caro.

Viu isso no jornal?
Vi, vi. Tenho um pequeno jornal, um pequeno fanzine, feito em fotocópias.

Viu esta notícia nesse jornal?
Sim, fui eu que a fiz. Chama-se “O escarro ilustrado”. A minha ideia é que vivemos num país livre e temos que experimentar até que ponto é que é livre. 

Nunca apanhou pela frente Manuela Ferreira Leite, que diz que a liberdade de expressão está ameaçada neste país?
Portanto, continuamos a falar em leite... Ela tem razão, ou então não tem, ou tem mais ou menos. Isto é, não compreendo porque razão algum governante, neste tipo de estado democrático em que vivemos, se há-de chatear minimamente com qualquer afirmação, por mais irresponsável e atrasada mental que seja, da parte da imprensa ou da televisão. Porque tudo é possível, e tudo é verdade, e tudo é mentira. Vivemos num miasma, vivemos num mundo absurdo. Qual é a importância, realmente, daquilo que se diz? Qual é a importância daquilo que é publicado? 

Tem políticos na audiência dos seus concertos.
O Candidato Vieira vai lá muitas vezes, já o vi várias vezes nos meus concertos. 

Já vi outros políticos nos seus concertos, no Maxime, presidentes de câmara e ministros. 
Sou um bocado míope, vejo mal ao longe.

Eles abordam-no? Outros políticos que não o Candidato Vieira.
Não directamente. Mas já fiz algumas campanhas para o “Dr.” António Guterres, tocámos em alguns comícios do partido socialista, aqui há 10 anos. Também já toquei para o Dr. Alberto João Jardim.

Qual era a canção para o engenheiro Guterres?
“Pão, paz e liberdade”… Não, isso era do PSD. Não me lembro. Como costumava dizer a Amália Rodrigues: não me lembro. Há aquele programa da RTP, do Dr. Vitorino Nemésio, “Não me lembro”.

“Se bem me lembro”.
Não, este chamava-se “Não me lembro”, tenho a certeza absoluta. Talvez não vivamos no mesmo mundo, talvez não vejamos a mesma televisão. 

O Candidato Vieira, aparece nos seus concertos. Como é que é a vossa relação?
Tenho imenso respeito pelo Candidato. Sei que representa interesses obscuros, mas quem é que não representa interesses obscuros? No fundo, será que a menina não representa os seus interesses obscuros de vez em quando? Se não representa talvez devesse representar. O que é que nós representamos? O que é que é representar? Representar é ser um actor, somos todos actores, melhores ou piores. É muito fácil fazer um papel, é muito difícil fazer dois ou três. Quer que fale com ele, que chame o Candidato Vieira?

Sim.
Isto é como se fôssemos crianças, e agora sou o Candidato Vieira. As crianças são engraçadas neste aspecto.

Não tem filhos, Lello?
Tive oito, mas morreram todos.

Que pena. Morreram de quê?
Foram atropelados por um camião escolar. Eram gémeos. É verdade, sémen dos meus testículos. Adeus. Por outro lado fiquei aliviado, era uma certa carga que tinha. Oito gémeos, mesmo com amas-de-leite, é complicado. E a mãe também morreu com eles, também estava a atravessar a rua.

Ficou livre?
Fiquei livre de quê? O que é a liberdade? O que é a liberdade, diria o meu irmão, sem repressão? Nada. O que é a repressão sem liberdade? Nada. 

Isso já é palavreado do Candidato Vieira. Aprendeu com ele? 
Antes de mais nada, Anabela, gostaria de lhe desejar uma boa tarde e dizer que gosto muito de si e respeito muito o seu trabalho.

Obrigada. O Elvis era mais cortês no cumprimento. Ou seja, uma senhora gosta sempre de ouvir dizer que é bonita, mesmo que seja mentira. 
Apesar de ser uma pessoa que faz parte da elite política portuguesa, preferia não me pronunciar acerca da sua beleza, porque quando tiver outra entrevistadora ela poderá dizer que lhe disse que era muito bonita. Isto pode provocar um tipo de rivalidade que é completamente alheia à política e que neste momento não me interessa. Não sou um homem, sou um político, sou uma máquina de fazer propaganda, e sou sobretudo uma pessoa que acredita. 

Acredita em quê?
Acredito em si, Anabela, assim como acredito em todos os portugueses e todas as portuguesas. Acredito que vocês são capazes de fazer deste país um país melhor.

Vocês.
Vocês, com a minha ajuda, com a minha modesta contribuição.

Disse isto sobre o Elvis Ramalho com a intenção de o provocar e perceber até onde é diplomático na abordagem. “Não me comprometo. Não vou dizer àquela que é muito bonita, não vão as outras ficar raivosas e enciumadas, e falarem mal de mim por causa disso”. 
De maneira nenhuma quis sugerir coisa semelhante. Aquilo que estou a tentar dizer é que as mulheres portuguesas em geral são tão bonitas que é difícil fixarmo-nos apenas numa. São um caleidoscópio de beleza. Como dizia o outro, “o que é que faz uma abelha no meio de tantas flores bonitas?”. Conhece aquela história do burro que morreu de fome perante dois bonitos fardos de palha? Exactamente à mesma distância um do outro.

Porque é que morreu de fome?
Porque não era capaz de escolher. 

Candidato Vieira, conte-me o que é que o faz ter tanta confiança em si e achar que as pessoas podem votar em si.
As pessoas podem votar em mim porque vivemos num país livre, em primeiro lugar. Dois, porque sou o melhor candidato. Três, porque os portugueses têm uma confiança muito grande em mim. Sabem do que sou capaz, sabem que neste momento sou a única alternativa à política tradicional. Sabem que tanto em Portugal como ao nível da política internacional vivemos num estado de absurdo, e apenas um discurso mais absurdo, ou aparentemente absurdo, poderá salvar a nação. Tudo pela nação, nada contra a nação, eu sou a nação, eu sou Portugal. Eu não sou uma pessoa, sou um país, e a minha vocação é dar às pessoas o que elas querem. Sou um servidor público, não quero nada para mim.

O que acaba de dizer é o maior pacote de lugares comuns que ouvi nos últimos tempos.
Fico muito agradecido.

Coleccionou-os cuidadosamente.
Não sei se leu o meu programa. O meu programa é muito simples, tem 320 pontos essenciais, e cada um desses pontos tem 10 pontos acessórios, o que multiplica por 10 as possibilidades. Tem este livro? Vou-lhe dar este livro? Cada português devia ter um livro destes em sua casa.

Estava mais magro na capa do livro Vieira, Só Desisto Se For Eleito.
É Photoshop. O dente a mais também é Photoshop.

“Quero uma democracia toda aberta”?
É verdade, é a chamada inclusão.

“A sua vida vai mudar este livro. Dedico este livro a todos os portugueses de alma e coração e a todas as portuguesas aquele abraço”.
No fundo sou também um ser humano, também tenho sentimentos.

O que é isto na página 36, “Pamela, a secretária traidora”? Era a sua secretária?
Era, era. Ela é capaz de me ter traído. Este livro tem um pouco de tudo. Esta é a parte mais importante, são as ideias. Essas, são umas crónicas que escrevi para uns jornais de Economia. Isto é o meu “Visionário programa político e social para um Portugal de sonho”.

Aquele onde o Elvis Ramalho acha que vive.
Vou contactá-lo para a minha campanha. Aqui temos uma “Barreira fotográfica entre Lisboa e Almada”. Temos a “Casa Vieira”, com uma casa de plástico em cima de árvores. Isto é tudo ideias para a cultura. “A arte em Portugal deve estar sempre 20 anos atrasada” – é uma máxima. “O burro deve ser um animal sagrado para o português, como o Burro de Barcelos”. Tive várias ideias originais, biotecnologias, história, futebol, sexo.

O que é que o Candidato Vieira tem a dizer sobre o sexo?
Temos uma educação sexual forçada para a terceira idade.

Porquê, acha que é preciso?
O sexo visa o prazer e o prazer é soberano. A soberania do prazer: é um conceito novo. Temos uma conferência na universidade do Pico que vai falar sobre isso. Vamos promover as variedades de sexo regional.

Como assim?
Cada localidade portuguesa, assim como tem o seu traje folclórico, também tem o seu estilo sexual. Temos o “ Broche ó da Guarda”, “Broche à Nacional nº 1”, “Minete à transmontana”, “Sexo com leitões”, na Bairrada, “Sexo castiço”, “Sexo em coro alentejano”. Se calhar vamos abolir as provas orais, este ano.

Essas coisas ocorrem-lhe quando está sob o efeito do ópio?
Só bebo água do Luso. Quer um copo de água? Neste momento o que me está a custar é não me candidatar às próximas presidenciais. Não vejo que estejam reunidas as condições e a minha fé na democracia está a vacilar. Não sei se um levantamento militar, um pronunciamento militar, não seria mais favorável à nossa saúde económica, e mesmo à nossa saúde sexual.

Não me diga que tenho um protofascista à minha frente… 
Digamos que todos os meios são legítimos para alcançar o poder. Se a democracia está de tal forma viciada e não podemos atingir o poder pela via democrática, devemos tentar outras formas. Devemos levar a bom cabo as nossas ambições.

Quais são as suas ambições?
Quero ser presidente absoluto de Portugal. Vou só beber um bocado de água. 

Tem preocupação em relação às conversas que tem ao telemóvel? Acha que um dia as suas conversas mais íntimas podem aparecer transcritas nos jornais? Ou mesmo os seus e-mails.
Já foram. O facto é que estou sob escuta, mas as pessoas utilizam aquilo que ouvem nas minhas conversas telefónicas para as atribuir a outros políticos, que me copiam sem qualquer tipo de pudor. Estou a ser roubado e vou falar com a SPA para saber se as escutas telefónicas também podem ser objecto de protecção.

Relate uma conversa que tenha sido apropriada por algum político.
Todas. Principalmente algumas. Tudo aquilo que neste momento tem vindo a lume sobre o Primeiro-Ministro, sei que não é sobre ele, porque as escutas foram feitas à minha pessoa e apropriadas pelo Primeiro-Ministro e pelas pessoas que rodeiam o Primeiro-Ministro. Mesmo o caso do Freeport não envolve o Primeiro-Ministro, envolve-me a mim. Eu é que sou a pessoa corrupta! Aliás, fiz tudo: corrompi-me a mim próprio, paguei-me a mim próprio. As pessoas precisam de movimentações. Os deslizes judiciários, ilegais, estão a ser utilizados para distrair o povo.

Distrair de quê?
Da realidade. A realidade é que só há uma força neste momento que pode melhorar as condições de vida neste país, que é o Vieira e o “Vieirismo”, o “Vieirismo” puro e duro. Tenho ideias muito boas para Portugal. Por exemplo, mudar o nome da capital para “Vieirópolis”. O Santana queria fazer o mesmo com “Santanópolis”, ou quase o fez, na Figueira da Foz. Há vários casos. Sei que estou a ser vigiado a todo o momento. Só neste quarteirão há para aí 50 tipos do SIS, mas não tenho qualquer problema em relação a isso – apenas me querem roubar ideias. Não acredito numa teoria da conspiração, acredito que as pessoas valorizam quem tem ideias para este país. O que me interessa não é ser eu a inventar as coisas, mas sim que as apliquem, e que as apliquem para bem do todo e da Humanidade.

Gosta de fazer campanhas eleitorais, não desiste. Porque é que faz isso? Não consegue deixar de intervir na sociedade?
O meu sangue bombeia a uma maior velocidade quando estou na estrada, em comício, é verdade.

Isso é porque é adorado.
Não gosto de dizer isto, mas sou idolatrado pelas multidões. Gostaria aqui de dizer também: as eleições nunca foram legítimas (ninguém sabe isto), e os resultados, a percentagem ridícula que me deram, é manifestamente falsa. Fui roubado!

Quantas pessoas oficialmente votaram em si?
Oficialmente, nenhuma. Mas sei de fonte segura que dois milhões de portugueses votaram em mim. 

Se não votaram, gostariam de votar.
Aí está. Porque não um sistema de voto mais simples para os portugueses? Um sistema de voto em que basta uma pessoa pensar para que o voto… O voto pela internet tem de ser imediatamente utilizado. Temos que acabar com os formalismos legais, com toda a papelada que é necessária para legitimar um candidato. 7500 assinaturas é ridículo, porque pressupõe que existe um aparelho, um secretariado. Essa burocracia está ao serviço dos partidos, nitidamente. O homem das salsichas Nobre conseguiu-o, com certeza.

O homem das salsichas Nobre?
O senhor António Nobre é um exemplo.

É Fernando.
Esse mesmo, o Manuel Nobre. Acho muito bem que o Nóbrega tenha conseguido. As pessoas têm de compreender que chegaram ao fim de um ciclo, ao fundo do poço, e que já não há água. Só eu lhes posso dar a chuva. Isto é um ano um bocado especial em termos de pluviosidade, os políticos nunca falam disto, mas está a chover muito.

Abro aqui um parêntesis para dizer que o vi num programa de televisão; meteu-se com um papagaio, pensou em matá-lo e fazer com ele um arrozinho de papagaio.
Isso é totalmente infundado e falso. É uma afirmação sem pés nem cabeça. Receitas brasileiras, não tenho nada a ver com isso. Com todo o respeito, não estamos a falar dos problemas reais do país. Os portugueses precisam de amor-próprio e de dinheiro. E de satisfação sexual e sentimental nas suas vidas. Isso tudo dá saúde, lá está. A alegria de viver dá saúde. Temos de descobrir os “Brasis”, mas esses “Brasis”, essas terras, estão dentro de nós próprios, e nós podemos encontrá-las. Somos uma nação riquíssima, somos conquistadores. Mas temos de começar por nos conquistar a nós próprios.

Por falar em Brasis, falemos do Orgasmo Carlos, que imagino que conheça. 
Para já, o Orgasmo Carlos é uma pessoa que tem evidentes afinidades com Portugal.

É afilhado do Roberto Carlos?
Não, é filho do Roberto e do Erasmo Carlos. É um artista contemporâneo dos PALOP. Tanto é um artista africano, como português, como macaense. É um artista cuja obra universal exprime a sua profunda lusitanidade. E é um homem que tendo feito exposições nos principais museus e galerias da Terra e Marte, escolheu Portugal para viver – o que é, para nós portugueses, muito lisonjeiro.

Isso é a apresentação do Orgasmo Carlos que o Candidato Vieira está a fazer?
Exactamente.

Como é que ele agora se junta à conversa?
Ó Orgasmo, podias fazer o favor de cá chegar?

Ou então o Orgasmo Carlos vai pintar o retrato oficial do Candidato Vieira…
Já pintou vários, até de outros candidatos.

E nisto…
Em primeiro lugar queria pedir desculpa por estar atrasado. Estou a ser seguido na rua. Não é só o Candidato Vieira. Há pessoas que me querem liquidar – pelo menos duas. Existe uma máfia na Art World que quer acabar comigo, talvez por ser o maior artista vivo da actualidade. Vivo, por enquanto. Não sei se saio daqui e sou morto em dois ou três minutos. Estão a apertar o cerco. Ainda bem que estou a falar consigo porque pode ser a minha última conversa. Não sei se viu as minhas exposições.

Não vi as suas exposições. Mas vi as exposições de pessoas que julgo que aprecia, o Manuel João Vieira, o Pedro Proença, o Fernando Brito, o Xana.
Não tem nada a ver. São artistas portugueses da década de 80. Estou informado. Faz parte, marcou uma época, mas estão ultrapassadas. Hoje em dia existem coisas mais importantes. Não digo que a arte deva ser pedagógica, embora a minha arte seja, e seja de certa maneira “explicadista”. A minha obra não se limita ao “explicadismo”. Aquilo que faço é ao mesmo tempo auto-referencial, e irradiante. Os raios de comunicação que partem desse sol central, que é a arte de Orgasmo Carlos, espalham-se um pouco em todas as direcções. Não como os tentáculos de um polvo, mas como os raios de um sol que contagia e inebria.

Como um orgasmo.
Um orgasmo é um momento.

Mas irradia.
Sem dúvida, é uma explosão. E vai tocar em vários pontos importantes. Já ouviu falar no orgasmo permanente? 

Não.
Mas gostava de ouvir falar? A noção de orgasmo permanente é a noção essencial que está na base nas obras do Orgasmo Carlos; isto é, de mim próprio. E peço imensa desculpa, não consigo deixar de falar de mim próprio na terceira pessoa. Ajuda-me, porque não caibo em mim próprio. Recomendaria aos jovens artistas que olhassem para lá do seu mundo. Hoje em dia qualquer pessoa que pendura um cordel num armazém é um artista plástico. Ia pedir às pessoas para terem um bocado de cautela. A vanguarda chegou a um extremo, chegou à fronteira do deserto. A vanguarda nunca acaba e a arte nunca deixa, como Saturno, de devorar os seus próprios filhos, e produzir nova arte. O canibalismo é arte, assim como o excremento é arte. 

Gilbert & George fazem arte com o seu excremento e com o seu sémen.
Sim, e também com algumas tecnologias um pouco mais modernas. O excremento é uma metáfora do corpo humano e do funcionamento do mundo da arte e da transmissão do conhecimento simbólico. Quando falo em irradiação, falo a todos os níveis. Quando, a partir do século XIX, se substituiu a religião oficial pela arte e pela literatura, (estamos a falar de uma elite), houve qualquer coisa que fracassou. Ainda existe um grande vazio na vida das pessoas a partir do momento em que Deus deixa de existir. Não é possível preencher esse vazio com obras de arte de nenhum artista, a não ser com as obras do Orgasmo Carlos. Não por ele ser um artista particularmente xamanista. 

Particularmente o quê?
“Xamanistíco”. Ele é um xamã lusófono.

Xamã com “x”?
Com “sch”.

O que é um “schamã”? 
É diferente de xamã com “x”. Eu diria mesmo que Orgasmo Carlos, em vez de “sch”, ou com “x”, será um “chamã”. Mesmo tipo “chamon”, porque é português e porque é lusófono. Toda a gente sabe que devemos ir às nossas raízes, porque são elas que nos permitem ser simultaneamente originais… 

Estou um pouco embrulhada. 
…e transcendermos essa originalidade e sermos universais. 

Tem um discípulo que é um urso.
O Ricardo Rocha. É um jovem muito talentoso que encontrei nas montanhas, perto da Serra da Estrela. Estava preso a uma árvore e vivia mais ou menos de subterfúgios, pedia esmola. Eu estava a precisar de qualquer coisa de novo. Fui a Basel e não tinha nada. Tive uma crise. Não tinha um trabalho com profundidade suficiente e que ao mesmo tempo influenciasse as pessoas. Esse urso salvou uma parte da minha carreira. Nas nossas performances eu tocava realejo e o urso recitava de cor todos os textos de Marx. Isso tornou-se uma obra lendária no mundo da arte conceptual. Foi a partir daí que consegui reorganizar a minha carreira. Antes disso pintava velhos pescadores com cachimbo e mulheres nuas com vasos de flores. 

Na parte das mulheres nuas com vasos de flores, m bocadinho como o Boticcelli?
Não, não, era mesmo muito mau aquilo que fazia.

O urso já participou naquela filmagem que fizeram no cemitério, em que havia uma stripper no lugar do morto? (Juro aos leitores que isto aconteceu.)
Esse filme é importante. Fala-nos da ressurreição, da morte, da vida e do amor, é uma abordagem ao problema da vida e da morte. O script é muito simples: o herói vai ao cemitério colocar uma flor na campa dos pais, os pais ressuscitam, começam imediatamente a fazer amor, ele vai atrás deles, com o urso – aliás, o urso estava à espera na carrinha funerária. Os mortos vão para a carrinha funerária e vão circulando pela cidade de Lisboa enquanto fazem amor, no lugar do morto. Por acaso, o camião deita imenso fumo e essa parte é engraçada. Depois vamos até à Gulbenkian, a uma exposição de arte moderna.

E não vos reconheceram e prenderam-vos.
Não, simplesmente ficaram inanes, e nós continuámos a desempenhar o nosso papel e a nossa performance até ao fim, e saímos sem qualquer problema. Foi um filme relativamente barato.

Concorreram ao subsídio?
Isso está viciado. Preferimos fazer as coisas por nós próprios, sem contar com ninguém. Conto com os fundos da Orgasmo Carlos Foundation, ou se quiser, da Colecção Orgasmo Carlos Foundation. 

O Orgasmos Carlos é um pintor que se considera o maior do mundo, mas é também a cara de uma cooperativa de pessoas? 
Não sei do que está a falar. O Orgasmo Carlos tem, é certo, como os anões do Pai Natal, ajudantes. Hoje em dia é raro o artista, o criador de obras de arte contemporânea, que utilize a sua mão nas suas obras; utilizam-se assistentes. O artista é uma espécie de general que fala com os coronéis e os tenentes para desencadear as operações militares.

O Orgasmo Carlos alguma vez fez alguma coisa com o urso?
Fez várias performances, e além disso há a história de vida do Orgasmo Carlos. 

Qual é a história?
Estamos a trabalhar nisso, os meus escritores estão a escrever. Tem uma estrutura parecida com “Assim falava Zaratustra”. Só que tem homens e ursos. 

Não há ali relações bestiais?
Quase nenhuma. Mas o urso é pedófilo e de vez em quando anda com um ursinho de peluche mais pequeno que ele. O urso tem dois metros, anda com um ursinho para aí com 50 centímetros. Além de que ele é castanho-escuro e o outro é cinzento claro, quase azul.

Uma escandaleira.
Eles viviam comigo numa vivenda no Algarve e cansei-me de ver aquilo à minha frente. “Meu amigo, se é para isso que estás aqui, se é esse o teu tipo de vida…”. Dei-lhe tudo, ensinei-lhe tudo, e ele começou a dar entrevistas e a falar da sua obra como se não tivesse havido qualquer influência da minha pessoa no seu trabalho. Há uma coisa que acho muito triste: as pessoas não agradecerem a quem realmente fez alguma coisa por elas. 

Como no “All about Eve”, quando a jovem aspirante a actriz ocupa o lugar da actriz consagrada. Viu esse filme?
É uma espécie de Pigmaleão que corre mal. 

Que relação existe entre estas pessoas com quem tenho vindo a falar e o Manuel João Vieira? 
Nada. São exercícios de matemática, de xadrez, de álgebra, exercícios de natação. 

Eles aparecem ao longo do dia do Manuel João Vieira, quando ele está a fazer uma torrada ou quando vai à fisioterapia? 
Um dia é um holocausto, uma torrada é uma torrada. Eles desaparecem, aparecem. Às vezes tenho baratas em casa, não as tenho visto ultimamente. As baratas, as formigas, aparecem e desaparecem; essas pessoas também. A Natureza não pára de nos surpreender. Às vezes surpreende-nos mais, como é o caso recente de terramotos, inundações, mas também tem coisas boas.

Os seus vizinhos, quando o encontram na rua, estão à espera de encontrar o Manuel João Vieira, ou de encontrar o Candidato Vieira, ou o Lello Minsk?
Não tenho vizinhos, vivo num hospital psiquiátrico há 20 anos. Estou a tentar sair daqui. 

Agora estou a falar com quem? 
Não sei. 

Se quiser falar agora com o Manuel João Vieira, posso?
Olá Anabela, sou eu, está boa? Não tenho assim grande coisa para dizer, sou uma pessoa normal, vivo aqui neste sítio.

É verdade que não tem grande graça enquanto Manuel João Vieira?
É, lamento. 

Quais foram os seus primeiros amigos imaginários?
Por acaso tive um urso quando era pequeno. 

Dados biográficos do Manuel João Vieira.
Nasci em 1962, frequentei o Liceu Pedro Nunes e a Escola de Belas Artes, e outros sítios. Sou sócio minoritário de um espaço nocturno. Não é uma coisa central na minha vida. A única coisa que gosto mesmo de fazer é pintar, desenhar. Sou um tipo de Campo de Ourique como outro qualquer, estou cá há 44 anos. Gosto de beber uns copos ao fim-de-semana, como toda a gente. Bebo uns copos e toco ao mesmo tempo. Como uns amigos que se encontram numa garagem para ensaiar. A única diferença é que gosto de ensaiar ao vivo porque sempre ganho algum, é mais prático. 

Quando nas Belas Artes encontrou aquele grupo de amigos e formaram os Homeostéticos: aquilo foi central na sua vida? Seria outro se não tivesse encontrado aquelas pessoas?
Talvez, não sei. Talvez esse seja um ponto de viragem. Na verdade queria fazer banda desenhada, e estive a trabalhar nisso até entrar nas Belas Artes. O meu pai, sendo pintor [João Vieira], encorajou-me bastantes vezes e tentou explicar-me as vantagens da arte com “A” grande. Mas eu estava obstinado em relação à banda desenhada. Depois houve uma transição entre a banda desenhada e a pintura, que aconteceu naturalmente e com a influência desse grupo. Foi bastante interessante, mas já foi há muito tempo.

Quando se vê o documentário do Bruno de Almeida sobre os Homeostéticos, o que se percebe é que se divertiram à grande. 
Sim, mas tínhamos idade para isso. Uma pessoa pode divertir-se em qualquer idade. O Pai Natal também se diverte, o Pai Natal tem umas amiguinhas…



in Público, 22 mar 10

domingo, março 21, 2010

um dia às voltas com as palavras

Wordle: neste dia

Carpe Diem

Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio --- nem esse olhar
que me oforece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Nuno Júdice

nota: um bom dia da poesia para ti!

hoje estou modo ctrl + v

Escolher bem o jogador a abraçar

Quando Jesus saltou do banco, um minuto e meio depois ver Cardozo falhar mais um penalty, correndo em direcção ao monte de jogadores do Benfica que festejavam o golo, pensei que ia em busca de abraçar a girafa paraguaia. Afinal, o treinador confiara nele para continuar a marcar penaltys, percebera o abalo que novo falhanço lhe provocaria e aquele era um momento quase de libertação para ele, em curtos instantes de vilão a herói. Mas não. Separando jogadores daquele monte eufórico, o treinador procurava…Ruben Amorim. Nem num momento tão emotivo para outro jogador, Jesus perdeu, na sua cabeça de treinador, o primado da questão táctica. Apesar dos estímulos mentais que, tantas vezes, em campo, acendem ou apagam equipas, as melhores são sempre, porém, as que têm jogadores capazes de, nesses momentos emotivamente desequilibrados, colocarem cérebro e frieza no jogo. Por isso, a intenção de Jesus em abraçar Ruben Amorim fazia todo o sentido.
Para atacar bem e, por inerência, finalizar bem, uma equipa precisa sempre muito mais do que apenas dos seus avançados. Não se conclua imediatamente que esta ideia pressupõe atacar com o maior número de jogadores possíveis. Não. O fundamental (sobretudo em jogos com espaços mais fechados) é ter jogadores com capacidade de, vindos de trás, aparecer nesses espaços desequilibrando a organização defensiva adversária. Não é uma questão de número, portanto. Basta um jogador saber fazer isso.

É natural pensar que essa espécie de «efeito táctico surpresa» só pode surgir através da grande qualidade de um jogador. Pensamos logo em grandes médios a fazer isso. Não é preciso ser tanto assim. Foi o que aconteceu no movimento de Ruben Amorim, o típico herói discreto, no golo da Choupana. Na hora certa, conciliando mudança de velocidade, leitura do espaço, desmarcação e execução técnica (aqui, mais do que o remate, entra quase sempre o passe) inventou o golo da vitória com a chamada «capacidade de penetração dos médios». Neste caso, é verdade que ele até estava a alinhar como lateral-direito, mas, na sua cabeça (como pensa e age no jogo), Ruben Amorim será sempre um médio.
Naturalmente, este comportamento táctico-individual com transfer específico para o colectivo naquele lance, dificilmente se transforma num padrão de comportamentos regular para 90 minutos. A equipa precisa, porém, de estar em sintonia táctica para poder potenciar o aparecimento no jogo desse tipo de movimentos. No caso do jogar benfiquista tal cresce na medida em que percebe como inventar o conceito de ESPAÇO quando o adversário opta por uma sucessão de «encurtamentos». Isto é, a bola entra nos últimos 25/30 metros, e os espaços para embalar, entrar e mover-se são menores. Ou seja, «encurtam-se». Por isso, a importância do jogador que, sem a regularidade posicional que permita encaixar marcações adversárias, entra desde trás e de repente o um para um já é…dois para um. Neste caso o jogador «+1» foi Ruben Amorim. E, claro, Jesus escolheu bem o jogador a abraçar.

Luís Freitas Lobo in Planeta do Futebol

ainda em choque

já passaram quatro horas e não há forma de recuperar. duas conclusões: isto é mau e bach é sempre bom. ou seja um conselho a custo zero: se não sabes dar intensidade dramática numa peça polvilha-a com bach. resulta sempre. um último apontamento, esta peça tem cerca de 2h20 e tal a mais do que devia... garanto que três a cinco minutos davam perfeitamente para ver os pormenores interessantes e bem conseguidos da peça.

os meus princípios...


de não dizer mal dos outros e gozar com a tristeza alheia vão ter direito a umas pequenas férias...

sexta-feira, março 19, 2010

a meio do dia

estou por estas bandas preparando o amanhã. há tempo, dizem. está mau tempo, respondo. assim se passa o tempo, e eu fico com a certeza que tenho cada vez tenho menos tempo para fazer o que prometi. fazer amanhã.

somos todos RDAzianos

O escritor Rui Zink é o convidado da DGLB na Feira Internacional do Livro de Leipzig que decorre de 18 a 21 de Março. Esta feira de âmbito internacional, para além da vertente profissional, é relevante em termos de grande público ( 147 000 visitantes em 2009 ) e afirma-se como o maior festival literário da Europa, com mais de 1900 eventos.
Em colaboração com Michael Kegler responsável pela Nova Cultura, um espaço de divulgação da literatura lusófona na Alemanha, realizam-se duas acções com a presença do autor:

•Centro de Congressos (espaço da feira) - dia 20 de Março às 14H00, Rui Zink com Michael Kegler e o seu tradutor oficial Martin Amannshauser
•Conferência sob o tema: Crisis, what crisis? e apresentação do livro ‘Destino Turístico’. No mesmo dia, às 20:00 horas, no Kurt-Wolff-Depot, Brockhausstr. 56,04229 Leipzig Leipziger Übersetzernacht com moderação de Viktor Kalinke (da editora Erata / Leipziger Literaturverlag) e Silke Brohm o encontro reune diversos tradutores alemães: Elisabeth Müller (Carlos Aguilera, Cuba), Cornelia Marks, André Schinkel und Astrid Philippsen (Hadzem Hajdarevic, Zhilad Kljucanin, Bosnia), Jürgen Strasser & Margret Millischer (Jean-Michel Maulpoix, França), Michael Kegler / Martin Amannshauser (Rui Zink, Portugal), Markus Sahr (Helder Macedo, Portugal) und Will Firth (Igor Isakovski, Macedónia). Como escritores presentes, para além de Rui Zink, está até ao momento confirmada a participação de Carlos Aguilera de Cuba.

quinta-feira, março 18, 2010

quarta-feira, março 17, 2010

conversas de engate I

- então e tu já andaste com algum preto?
- não, mas já andei com um jogador da bola!

terça-feira, março 16, 2010

P R O J E C T O 1 0


Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

hoje volto a casa

hoje volto a casa. a uma casa que perdi, no entretanto. parece que ainda é minha. a chave ainda abre a porta e as janelas ainda dão lá para fora. a noite vai quente, como aquelas outras de verão. sorrio. as coisas estão desarrumadas tal e qual como as deixei há meses atrás. afinal nada muda quando não nos mexemos. hoje volto a casa. uma casa que se calhar não perdi. estive apenas ausente. e agora, confesso às paredes que já tinha saudades. do seu branco forte e dum eterno cheiro a cal. hoje volto a casa, mas mais parece que nunca sai.

segunda-feira, março 15, 2010

somos todos Jean-Baptiste Botul


When France’s most dashing philosopher took aim at Immanuel Kant in his latest book, calling him “raving mad” and a “fake”, his observations were greeted with the usual adulation. To support his attack, Bernard-Henri Lévy — a showman-penseur known simply by his initials, BHL — cited the little-known 20th-century thinker Jean-Baptiste Botul.
There was one problem: Botul was invented by a journalist in 1999 as an elaborate joke, and BHL has become the laughing stock of the Left Bank.
There were clues. One supposed work by Botul — from which BHL quoted — was entitled The Sex Life of Immanuel Kant. The philosopher’s school is known as Botulism and subscribes to his theory of “La Metaphysique du Mou” — the Metaphysics of the Flabby. Botul even has a Wikipedia entry that explains that he is a “fictional French philosopher”.
But Mr Lévy, a leader among the nouveaux philosophes school of the 1970s, was unaware. In On War in Philosophy, he writes that Botul had proved once and for all “just after the Second World War, in his series of lectures to the neo-Kantians of Paraguay, that their hero was an abstract fake, a pure spirit of pure appearance”.
The blunder was seized on with glee by a literary world fiercely jealous of BHL’s success. His credulity was spotted by Aude Lancelin, a journalist with the Le Nouvel Observateur, the left-leaning weekly that is de rigueur for the thinking classes. The Botul quotes were “a nuclear gaffe that raises questions on the Lévy method”, she wrote.
Mr Lévy admitted last night that he had been fooled by Botul, the creation of a literary journalist, Frédéric Pages, but he was not exactly contrite.
Appearing on Canal+ television, he said he had always admiredThe Sex Life of Immanuel Kant and that its arguments were solid, whether written by Botul or Pages. “I salute the artist [Pages],” he said, adding with a philosophical flourish: “Hats off for this invented-but-more-real-than-real Kant, whose portrait, whether signed Botul, Pages or John Smith, seems to be in harmony with my idea of a Kant who was tormented by demons that were less theoretical than it seemed.”
Ms Lancelin told The Times she was surprised that none of the journalists who had been giving Mr Lévy the celebrity treatment had noted that he spent two pages using a non-existent philosopher to prove his argument. “I came across the quotes from Botul and burst out laughing,” she said.
On the internet, where the affair took off yesterday afternoon, many others questioned why the reviewers and interviewers who have been filling pages and air time with Mr Lévy’s new book had failed to spot the blunder.
Mr Lévy’s slip was far from his first. His career as writer, moralist, occasional war correspondent and media commentator has been punctuated by claims that he cuts corners.
In his television interview last night he called philosophy a combat sport, insisting: “It’s the role of the philosopher to land blows.”
in Times, 09 fev 10