domingo, março 07, 2010

conselhos dos ausentes

Querida,

Lembrei-me de mais umas coisas importantes que não posso de forma alguma deixar passar, desculpa por te estar sempre a incomodar mas é melhor isso do que acontecer um imprevisto. Quando acordares pela manhã bebe o café com calma e deixa as torradas arrefecerem. A manteiga ficará menos gordurosa e salgada e tudo saberá melhor. Come fruta. Eu pessoalmente, gosto de comer uma  banana e uma maçã. Pelo contrário no verão aconselho sempre uns morangos bem vermelhos, e quando estão mais maduros uns pêssegos. Não te levantes logo a seguir. Deixa a comida descer e aprecia a luz quente que entra pela janela da sala. O gato espreguiça-se, e tu devias seguir o seu exemplo.  Mete a loiça logo na máquina senão ela acumula-se e começa a cheirar mal ao fim de uns dias de verão. No inverno confesso que não é tão grave. É só feio. Se souberes que há possibilidades de receberes alguém toma muito mais cuidado, há sempre migalhas que ficam caídas a um canto e debaixo das cadeiras. E vê se não ficaram nódoas na toalha que embora velha é bem bonita, as suas cores combinam lindamente com os cortinados novos. Cuidado também com o banho. Se comeste muito não podes saltar logo para a banheira como fazias quando eras pequena e nos davam banho. Estás mais velha e é certo e sabido que a comida trabalha muito no teu estômago. Por via das dúvidas mais vale leres um livro e deixares passar a digestão. Duas horas e pouco e estás em condições. Nunca brinques com estas coisas. Sei de uma história de uma senhora que morreu assim, é claro que os tempos são outros mas nunca se sabe. Depois do banho veste-te logo senão apanhas um resfriado e cais doente. Todos sabemos como é frágil a tua saúde, sempre foi aliás. Depois, e só se tiveres tempo responde às minhas cartas, já faz algum tempo que não sei nada e não recebo respostas. Mas, deve estar tudo bem graças aos conselhos que te dou. Tenho saudades daquelas conversas de fim de tarde que tínhamos na casa da tia Alice, sempre acompanhadas a bolachas de água e sal e chá de tília, mas sempre sempre morninho. Os meus olhos já doem de tanto escrever. Um dia irei ao médico dos olhos lá na cidade, e digo-te que devias fazer o mesmo.

Beijo saudoso da tua irmã que muito te quer,

A.

1 comentário:

Marília Gonçalves disse...

Poema da Mulher


Era noite enluarada
Desciam brancos os montes
Quando nessa madrugada
Desenhando os horizontes
Um pedra ali postada
Pelo tempo da memória
Ia pela voz das fontes
Dar início à nossa história.

II

Dormia esse sono impuro
Que tanto pensar agita
Quando iluminando o escuro
Uma luz branca me fita.
Era sudário de sonhos
Como lençol de luar
Temeroso nevoeiro
Nas rendas do alto mar.


Gélida alvura na noite
Envolve prende o meu ser
Ou êxtase ou sorvedoiro
Rasga o silêncio do ver.

Névoas montes nevoeiro
Treva em flor água sombria
véus de mouras lírios brandos
Noivas de apenas um dia
Estavam cantando o seu pranto
Ali rente à penedia.

Que vozes de tal requebro
Esclareciam meu sentir
Que essa alvura tomou forma
Nas mães da história a sair.
Foram sentando pelos montes
Como flores de amendoeira
Tinham o timbre nocturno
Perfume de laranjeira.

De suas frontes pendiam
Atavios de tal esplendor
Que quem tais astros urdia
Era mago ou era a dor.

Vinham do fundo dos tempos
Atravessado a idade
No rosto sulco de vento
Da perdida mocidade
E no matutino olhar
Um fio d’água de saudade

Além me sentei também
Herdeira de seu dizer
Presente eu mais uma mãe
Pra melhor as perceber.

Ali naquela pedra toda musgo
Uma esguia mulher a trança alta
Trazia no sorriso a anoitecer
A fala que de súbito a exalta:

É dia de colheitas, noite embora
Ao longe de milénios semeámos
Ninguém se enternece pelos escombros
Dos sonhos que velámos.

É dia de falar de mão estendida
Essa mão que nunca ninguém viu
E que trazia nela a flor da vida

É dia de largar no vendaval
A história de milénios que calámos
Nossa dádiva bela e natural
Dos filhos que na terra semeámos

O sol acompanhava nossas vidas
Num hino universal à chuva
E das sementes conseguidas
Fizemos pão fizemos uva.

Mas nossa sementeira era de vida
Arámos o chão com nossas mãos
Mas de cada broto em nova vida
Nem sempre vimos irmãos

Como filhas da horda guerrilheiras
Tudo demos de nós sem o medir
E fomos Catarinas e ceifeiras
E parimos Mandelas e Ghandis.

Enquanto nosso sangue se espargia
No ódio à traição do nosso ventre
Cada criança que nascia
Nascia no direito a ser diferente.

Mas tudo foi pretexto para guerra
Um pedaço de rio que o chão nos dá
Por um metro de terra
O sangue que era amor se esvairá
Sempre por mais avareza e ambição
O humano olhar perde a essência
E derramando o sangue dum irmão
O que ontem foi menino é inclemência.

A mãe não distingue seu menino
Nesse ser déspota e cruel
Outrora ria como passarinho
A voz clara e doce como mel.

A voz infante que dizia Mãe
Hoje não sabe face a uma mulher
Aquele vulto é também para alguém
A pura fonte que lhe deu o ser.

Mata lacera violenta sem razão
Ante o olhar de horror de criancinhas
Em cada olhar que morre perde-se um irmão
E nasce mais fereza e mais chacina

As mães correm o monte em alvoroço
Mulheres da cor do sol que tempo deu
Esgatanhando os ares lembram o moço
Que viram partir vivo e que morreu.

Mas é chegado o dia da colheita:
Colher o pensamento e a Unidade
Eia mulher! Em Pé!
Por cada afronta feita
Que cada mãe saiba ser
Solidária! Mulher!

Marília Gonçalves