quinta-feira, março 25, 2010

crónica mundana

Em 1969, eu fui rico e vivia em Paris. Rico, apesar de "sem papéis", como eu já me habituava a dizer porque sem documentos. Eu tinha um ritual, cada dia, que se repetia por três vezes: entrar numa loja de produtos finos e escolher uma iguaria. A loja chamava-se boulangerie e a escolha era uma baguette. As lojas eram distantes, para eu passear a sorte de viver Paris. E o ritual era espaçado, para eu gastar lentamente a minha fortuna. Não sei o preço do metro de ontem, sei que, há 40 anos, pagava 0,55 cêntimos de franco pela baguette. O francês coloquial ensinou-me que baguette se diz de qualquer varinha, como em baguette magique, mas para mim mágica era aquela baguette que me era estendida depois de a padeira me cantar um "bonjour, messieurs-dames!", mesmo quando eu entrava sozinho na loja. Saía com os meus 65 centímetros de felicidade que tinham uma côdea que merecia a magnífica palavra de "croustillante". Eu tinha a noção exacta da jóia que eu possuía, por três vezes, cada dia, na bela cidade. Nunca fui tão rico. Continuando esta crónica mundana, lembro que, esta semana, Djibril Bodian, de 33 anos, foi eleito o maior ourives do mundo: faz as melhores baguettes de Paris. "Tão francês como o meu pão", diz agora, Djibril tinha seis anos quando chegou do Senegal. 

Ferreira Fernandes in DN, 25 mar 10

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