quarta-feira, março 24, 2010

à volta de 5ª feira...

Rui Zink podia ser artista mas resolveu ser escritor. Gosta de cantar no chuveiro e com amigos, mas não é por isso que vai gravar um disco "e impingi-lo aos outros".

Aos 48 anos o escritor, professor e má língua inveterado, vai lançar um novo livro: "Anibaleitor" que "põe um braço à volta do leitor e diz 'anda daí, vamos conversar um bocado de forma divertida'". Chegou ao local da entrevista com 40 minutos de atraso, ar culpado e vários pedidos de desculpa sentidos. Entre três cafés e um folhado de maçã, contou o seu segredo para um casamento duradouro, disse mal do país e confessou ter "uma certa tendência para o ressabiamento".

Gosta mais de dar aulas ou de chumbar alunos?

Não dou aulas, alugo. Alugo o meu corpo. Chumbar é um exercício de poder, ensinar é um exercício cívico. Qual é que acha que tem mais graça?

Exercício de poder?

Exactamente. Na faculdade há aquele paradoxo que é: quando somos assistentes podemos dar tudo e quando somos mais sábios já só podemos dar algumas coisas. À medida que vamos progredindo nos atributos sociais, acumulando "Dr.", etc, aos nossos títulos, vamos perdendo qualidades, até à estupidificação final.

Caminha a passos largos para isso?

Sim, é o meu sonho. Um amigo contou-me a história do pepino do mar, que é um serzinho pequenino cujo único objectivo é agarrar-se a uma rocha. Pode atravessar oceanos inteiros em busca dessa rocha, e quando a encontra agarra-se a ela e o cérebro autodestrói-se. E ao que parece, nos EUA, é o que acontece aos professores quando encontram um bom posto. Aqui em Portugal, é aos presidentes da República. Segundo consta.

Dá aulas na faculdade mas foi professor do ensino secundário. Como foram esses tempos?

Foi muito divertido e eu tinha jeito. Só que para um professor ser competente tem de ter dedicação total, tem de ser um santo e eu queria ter algum espaço para fazer os meus próprios livros. Não há espaço mental para as duas coisas.

E mantinha a disciplina?

Usava um instrumento que hoje já não se tem e que é a autoridade. Nas primeiras aulas os professores deviam poder correr com os alunos da sala, mesmo sem razão. Não compreendo como é que isso foi esquecido. Estabelecia, para bem de todos, que a aula era minha, embora estivesse lá para os servir. Eles, um a um, são maravilhosos, mas todos juntos podem ser leões. Deve abusar-se do poder nas primeiras aulas, desde que não se dê cabo dos miúdos.

Expulsou muitos alunos?

Nos primeiros dias era uma alegria, mas passadas essas primeiras aulas, raramente acontecia. Conquistada a aula, o professor depois tem de saber ler o jogo. Não podemos tornar-nos chatos. O meu pai explicou-me, e foi o melhor metodólogo que tive, que a aula eram 40 minutos de brincadeira e dez de matéria.

Na "Noite da Má Língua", nunca andaram ao estalo?

Houve atrito antes de eu entrar. Pensando na Má Língua como nos Beatles, senti que com a minha entrada tudo ficou pacificado. Fui uma espécie de Ringo daquele grupo.

Mantiveram contacto?

Eu, o Miguel e o Manel almoçamos de vez em quando. Com a Júlia e a Rita é mais difícil porque elas têm uma carreira, ao contrario de nós, que estamos mais ou menos desempregados. Há três anos encontrámo-nos todos para uma Noite no Casino da Figueira e foi uma noite muito comovente, muito divertida. Tivemos um almoço de cinco horas, quando fomos fazer o espectáculo já estávamos ressacados.

Acha que hoje fazia sentido uma Noite da Má Língua?

Um programa onde as pessoas não tenham medo de se queimar e em directo, faz sentido. O mais parecido é o "Eixo do Mal" e é num canal privado. Depois há "O Corredor do Poder", que acho obsceno: pessoas com vínculos partidários a omitir opiniões. Nós éramos vozes estúpidas, mas éramos independentes. Não tínhamos peneiras nem papas na língua e o desrespeito era o mesmo por toda a gente. Uma pessoa que tem medo de parecer mal perde a força.

Em Portugal as pessoas têm medo?

Têm medo de parecer mal e de sofrer as consequências. O medo de podermos pagar as consequências da nossa opinião livre tem a ver com as nossas memórias obscuras de denúncias anónimas, do mundo em que convém ser amigo de uma pessoa para se conseguir ganhar um lugar, manter um posto ou ser promovido.

Vamos à actualidade. Casamento gay?

Completamente a favor. Há pessoas que conheço para quem isso é importante, logo, para mim é importante. A pessoa que pode achincalhar, maltratar, tirar o valor ao meu casamento, sou eu. Casamento é uma união sagrada, ou seja, poética, entre duas pessoas. E elas é que sabem de que forma é que podem de facto tirar valor e afecto ao seu casamento.

E o casamento é isso?

Houve um tempo em que o casamento tinha a ver com "vamos casar para ver se a velha nos dá o frigorífico", mas hoje em dia, cada vez mais, não é isso. E sou completamente a favor.

É casado há quase 20 anos. Como?

Sou muito a favor do 'olhos que não vêem, coração que não sente'. O amor para durar tem que ter muita pachorra. O meu segredo é que não tinha grandes expectativas em relação à minha mulher quando casei. Portanto não me desapontei, nunca esperei grande coisa dali.

E este novo romance?

Metade é roubado ao "Moby Dick", metade é roubado ao "King Kong" e a outra metade são as memórias da biblioteca do meu avô. É a história de um rapaz cujos pais estão em processo de divórcio, que se perde numa viagem em busca de um ser misterioso. Acho que é o meu mais bom livro, mais amigo do leitor.

Como assim?

O escritor que gosto de ser e os que gosto de ler são os que colocam o leitor desconfortável. Para agradar temos os ilusionistas e os políticos, que têm de dar beijinhos aos eleitores. Um escritor não devia ter de passar a vida a dar beijinhos aos leitores e hoje em dia pede-se muito isso. Há muito a ideia de que o livro serve para reconfortar. Mas este é um livro que põe um braço à volta do leitor e diz 'anda daí, vamos conversar um bocado de forma divertida'.

Há muita gente em Portugal com a mania que sabe escrever?

É escrever, fotografar e cantar. Eu canto, gosto de cantar, mas não confundo o karaoke que faço no chuveiro, ou com os amigos, com o ir gravar um disco e impingi-lo aos outros. E o que há neste momento é fulanos que dizem "não gosto de ler mas gosto de escrever". As editoras pelam-se por publicar gente que nunca pensou escrever mas que pode render. Há uma espécie de terra de ninguém e as pessoas pensam "se o Mário do Big Brother escreveu um livro, eu também posso". Há uma ditadura da estupidez que começa pelas editoras, continua nas livrarias e termina nas prateleiras dos leitores.

Continua a gostar de BD?

Durante muitos anos atravessei Lisboa para encontrar um Homem-Aranha que não tivesse lido. É o primeiro super-herói com problemas pessoais, com a lógica da fotonovela para raparigas, só que para rapazes. Hoje, gosto muito do Garth Ennis e Alan Moore. São grandes escritores que usam aquele meio por excelência e que não usariam outro. A arte atinge o nível superior quando diz o que só pode ser dito por aquele meio. Mas há muita banda desenhada desinteressante, como em todas as artes.

E na literatura?

Há muitas obras que são só a repetição de fórmulas antigas. O problema do Miguel Sousa Tavares, cujo sucesso é merecido porque o livro dele está a milhas do José Rodrigues dos Santos, por exemplo, é que escreve como se não houvesse cem anos de literatura. Escreveu o "Equador", que é um belo romance do século XIX. Não está mal, mas qual é o interesse? Houve muito bons escritores no século XIX que escreveram sobre o século XIX.

Qual é, para si, o seu melhor livro?

Ainda acho que é "O Suplente". Porque é o livro mais duro e dói-me muito, porque já foi publicado há 10 anos e passou completamente despercebido, dói-me um bocado. Felizmente foi traduzido e as traduções servem para uma pessoa sentir-se bem tratada. Acho que... o país não me merece. Não merece nenhum de nós. 

Diana Garrido e Rui Zink in jornal i, 24 mar 10

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