segunda-feira, abril 12, 2010

os artistas portugueses ainda estão fechados em portugal

"O nosso grau de internacionalização é fraco", concluiu o estudo realizado pelo Observatório das Actividades Culturais (OAC), a pedido do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais (GPEARI) do Ministério da Cultura (MC), sobre a mobilidade internacional dos artistas e outros profissionais de cultura.


Não há uma estratégia, dizem várias das entidades ouvidas neste estudo (dos cerca de dois mil agentes culturais contactados, um pouco mais de 300 responderam ao inquérito). Não só não há estratégia do Estado, como há poucos agentes com estratégias próprias viradas para a internacionalização - o estudo revela que apenas 31 por cento das instituições que responderam realizaram em 2008 alguma despesa nesse domínio.


O Estado "cumpre o mínimo do mínimo dos mínimos", diz António Pinto Ribeiro, programador cultural e o perito português no grupo de trabalho da União Europeia (UE) para discutir a mobilidade dos artistas (o estudo do OAC foi encomendado precisamente neste contexto). "Estamos muito aquém do que seria desejável."


Pinto Ribeiro compara a situação com a de outros países. "Os mais evidentes são o Reino Unido, a França, a Alemanha, a Espanha e, dos novos países da UE, Polónia e Eslovénia. Todos têm mecanismos que dependem do Estado, instituições como o British Council, o Goethe Institute, o Cervantes, para activarem essas políticas."


"Muito por fazer"


Portugal tem o Instituto Camões, mas Pinto Ribeiro considera que este "elegeu como prioridade a questão da língua e do ensino", uma opção que lhe levanta algumas dúvidas. "Tenho dificuldade em pensar a língua em termos abstractos em vez de associada a práticas culturais. A língua deve ser transportada pelo cinema, o teatro, a literatura, a arquitectura."


Jorge Barreto Xavier, director-geral das Artes, discorda das críticas e garante que "existe uma estratégia", embora reconheça uma "falta de estabilidade nas opções provocada, nomeadamente, pela elevada rotação de ministros da Cultura e directores-gerais das Artes".


"O Ministério da Cultura, através da DGArtes, tem-se empenhado de uma maneira muito forte na internacionalização", afirma Barreto Xavier, referindo como exemplos as representações do Estado nas bienais de Veneza e São Paulo, acordos com "instituições culturais europeias e brasileiras" e "apoios atribuídos em articulação com o Instituto Camões e com a Fundação Gulbenkian". Cita, além disso, o "novo programa de estágios profissionais Inov-Art" - cerca de 200 estágios em instituições um pouco por todo o mundo para jovens em várias áreas artísticas em 2009.


"A Bienal de Veneza é um acontecimento entre dezenas", defende Pinto Ribeiro. "Há todo um conjunto de festivais, de bienais, de feiras de arte onde seria importante estar. Não estamos presentes porque não há retaguarda para assegurar isso."


Para Joana Gomes Cardoso, directora do GPEARI, o estudo do OAC abre caminhos. "Agora, que dispõe de dados concretos, o MC está a procurar encontrar soluções concretas para atenuar as dificuldades e desequilíbrios."


Barreto Xavier concorda que, apesar de tudo, "há muito por fazer". É necessário "melhorar a articulação entre o Estado e os agentes culturais" para garantir uma presença dos projectos portugueses nos circuitos internacionais "de forma durável". Mas, sublinha, "isto não significa que essa durabilidade se deva traduzir em subsidiação". Significa apenas "um acordo e uma atenção estável num arco de tempo de cinco, dez, vinte anos, sobre como devemos trabalhar a internacionalização".

Alexandra Prado Coelho in Público, 11 abril 10

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