terça-feira, maio 04, 2010

Como acabar com a crise da crise grega

Os especuladores fazem aquilo que se lhes deixa fazer. E não foram eles que apontaram uma arma à Europa e nos obrigaram a fazer uma moeda única sem solidariedade.
Considere um artigo de quando o euro estava em alta. Dizia ele que a moeda europeia corria um risco apreciável de desaparecer nos anos seguintes: bastaria que uma das suas economias mais frágeis e ameaçadas tivesse de abandonar a moeda.
Na altura, seria fácil menosprezar esse artigo – se bem me lembro no Wall Street Journal – como agoirento e implicativo. Hoje seria menos fácil negar-lhe um certo sentido.
Ora vejamos a Califórnia, estado americano muito populoso e produtivo, por si só uma das grandes economias do mundo. A propósito: também está falido. Mas isso não tem um efeito enorme no dólar. Já a hipotética falência da Grécia, que representa meros três por cento do PIB europeu, pode chegar para: 1) transformar a hipotética falência da Grécia em real falência; 2) espalhar o contágio a outros países da zona euro, entre os quais Portugal, que também não é a Califórnia; 3) causar a amputação ou o fim do euro; 4) obrigar ao maior recuo de sempre do projeto europeu.
Mas há uma maneira de sair desta crise em dois passos. É ela os líderes europeus dizerem, com a solenidade suficiente, o seguinte: “Não há economias periféricas nem centrais na zona euro; um ataque a um país da zona euro é um ataque ao euro enquanto todo; e não haverá nenhuma falência na eurolândia porque nós não o permitiremos; teria de falir a zona euro inteira, e isto só aconteceria a dois passos do apocalipse financeiro global, ou seja, não vai acontecer. Muito obrigado por terem ouvido.”
E o segundo passo? Nem há; a crise da crise grega acabou naquele momento. Tal como quando, após a falência do Lehman Brothers, os estados mais relevantes disseram que avalizariam as dívidas de todos os bancos e o contágio foi contido. Agora trata-se de fazer o mesmo, só que com países onde vivem pessoas.
Como é evidente, vai ser preciso pagar para ver. Isso tornou-se inevitável. E os juros alemães subiriam para que os dos outros países descessem: mas em troca a Alemanha ganha uma economia europeia coesa na qual tem a posição central.
E também vai ser preciso fazer qualquer coisa contra os agentes que têm apostado na implosão do euro.
Normalmente, eu acabaria agora a falar dos “especuladores”. Sim, mas, porém, os especuladores fazem aquilo que se lhes deixa fazer. E não foram eles que apontaram uma arma à Europa e nos obrigaram a fazer uma moeda única sem solidariedade, com Banco Central mas sem Tesouro, com orçamento diminuto e sem coesão.
Os “especuladores” podem ser confrontados, com agressividade até. As famosas agências de notação que influenciam os nossos juros participaram na farsa dos produtos tóxicos; mais de 90% daquilo a que deram nota máxima eram latão ou lixo. Não há ninguém na Comissão Europeia para lhes cair em cima com processos e multas? E, já agora: noutra época, com políticos mais audazes – F. D. Roosevelt suspendeu a banca por uma semana -, também os famosos CDS não durariam muito tempo. Pode ser confortável para mim estar no escritório a apostar que a Grécia vai à bancarrota; para os gregos não é (substitua gregos por portugueses).
Sobra espaço? Então, um último conselho sobre o euro. Um burocrata qualquer achou que fazia sentido chamar à subdivisão de uma unidade monetária na língua portuguesa um “cêntimo”. Por favor, sublevem-se. Um centavo é que é – e sempre foi – um centavo.

Rui Tavares in ruitavares.net

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