terça-feira, maio 04, 2010

do-não-sentir-a-palavra

passo os dias de volta de palavras que até são minhas e contudo não as sinto.
sou um mudo literário que procura abrir a boca
e escorrer a seiva bruta que tu garantes que já tive.
sou órfão de colégio em terra de bibliotecas.
porque sinto que não sinto mais do que uma ausência de pensar.
revolvo as últimas palavras que deixei aqui e ali, em textos novos e velhos, e até me parecem bonitas. mas são tão invisíveis ao coração como aos meus olhos doridos.
sou cravo dum abril que passou e magnólia na estação errada.
sou um móvel de dobradiças ferrugentas
que insiste em deixar cortes na mão do miúdo.
não forces.
deixa-me ir.
sabes que sou um não-sentir prolongado que anseia por viver.
que sou um verbo escrever em quadro preto.
que tenho as minhas próprias palavras cravadas nas folhas que comprei avulso.
sou apenas uma palavra sem dono.

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