segunda-feira, maio 31, 2010

O desmontar do dedo esticado

David Laws, o novo secretário de Estado do Tesouro inglês, encontrou no seu gabinete um bilhete do antecessor. É um costume britânico e, geralmente, por ser pessoal só mais tarde a História grava as palavras (John Major deixou para Blair: "É um bom cargo: saboreia-o!".) O bilhete para Laws dizia: "Não há dinheiro." Era uma piada. Mas Laws, imbuído do espírito dos puros e com dedo em riste, tornou o bilhete público, como quem diz: vejam ao que isto chegou... David Laws acaba de se demitir porque se descobriu que fazia o parlamento pagar a sua renda de casa quando ele vivia na casa do seu amante. Já li, com um sorriso, defensores do actual Governo britânico e críticos do anterior a desvalorizarem o erro de Laws (que a renda era baixa, que a situação não é tão evidente...) E não me admira que ainda venha ouvir um trabalhista, também dos puros e com dedo em riste, dizer que isto chegou aqui por causa de trafulhices como as de Laws... Enfim, tudo dentro dos conformes: o dedo em riste dos indignados e como eles amansam as indignações quando lhes toca a culpa. Sorrio, mas não defendo o relativismo moral. Pelo contrário, defendo que as responsabilidades devem ser sempre apuradas: por exemplo, continuo sem saber quem (nome!) inventou que Chico Buarque queria ver Sócrates. Gosto das coisas sabidas. É meio caminho andado para acabar com o dedo esticado dos puros.

Ferreira Fernandes in DN, 31 Maio 10

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