segunda-feira, junho 28, 2010

Metropolis


by Fritz Lang

lixo

Os sítios dos jornais na Internet estão cheios de coisas como estas:
portugueses..zinhos de *****, merecem gentalha de ***** !!! (rui correia, torres vedras)

Fantastico.... com as descidas o preço mantêm-se inalterado, mas as subidas já levam ao agravamento dos preços. P que os pariu a todos! Isto só vai ao sitio à porrada. (Luis)

é pá ajudem-me por favor o DIAS LOUREIRO não estava nesta pois não? ah,ah,ah, estava em outra , sucias , comunas , psd , cds e os gajos da liamba são todos iguais .Quer queiram quer não desde 24 de Abril de 74 até hoje é só gatunagem , não percam tempo com conversas de cuscuvelhice .... (LETHES, olho do cu)

Mari(quinhas) Disz-me quais as habilitações da tua esposa e qual o vencimento. Compara com administrativos ou empregados de balcão no privado(só se é por vender dinheiro que deve ter regalias) (antonio, tomar)

o senhor presidente da republica tem carradas derazao.

O PINOQUIO E QUE AINDA NAO NOTOU POIS PARA ELE E COMO SE CONSTA TUDO A GRANDE.ESTAMO-NOS SEMPRE A QUEIXAR QUE SOMOS ATRAZADOS EM RELACAO AOS OUTROS PAISES.POIS EM LADROAGEM DO PINOQUIO ESTAMOS EM PRIMEIRO LUGAR DESTACADISSIMOS.MAS O PORTUGUESITO SOFRE DOE FAITA DE MEMORIA. (anonimo)


E +70% do universo de eleitores Portugueses discorda da pinosokretinice aguda! 42% k mandam pu-liticos às urtigas por terem convertido País em sucatal de sucatais multiplos,+28% k votam noutros partidos mas nao no "quebrado xuxa-lista"!Para o palhaço retórico de cócoras no pu-leiro do poder xuxalista ainda dá pq +1400 boys(bois xuxalistas) ainda USURPAM ROUBAM nas instituiçoes fundaçoes assessorias consultorias etc sem qq penalizaçao de 5% nos salarios abismais(maiores da Europa por fazer nadas). Só os salarios dos pu-liticos(e do POVO COMUM) são afectados pq pu-liticos são "eleitos" e o POVO ESCRAVO é eleito pelos pu-líticos. Mas boys (como ex-"put"alhada" na pt) de nomeação xuxa ainda são intocáveis: RUA COM ESTA CANALHOCRACIA XUXALISTA. (ruicb52)

Agora que isto jà anda tudo cA.G.A.D.O.e sem sabão e papel higiénico a ***. vai aumentar (algarve)

Aonde andou este bordamerdas desde o 25 de abrilde 1974 até ontem ? So se lembrou ontem dos excombatentes ? (Anónimo)

Oh Barreto vai cantarolar baladas para o Alegre, que é da tua laia. (maracutaia, distrito de Aveiro)

Isto vai aqui publicado exactamente como vem nos muito respeitáveis jornais portugueses, com os insultos, as obscenidades, os erros de ortografia, os pseudónimos, os anónimos, as letras maiúsculas e minúsculas. Incluindo o PÚBLICO, onde, no momento em que escrevo este artigo, um comentador anónimo acabou de tratar assim o primeiro-ministro: "Chega de vigarice! Onde esta a credibilidade deste palhaco? OS Portugueses nao estao ja fartos de tanta mentira, trafulhice e vigarice?"

Há milhares e milhares deste tipo de frases, embora não haja milhares de pessoas que lá as coloquem. Muitas vezes um só emulo do "maracutaia" escreve dezenas de comentários dividindo-se por vários locais ou repetindo dezenas de vezes o mesmo comentário. Funciona como um grito contínuo, umas vezes com um nome, outras vezes com outro e outro, mas o gritador dos insultos é o mesmo. O anonimato também é regra, mesmo quando os jornais exigem uma identificação formal, tantas vezes fictícia. E, como se sabe, escondidos atrás de pseudónimos e do anonimato, os gritadores de obscenidades gritam mais alto cheios de coragem.

Duvido que um só destes jornais, do respeitável Diário Económico onde "LETHES, olho do cu" escreve, até ao popular Jornal de Notícias onde "ruicb52" nos explica sobre o destino desejado aos "ex-"put"alhada" na pt", alguma vez publicasse uma única destas frases na sua edição em papel nas "cartas dos leitores". Se é assim, por que razão praticamente todos os grandes jornais portugueses estão cheios nos seus sítios em linha destas expressões de baixaria inqualificável, que em muitos casos são puros insultos que em tribunal levariam os seus autores a expeditas condenações? Por que razão tudo é tão elegante no jornal em papel e todo o lixo imaginável se encontra na Internet? E mais: dêem as voltas que derem, o autor destes epítetos sobre "o palhaço retórico de cócoras no pu-leiro do poder xuxalista" está mesmo a escrever no Jornal de Notícias, e o dos "portugueses..zinhos de *****", mesmo protegido pelas estrelinhas, está mesmo a escrever no Diário Económico. Convinha não se fugir à responsabilidade por detrás do argumento que estas frases não são de responsabilidade dos jornais que de facto as publicam. Tudo o que está no jornal em papel, tudo o que está no jornal em linha, é de responsabilidade das suas direcções e redacções.

A razão primeira destas práticas é simples: os jornais ganham dinheiro com isto. O facto de os seus sítios em linha terem comentários não-moderados, ou então "moderados" de tal forma que tudo isto passa pelo crivo do "moderador", aumenta o número de visitas e pageviews e torna o sítio mais valioso em termos de publicidade. Como nos blogues, a manutenção de caixas de comentários abertos e não-moderados tem como resultado a invasão desta baixaria e o aumento do tráfego. O convívio com este lixo dá dinheiro.

Depois há outro tipo de argumentos, já a tender para o intelectual. Os comentários seriam uma forma do "povo", que não tem acesso a outros mecanismos, se fazer ouvir e dizer o que pensa dos poderosos. Seriam um mecanismo de "democracia directa" ou de "democracia participativa". Só que existe um pequeno problema, é que a "democracia directa" não é democracia, mas sim demagogia. De facto, os mecanismos do populismo e da demagogia proliferam hoje em dia na Internet, com a utilização de remailers que todos os dias enchem as caixas de correio de "denúncias", apelos à vingança e à "acção directa", o conhecido método com que se roubam gravadores. Também aqui não me parece que a linha editorial do Diário Económico assente no princípio de que "sucias , comunas , psd , cds e os gajos da liamba são todos iguais", e duvido que em dizê-lo se ganhe alguma coisa em termos de qualidade da democracia.

Há também o argumento que tudo se pode dizer na Internet senão está-se a fazer censura e que por isso as caixas de comentários são uma manifestação da liberdade irrestrita que traduz o espírito da Internet. Na verdade, tudo isto é falacioso, a não ser que se entenda que as sociedades não devem ter lei nem ordem e a Internet vai continuar a ser a selva pura onde tudo se pode dizer, sem responsabilidade. Defendo há muito que o que é crime cá fora é crime lá dentro e os jornais, ao permitirem que nos seus sítios haja insultos ou mesmo acusações graves, correm o mesmo risco que qualquer cidadão que possa ser acusado de ter abusado da liberdade de imprensa para caluniar ou pôr em causa a dignidade e o bom-nome de alguém. A liberdade de expressão nada tem a ver com isto e protege as opiniões, por excessivas e provocatórias que sejam, mas nunca o crime.

As caixas de comentários cheias deste lixo são um sintoma de degradação do jornalismo contemporâneo e não uma sua força. Mostram como a retórica da referência e da respeitabilidade, assim como a deontologia, ficam à porta dos sítios em linha considerados, na prática, um local menor onde os jornais de referência se tornam num repositório de lixo.

José Pacheco Pereira in Abrupto - versão do Público de 12 VI 10

vamos aí...

Porto

do amor

E o que te posso dizer do amor senão que é este jogo em que tu avanças as peças, e eu dito as regras, quando não é o contrário que acontece, e eu avanço as peças, e tu ditas as regras? É o contrário do xadrez, porque não há tabuleiro, nem lugar para onde possamos deitar as peças que vamos comendo; temos de as guardar, de viver com elas, de as carregar, essas peças comidas, mortas, como se fossem parte da nossa alma, e nada do que fizermos nos libertará desse peso que só serve para atirarmos um ao outro com os movimentos errados que fizemos, e aproveitar a distracção do outro para fazer as movimentos que nos irão fazer comer o que resta para comer, até não sobrar mais nada de nós, e ficarmos um com o outro, na secura absoluta de não termos mais nada a não ser esse fardo que nos deixamos um ao outro. Sim: é esta a minha herança; e é esta a herança que me deixaste. A única herança que não dá para partilhas, nem para dissiparmos, e que faz com que sejamos cada vez mais o que resta de nós nas nossas sombras.

Nuno Júdice

o mundial por aqui (oitavos)

Alemanha - Inglaterra (4-1)
Um Rooney caído na desgraça é a previsão apocalíptica do anúncio da moda, e contudo parece que a História está mesmo em África para ser reescrita... 44 anos depois são os alemães que se ficam a rir. Parece que desta vez foi mesmo golo, todavia parece que não foi assinalado. As consequências são na realidade impossíveis de quantificar, pois se é verdade que animicamente a recuperação dum 2-0 seria importante, por outro lado em momento algum do jogo houve superioridade dos ingleses. Este jogo mostrou novamente duas ideias essenciais: que me deixei enganar pela muito boa qualificação dos britânicos, e que os alemães estão muito fortes. Defendem bem e atacam melhor. Lahm, Ozil e Mueller estão em grande forma e neste momento teriam certamente lugar no 11 do Mundial... mas ainda falta o mais difícil aos alemães.

Argentina - México (3-1)
O México não era o favorito para este jogo mas entrou a todo o vapor, com dois remates muito perigosos, a por os sul-americanos em sentido. A bola circulava rápido entre os jogadores argentinos e mexicanos e o golo podia surgir para qualquer equipa... calhou ser pelas mãos da de arbitragem. Mais um erro clamoroso dos (antigos) senhores vestidos de preto, e se este foi evidente. Poderia voltar à questão da justiça mas nem vale a pena dizer mais nada porque Osorio também decidiu errar e deu o segundo à Argentina. A partir dai ficou muito difícil a reviravolta para os mexicanos, mas não o bom espectáculo e a garantia de lutarem até ao fim pelo golo. Ele lá surgiu e podia mesmo ter vindo acompanhado com outro, só que não era dia para ter sorte. A Argentina prepara-se para a sua primeira final neste Mundial e confesso-me expectante e na dúvida, por um lado os sul-americanos eram uma das minhas selecções do coração, por outro a equipa alemã tem praticado um futebol de grande qualidade. Torço por quem?

domingo, junho 27, 2010

#5... a chegar...

a PÓLIS no PROJECTO10
Realização e Montagem: João Manso
Imagem e Direcção de Fotografia: Armanda Claro
Áudio: Zé Pedro Alfaiate

o mundial por aqui (oitavos)

Uruguai - Coreia do Sul (2-1)
Os sul-americanos apresentam um dos melhores ataques e uma equipa que tem dado prazer de ver jogar. Não foi assim hoje, ou então cresceu e percebe que na fase a eliminar há que ter mais cabeça e não subir feitos loucos. Marcaram primeiro e depois recuaram. Os asiáticos bem que tentaram mas na primeira parte não conseguiram criar perigo de maior. Na segunda metade veio o empate e novamente os uruguaios se adiantaram, para logo de seguida recuarem. Fica uma certeza, este Uruguai também sabe ser matreiro e caminha a passos largos para as meias-finais.

EUA - Gana (1-2 a.p)
Os americanos ainda deviam estar meio atordoados por terem ganho o grupo e passado à frente da Inglaterra, evitando os favoritos alemães, pois só assim se entende como os africanos entraram melhor e cedo marcaram. Dai para a frente houve um jogo aberto mas sem muitos lances de perigo. O empate chegou na etapa complementar e pareceu que não houve mais forças das duas equipas para mudarem algo antes do prolongamento. Os africanos voltaram a entrar melhor e o segundo golo de Gyan bastou para levar de vencida a equipa de Donovan. Yankees go home, mas com a sensação de terem feito o melhor possível, e isso no mundial que decorre já é bem bom e motivo de orgulho.

pelas tardes demoradas de Verão

Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essência das coisas. Há um destino igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas — uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Bernardo Soares

street spirit (fade out)


Radiohead

o mundial por aqui (as decisões dos grupos E-H)

Paraguai - Nova Zelândia (0-0)
Eslováquia - Itália (3-2)
Os sul-americanos têm realizado bons jogos e este era o típico jogo para mais do que a vitória conseguirem uma goleada e aumentarem os níveis de confiança. Infelizmente não foi o caso e a partida resultou numa tremenda seca de 90 minutos que só o apito final trouxe alegria. O Paraguai passou em primeiro no grupo, mas este último jogo mostrou que não é uma equipa sempre pressionante e com mentalidade vitoriosa.
Se calhar vai mesmo ser o campeonato das surpresas... pelo menos já se vai fazendo história ou a França e a Itália não tivessem sido as primeiras selecções campeãs e vice a não passarem dos grupos no mundial seguinte. Categoria, espectáculo, cinco estrelas. Quanto ao último jogo basta dizer que não foi dos melhores jogados mas foi certamente dos mais emotivos. Que intensidade! E o segundo golo italiano... mamma mia! Com isto passam os eslovacos à fase seguinte. Justo? Talvez não mas há dias assim...

Camarões - Holanda (1-2)
Dinamarca - Japão (1-3)
Com Holandeses já garantidos nos oitavos e Camarões já de regresso a casa deveria ser um jogo mortiço. E foi. Acabou por servir para a equipa de Etoo mostrar alguma dignidade e os europeus rodarem jogadores. A história ia-se fazendo à mesma hora no outro jogo com uma Dinamarca que nunca conseguiu imprimir o seu jogo de contra-ataque que já tantas vezes surtiu efeito (Portugal, Suécia, Camarões). E falhou porquê? Porque se treinam muito bem os livres na terra do Tsubasa. Dois livres à entrada da área e dois golos por dois jogadores diferentes. O resto foi casualidades decorrentes dessa vantagem. O Japão passa merecidamente à fase seguinte mas verdade seja dita muito provavelmente só vai fazer figura de corpo presente contra o Paraguai... ou não.

Portugal - Brasil (0-0)
Coreia do Norte - Costa do Marfim (0-3)
Os africanos entraram fortes e já se pensava numa goleada volumosa que pudesse perigar a posição de portugueses no grupo mas a realidade foi outra e o empate entre os povos irmãos manteve-se. Fica também fora-de-jogo a tese de uma combinação entre as duas equipas tal a rispidez dalgumas jogadas. Costa marfinenses despedem-se com o que imagino seja uma sensação de que apenas faltou alguma coisa. É erro. Estava era um Eriksson a mais... e mais uma derrota dele com os portugueses. Quanto aos dois primeiros e à sua ordem não há muito a dizer. Era apenas e só o esperado e prevísivel.
Espanha - Chile (2-1)
Suiça - Honduras (0-0)
Os suiços raramente sofrem golos, mas também marcar está quieto. E se precisavam... Não o conseguiram e ficaram de fora do mundial apenas uma semana depois de bater a campeã europeia. As Honduras ficam com um dos papéis de grande desilusão deste torneio, só batida pela França e Itália. O Chile apesar de passar em segundo foi, de longe, a melhor equipa neste grupo e só os nervos, e uma paragem mental do guarda-redes impossibilitou o afastamento espanhol. Espanha podia e deveria estar mais forte. Falta algo? Ou só está a algo a mais como o cansaço acumulado?

quinta-feira, junho 24, 2010

é hora da Pólis

o mundial por aqui (as decisões dos grupos A-D)

México - Uruguai (0-1)
França - África do Sul (1-2)
Um grupo feito de vitórias. O Uruguai está de parabéns, pois é o vencedor justo do grupo. O México pois foi claramente a segunda melhor equipa e fez alguns bons jogos que lhe permitiriam sonhar com o futuro se ele não passasse pelos pés de Messi. A África do Sul está de parabéns porque fez um último bom jogo e porque entrou para a história como a primeira equipa a não passar a fase de grupos. A França está de parabéns porque mostrou a muitos países experientes e menos experientes como não se prepara uma competição. Tudo começou com a mão de Henry, seguiram-se as prostitutas de Ribéry e Benzema, as críticas da secretária de estado do desporto aos luxos da selecção, depois os insultos a Domenech, os empurrões no avião, a discussão agressiva entre Evra e um preparador físico, a expulsão no último jogo, um Saltillo mas ao mais alto nível. Acima de tudo uma lição. Não posso esperar pela conferência de imprensa desta semana... ah e no meio disto tudo Sarkozy prometeu um amplo debate sobre o futebol em França. Deve servir de muito...

Grécia - Argentina (0-2)
Nigéria - Coreia do Sul (2-2)
Sul-Americanos, pois claro, e asiáticos. A Grécia faz um mundial fraco, mas isso também não é surpresa nenhuma. Há que ver que os deuses só podem estar loucos uma vez na vida duma selecção. A Nigéria é hoje uma equipa muito pior que a dos anos 90, no entanto e apesar de ter mostrado alguns bons pormenores devia ter aproveitado melhor o apoio que teve nas bancadas. Sul coreanos apresentaram uma boa equipa e merecem a passagem, mas sejamos sinceros não merecem muito mais do que isso. Finalmente, a Argentina... se isto é assim com Maradona imagino com um treinador à séria. Ao menos coração e garra não faltará... Um candidato.

Eslovénia - Inglaterra (0-1)
Estados Unidos - Argélia (1-0)
A história faz-se de momentos infelizes e ridículos, este grupo não foi assim tão diferente. A Eslovénia partiu em primeiro no grupo para a última jornada e a Argélia como um conjunto de individualidades em tudo superiores aos EUA, e contudo ambos souberam estragar tudo. Creio que não é difícil apontar este grupo como a principal surpresa até ao momento... Estados Unidos em primeiro, a sério? Realmente foram os mais pragmáticos, e até podiam ter levado 9 pontos... Inglaterra pode vir a ser uma das favoritas como vaticinei no início do campeonato mas agora já eu duvido mais. Muito mais. Falta-lhes algo... Barry no meio-campo? Dificilmente passam o próximo jogo. O Zahovic era um excelente jogador. Que visão e leitura de jogo, mas pouco percebe de futebol de sofá, porque se percebesse viria que até havia ali equipa mas faltava experiência e cabeça. Tal e qual como no caso da Argélia, que podia ter feito tanto e sai apenas com um ponto. E vão 8 jogos sem marcar golos. E assim complica. Muito.

Austrália - Sérvia (2-1)
Gana - Alemanha (0-1)
De que serve ganhar à Alemanha e pôr meio mundo a desconfiar do valor dessa equipa se depois não se ganha a uma das potências do rugby? Claro que a Sérvia pode (e deve) queixar-se do árbitro, mas não foi só isso. Faltou... maturidade e experiência. Onde é que já vi isto hoje?
É possível viver sem Ballack? É, mas não é a mesma coisa. E nem é muito pior. É só diferente. Sobretudo porque surge o sempre tapado Ozil, e porque Lahm é um senhor capitão. Perde-se um jogador e ganha-se uma equipa. Para eliminar a Inglaterra chega perfeitamente, e depois disso?
Quanto ao Gana, será muito provavelmente a única equipa africana a seguir em frente e merece-o. Como já o merecera há quatro anos, e porquê? Porque é a mais equipa de todas elas. Porque tem muitos jogadores tecnicamente evoluídos e um maior equilíbrio táctico. Não me surpreendia assim tanto se ganhasse aos Estados Unidos.

estou onde o verso faço

Estou onde o verso faço, e erro o verso
Porque a fuga do tempo, ao núcleo escasso,
Tira a carne do fruto até ao osso.
Rilho no fel o dente e o desafio,
Tal, vagaroso, o bicho em jaula morde,
No travor do caroço, a memória do mel.

José Saramago

o mundial por aqui (modo rapidinha)

Portugal - Coreia do Norte (7-0)
Portugal ganhou. E foi por muitos. O jogo, e ao contrário de 77% da população portuguesa, só vi mais tarde e posso dizer que foi  bastante positivo. Houve boas trocas de bola e algumas jogadas ofensivas foram muito bem desenhadas. Mas foi contra a Coreia (e a do Norte). Destaco: Ricardo Carvalho, Raul Meireles, Tiago e Fábio Coentrão. Ah... e finalmente vi um capitão de equipa no gesto do Ronaldo da entrega do seu prémio .

Chile - Suiça (1-0)
Estes sul-americanos (e tal como todos os restantes) estão a jogar muito. Até o incipiente nº10 em Alvalade mostra todo o futebol que o levou à Europa. A equipa joga bem e cria perigo. É um prazer vê-los jogar. E é uma alegria ainda maior por derrotarem uma Suiça tão italiana.

Espanha - Honduras (2-0)
Villa. Dois golos, um excelente jogo, e uma agressão que o podia deixar fora do Mundial. A FIFA foi simpática e vai deixa-lo repetir... Portugal ou Brasil que se queixem depois. Jogo muito fácil para nuestros hermanos, como serão todos aqueles em que um adversário procure jogar igual para igual. O grupo está em aberto... porque a Espanha precisa mesmo de ganhar e se o Chile perder... será que os terceiro falante de espanhol vai ajudar à festa hispânica?

segunda-feira, junho 21, 2010

olhó verão...


Summertime by Ella Fitzgerald

aimer

Aimer est, dans son essence, le projet de se faire aimer.

Jean-Paul Sartre in "L’Etre et le néant"

quando um homem como Saramago nos deixa

Diz a lenda o que a história não confirma: que, no tempo em que Sófocles morreu, a Atenas que tanto o venerou e que tão venerada foi por ele se encontrava cercada pelos espartanos. A aldeia natal do dramaturgo encontrava-se então fora de portas, inacessível aos atenienses. O deus do teatro apareceu então nos sonhos de Lisandro, o general das tropas sitiantes. Ordenava que abrissem alas para dar passagem ao cortejo funerário. Lisandro obedeceu sem hesitar. Todos, atenienses e espartanos, se inclinaram com vénia e com lamento, ante o corpo do grande criador. Não consigo fazer elogios fúnebres. Digo “não” ao louvor de circunstância. Palavras e palavras vão cair com um grande barulho neste dia e todas elas ficarão aquém da grandeza deste homem. Que houve entre nós um luminoso afecto é coisa que me diz respeito a mim e sobre a qual não tenho que escrever. Que tenho um pensamento de triunfo é o que eu gostaria de explicar. Porque há aqui triunfo: a plenitude de um cidadão inteiramente dedicado à sua polis e aos seus contemporâneos. E a plenitude de um “poeta”, daquele que faz obra e é por ela tornado glorioso. É o homem na sua existência absoluta. O homem que, sabendo-se mortal e não acreditando num Além, se empenha soberbamente em viver e criar com um fulgor e com uma coragem que os crentes desconhecem ou receiam.
Para além do meu preito pessoal, que não se há-de resumir a depoimento, eu imagino aqui uma cidade que o leva em ombros – e os inimigos a abrirem caminho e a curvarem-se. Se os gregos inventaram esta lenda, é para que a memória a active quando um homem como Saramago nos deixa.

Hélia Correia

nota: A Espanha, e os seus mais altos representantes, mais do que prestar apenas a homenagem à figura de Saramago soube-nos dar uma lição e ensinar os políticos portugueses... Brilhantes as declarações de Rajoy e Zapatero sobre o falecimento do escritor português. Mas, quando digo brilhantes quero mesmo dizer isso... não foram apenas mais uma "chapa 3" tirada do baú das etiquetas e boas maneiras. Assim, na forma como se tratam as suas figuras, se mostram as diferenças de cultura entre povos. Por cá tivemos apenas a escritora Hélia Correia com este belo e sentido apontamento.

aonde vai a cor?

guilharte 10

duas opiniões. e mais uma.

Muitas presenças para uma ausência
Estive no cemitério do Alto de São João, na despedida a José Saramago. Vi escritores, vi compagnons de route, vi políticos, vi muitos leitores com livros de Saramago erguidos no ar (como flores, como punhos), vi milhares de rostos anónimos, o povo de Lisboa agradecido ao grande escritor. Só não vi o Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa, incapaz de interromper as férias familiares nos Açores para honrar a memória do único Prémio Nobel da Literatura no universo da língua portuguesa. No fundo, é uma questão de coerência, já que foi uma decisão absurda de um governo liderado por Cavaco Silva (alguém que nunca se importou de exibir as suas limitações culturais) a empurrar Saramago para Espanha. Mas não deixa de ser uma vergonha.


Ratos e Homens

José Saramago apenas precisou de ter na despedida quem lá foi: os leitores e os que partilhavam as suas ideias políticas. Os que não foram, não fizeram falta, como se costuma dizer, e é nestas ocasiões que a dimensão de um Homem se vê. O pequeno português Cavaco Silva não se distanciou um milímetro de quem era quando permitiu que outro ainda mais pequeno português, Sousa Lara, vetasse o Evangelho Segundo Jesus Cristo para um prémio literário. Continua igual a si próprio, e alegremente abdicou de transcender a sua pequenez e o mundo a que pertence. Para atingir esta transcendência, bastaria desempenhar o papel a que é obrigado enquanto principal figura do Estado: ir ao funeral do maior vulto da actual literatura portuguesa, um dos poucos portugueses que olharam para lá do horizonte limitado do país. Como Presidente da República, falhou, mas ninguém é perfeito. Contudo, ao falhar como Presidente, a tal figura simbólica que deveria estar acima das ideologias e representar todos os portugueses, mostrou sobretudo o seu valor humano; encarcerado nos seus próprios rancores, é a imagem plena de uma derrota: anão enfeitado procurando uma luz mínima que projecte uma sombra maior que exiguidade do corpo permite. Pensando bem, é perfeitamente adequado que este homem seja hoje, nestes tempos de crise espiritual do país, de perda, o nosso representante máximo. Uma boa continuação de férias.

E se há quem ainda diga que não faz diferença estar lá um homem de direita, sem respeito pela cultura e que não sabe estar nem valorizar o nosso país... eu respondo "Que la chupen y la sigan chupando" porque faz mesmo uma enorme diferença. 
Saramago não era de todo o meu escritor português preferido mas era uma referência incontestável da literatura nacional e internacional, além de ser indubitavelmente melhor que o autor de qualquer rótulo de cereais que parecem ser a única leitura do sr. avô de visita aos Açores.

Vincent


by Tim Burton

o mundial por aqui (modo rapidinha)

Alemanha - Sérvia (0-1)
Lineker revisitado ou como um cartão pode deixar uma favorita vermelha de raiva. A prematura expulsão de Klose condicionou todo o jogo e deu mais uma pincelada de surpresa neste mundial. A Sérvia jogou bem, mas sinceramente ficou longe de merecer completamente a vitória. Um empate aceitava-se mas ao menos assim ganham as casas de apostas...

Eslóvenia - EUA (2-2)
Este jogo poderia entrar facilmente para um manual de como jogar bem durante 45 minutos, começar a ganhar e desbaratar tudo no resto do jogo. Que diferença... e sobretudo graças à intervenção do técnico americano que reforçou o meio-campo e assim passou a ganhar as segundas bolas e a pressionar mais os laterais eslovenos. Acima de tudo, um destaque: Donovan. Ele é realmente um jogador!

Argélia - Inglaterra (0-0)
Confesso que apostava numa surpresa inglesa neste mundial mas eles decidiram-me fazer uma surpresa.. têm sido um deserto de ideias e quando jogas contra uma equipa que conhece bem o deserto... Os argelinos tinham tudo para ganhar este jogo mas são no mínimo burros. Jogadores muito dotados tecnicamente que simplesmente desconhecem o conceito de jogar em equipa e desperdiçam jogadas atrás de jogadas. Talvez se tivesse sido o Egipto...

Holanda - Japão (1-0)
Mais uma vez e tal como no primeiro jogo de ambas tinha expectativas de ver estas duas equipas a jogar. Holandeses pelo futebol espectáculo que mostram e nipónicos pela boa postura defensiva. Este jogo não sendo grande coisa, não me desiludiu por completo. Jogo bem disputado na primeira parte e com ligeiro ascendente holandês. A segunda parte começou - e tal como havia sido com os dinamarqueses - com um golo "estranho" (Sjneider rematou e o GR meteu-a lá dentro). O resto do jogo foi bem aberto e garante desde já um desafio final bem interessante entre asiáticos e dinamarqueses.

Camarões - Dinamarca (1-2)
Não há volta a dar... as equipas africanas estão a desiludir. Entrou melhor a equipa de Samuel Etoo mas nem jogando quase em casa (era diferente que tinham muito maior percentagem de adeptos) conseguiram manter a frieza e jogar usando o resultado a seu favor. A segunda parte foi um recital de ataque continuado africano sem resultados e contra-ataques perigosos dos dinamarqueses... ah e lembrei-me do jogo deles contra Portugal mas deve ter sido só coincidência...

Eslováquia - Paraguai (0-2)
Olá, eu sou o Paraguai e também estou aqui para fazer mossa. Já tinha ficado com ideia que o empate com a Itália tinha sido lisonjeiro,mas depois de ver este jogo essa percepção virou certeza... os sul-americanos (e tal como os restantes) têm equipa para fazer estragos e ir longe. Imagino mesmo umas meias-finais em espanhol com sotaque... Quanto ao jogo, nem é que os europeus tenham estado muito mal... mas a equipa de Cardozo esteve realmente vários furos acima e mostra bem como se troca bem a bola e se controla os tempos de intensidade de jogo. Um prazer.

Itália - Nova Zelàndia (1-1)
Reza a lenda que a squadra azzura faz sempre péssimas fases de grupo e depois começa a vencer, mas também se diz que nunca joga bem depois de ganhar um título. Qual será a história desta vez?
Não sei, confesso. Porém, a verdade é que os fraquinhos all whites conseguiram um ponto contra o campeão do mundo e estiveram mesmo a ganhar. Certamente que foi um dia kodak, e só não foi mais porque o árbitro facilitou no penalty italiano...

Brasil - Costa do Marfim (3-1)
Se o penalty italiano foi discutível, tal como tem sido algumas arbitragens deste mundial, nada se compara ao francês que se apresentou em campo nesta noite. Uma total vergonha. A dualidade de critérios só não foi maior porque permitiu aquele golo a duas mãos de Fabiano, mas de maneira geral permitiu tudo aos africanos. E a expulsão do Kaká? E o penalty sobre Drogba poucos minutos antes? Foi um vendaval de asneiras que só se compreende por vir dum conterrâneo do Anelka. Para a história fica a qualificação do Brasil e um jogo um pouco mais bem conseguido do que contra os norte-coreanos e a péssima arbitragem, e o resto é conversa de café.

sábado, junho 19, 2010

O homem que se levantou do chão

Como é próprio do que é grande, há para todos. Aqui, de José Saramago, só ele, o homem. Logo, para começar, Jerónimo Melrinho: "Sou neto de um homem...", contou Saramago, contando-se. No dia que partiu para o hospital, o avô Jerónimo desceu à horta e despediu-se das árvores. Abraçou-as, uma a uma. O Greenpeace faria disso um anúncio de página inteira. Mas, como vos disse, fico-me pelos homens. Depois, o jovem serralheiro, trabalhando num hospital conventual, na grande cidade - e o moço escapando para a biblioteca onde lia tudo. Um literato faria disso uma tese sobre os heterónimos de Pessoa, já o jovem que lia a pulso guardou Ricardo Reis para, mais tarde, Rua dos Sapateiros abaixo, o passear com Pessoa. José Saramago e escrever, o destino estava decidido, mas havia que fazer pela vida: jornalista. Aos 53 anos, porém, fechou-se-lhe a profissão. Outros iriam contar o tempo para a reforma, ele agradeceu ao destino e caminhou para a glória. Depois, Levantado do Chão. Sobre isto: homens que se levantam do chão. Depois, aos 63, eles encontraram-se e ele, com ela, pararam os relógios lá de casa, às 4, a hora do encontro. Aos 85, quando, que mais não seja por prudência, outros se recolhem, ele pôs-se a vociferar contra Deus. Repito, deixo a outros o estilo e as causas. Mas não perco, fico-me pelo homem. Que homem! 

Ferreira Fernades in DN, 19 VI 10

sexta-feira, junho 18, 2010

Livraria Trama fecha amanhã com festa de entrada livre

A partir da próxima semana a livraria Trama vai deixar de existir. O número 25 da Rua São Filipe Nery vai deixar de albergar livros que podiam ser folheados ao sabor do café e da música.

Os dois andares da livraria, inaugurados em 2007, pretendiam dinamizar a vida cultural ali para os lados do Rato, em Lisboa. Conseguiram. No entanto, a crise bateu à porta e a Trama viu-se obrigada a anunciar o fecho das portas. Apesar disso, os fundadores da livraria deixam o aviso no blogue: "A Trama não vai acabar. Vamos mudar de casa, começar de novo, fazer tudo outra vez."

João Tibério, cliente assíduo da Trama, lamenta o fecho: "É uma livraria de proximidade. Quem lá estava percebia de literatura - ao contrário do que acontece nas grandes superfícies -, isto para não falar na boa localização. Será que não há espaço para livrarias assim em Portugal?"

Carlos Loureiro, funcionário da Pó dos Livros, afasta a hipótese de fecho desta outra livraria, contrariando boatos, mas confessa que "é muito difícil fazer concorrência às grandes superfícies". Uma das razões que este ano tornaram a vida das livrarias portuguesas mais complicada foi o prolongamento da Feira do Livro. "Foi uma maldade que a APEL fez. Depois da Feira do Livro há sempre um período de ressaca: as pessoas fartam-se de comprar livros nessa altura e demoram algum tempo a voltar às livrarias. Com mais uma semana de feira aumentaram essa ressaca."

Se quiser despedir-se da Trama, sábado às 21h30 há festa com entrada livre e consumo mínimo de um livro.

Diana Garrido in Ionline, 18 VI 10

José Saramago (1922-2010) - algumas reacções

«O Presidente da República, Cavaco Silva, recordou hoje José Saramago como um “escritor de projecção mundial”, sublinhando que o Nobel português “será sempre uma figura de referência” da cultura nacional.» Ler no Público.

«O primeiro-ministro considerou hoje que José Saramago foi “um dos grandes vultos” da cultura, dizendo que o país se “orgulha” da sua obra literária e que a sua morte constitui uma perda para a cultura nacional.» Ler no Público e jornal i.

«José Saramago "deixa um legado poderosíssimo do escritor" que foi "a afirmação da literatura portuguesa na cena internacional como provavelmente antes dele nunca tinha sido conseguido", disse hoje a ministra da Cultura Gabriela Canavilhas.» Ler no Público e no jornal i.

«O ministro dos Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão, disse hoje que a morte de José Saramago "representa uma perda para a cultura portuguesa".» Ler no Público.

«O presidente do PSD, Pedro Passos Coelho, referiu hoje que recebeu a notícia da morte de José Saramago com “profunda consternação”, destacando a “obra literária intemporal” do escritor e Nobel português.» Ler no Público.

«O CDS-PP assinalou hoje as suas discordâncias “ideológicas” com o escritor José Saramago, considerando, contudo, que o prémio Nobel “contribuiu decisivamente” para “dignificar” e “divulgar” a língua portuguesa por todo o mundo.» Ler no Público e no jornal i.

«O líder parlamentar do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza, lembrou hoje José Saramago como “um escritor sempre insubmisso” no estilo e nas causas que defendeu e um homem que “combateu a cegueira social”.» Ler no Público e no jornal i.

«José Saramago morreu hoje aos 87 anos e as reacções à morte do escritor têm chegado de vários nomes do mundo da cultura nacional e internacional.» Ler no Público.

«O fadista Carlos de Carmo, que deu voz a poemas de José Saramago, hoje falecido, afirmou que se sente “profundamente consternado”.» Ler no jornal i.

«"O que mais admirava em Saramago era a sua vitalidade e a sua combatividade de homem que acreditava em causas", declarou à Lusa o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Ler no jornal i.

«A Câmara da Golegã, onde nasceu José Saramago, colocou hoje a bandeira municipal a meia haste para lamentar a morte do escritor, um “génio literário” considerado “um dos mais ilustres filhos do concelho”.» Ler no jornal i.

«O actor e encenador Diogo Infante lamentou hoje a morte de José Saramago, que recebeu com “tristeza”, por considerar o escritor “um símbolo de identidade nacional”, independentemente de se gostar ou não da sua obra.» Ler no jornal i.

«A professora universitária Ana Paula Arnaut, especializada na obra de José Saramago, disse hoje à agência Lusa que a morte do escritor traduz “uma grande perda para a literatura portuguesa”.» Ler no jornal i.

«O escritor José Saramago “era um homem controverso, como todas as grandes personalidades, mas cultivava uma proximidade discreta e secreta com Portugal”, afirmou hoje o ex-ministro Manuel Maria Carrilho à Agência Lusa em Paris.» Ler no jornal i.

«A morte de José Saramago é "um momento de grande pesar e de grande perda para a literatura e a cultura portuguesa", considerou hoje, em declarações à agência Lusa, o escritor José Luís Peixoto.» Ler no Diário de Notícias.

«A ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima considera José Saramago, hoje falecido, "um escritor marcante da segunda metade do século 20", com "um lugar muito particular na literatura portuguesa".» Ler no Diário de Notícias.

«A escritora Lídia Jorge lamentou hoje, com grande comoção, a morte de José Saramago, definindo-o como "um escritor genial" e também "um exemplo de coragem, pela sua coerência".» Ler no Diário de Notícias.

«O reitor da Universidade Aberta, Carlos Reis, lamentou hoje a morte de José Saramago que, "embora esperada", foi um "choque", já que, além de "leitor e grande admirador" do Nobel da Literatura, era também seu amigo.» Ler no Diário de Notícias.

«O escritor Mário Cláudio afirmou hoje que José Saramago é "uma figura indiscutivelmente maior das nossas letras", considerando "triste e inesperada" a sua morte.» Ler no Diário de Notícias.

«O presidente da Associação Portuguesa de Escritores, José Manuel Mendes, referindo-se ao falecimento hoje, em Lanzarote, de José Saramago, 87 anos, afirmou que se perdeu "uma referência luminosa".» Ler no Diário de Notícias.

«O editor e amigo de longa data de José Saramago, Zeferino Coelho falou em instantes com a SIC e considerou Saramago deixava um legado, um 'monumento': "Saramago deixa esse monumento como o Eça ou o Garrett", sustentou.» Ler no Correio da Manhã.

«O secretário geral do PCP, Jerónimo de Sousa, manifestou hoje “profundo pesar e enorme mágoa” pela morte de José Saramago, militante comunista desde 1969, e considerou que o escritor “merece a homenagem” do luto nacional.» Ler no jornal i.

um adeus

O barco ficou balouçando na água turva, e ali perto, como se o espreitassem, afloraram de repente os olhos globulosos de uma rã. O rapaz olhou-a, e ela olhou-o a ele. Depois a rã fez um movimento brusco e desapareceu. Um minuto mais e a superfície do rio ficou lisa e calma, e brilhante como os olhos do rapaz.

José Saramago in Objecto Quase

o mundial por aqui

Argentina - Coreia do Sul (4-1)
Os jogadores estão lá e todo o mundo a considera uma das favoritas, o que falta então? Marcar mais golos? Jogar bem? Seja feita a vossa vontade respondeu o dios Maradona.

Os sul-americanos entraram bem e Di Maria parecia que finalmente chegou à África do Sul, depois de um primeiro jogo muito apagado.  Aos 16 e 33 minutos os dois primeiros golos. Livres descaídos sobre a lateral e golo... A partir daí a Argentina perdeu um pouco de ritmo e a Coreia de Sul chegou ao golo já nos descontos num lance onde Demichelis parecia pensar que já estava no balneário.

O reatamento trouxe pouca velocidade e ainda menos lances de perigo e só a partir dos 70 minutos o jogo reiniciou realmente. Aos 76' e 80' Higuaín - que tem sido muito criticado - marcou mais dois e conseguiu o primeiro hat-trick do mundial. Merecido!

Tal como o Uruguai, também a Argentina parece crescer de jogo para jogo e já oferece espectáculo e golos.

Grécia - Nigéria (2-1)
Jogo importante para as duas equipas que se perdessem ficavam irremediavelmente arredadas.

O jogo começou durinho e mal jogado. Aos 16 minutos Uche marcou um livre para os africanos e a bola só parou lá dentro. A partir daí só uma anormalidade poderia trazer a Grécia de volta ao jogo... Kaita lembrou-se de agredir um jogador helénico e pôs a sua equipa em risco logo aos 34'. Nem dez minutos depois os europeus chegaram ao golo do empate e a segunda parte prometia (nem que fosse esforço e muita luta).

Assim foi a segunda metade.. muito trabalho, muita táctica, pouco jogo. E até o golo aos 71 minutos, por Torosidis, só aconteceu porque o guarda-redes nigeriano esteve mal, muito mal.

Foi um jogo fraco e sem interesse de maior. Mas, acima de tudo foi mais um jogo que fica marcado por mais uma expulsão parva...

França - México  (0-2)
Je suis Domenech! E a mim ninguém questiona parece ele dizer a toda a hora. Um perfil em tudo semelhante ao de Queiroz e uns resultados em tudo parecido.

Já aqui havia dito que o México prometeu muito no primeiro jogo e a França nada. E assim foi. 
A França teve mais posse de bola mas o perigo vinha sempre dos contra-ataques mexicanos. O árbitro procurou ser figura de destaque e houve alguma injustiça na amostragem dos cartões amarelos. O intervalo chegou com um empate discutível.

Na segunda parte só deu México. O primeiro golo surge no limite do fora-de-jogo mas há muito que americanos prometiam a sua chegada. Pelo contrário, o jogo dos europeus era deprimente e vazio de ideias. No ataque e na defesa, como se viu no penalty de Abidal que resultou no golo de Blanco aos 79 minutos.

Acabou o jogo. Os mexicanos faziam a festa e os franceses contas à vida. Com apenas um jogo pela frente é impossível aos europeus não relembrar o mundial de 2002, e fica evidente que sempre que a França sai da Europa joga pouco e mal. Talvez por isso o sr. Platini tenha feito os possíveis para dar o Europeu aos seus compatriotas...

quinta-feira, junho 17, 2010

De 'rating' e de 'ranking'

O acrónimo PIIGS cheira a porco mas o Financial Times já o pôs em título. Reúne Portugal, Ireland, Italy, Greece e Spain (PIIGS), em inglês como o porco que ele sugere: são os países europeus com défice demasiado grande. Mas isso são os financeiros a falar, gente patarata, como se viu na prevenção da crise, e gente venal, a mando de uma qualquer agência de rating (por sua vez a mando de um qualquer Warren Buffet). Mas Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha não vos sugerem coisita mais actual e popular? Nem mesmo acrescentando a Inglaterra, que na noção mais lata do acrónimo, PIIGGS (mais um G, de Great Britain), também entra no lote dos países endividados? É, estão aí quatro dos oito países com melhores classificações mundiais no rating, perdão, no ranking da FIFA: Espanha (2.º), Portugal (3.º), Itália (5.º) e Inglaterra (8.º). E, já que estamos em matéria em que todos somos entendidos, vamos confirmar se esse ranking corresponde à realidade do Mundial 2010. Tudo ao lado: Espanha perdeu e Portugal, Itália e Inglaterra empataram com equipas reputadas mais fracas. Como a Grécia também perdeu e a Irlanda nem ao Mundial foi, a melhor conclusão é que PIIGGS é acrónimo justo, se falarmos de países maus... de bola. Está aí um nicho de mercado para as agências de ratings: além do Buffet (o da guita), podiam trabalhar para o Blatter (o da FIFA).

Ferreira Fernandes in DN, 17 VI 10

indifference


Ben Harper e Eddie Vedder

AN UNPREPARED SHOW



sábado à noite, a partir das 21h30, haverá pela última vez uma espécie de concerto improvisado: eu leio e cantarolo, o Ricardo toca clarinete baixo e o Bruno Pernadas guitarra.

é a nossa despedida destes dois andares... venham cá ter, sim?

a entrada é livre mas quem comprar um livro leva um beijinho do Irmão Karamazov, que irá aparecer lá para o final da noite.

via aTrama

Swatch lança modelo do Mundial em exclusivo para os mercados suíço e espanhol

O slogan diz: «Estava mais que na hora de os espanhóis perderem um jogo»
via BnRB

o mundial por aqui

Honduras - Chile (0-1)
Faltaram dois Suazos para este filme ficar completo. E ele faltou sobretudo às Honduras. O Chile é importante não se esquecer que passou em segundo na qualificação sul-americana e se isso não é cartão de visita?

Entrou melhor o Chile, tanto em percentagem de posse de bola como em lances de perigo e finalmente em golo. 33 minutos e primeiro (acabou por ser o único e é pena) golo. Jogada muito bonita delineada no meio, a abrir para a direita e um centro perigoso a pedir um desvio para a baliza.

O resto já se sabe... Chile, Chile e mais Chile. Que só decidiu abrandar a partir dos 80 minutos e nem assim as Honduras chegaram com perigo de maior. Em suma, os sul-americanos não são favoritos a ganhar nada neste mundial mas prometem bom futebol e alguns golos e isso já é muito.

Suiça - Espanha (1-0)
É inevitável. Juro que até procuro sempre fugir à questão da justiça no futebol mas ela aparece sempre. A questão, não a justiça.

Pode a equipa afilhada do Barcelona jogar muito e bem e não ganhar? Pode, e nem é preciso Mourinho ou um jogo à Inter, basta uns suiços muito bem organizados defensivamente e com alguma sorte no jogo controlarem as operações. Foi assim na primeira parte.

Na segunda era óbvio e expectável que o poderio e superioridade espanholas viessem ao de cima. Era suposto... mas num golo estranho ( a sério que procurei outro termo mas nada poderia descrever melhor) a Suiça marcou. E colocou ainda mais pressão na equipa que até há dois anos falhava sempre nos momentos decisivos. Viagem ao passado? Talvez, porque a partir dai a ansiedade tomou conta de nuestros hermanos e Torres ou Villa foram sombras deles mesmo.

Resultado? A primeira surpresa do mundial. Outro resultado? A Espanha continua a ser uma das favoritas e das equipas que melhor joga e jogará... só que não tem mais margem de erro.

África do Sul - Uruguai (0-3)
O respeitinho é bom e eu gosto. Quer dizer, recebem-te em casa, dão-te de comer e de beber, oferecem-te recitais de vuvuzela, afanam hotéis e jornalistas e mesmo assim tu achas que só por que és bicampeão do mundo podes humilhar uma pessoa/equipa? Eu acho mal.

Mas quem tem Fórlan. Arrisca-se a um golo como aquele aos 24 minutos. E arrisca-se a repetir a dose já na segunda parte. E, corre ainda a risco de um impressionante caudal ofensivo e umas louváveis trocas de bola e demonstração de classe só originem mais um golo. Mas, podiam ter sido alguns mais. E seria bem justo. Mau! Mas afinal há ou não justiça no futebol?

há sempre cor na solidão

Guilharte 10

o mundial por aqui

Nova Zelândia - Eslováquia (1-1)
Tinha tudo para se um jogo incipiente. Eram duas das equipas mais fracas e com menos história na prova... e contudo até realizaram um jogo simpático.

Entrou melhor a Nova Zelândia com alguns pormenores interessantes no ataque, mas a partir dos 20 minutos reagiu a equipa europeia. A primeira parte acabou por se definir pela semelhança entre as duas equipas: na ausência de golos, no domínio de jogo, número de lances de perigo, qualidades defensivas...

Os eslovacos entraram bastante melhor no reatar e Vittek marcou logo aos 50 minutos, num lance em fora-de jogo. A partir desse momento o conjunto da Oceania procurou encostar os europeus no meio campo-defensivo mas faltava-lhe qualidade. E foi assim o resto do jogo até que aos 90+3 e quando já ninguém esperava um golo caído do céu permitiu aos neo-zelandenses um empate sofrido. Há dias assim... de sorte.

Portugal - Costa do Marfim (0-0)
É dura esta sina. É pesado este fardo. Ser português para alguns é ter que arranjar uma desculpa para todos os momentos em que fomos apenas maus profissionais. É assim com Queiroz há já demasiado tempo. Há que lembrar que desde 1996 só falhámos a fase final de 1998 (com Queiroz há frente e um rol de desculpas atrás).

E depois há o facto de o futebol à beira-relva parecer diferente do que se vê no estádio ou em casa. Assim, Queiroz viu um Portugal de ataque e uma Costa do Marfim defensiva, cheia de medos e receios. Ele viu. O Deco não.

Ronaldo rematou uma bola ao poste antes dos 10 minutos e depois lembrou-se que isto de jogar muito cansa. Mais vale cair na monotonia e testar uns livres de vez em quando. Foi assim mortiço o resumo da primeira parte.

Nos segundos 45 minutos tudo mudou. Acho que o Eriksson lembrou-se dos seus tempos em Portugal e que ganhar a um senhor que durante anos dirigiu a selecção de bigode não deve ser assim tão difícil.  A segunda parte que vi só deu Costa do Marfim mas também assumo que às vezes confundo a cor das camisolas. Toda a gente sabe que os índices de daltonismo em homens são muito superiores aos dos seleccionadores.

O jogo acabou da pior maneira. Com a esperança de alguns portugueses que isto ainda pode mudar. Talvez se os africanos tivessem marcado já um golo... E eles bem que podiam porque a acreditar no sr. Queiroz nada nos garante que as chuteiras que usem são as que mostraram ao árbitro ou que a bola com que jogam é a mesma com que jogamos. Tudo é possível quando o descaramento não é pequeno. Aviso ainda que tudo o que escrevi hoje pode ser negado amanhã se receber uma chamada do mister, mas só nesse caso.

Coreia do Norte - Brasil (1-2)
Brasil, Brasil, onde vais tu Brasil? É a pergunta que muitos brasileiros fazem. Dunga não consegue satisfazer todos e isso sente-se na cada vez mais complicada relação com os jornalistas.

Uma muralha impenetrável e um contra-ataque venenoso foram estas as armas pensadas pelos asiáticos. Mas só deu Brasil na primeira parte. Os lances com maior ou menor perigo repetiam-se e parecia que o golo ia surgir mais tarde ou mais cedo.

Foi mais tarde. Já na segunda metade, aos 55 minutos, que Elano decidiu mudar o jogo. E claro que após esta situação os coreanos tiveram que abrir... a manta encolheu e Maicon abriu o livro. Que golo. Que prazer... O jogo aproximava-se do fim e eis que a equipa asiática decidiu jogar para português ver. E jogaram com boas trocas de bola e alguns lance de perigo. E no seguimento de uma dessas jogadas lá marcaram aos 88 minutos. Ficou a vantagem do Brasil pela margem minima e o coração de alguns portugueses mais apertado.

quarta-feira, junho 16, 2010

adeus vuvuzelas

“Clemence Schlieweis desenvolveu um filtro áudio para neutralizar o barulho das vuvuzelas durante as transmissões dos jogos do Mundial 2010. O sound designer tirou um sample (amostra) do barulho das vuvuzelas e criou um ficheiro de som inverso com a mesma amplitude do som original. Schlieweis conta que utilizou o filtro durante “o jogo entre a Alemanha e a Austrália, no domingo à noite, e funcionou perfeitamente”. Para funcionar correctamente, o ficheiro mp3 do filtro deve ser reproduzido perto das colunas do televisor, que levará a que os dois sons se cancelem mutuamente. O filtro está disponível para download no site de Clemence Schlieweis, por €3.” (Expresso).
Está aqui.

terça-feira, junho 15, 2010

os novos Buena Vista Social Club


No te metas a mi facebook by Esteman via André Penin

nota: afinal parece que não é bem a mesma coisa... mas não deixa de ser a modos que bom, assim dentro do género diferente e fora do normal e do expectável. digo eu. mas também aceito o contrário. ou não.

o mundial por aqui

Holanda - Dinamarca (2-0)
a.E e d.E. O jogo resume-se a esse nome: Eljero Elia. E houve claramente um antes e um depois da sua entrada.

O jogo começou com ritmo, boas trocas de bola e alguns remates perigosos de parte a parte. A Holanda entrou um pouco melhor mas rapidamente os dinamarqueses souberam controlar os alas mais perigosos e partiam rapidamente para contra-ataques perigosos. Bendtner e Van Persie, cada um do seu lado, destacavam-se com o número de jogadas e remates perigosos. Cheirava a golo...

E ele lá chegou... logo no início da segunda parte (46') num auto-golo do experiente Poulsen. O golo empolgou os holandeses mas foi sobretudo depois da entrada do jogador do Hambugo que a laranja mecânica mereceu a vitória. A partir dos 66 minutos sucederam-se os lances e perigo e só um Van Persie e depois Afellay desinspirados evitaram o avolumar do resultado. O golo de Kuyt aos 85' foi apenas a confirmação da diferença entre as duas equipas.

A Dinamarca até esteve bem na primeira parte mas na etapa complementar foi mesmo demasiado macia para uma fase final duma grande competição. Pelo seu lado, a Holanda fez um bom jogo e sobretudo coloca a pressão sobre as outras equipas e mantém os níveis de confiança elevados mas... ainda será preciso melhorar.

Japão - Camarões (1-0)
Os nipónicos são das equipas asiáticas mais experientes e com melhor qualidade técnico-táctica (mesmo não sendo muita) e não são estreantes nestas andanças. Por outro lado, os Camarões são sempre uma das favoritas na CAN e tem em Etoo a principal figura, haverá algo mais a dizer?

Há sempre algo a dizer. O jogo foi muito atabalhoado na primeira parte sem lances de destaque e só o golo japonês, aos 39 minutos, numa falha defensiva evitou a letargia no público de todo um estádio.

A segunda parte começou com Etoo em destaque num lance individual junto à linha de fundo onde passou por três jogadores e serviu um colega para o melhor lance do jogo. A partir dai seguiu-se um marasmo de ideias e jogadas de parte a parte. O Japão não queria arriscar e os Camarões não sabiam fazê-lo. A cinco minutos do fim ainda houve um remate ao poste japonês mas não havia qualidade para muito mais do lado africano. Os japoneses mostraram sobretudo boa postura defensiva e algumas noções tácticas bem adquiridas. Resultado? Um dos piores jogos até ao momento... fraco, fraco de ideias e de futebol jogado.

Paraguai - Itália (1-1)
O campeão do mundo é sempre o favorito? Talvez. Desde que não se esteja a falar da Itália. A squadra azzura é sempre alvo de críticas e nunca agrada a ninguém. Este ano o caso repete-se, mas talvez com mais razões para os críticos.

O jogo entrou murcho e sem ideias de parte a parte. A Itália um pouco melhor mas nunca o suficiente para provar e comprovar o estatuto de campeã do mundo. A chuva que foi caindo até poderia aumentar o ritmo e velocidade do jogo mas foi sobretudo uma dificuldade extra para os jogadores e parecia óbvio que um golo só poderia vir de bola parada... E aos 39 minutos um livre marcado por Torres seguiu directamente para a cabeça de Alcaraz (ex-jogador do Beira-Mar), perante o olhar feliz e contente do sr. Cannavaro que por acaso até estava ali por perto a ver o jogo. O intervalo chegou pouco depois e mais uma vez é melhor não se trazer para a mesa a questão da justiça... fica para as contas finais, ok?

A segunda parte iniciou-se com a surpreendente saída de Buffon por lesão nas costas e a verdade é que apesar da Itália atacar mais até ao seu golo aos 63 minutos, os lances mais perigosos até haviam sido dos sul-americanos. De Rossi após um canto rematou sozinho já na pequena-área para o golo do empate. A partir desse momento o jogo abriu e os lances de ataque repetiram-se nas duas balizas, sobretudo na do Paraguai.

Este resultado é claramente mais favorável para os sul-americanos mas a Itália também não fica minimamente arredada do campeonato... mas tem que jogar mais... ou pelo menos à italiana. Falta-lhe um Mourinho?

segunda-feira, junho 14, 2010

desafios do dia

12h30: Cees Nooteboom – Karen Blixen
15h00: Yasunari Kawabata – René Philombe
19h30: Italo Calvino – Augusto Roa Bastos

via Bibliotecário de Babel

o teu mapa, as nossas ruas

Guilharte 10

o mundial por aqui

Argélia - Eslóvenia (0-1)
O Egipto é provavelmente a melhor equipa africana e contudo não estará presente neste mundial. O culpado é a Argélia que lhes ganhou num jogo escaldante e isso parece um óptimo cartão de visita contra uma equipa europeia que apesar de ter jogadores e grande valia não tem historial. Zahovic garantiu que a sua selecção será uma das agradáveis surpresas do mundial mas a verdade é que a Eslovénia nunca ganhou um jogo em fases finais de mundiais ou europeus.

Os primeiros 45 minutos foram muito mastigados e sem lances de perigo de parte a parte. Parecia mesmo que os jogadores de ambas equipas tinham estado a festejar os santos até altas horas da madrugada. Destaque apenas para um remate do jogador do Nacional Halliche, aos 36' e de Birsa apenas cinco minutos depois.

A segunda parte trouxe um pouco mais profundidade ao jogo das duas equipas e foram sobretudo os argelinos que mais estiveram mais perto do golo. E quando o ascendente dos africanos parecia cada vez mais claro uma estupidez de suplente Ghezzal (duplo amarelo em 8') destroçou parte da equipa. O resto do trabalho ficou a cargo do guarda-redes Chaouchi que deve ter ficado Green de inveja do seu colega inglês e evitou novo empate no mundial.

Até ao final deu mais Argélia mas também não foi assim tanto, e deu sobretudo para ver que por vezes ganha quem não faz assim tanto para merecer. O empate seria o resultado mais justo, porém agora é evidente que a Eslovénia está mesmo na luta por um lugar nos oitavos.

Sérvia - Gana (0-1)
De um lado a jovem equipa que se qualificou para o mundial à frente de França, Roménia e Áustria, do outro a mais jovem equipa neste torneio - média de idades inferior a 25 anos. Havia esperança de um jogo rápido e com alguma qualidade. E foi esse o caso.

Gana e Sérvia ofereceram na primeira parte um jogo rasgado, em parte devido às marcações muito pouco cerradas, e com alguns lances de perigo. Os ganeses tratavam a bola melhor, com boas triangulações e movimentos de ruptura nas costas dos europeus, mas a bola insistia em não entrar.

A segunda metade iniciou com o lance mais perigoso do jogo por Gyan, a saltar nas costas do central Vidic. Estava dado o mote para uma segunda parte ainda mais viva e com alguns lances de perigo para os dois lados. O jogo só desequilibrou definitivamente quando aos 74' o já amarelado central Lukovic faz uma nova falta para cartão. A expulsão primeiro e o ainda mais disparatado penalty aos 84 minutos dão ao Gana, por intermédio de Gyan a vitória neste encontro.

A questão da justiça no futebol será sempre motivo de discórdia e discussão mas quando uma equipa que até está a jogar melhor não aguenta a pressão e comete erros infantis é justo.. que sofra as consequências... e esses foram os casos de Argélia e Sérvia.

Alemanha - Austrália (4-0)
Dizem que os germânicos estão mais fracos pela ausência do seu capitão Ballack. Dizem. E dizem que esta equipa está a milhas de distância das célebres equipas dos anos setenta e oitenta. Dizem. Eu nego tudo.Porque esta selecção soube juntar a frieza e calculismo alemão às maiores capacidades técnicas dos seus novos jogadores, e isso é um perigo para qualquer adversário.

A Austrália foi jogar para a Ásia para ter mais competição do que na Oceania, e os resultados práticos dessa mudança? Devem existir... Mas só os veremos no próximo jogo porque neste só deu Alemanha. Os primeiros golos foram aos 8 e 27 minutos mas o destaque vai para uma primeira parte de altíssimo nível onde o sobrepovoado meio-campo australiano não conseguiu conter a enxurrada ofensiva alemã. Os lances de perigo repetiam-se e era um prazer assistir ao jogo.

A segunda parte inicia com uma equipa australiana mais ofensiva e a mostrar bons pormenores, só que aos 57 minutos uma expulsão deitou as possibilidades de fazer um bom jogo (porque ganhar nunca esteve em questão) por terra. Com mais um a Alemanha voltou a acelerar o ritmo e marcou mais dois aos 68 e 70' e Klose aproxima-se de entrar na história...

O final do jogo trouxe uma garantia: a Alemanha está no mundial para fazer uma nova Conferência de Berlim, e tem condições para o conseguir.

e eu bebia da vida em goles pequenos


Pedro Abrunhosa in Quem me leva os meus fantasmas

o mundial por aqui

 Por motivos de trabalho (ou presença na barraquinha para os santos do Vai Tu) não foi possível ver todos os jogos de Sábado em directo, o relato e opinião acabam por saber um pouco a comida requentada...

Coreia do Sul - Grécia (2-0)
Primeiro jogo do dia, do mundial para as duas equipas e logo de grande importância para ambas. O vencedor esperado (se é que isso conta mesmo) é a Argentina pelo que este encontro parecia ter vital importância. A Coreia do Sul chegou ao mundial invicta na fase de qualificação e apresenta, como todos sabem, como estrela maior o jogador do Manchester Park Ji-Sung. Presente pela quarta vez e embora não tendo grandes resultados no seu historial é uma candidata a uma potencial surpresa, ainda mais quando a Grécia se apresenta cada vez mais fraca. Após o europeu ganho em Portugal a qualidade dos helénicos decaiu bastante, sintoma sobretudo do facto de não terem sabido rejuvenescer os jogadores.

A Coreia do Sul entrou melhor e logo aos 7 minutos marcou o primeiro num livre, ou como se diz neste meio um canto de mangas arregaçadas. Sinal menos para a desatenção grega na defesa. O golo trouxe alento e confiança aos asiáticos que dominaram o (fraco) jogo durante toda a primeira parte. Note-se que a Grécia só rematou com (algum) perigo aos 44 minutos, o que prova o fraquíssimo jogo dos europeus.

Rehhagel no recomeço do jogo optou por tirar o organizador Karagounis e colocar um lateral. A ideia? Talvez fechar as laterais que era o alvo preferido dos contra-ataques coreanos. O resultado? Uma entrada novamente melhor dos asiáticos e o golo aos 52'- após clamoroso erro de Vyntras - do jogador do Manchester. A Grécia só conseguiu reagir a partir dos 70 minutos mas perigo real só aos 81' com um bom remate de Gekas, que talvez merecesse mais sorte.

Este jogo mostrou claramente a diferença entre uma Coreia mais habituada a este nível e uma Grécia que partia para a sua segunda presença num Mundial. Coreia e Nigéria poderão muito provavelmente decidir entre elas a selecção que acompanhará a Argentina.

Argentina - Nigéria (1-0)
Um dos favoritos do Mundial - pese embora Maradona - contra uma das equipas africanas com maior e melhor historial prometia claramente um jogo de nível e qualidade.

Puro engano. A Argentina marcou cedo, aos 7 minutos, por Heinze, de canto e a partir daí soube controlar o jogo mas muito pausadamente. Os sul-americanos jogavam para Messi e este ia tirando da cartola slaloms que deixavam a cabeça dos africanos em água. Resultado? Higuain falhava sempre o golo. Até ao final da primeira parte só um remate perigoso dos nigerianos aos 28' contra todo um caudal ofensivo argentino.

A segunda metade trouxe um jogo mais aberto de parte a parte com os lances de golo a sucederem-se em cada baliza. Mais uma vez, os sul americanos mostraram-se muito perdulários e tiveram do lado dos africanos um adversário de grande nível. Num jogo com grande velocidade e com grande teor ofensivo faltaram mais golos para abrilhantar a festa. Destaques negativos para Di Maria - muito apagado - e Messi - demasiado individualista. 

Inglaterra - EUA (1-1)
De um lado uma das favoritas - pelo menos assim pensam os habitantes da ilha do outro lado do canal da Mancha - do outro os criadores do soccer. Um jogo que tinha tudo para ser uma injecção de moral para os ingleses até começou bem com o golo do inevitável Gerrard, aos 4 minutos. No entanto, a partir daí os americanos souberam sair a jogar e mostraram bons níveis de entendimento e um futebol envolvente. O golo? Só aos 40' após um remate mortiço de Dempsey que o guarda-redes inglês Green aproveitou para colocar dentro da baliza e trazer mais ânimo ao jogo.

A segunda parte trouxe mais ritmo e o perigo rondou mais as duas balizas. Rooney mostrou muita garra e querer mas isso simplesmente não chega num mundial, mas também não o coloca num mundo negro e deprimente como o do anúncio. Donovan, a grande vedeta americana, é claramente o patrão dos americanos e controla-lo à saída do meio-campo é dominar as movimentações ofensivas dos yankees. 

O terceiro empate do mundial é uma vez mais justo e de certa forma até previsível pela pressão que todas as equipas têm para não correr muitos riscos e comprometerem já o apuramento. É também natural que no seguimento desse receio os jogos comecem sempre frouxos e acelerem na segunda metade. Mas, uma outra certeza fica deste quinto jogo, a Inglaterra terá que fazer muito melhor se não quer ficar pelo caminho quando jogar com equipas como a Alemanha - com quem pode emparelhar nos oitavos ou quartos-de-final.

your dog dies

it gets run over by a van.
you find it at the side of the road
and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter
because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you're almost glad the little dog
was run over, or else you'd never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you're writing you
hear a woman scream
your name, your first name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

Raymond Carver

sábado, junho 12, 2010

o mundial por aqui

França  - Uruguai (0-0)
Dum lado um bicampeão mundial e doutro o finalista vencido do último. Uns, mais do que outros, vivem da fama e dum passado vitorioso que é cada vez mais longínquo, mas havia alguma esperança de um bom espectáculo.

Surpresa ou não, visto que até era capa do l'equipe, o capitão Henry começou no banco. Ou seja o impagável Domenech preferiu a mobilidade de Gouvou - e talvez como prémio pela grande época - ao historial do capitão. Desde o início do jogo a selecção europeia viveu sobretudo da criatividade de Ribery, que colocou muitas dificuldades a Maxi Pereira.
O jogo na primeira parte foi muito aguerrido e físico mas sem lances de maior perigo. O Uruguai dominava uma França retraída mas não conseguia colocar a bola em condições nos últimos 30 metros. Só um remate por cima da baliza defendida por Muslera após um livre, aos 43 minutos, conseguiu apagar a má imagem duma primeira parte mortiça e com cheiro a velhote moribundo.

O reinicio trouxe uma França mais pressionante e a dar ares que podia querer pegar no jogo. No entanto, foi sol de pouca dura porque logo após esses primeiros cinco minutos os lances de maior perigo passaram a surgir nas duas balizas. Fórlan, Ribéry, Toulalan, Suarez fingiam dinamizar o jogo com remates esforçados mas o tédio era tanto que até o som das vuvuzelas era murcho, e todo o cenário parecia um ensaio de uma banda de velhotes que não encontram a placa. Como a imaginação humana não tem limites e o desejo e ambição dos indivíduos em deixar uma marca na história é algo que não deve  nunca ser esquecido, o uruguaio Lodeiro decidiu aos 65 e 81 amarelar-se para dar mais ânimo a um jogo que parecia estar a cair para o lado dos sul-americanos. A expulsão empolgou os vice-campeões do mundo e  os últimos minutos foram passados com uma forte pressão no meio-campo defensivo uruguaio. Perigo? Nenhum, mas pressão muita. Remates apenas um aos 82' de Henry à mão de um adversário... e se ele pediu penalty. Ninguém melhor do que ele para opinar quando é que a mão toca na bola ou não.

Em suma, sinal (mais ou menos) mais para o Uruguai. Nenhum sinal para a França. Todos empatados no grupo A, e a certeza de que este pode muito bem vir a ser dos grupos mais equilibrados. Mas uma coisa é garantida até ao momento, o bom futebol ainda não chegou ao Mundial. Talvez amanhã com um dos três jogos...

satisfied mind


Jeff Buckley

sexta-feira, junho 11, 2010

o mundial por aqui

África do Sul - México (1-1)
O jogo de abertura duma grande competição tem sempre um conjunto de características especiais, ainda mais quando falamos dum campeonato do mundo de futebol e este joga-se pela primeira vez em África.

Neste primeiro jogo poderia falar sobre a vuvuzela – mas basta dizer que são o maior atentado ao futebol que me lembro desde as vozes das velhotas do Nacional – ou lembrar a falta de segurança que se vive na África do Sul, ou mesmo questionar o horário dos jogos, mas não vou mais do que fazer estas breves alusões. Porque o que interessa realmente é o jogo.

Neste primeiro jogo tínhamos um México que, sobretudo depois da saída de Eriksson, oferece um futebol de ataque apoiado em bons executantes técnicos e do outro lado uma África do Sul onde o espírito de equipa e sacrifício são as suas principais armas. Tacticamente ambas  as equipas iniciaram o jogo num 4-3-3, sendo que o da África do Sul se transformava num 4-4-2 quando atacavam.

O jogo começou com uma equipa africana muito retraída, em parte pelo pressing alto dos mexicanos, e não foi grande surpresa que aos 2 minutos já o perigo rondasse a baliza dos bafana bafana. Com o passar do tempo os sul-africanos conseguiram sair mais do meio-campo defensivo mas os maiores lances do perigo foram sempre dos mexicanos, através de Vela e dos Santos. Lances de maior destaque o remate de Franco a passe de Vela aos 31 minutos para grande defesa do guarda-redes Khune, ou os cantos e livre aos 38 e 41. O intervalo chegou com um claro sinal mais para o México e parecia evidente que a segunda parte traria o golo dos representantes da CONCACAF.

Os segundos 45 minutos iniciaram-se com a substituição de um dos laterais do lado dos africanos mas sem qualquer mudança táctica nas duas equipas. O México entrou novamente melhor mas sem conseguir furar a defesa adversária desta vez mais organizada, e contra a corrente do jogo, aos 54 minutos, o lateral Tshabalala num lance de contra-ataque - poderia ser de outra forma? - marcou o primeiro golo do mundial. Foi a loucura total no estádio e teve-se direito a uma coreografia que poderia até quem sabe ganhar o deprimente Olha quem dança. O México procurou reagir imediatamente ao golo mas só aos  59 minutos chegou com perigo à baliza, com um remate de grande qualidade de dos Santos para uma defesa difícil de Khune. A partir daí e, sempre em contra-ataque, em termos de lances de golo só deu África do Sul, destacando-se os remates aos 65' e 69'. E quando o jogo já parecia anímicamente perdido para os mexicanos uma desconcentração defensiva permitiu a Marquez igualar a partida, aos 79 minutos. Até ao final só um remate ao poste dos sul africanos, aos 89', poderia mudar a história deste jogo. Um último destaque para a desilusão de Pienaar e para o grande jogo de dos Santos.

A certa altura parecia que estávamos a ver um remake do Invictus... mas a vida não é mesmo um filme e os erros pagam-se caro. O futebol segue dentro de momentos...

vinte mil

a 18 de junho de 2009 cheguei aos dez mil. hoje, menos de um ano depois dupliquei esse número. agora venham mais dez mil e um novo look em tempos de futebol.

o mundial por aqui

dois anos depois do "euro por cá" volta a rubrica sobre o futebol, desta vez dedicada ao mundial... vamos a isto...

O insustentável peso do discurso

Hoje é dia 11 de Junho. O dia dedicado pelos portugueses a interpretar as palavras de Cavaco Silva do dia anterior. E como elas são sempre tão ambíguas, cabe a cada português pegar numa só e dissecá-la. A mim, calhou "insustentável". Vou lembrar o contexto: "Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável." Pode parecer irresponsável o uso deste adjectivo definitivo: insustentável, aquilo que não se aguenta e há que arrear. Se o Presidente previu, a ponto até de avisar, como é que deixou isto chegar aqui? Entre dois tremoços, um bitaiteiro pode lançar "eh pá, isto tá aqui, tá no charco" e deixar ir. Já o Presidente pode e deve parar antes do insustentável. Isto para dizer que essa, a tese da irresponsabilidade, é de amadores. Eu ando há muito nisto, em discursos de Cavaco Silva, e sei o que ele quis dizer. Insustentável é uma referência literária, (julgo, até, adivinhar de quem foi a sugestão), ao romance A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, cujo título remete para o filósofo grego Parménides (530-460 a. C.). No fim do seu discurso, Cavaco disse: "Este é o tempo de gerar consensos." E foi isso o que ele fez com a tal palavrinha "insustentável": sugeriu um filósofo pré-socrático, como que a dizer que as culpas vêm também de governos pré-socráticos - quiçá, até, dos seus. Ouvir Cavaco é trabalhoso mas é um gosto quando se entende.

Ferreira Fernandes in DN, 11 VI 10

quinta-feira, junho 10, 2010

Há um grande mercado para a literatura em Português...

...e está a entrar em ebulição do lado de lá do Atlântico.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa não tem dúvidas: a estratégia para o Português só faz sentido em conjunto com o Brasil. Por um motivo claro: quando pensamos em livros em Português, "o Brasil é o grande mercado, não há outro", diz o escritor, recordando que Angola, a grande esperança africana, "tem dois mil leitores, não existe enquanto mercado literário".

De resto, é pela literatura "que é mais fácil entrar no Brasil", acredita Agualusa. Portugal "tem uma boa política de apoio à publicação de autores portugueses e africanos [de língua portuguesa], e isso mudou realmente a forma como a literatura portuguesa passou a ser recebida no Brasil, hoje há muito mais autores nas livrarias". Não estamos, contudo, a falar forçosamente de exportação.

Se há 20 anos as taxas para a exportação de livros tornavam a actividade ruinosa, hoje, diz Agualusa, "deixou se fazer sentido exportar, agora os autores [portugueses e africanos] estão presentes [no Brasil] através de editoras brasileiras."

Portugal começou já a entrar nesse mercado. A editora Leya avançou no ano passado e publicou até agora cerca de 40 livros (este mês sai a versão brasileira do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, organizado por Fernando Cabral Martins). Apesar de alguns dos mais conhecidos autores portugueses não terem trocado as suas editoras no Brasil pela Leya, esta apostou na diversificação de estratégias e no apetecido mercado de edições escolares - deverá entregar no início do próximo ano livros das 25 disciplinas do 1.º ao 5.º ano para certificação, disse ao PÚBLICO fonte da editora.

Portugal podia fazer mais

Mas, perante o espantoso crescimento do mercado brasileiro - "estão a pôr a população a ler", diz Agualusa, e o Estado é neste momento o maior comprador de livros para equipar as bibliotecas -, Portugal podia fazer mais. Podia, por exemplo, ter uma presença muito mais forte na Festa Literária de Paraty, a grande montra da literatura hoje no Brasil.

Apesar disso, "a literatura portuguesa é lida nas universidades, todas as universidades públicas têm estudos portugueses", sublinha o brasileiro Luiz Ruffato, autor de Estive em Lisboa e lembrei-me de ti (Quetzal). "Em Portugal, isso não acontece com os contemporâneos brasileiros", lamenta.

O Brasil pode não fazer uma grande aposta na promoção externa da sua literatura, mas tem um vibrante mercado interno em crescimento exponencial, com apoios à escrita, lei do mecenato, prémios, feiras... Ao contrário do que acontece em Portugal, é um bom momento para correr atrás do sonho da escrita no Brasil. "Nunca foi tão fácil para um jovem chegar numa editora, publicar e divulgar seu trabalho", diz Antônio Xerxenesky, um dos donos da Não-Editora, especializada em novos autores.

Segundo os analistas, a estabilidade económica, maior escolaridade e maior poder de compra da população está a dar origem a um "boom" literário. Por isso, as editores têm apostado em mais lançamentos. Em 2008, ter-se-ão editado mais de 51 mil títulos, um crescimento de quase 15 por cento em relação ao ano anterior. "O mercado está a diversificar a aposta como se estivesse num casino", diz Sônia Jardim, presidente Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Nos últimos cinco anos, surgiram também dezenas de pequenas editoras, como a Não-Editora, criada em 2007 por seis autores de Porto Alegre e que já publicou 15 livros. Centenas de novos autores brasileiros estão também a sair do anonimato com a ajuda da Internet. Há pouco mais de um ano, foi criado o "Clube dos Autores". O autor inscreve seu livro gratuitamente e o site funciona como uma loja virtual de venda da obra. Quando um comprador escolhe o título, o texto é mandado para uma gráfica e, depois, entregue em casa do freguês. Por dia, são publicados cerca de 30 títulos. Num ano, foram três mil. "Nunca se produziu tanto conteúdo como hoje na Internet e não fazia sentido a dificuldade em publicar, em atingir o público", diz Ricardo Almeida, director-geral do Clube dos Autores.

Prémios, feiras e bienais

Outros estímulos importantes são os prémios, as feiras e as bienais, algumas das quais se tornaram já paragem obrigatória para novos autores, consagrados, autores estrangeiros, pequenas e grandes editoras e, claro, leitores. São festas como a de Paraty, Porto de Galinhas e Ouro Preto, que acontecem ao longo de todo o ano (no ano passado, a Bienal do Rio de Janeiro teve 600 mil visitantes).

Nos prémios, o mais valioso é o Prémio São Paulo de Literatura, do Estado de São Paulo, que dá 200 mil reais ao melhor livro do ano e a mesma quantia à melhor primeira-obra.

O Prémio Jabuti, um dos mais tradicionais, teve recorde de inscritos em 2010, com quase três mil obras. Basta que um livro seja seleccionado pelo júri para que já se sintam os efeitos de fazer parte de um mercado emergente. "Só por ser indicado como finalista um livro, ele já vende mais, é publicado em Portugal e o escritor é chamado para fazer palestras", conta Selma Caetano, curadora do Prémio Portugal Telecom, que tem como objectivo aumentar o intercâmbio literário entre os países de língua portuguesa.

Alexandra Prado Coelho in Público, 10 VI 10