segunda-feira, junho 28, 2010

do amor

E o que te posso dizer do amor senão que é este jogo em que tu avanças as peças, e eu dito as regras, quando não é o contrário que acontece, e eu avanço as peças, e tu ditas as regras? É o contrário do xadrez, porque não há tabuleiro, nem lugar para onde possamos deitar as peças que vamos comendo; temos de as guardar, de viver com elas, de as carregar, essas peças comidas, mortas, como se fossem parte da nossa alma, e nada do que fizermos nos libertará desse peso que só serve para atirarmos um ao outro com os movimentos errados que fizemos, e aproveitar a distracção do outro para fazer as movimentos que nos irão fazer comer o que resta para comer, até não sobrar mais nada de nós, e ficarmos um com o outro, na secura absoluta de não termos mais nada a não ser esse fardo que nos deixamos um ao outro. Sim: é esta a minha herança; e é esta a herança que me deixaste. A única herança que não dá para partilhas, nem para dissiparmos, e que faz com que sejamos cada vez mais o que resta de nós nas nossas sombras.

Nuno Júdice

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