quinta-feira, junho 10, 2010

Há um grande mercado para a literatura em Português...

...e está a entrar em ebulição do lado de lá do Atlântico.

O escritor angolano José Eduardo Agualusa não tem dúvidas: a estratégia para o Português só faz sentido em conjunto com o Brasil. Por um motivo claro: quando pensamos em livros em Português, "o Brasil é o grande mercado, não há outro", diz o escritor, recordando que Angola, a grande esperança africana, "tem dois mil leitores, não existe enquanto mercado literário".

De resto, é pela literatura "que é mais fácil entrar no Brasil", acredita Agualusa. Portugal "tem uma boa política de apoio à publicação de autores portugueses e africanos [de língua portuguesa], e isso mudou realmente a forma como a literatura portuguesa passou a ser recebida no Brasil, hoje há muito mais autores nas livrarias". Não estamos, contudo, a falar forçosamente de exportação.

Se há 20 anos as taxas para a exportação de livros tornavam a actividade ruinosa, hoje, diz Agualusa, "deixou se fazer sentido exportar, agora os autores [portugueses e africanos] estão presentes [no Brasil] através de editoras brasileiras."

Portugal começou já a entrar nesse mercado. A editora Leya avançou no ano passado e publicou até agora cerca de 40 livros (este mês sai a versão brasileira do Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, organizado por Fernando Cabral Martins). Apesar de alguns dos mais conhecidos autores portugueses não terem trocado as suas editoras no Brasil pela Leya, esta apostou na diversificação de estratégias e no apetecido mercado de edições escolares - deverá entregar no início do próximo ano livros das 25 disciplinas do 1.º ao 5.º ano para certificação, disse ao PÚBLICO fonte da editora.

Portugal podia fazer mais

Mas, perante o espantoso crescimento do mercado brasileiro - "estão a pôr a população a ler", diz Agualusa, e o Estado é neste momento o maior comprador de livros para equipar as bibliotecas -, Portugal podia fazer mais. Podia, por exemplo, ter uma presença muito mais forte na Festa Literária de Paraty, a grande montra da literatura hoje no Brasil.

Apesar disso, "a literatura portuguesa é lida nas universidades, todas as universidades públicas têm estudos portugueses", sublinha o brasileiro Luiz Ruffato, autor de Estive em Lisboa e lembrei-me de ti (Quetzal). "Em Portugal, isso não acontece com os contemporâneos brasileiros", lamenta.

O Brasil pode não fazer uma grande aposta na promoção externa da sua literatura, mas tem um vibrante mercado interno em crescimento exponencial, com apoios à escrita, lei do mecenato, prémios, feiras... Ao contrário do que acontece em Portugal, é um bom momento para correr atrás do sonho da escrita no Brasil. "Nunca foi tão fácil para um jovem chegar numa editora, publicar e divulgar seu trabalho", diz Antônio Xerxenesky, um dos donos da Não-Editora, especializada em novos autores.

Segundo os analistas, a estabilidade económica, maior escolaridade e maior poder de compra da população está a dar origem a um "boom" literário. Por isso, as editores têm apostado em mais lançamentos. Em 2008, ter-se-ão editado mais de 51 mil títulos, um crescimento de quase 15 por cento em relação ao ano anterior. "O mercado está a diversificar a aposta como se estivesse num casino", diz Sônia Jardim, presidente Sindicato Nacional dos Editores de Livros. Nos últimos cinco anos, surgiram também dezenas de pequenas editoras, como a Não-Editora, criada em 2007 por seis autores de Porto Alegre e que já publicou 15 livros. Centenas de novos autores brasileiros estão também a sair do anonimato com a ajuda da Internet. Há pouco mais de um ano, foi criado o "Clube dos Autores". O autor inscreve seu livro gratuitamente e o site funciona como uma loja virtual de venda da obra. Quando um comprador escolhe o título, o texto é mandado para uma gráfica e, depois, entregue em casa do freguês. Por dia, são publicados cerca de 30 títulos. Num ano, foram três mil. "Nunca se produziu tanto conteúdo como hoje na Internet e não fazia sentido a dificuldade em publicar, em atingir o público", diz Ricardo Almeida, director-geral do Clube dos Autores.

Prémios, feiras e bienais

Outros estímulos importantes são os prémios, as feiras e as bienais, algumas das quais se tornaram já paragem obrigatória para novos autores, consagrados, autores estrangeiros, pequenas e grandes editoras e, claro, leitores. São festas como a de Paraty, Porto de Galinhas e Ouro Preto, que acontecem ao longo de todo o ano (no ano passado, a Bienal do Rio de Janeiro teve 600 mil visitantes).

Nos prémios, o mais valioso é o Prémio São Paulo de Literatura, do Estado de São Paulo, que dá 200 mil reais ao melhor livro do ano e a mesma quantia à melhor primeira-obra.

O Prémio Jabuti, um dos mais tradicionais, teve recorde de inscritos em 2010, com quase três mil obras. Basta que um livro seja seleccionado pelo júri para que já se sintam os efeitos de fazer parte de um mercado emergente. "Só por ser indicado como finalista um livro, ele já vende mais, é publicado em Portugal e o escritor é chamado para fazer palestras", conta Selma Caetano, curadora do Prémio Portugal Telecom, que tem como objectivo aumentar o intercâmbio literário entre os países de língua portuguesa.

Alexandra Prado Coelho in Público, 10 VI 10

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