quarta-feira, junho 02, 2010

o factor turco

A chegada dos pós-islamistas do AKP ao poder na Turquia prometia mudar muita coisa no país. E, lentamente, assim foi.
Houve um processo de democratização nacional. Poderá parecer estranho que ele seja garantido contra o laicismo mais feroz. Mas é natural: no Médio Oriente o poder laico tem estado muitas vezes associado a ditaduras. Quem não compreenda isto embarcará facilmente em muitos equívocos sobre conflitos internos em vários países muçulmanos.
Mas, no caso da Turquia, e ao contrário do que acontece nos países árabes, este movimento religioso é não apenas de cariz democrático (aproximado, para facilitar a compreensão, da matriz democrata-cristã europeia) como está fortemente ligado a uma nova elite económica que não deseja o isolamento do país.
A este processo de democratização turca, feito contra os partidos nacionalistas de centro-esquerda (CHP) e de extrema-direita (MHP), está a corresponder um processo de desmilitarização da vida política. As Forças Armadas, herdeiras do legado de ocidentalização forçada de Kemal Atatürk, foram resistindo. Mas o apoio popular ao novo poder tem-se conseguido impor.
Apesar dos atropelos frequentes aos direitos humanos, muitas vezes provocados pelos militares e pelo poder judicial, o poder de centro-direita vai tentando pacificar a relação com os curdos. É natural que assim seja, já que a identidade nacionalista turca é, na cabeça dos dirigentes do AKP, menos relevante do que a identidade muçulmana. E os curdos, não sendo turcos, são islâmicos.
Simultaneamente, o AKP foi tentando aproximações à Europa, na esperança de uma adesão à UE. Graças às resistências alemãs e francesas – a cegueira europeia está sempre acima de todas as expectativas -, o projecto europeu da Turquia é, hoje, uma miragem em que nenhum turco acredita. As sucessivas humilhações de uma potência como a Turquia mataram essa possibilidade.
Recentemente, a Turquia parece estar cada vez mais a virar-se para os seus irmãos muçulmanos com quem tem os laços históricos (e imperiais) que se conhecem.
Desde a assinatura de um acordo com o Irão para encontrar uma solução para a crise nuclear a uma crescente intervenção em questões políticas na região, tudo indica um realinhamento estratégico. A Turquia sonha, e com toda a propriedade, em liderar o Médio Oriente. É assim que deve ser lido o seu apoio, mesmo que discreto, à frota humanitária a Gaza.
Israel, que hoje é liderado por gente que, na sua inimputabilidade, já perdeu toda a capacidade de agir de forma racional, criou o incidente que colocou a Turquia no centro do furacão. E ajudou a confirmar o fim da aliança turca com Israel, que Recep Tayyip Erdogan já há muito anunciava.
Se o realinhamento turco com os árabes, para, obviamente, os liderar, se confirmar, estamos perante uma boa e uma má notícia.
Boa para o Mundo. Penso que ninguém com bom senso duvida que farão melhor papel do que Armadinejad. O Ocidente teria uma oportunidade para construir pontes. Mais: esta liderança seria feita por uma democracia.
A má notícia é para Israel. Não só a Turquia é uma potência militar a sério, como é uma peça estratégica indispensável para os Estados Unidos. Claro que, por razões internas, os EUA nunca deixarão cair o Estado Hebraico. Mas Israel pode vir mesmo a ter de começar a ceder. E isso seria uma novidade absoluta.
A loucura que os israelitas cometeram em águas internacionais (e que se tem saldado numa estrondosa derrota diplomática, que os americanos têm conseguido evitar que seja irreversível) não é o primeiro episódio da entrada turca neste conflito. Nem será o último. Mas é um ponto de viragem.
Que os autoproclamados “amigos de Israel” não o compreendam, apenas nos mostra que o pior tipo de amigos que podemos ter são os fãs incondicionais. Esses não nos avisam quando nos estamos a atirar para um precipício. Vêem, aplaudem e saltam connosco.

Daniel Oliveira in Expresso, 02 VI 10

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