sábado, junho 19, 2010

O homem que se levantou do chão

Como é próprio do que é grande, há para todos. Aqui, de José Saramago, só ele, o homem. Logo, para começar, Jerónimo Melrinho: "Sou neto de um homem...", contou Saramago, contando-se. No dia que partiu para o hospital, o avô Jerónimo desceu à horta e despediu-se das árvores. Abraçou-as, uma a uma. O Greenpeace faria disso um anúncio de página inteira. Mas, como vos disse, fico-me pelos homens. Depois, o jovem serralheiro, trabalhando num hospital conventual, na grande cidade - e o moço escapando para a biblioteca onde lia tudo. Um literato faria disso uma tese sobre os heterónimos de Pessoa, já o jovem que lia a pulso guardou Ricardo Reis para, mais tarde, Rua dos Sapateiros abaixo, o passear com Pessoa. José Saramago e escrever, o destino estava decidido, mas havia que fazer pela vida: jornalista. Aos 53 anos, porém, fechou-se-lhe a profissão. Outros iriam contar o tempo para a reforma, ele agradeceu ao destino e caminhou para a glória. Depois, Levantado do Chão. Sobre isto: homens que se levantam do chão. Depois, aos 63, eles encontraram-se e ele, com ela, pararam os relógios lá de casa, às 4, a hora do encontro. Aos 85, quando, que mais não seja por prudência, outros se recolhem, ele pôs-se a vociferar contra Deus. Repito, deixo a outros o estilo e as causas. Mas não perco, fico-me pelo homem. Que homem! 

Ferreira Fernades in DN, 19 VI 10

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