sexta-feira, junho 11, 2010

O insustentável peso do discurso

Hoje é dia 11 de Junho. O dia dedicado pelos portugueses a interpretar as palavras de Cavaco Silva do dia anterior. E como elas são sempre tão ambíguas, cabe a cada português pegar numa só e dissecá-la. A mim, calhou "insustentável". Vou lembrar o contexto: "Como avisei na altura devida, chegámos a uma situação insustentável." Pode parecer irresponsável o uso deste adjectivo definitivo: insustentável, aquilo que não se aguenta e há que arrear. Se o Presidente previu, a ponto até de avisar, como é que deixou isto chegar aqui? Entre dois tremoços, um bitaiteiro pode lançar "eh pá, isto tá aqui, tá no charco" e deixar ir. Já o Presidente pode e deve parar antes do insustentável. Isto para dizer que essa, a tese da irresponsabilidade, é de amadores. Eu ando há muito nisto, em discursos de Cavaco Silva, e sei o que ele quis dizer. Insustentável é uma referência literária, (julgo, até, adivinhar de quem foi a sugestão), ao romance A Insustentável Leveza do Ser, de Kundera, cujo título remete para o filósofo grego Parménides (530-460 a. C.). No fim do seu discurso, Cavaco disse: "Este é o tempo de gerar consensos." E foi isso o que ele fez com a tal palavrinha "insustentável": sugeriu um filósofo pré-socrático, como que a dizer que as culpas vêm também de governos pré-socráticos - quiçá, até, dos seus. Ouvir Cavaco é trabalhoso mas é um gosto quando se entende.

Ferreira Fernandes in DN, 11 VI 10

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