terça-feira, julho 13, 2010

Já passou, ainda não passou

Estou desde 6 de Junho a ver todos os jogos do Mundial e a escrever sobre esses jogos, três mil caracteres, todos os dias. Não estou bem. Gosto muito do jornal em que escrevi - O Jogo - e eles também gostam muito de mim. Mas detesto futebol e estou perto do fim. Ou assim espero.
Sabia que me iam arrancar um grande naco da minha vida - pelo menos um terço dela, oito horas. Mas pensava que, tal como tinha acontecido noutros Euros e Mundiais, ainda ficaria com os outros dois terços, para viver e isso.

Mas aí a meio do Mundial, aconteceu uma coisa horrível. Estava a almoçar com a minha mulher na praia - um tempo sagrado, só nosso - e, de repente, dei comigo a fazer-lhe perguntas de futebol.

O pior é que, antes de dar por isso, ainda fiz três ou quatro. E ela, que partilha o meu grande amor por tudo o que tenha a ver com bola, lá foi respondendo. Devemos ter conversado sobre o Mundial durante quatro longos minutos - e eu estava interessado na conversa.

E se não fosse a expressão aflita e estupefacta da Maria João - como se estivessem a crescer-me malmequeres das orelhas - eu nem sequer teria caído em mim.

Tinha sido contaminado pelo futebol. O futebol tinha saído da jaula fortificada onde eu o guardo e tinha conseguido invadir o jardim maximum security da minha vida.

A minha mãe já me tinha avisado. Quando nós éramos pequeninos e ela passava tempo de mais connosco, falando criancês - aquela língua delicodoce e cheia de diminutivos que os pais usam para dar ordens e ensinar coisas aos filhotes -, acontecia-lhe continuar a usar a mesma língua quando estava com adultos.

Durante um cocktail, aconselhava um comodoro americano que acabara de lhe ser apresentado a "não vai beber esse uisquizinho todo de uma vez, pois não? Parece muito bom e fresquinho, cheio de pedrinhas de gelo, mas o álcool faz mal ao figadozinho! E nós não queremos que isso aconteça com o comodoro, pois não? Não! Claro que não queremos, porque o comodoro é um bom comodoro e quer um dia ser almirante, não é?"

No criancês, o adulto geralmente responde às suas próprias perguntas e à criança cabe fazer que sim ou que não com a cabeça.

O futebolês não é muito diferente. Pergunta-se: "Achaste que foi fora-de-jogo?" E segue-se logo com a resposta: "Aquilo nunca foi fora de jogo!" (O futebolês é tão exageradamente agressivo e discordante como o criancês é ternurento e unanimista).

É muito perigosa esta contaminação cruzada. Todas as línguas infectadas ficam a perder. Um exemplo contemporâneo é a contaminação cruzada da língua amorosa com a língua amistosa ou social. Chama-se "meu amor" aos cabeleireiros: "Despacha-te, meu amor, que eu estou super-atrasada."

Quando "meu amor" é para toda a gente, todas as palavras do vocabulário amoroso são despromovidas. "Querido" já se usa como palavra agressiva: "Ó meu querido amigo, se você não tira já daí o carro..."

Na Inglaterra, love you! já se usa mecanicamente ao telefone, para indicar o fim de uma conversa. Em Portugal, ainda não chegámos a esse ponto, mas já se diz "amo-te" com grande ligeireza, no sentido de "obrigado!" ou "fizeste exactamente o que eu queria - obrigada!"

Diante esta apropriação, o amorês é obrigado a carregar-se de bagagens suplementares. Se "amo-te" não quer dizer nada, é preciso acrescentar: "Amo-te. Mas é a sério. É amor mesmo; amor verdadeiro." O que estraga tudo, claro.

Pior do que a ignorância
Durante o Mundial, aprendi este facto assustador: que é possível passar o dia inteiro a pensar em futebol. Os poucos momentos em que não se pode - como quando é preciso decidir o que se vai almoçar ou cumprimentar uma pessoa conhecida - são encarados como agressões. Como roubos de tempo. Quanto mais necessários são (ir à casa de banho), mais enervam.

Mais terrível ainda é descobrir que o futebol fica acima dos princípios, por muito profundos que sejam. Mais de uma vez, dei por mim a torcer por selecções oriundas de países com sistemas políticos ou valores culturais que me eram repugnantes.

Os apologistas do futebol dizem que o futebol une todos os povos do mundo. O pior é que é verdade. Produz uma sensação de conhecimento que é pior do que a ignorância. É como o bielorrusso que nos pergunta de onde somos e, quando dizemos Portugal, responde logo, todo contente e sabichão: "Sim, sim! Cristiano Ronaldo!"

A sabedoria que o futebol traz é ilusória. Imagine-se o mais perspicaz e inteligente bielorrusso, com uma pistola da polícia secreta encostada à cabeça, a ver jogar Cristiano Ronaldo para, a partir da maneira como ele joga, tentar ficar com uma ideia de como é Portugal e transmitir ao facínora que nos quer fazer mal o que aprendeu sobre o nosso país e a nossa gente.

Portugal joga à portuguesa? Os brasileiros têm sido os mais estigmatizados por esta contaminação cruzada, exigindo-se ignorantemente a sucessivas selecções que jogue "bonito" conforme os estereótipos implantados pelo Zé Carioca e pela Carmen Miranda.

É mais uma contaminação cruzada, esta de confundir a maneira de jogar de uma equipa com a maneira de ser de um país. Mesmo que um país pudesse ter uma maneira de ser.

No Mundial que acabou ontem, tal como em todos os anteriores, é a figura do treinador que impede que os brasileiros joguem "à brasileira" ou os holandeses "à holandesa". Subjaz a convicção que, caso se subtraísse a influência nefasta do treinador, os jogadores começariam logo a jogar naturalmente, no estilo que aprenderam ao colo da mãe.

Se o treinador for estrangeiro - como Fabio Capello e a selecção inglesa -, a noção é ainda mais fantasiosa. O italiano está a obrigar os ingleses a jogar à italiana. Se eles jogassem à inglesa, teriam ganho.

Refazer a vida
Destas confusões simplórias e enganadoras não viria grande mal ao mundo - se não fossem tão divertidas. O que vale é que, mal fazemos uma, logo ela é desmentida no dia seguinte, quando acontece nem sequer o contrário do que esperávamos - mas outra coisa diferente, fora do espectro das nossas hipóteses.

Foi quando a Alemanha eliminou a Argentina, por 4-0, que eu comecei a ficar preocupado. Fiquei triste - triste! - com a derrota da Argentina. E, por outro lado - o lado ainda mais preocupante -, gostei de ver a Alemanha jogar. E não lhes fiquei com ódio nenhum.

Que se passava? Só agora, com o Mundial já arrumado, posso enfrentar a inaceitável conclusão: tinha começado a gostar de futebol. Não da selecção portuguesa ou brasileira ou argentina. Não do futebol da Alemanha ou do Uruguai. Mas de futebol. Por si só. Foi chocante.

Para mais, segundo me avisaram alguns amigos preocupados comigo, não era só gostar - estava também a começar a perceber alguma coisa de futebol. Isto, para quem pensava que não havia ali nada para perceber, foi um susto ontológico.

Aqui fica o aviso, para quem tenha a inteligência e a sorte de não gostar de futebol: não se exponha ao futebol por largos períodos de tempo. Porque será contaminado. E qualquer felicidade que o futebol lhe dê far-se-á pagar com o quádrobro de sofrimento.

Para fugir ao futebol, tive de refazer a minha vida. Foi a minha mulher que me salvou. Cada vez que eu falava de futebol - sem ser durante um jogo -, ela respondia-me como se gostasse de futebol. E aí eu acordava, com o horror que isso acontecesse.

Eu gostar de futebol, ainda vá que não vá. Mas ela - ela não podia ser. Para mais, contaminada por mim.

Soluçando, disse adeus à rapaziada d"O Jogo, com quem tinha sido tão feliz, e casei-me com o PÚBLICO, onde o futebol não me pudesse encontrar.

Este é o meu primeiro trabalho casado para o PÚBLICO. É sobre o Mundial.

Se calhar, é impossível fugir.

Miguel Esteves Cardoso in Público

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