terça-feira, julho 27, 2010

outro ínfimo sinal de imperfeição

Enfastio-me a escrever artigos de sobrevivência, ou de boa vontade, para jornais, para enciclopédias, para dicionários. E olho, ao meu derredor, o silêncio azul, o choque constante do sol na água, as praias desertas onde tantas vezes unimos os nossos corpos; e nesta queixa, nesta muda reclamação, em que todo eu me contraio de desejo, de saudade (e decepção), tenho tão presente a tua carne morena a cintilar, sensível, muito lentamente a abrir-se, a querer-me, a entregar-se, até que ponto nunca o saberei. Adorava os teus ombros demasiado magros, precisamente porque são, no teu corpo tão elegante e harmonioso, a única marca de debilidade, a única mácula.
Pestanejavas, devido a violência da luz, e, sob esses grandes olhos muito rasgados, com o brilho das chamas negras, o que eu mais amava era o bistre dos párpados sensuais, essas olheiras que tu tentas desfazer com cremes, outro ínfimo sinal de imperfeição.

Urbano Tavares Rodrigues in A última colina

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