sexta-feira, julho 23, 2010

SE O LOBO MAU FOSSE ANGOLANO

 Se o Lobo Mau fosse americano teria comido a Avosinha, o Chapeuzinho Vermelho, o Caçador e ainda toda a Comissão de Inquérito nomeada pelas Nações Unidas para investigar o caso. Um Lobo Mau japonês faria a mesma coisa, mas com tal eficiência e discrição que ninguém daria por nada.
 
Imaginemos agora um Lobo Mau angolano: com toda a certeza chegava a um acordo com o Chapeuzinho e juntos comiam a Avosinha. A seguir o Lobo Mau comia o Chapeuzinho e acusava o caçador.
 
Se alguma coisa caracteriza os angolanos, e em particular os luandenses, é a extraordinária capacidade de virar o bico ao prego, além da ilimitada auto-estima, é claro. Os estrangeiros que visitam Luanda ficam desconcertados com o orgulho com que os nossos dirigentes expõem o resultado da sua governação. Conheço o caso de um deputado europeu que foi recebido por um dos ministros do actual governo. Este levou-o a visitar a cidade e mostrou-lhe feliz as ruas imundas, os edifícios devastados por vinte anos de barbárie, o caos prodigioso do mercado Roque Santeiro: «veja como é bela a nossa capital!»
 
Vai para alguns meses assisti na televisão angolana a uma reportagem sobre o Cuíto. Os jornalistas estrangeiros vagueavam, pálidos, por entre os escombros. «É horrível!», exclamou um deles, «Está tudo completamente destruído». Um general das FAA, as Forças Armadas Angolanas, escutou o desabafo. «Sem dúvida», concordou, «está muitíssimo bem destruído. Nós não brincamos em serviço.»
 
Mais recentemente, ao desembarcar em Lisboa vindo de Luanda, ouvi um dos meus vizinhos comentar para o outro, junto à janela, a rapidez com que chegara a escadinha e se procedia à saída dos passageiros: «Isto, sim, é que é civilização.» O da janela sossegou-o: «Civilização? Qual civilização! O que acontece é que estes tipos são muito pobres. Se não fizerem tudo direitinho vão logo para a rua e depois morrem de fome. Nós não. Angola é um país rico, podemos dar-nos ao luxo da preguiça.»
  
Numa outra ocasião, de visita a Nápoles, encontrei na rua um amigo luandense. Abraçámo-nos, surpresos, é certo, mas não tanto quanto os italianos que estavam connosco. «Afinal», comentou um deles, «Angola é um pequeno país, vocês conhecem-se todos.» O meu amigo quase se zangou: «Angola é grande», retorquiu, «o mundo é que é pequeno.»
 
Este nosso optimismo indestrutível (há quem lhe chame arrogância) está nos antípodas da perspectiva com que os portugueses encaram o seu próprio país. Para um português, Portugal não tem remédio: «Nunca houve uma choldra assim no universo», escrevia Eça de Queiroz há cem anos atrás. Por isso é que eu receio que se o Lobo Mau fosse português o mais certo era ser devorado pelo Chapeuzinho Vermelho – e ainda deixava um bilhete a pedir desculpa.
 
Um diálogo entre um português e um angolano, sobre os respectivos países, pode parecer totalmente insensato a um estrangeiro:
 
– Como é que Angola havia de dar certo – lamenta-se o português – depois de ter sido colonizada por nós?
 
  – Foi a guerra, Mais-Velho, foi a guerra – consola-o o angolano –, mas ainda havemos de voltar a ser o País do Futuro.
 
Quando nasci, poucas semanas antes de começar a guerra, a primeira, a de libertação (na verdade, a mãe de todas as outras) Angola era o País do Futuro. Mais tarde, já após a independência, a companhia aérea nacional escolheu esta expressão como eixo de uma campanha publicitária: «Visite o País do Futuro.» Muitos angolanos entraram nestes aviões convencidos de que eram máquinas para viajar no tempo. Não eram, e o futuro que nos haviam prometido nunca chegou.
 
Paciência, há-de chegar. Entretanto, em Luanda, quem pode dança e quem não pode marca o ritmo. Num texto incluído em Anatomia da Errância (Edições Quetzal), Bruce Chatwin defende que «as pessoas dançam mais em períodos de infortúnio», e recorda que Paris conheceu os maiores bailes e folias da História durante a Revolução Francesa. Numa situação de extrema desgraça um pessimista é, naturalmente, a pior das companhias. Só as pessoas felizes se podem permitir a ostentação do cepticismo. Assim, a inconsolável melancolia dos portugueses é, talvez, resultado da sua felicidade. Portugal, país antigo, sólido e estável, sem problemas de identidade, sem conflitos internos, e que nas duas últimas décadas progrediu de forma exemplar, duvida das suas capacidades. Pode fazê-lo. Em Angola, que se encontra na situação oposta, ninguém tem direito a duvidar. O nosso optimismo, afinal, não há-de ser outra coisa senão uma manifestação de desespero. A mais radical.

José Eduardo Agualusa

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