sexta-feira, julho 30, 2010

um forma de teatro na primeira pessoa

Matthias Langhoff é um dos últimos monstros do teatro europeu. Outros morreram, ele sobreviveu. Mas já não tem a quem telefonar.

Almoçámos com Matthias Langhoff no Café Mistral, nas arcadas do Théâtre de la Ville, em Paris, ele que apresentou "Cabaret Hamlet", a partir de Shakespeare, no Festival de Almada, a 14 e 15 de Julho. "Não se come muito bem aqui, mas talvez os bifes tártaros sejam bons", disse. Pedimos dois.

O encenador de nacionalidade suíça, mas que cresceu na Alemanha e há anos reside em França, tinha regressado da Roménia, onde acabara de estrear "Medida por Medida", de Shakespeare, com uma companhia de actores húngaros residentes em Bucareste. Aos 68 anos, Langhoff não acusa o cansaço, nem a falta de energia. É um dos gigantes da cena europeia desde há muito. Considerado um discípulo de Bertolt Brecht, que conheceu com pouco mais de dez anos, veio a dirigir, uma década depois, a companhia por ele fundada, o Berliner Ensemble, ao lado de Heiner Müller, de quem encenaria várias peças.

Em Portugal esteve por duas vezes: há um ano com "Dieu comme Patient - ainsi parlait Isidore Ducasse", a partir de Lautréamont, e há uma semana com um "Cabaret Hamlet" que revolvia a noção de tragédia e transformava em farsa e ironia o drama do príncipe da Dinamarca. Ao longo de décadas, o teatro que tem procurado e construído a partir de textos de Brecht, Büchner, Schnitzler, Kafka ou Eurípides procuram falar com o passado, imaginando o futuro.


Langhoff tem sido um observador, e um agente, do modo como o teatro procura lidar com a obrigação de ser um espelho do mundo, tal como Shakespeare o definiu. "Uma ideia bizarra e até banal", diz. Profundo conhecedor da ilusão cénica, o seu percurso tem sido feito à margem das próprias instituições, mesmo se chegou a dirigir algumas. A marginalidade do teatro, e do mundo, é algo que lhe interessa. O seu olhar, que nunca deixou de olhar para trás e de pensar na pesada herança alemã com a qual tem de dialogar, propõe um teatro que convide a uma reflexão, provavelmente dolorosa, sobre o próprio tempo.

Tiago Bartolomeu Costa in ípsilon, 30 VII 10



nota: aconselha-se vivamente a ler o resto da entrevista (link)

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