quinta-feira, agosto 12, 2010

na hora de arrumar as lembranças

hoje trouxe umas palavras comigo.
vou junta-las como naquele jogo que fazíamos quando eu era pequeno. tão pequeno.
eras tu, sempre altiva e distinta. e eu, intensamente sujo e perdido.
eram as manhãs de inverno que pareciam verão. e eras tu que enchias a rua com o teu longo cabelo louro, e esse teu perfume que me acompanhava dias inteiros. mesmo naqueles em que não saía do buraco e o sol era uma prestação que eu não podia pagar.
nunca soube da tua vida. nunca perguntei. queria mas não o fazia.
nunca soube porque paravas tu naquela esquina para jogar com um pequeno sem-abrigo.
nunca soube porque pensavas em mim, quando estavas longe daquela rua perdida.
dizias que tinhas tido saudades minhas, enquanto me fazias uma festa terna na cabeça.
foi o gesto mais próximo de amor que tive. e eu gostava.
pensei em ti. muito. em cada momento da minha vida. e hoje que arrumo as últimas palavras no caixote da vida, pergunto-me porque não voltaste mais a afagar-me a cabeça. sinto falta disso. sinto a tua falta. e, contudo já não sinto nada. é assim a vida da rua que tu nunca conheceste.

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