sábado, setembro 11, 2010

quatro prisões e uma liberdade

ele perdera as pernas num acidente que procurava esquecer todas as manhãs. a dor perseguia-o todo o santo dia, dizia ele a quem o ouvia. a noite apenas trazia o descanso sobre a forma dum mundo de sonhos. eram assim as suas novas pernas, apenas um impossível sonho.

ela nunca chegou ao altar. ele esperou horas. ligou-lhe mil vezes, até saber de cor as palavras "the number you have dialed is not in service". ela não ligou mais o telemóvel. os amigos e a família foram saindo, abandonando-o, até ficar só e sozinho. preso a uma esperança. só e sozinho, à espera de ouvir um simples toque do outro lado do telemóvel.

ela não conseguiu chorar. ainda hoje tenta relembrar-se de todos os pormenores daquela despedida e não compreende o porquê. arrepende-se. arrepende-se todos os dias e transporta consigo essa dor. que afinal tinha tão simplesmente a forma duma lágrima. lembra-se do carro da polícia leva-lo no banco de trás e aquela última troca de olhares. faltou apenas uma lágrima, que lhe libertasse daquele sufoco no coração.

ele e um segredo. ele que tinha que viver a sua vida assim, mudo. talvez não lhe custasse muito. ele até era um homem de poucas palavras. mas doia-lhe carregar assim um segredo. não se casara nunca. porquê? por causa do segredo? talvez. talvez não. e, contudo isso não importava nada. porquê? porque apenas queria que as palavras juntas à sua volta fizessem algum sentido. apenas queria ler.

naquele fim de outono só eles os quatro perceberam que afinal a liberdade sempre ali estivera. a liberdade, silenciosamente guardada nos quatro andamentos da trauermusik de hindemith, e no som seco duma bala. a liberdade, assim, de rompante.

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