No domingo fui a Lisboa, às escondidas, fazer umas compras para a Maria João. Só lhe telefonei quando estava dentro da loja onde ela queria comprar umas botas, já com as botas à minha frente, às quais tirei uma fotografia que mandei para a cama de hospital onde a minha mulher estava deitada, para que ela as apreciasse e decidisse se elas estavam à altura.
Sabia que ia ficar contente mas não estava preparado para a reacção dela, fechada há duas semanas: tremeu de excitação, gritando como uma menina de seis anos que, pela primeira vez na vida, consegue os sapatos que quer.
Durante duas horas fui o marido ideal: um transmissor apaixonado. Entrava nas lojas e passava o telemóvel às empregadas, com quem discutia longa e profissionalmente os os pormenores que me escapavam.
Tirava fotografias, emitia opiniões - que ela considerava, dando-me grande vaidade - e tratava de adquirir, receber e transportar os poucos artigos que ela aprovava, desde os dois pares de botas (lindas!) de duas cores, caçadas em duas lojas diferentes, ao pó livre da Dior e ao bâton mais cor-de-rosa da Chanel. A minha chegada com as mercadorias, depois de uma epopeia acidentada na A8, sob chuva e ventanias grossas, ao sabor dos sonhos de aventura de qualquer rapaz, funcionou, junto dela, como uma semana de antibióticos e cortisona.
Contei o milagre ao Manuel Serrão e ele disse, com brilho e verdade: “O meu amigo sempre subestimou o poder do têxtil…” Tem razão!

Miguel Esteves Cardoso, Público, 7/10/10