quinta-feira, outubro 28, 2010

Era uma aguardente e uma sexta-feira

«Era uma aguardente e uma sexta-feira.» E terá que ser sexta-feira, mesmo que não seja. Será sempre assim porque os patrões não gostam de ser contrariados.E os patrões são tudo, eles são a voz da razão e a garantia de estabilidade em tempos difíceis. Era assim em Menina Júlia de Strindberg, de 1888, e é assim n’O Senhor Puntilla e o Seu Criado Matti de Brecht, peça finalizada em 1948.


Há, muito provavelmente, mais aspectos semelhantes do que opostos nestas duas peças, pois em ambas surge uma (in)evitável relação dos criados com as filhas, com promessas de amor e fugas. Temos deslumbramento em ambas, e uma dura queda no gélido chão da realidade. Porque eles são apenas criados e elas mulheres com futuro, e não há futuro para um mundo feito de dois mundos.

Contudo, duas diferenças substanciais sobressaem: em Brecht há cumplicidade e proximidade entre patrão e criado, em Strindberg não. Com o dramaturgo e encenador alemão o coro, e como é hábito na sua dramaturgia, tem um papel de destaque, sendo, por isso, fundamental na impreterível tomada de posição do espectador. Se até ao intervalo esse papel resume-se unicamente aos músicos e vocalistas em palco, a seguir à interrupção as três mulheres do campo, que já anteriormente tinham cantado, assumem de forma inequivoca o papel do coro opinativo, provocando parte do efeito de estranhamento. Este mesmo efeito encontra-se também presente com a câmara em palco e o ecrã que retransmite a realidade. A dos personagens e a do público. O fim da terceira parede.

Sinal menos para alguns cantores/actores, mas, sobretudo, para o seu playback manhoso. Paralelamente, a música contribui bastante para o drama narrativo, sendo, por isso, de elogiar as composições de Mazgani. A máquina de cena é surpreendente, funcional e mostra-se fundamental para as mudanças de cenário, sobretudo para a cena final. Um último destaque para Miguel Guilherme. Sim, porque ele existe enquanto actor bem para lá do cómico, mas sempre com humor. Muito.

A peça encontra-se em cena até domingo no Teatro Aberto, e recomenda-se vivamente.

(publicado ao mesmo tempo no blogprojecto10)

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