quinta-feira, outubro 07, 2010

Mário Vargas Llosa admite que a literatura se torne marginal no futuro

(Artigo publicado a 23 de Outubro de 2003)

Uma sociedade impregnada só de imagens seria mais pobre. Mas o cenário não é impossível no futuro. Defender a literatura é, por isso, uma tarefa das famílias e das escolas, defendeu Mário Vargas Llosa no lançamento, ontem, em Lisboa, do seu último livro, "O Paraíso na Outra Esquina", edição conjunta da Dom Quixote e do Círculo de Leitores.

O escritor peruano [...] não descarta a possibilidade de a literatura "se converter nalguma coisa de marginal, relegada cada vez mais como actividade minoritária, e desenvolvida em catacumbas". Se assim acontecer, "haverá um grande empobrecimento da Humanidade", preveniu. "E será por nossa causa, porque a literatura deve fazer parte da vida das famílias e dos programas de ensino a todos os níveis".

Vargas Llosa confessou não saber responder à pergunta de uma jornalista que quis saber qual o papel da literatura num século em que se assiste ao triunfo do "best-seller" rápido e de um tipo de escrita "light". Mesmo aceitando a sua função de entretenimento, avisou que a literatura não pode ser só divertimento. "Se o fosse, seria ultrapassada por outras formas mais eficazes. Não pode competir com a televisão e o cinema", disse. "A riqueza não são as imagens. São ideias materializadas em palavras que se dizem nos livros". O livro de literatura, prosseguiu o escritor, é imprescindível para ensinar a falar as pessoas. "O vocabulário, os matizes, as subtilezas dão-os a boa literatura, que é aquela que mantém um alto nível de criatividade, daquilo que é diferente, do que não temos e com que sonhamos". Uma das superioridades da literatura, concluiu, é a "vocação crítica, que os audiovisuais não têm ou têm domesticada". No centro da trama de "O Paraíso na Outra Esquina", as utopias artística e política de Paul Gaugin, pintor, e da avó Flora Tristan, feminista "avant la lettre", foram pretexto para uma digressão crítica pela história do século XX. "Todas as tentativas de criar a sociedade perfeita traduziram-se em verdadeiros apocalipses", disse Vargas Llosa. "O nazismo foi isso; o comunismo foi isso; todas as grandes utopias levaram a Humanidade à beira do precipício". O escritor adverte que não se pode renunciar à utopia. "É um motor que empurra o desenvolvimento: os grandes cientistas, os exploradores, os santos representam de algum modo a materialização desse sonho utópico". Faz, contudo, uma distinção entre a utopia política e a utopia individual. "As utopias políticas trouxeram mais prejuízos do que benefícios à Humanidade. A felicidade nunca se pode encontrar num projecto colectivo".

[Continua]

in Público, 23/10/03

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