segunda-feira, novembro 22, 2010

O que vou aprendendo

1. Usa adversativas apenas em caso de extrema necessidade.

2. As cacofonias só se apanham lendo em voz alta ou no dia seguinte.

3. Os advérbios de modo estão para a literatura com o pré-fabricado para a arquitectura. Em todo o caso, nunca escrevas "basicamente" e pensa que "essencialmente" implica um requerimento.

4. Os tripletos (adjectivos) de Conrad eram de Conrad.

5. O "E" depois do ponto final acelera o texto; convém deixá-lo próximo do fim do parágrafo.

6. Ninguém ainda inventou a mancha gráfica ideal para o diálogo, mas é improvável que sejas tu a fazê-lo.

7. Revê todas as concordâncias como se Manuela Ferreira Leite te tivesse sussurrado o texto ao ouvido.

8. Nunca escrevas uma palavra que acabaste de aprender, mas podes fazê-lo se entretanto vires alguém a usá-la.

9. Não tenhas remorsos por usar um dicionário de sinónimos, se a mesa estava mesmo assim tão manca.

10. A gramática nunca deve impedir-te de escrever, só de dar a ler.

11 [com AF]. Faz por te salvares, se tens a sensação de que há uma forte probabilidade de estares refém dos seguintes verbos: "fazer", "ter", "haver" e "estar".

12. A principal dificuldade de uma frase longa não é a pontuação, nem sequer a lógica das orações subordinadas, mas como evitar usar mais de um "que" entre dois pontos finais.

13. Polvilhar [ver comentário] o texto com o léxico das corporações obedece às regras da boa culinária; em regra, o do Direito salga e o da Medicina é adstringente.

14. Evita periodicamente os correctores ortográficos, pois não há melhor forma de aprender que passar vergonhas em público.

15. Assume sempre a inteira responsabilidade pelos erros ortográficos e nunca os equipares a gralhas.

16. Aponta num caderninho todas as palavras que desconheces.

17. Não percas o caderninho.

18. Evita fórmulas, como a piada da regra que se refere à regra anterior.

19. Deixa os tempos verbais para o fim, mas não te esqueças de os corrigir, pois o mais provável é estarem errados.

20. Resiste à insegurança de escrever os teus próprios neologismos em itálico.

21. Inventa um numerus clausus para os textos que tens a meio.

22. Evita psiquiatras e parceiros com ambições literárias.

23. Tudo o que se altera num ápice com um "find" e "replace" nunca definirá um estilo.

24. Não contornes as limitações gramaticais com expressões seguras mas que sabes não serem as ideais.

25. [com MV] As orações subordinadas tendem a insubordinar o leitor.

26. Não uses os parênteses e os travessões indiscriminadamente. Inventa um critério qualquer. Eu uso os parênteses para adicionar factos e os travessões para fazer um comentário, mas deves inventar o teu sistema. O que conta é a coerência, mesmo que decidas usar o travessão para tudo, excepto referências a um amor passado, que ficariam sempre entre parênteses, a lembrar um casulo.

27. Parafraseando Miguel Esteves Cardoso, as enumerações devem ser absolutamente sinceras. A honestidade não fica assegurada com o recurso a processos de escrita automática.

28. Um curso de solfejo e a prática de um instrumento são muito mais úteis do que um curso de escrita criativa. A Literatura é uma eterna adolescente rebelde, misteriosa e possivelmente estúpida, enquanto a Música é a sua irmã bem comportada, sem ponta de mistério, que vai de certeza entrar para Medicina. É esta chata que vale a pena estudar; a sua mana não dá uma boa sebenta, serve apenas para o convívio. Isto porque a Música simplificou muito melhor do que a Literatura as dimensões horizontal (melodia e ritmo) e vertical (harmonia), vivendo bem com a redução da sua transcendência a uma partitura e regras claras.

29. Nunca mintas a um revisor, por maior que seja o teu desejo de lhe dizer que ele não é apenas peça de uma complexa engrenagem assente no princípio da redundância.

30. A principal dificuldade da crónica não é o remate sonante, mas a sua justificação prévia.

31. A musa não deve ser mais do que uma lebre


via Ouriquense

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